e-waste
Lixo eletrônico: consumidores fazem toda diferença
Painel promovido pela USP e pelo Massachusetts Institute of Technology reuniu pesquisadores, especialistas em gestão ambiental e representantes da indústria da informática e apontou a educação e a responsabilidade compartilhada como imprescindíveis para a solução do problema
Por Manoella Oliveira
Planeta Sustentável - 23/01/2009
O Brasil não dispõe de uma legislação federal para o descarte correto de lixo eletrônico, por isso uma montanha imensurável de baterias de celular, televisões, computadores, pilhas, aparelhos de celular e outros eletrônicos obsoletos, cuja vida útil é cada vez menor, ronda a população, trazendo prejuízos para o meio ambiente e para a saúde pública.
O troca-troca não se dá apenas pelas deficiências do equipamento que surgem em função do tempo de uso, mas muitas vezes, por pura vaidade, ou seja, para que o consumidor possa exibir um aparelho com design mais moderno. E isso é, especialmente, verdade quando o produto em questão são os celulares. Em 2007, foram 21 milhões de vendas de uma mercadoria com tempo de uso médio de um ano e meio.
Os números alarmaram 14 estados do país que se esforçam para criar leis e concentrar ações. Enquanto os projetos estão em trâmite, os usuários devem se adiantar e se informar sobre o melhor manejo de sua sucata digital e a mídia deve divulgar os problemas advindos das circunstâncias mal resolvidas oriundas de um lixo de descarte mais complexo.
É isso que pensam os especialistas presentes no painel sobre o tema, promovido, no início desta semana, pelo CCE-USP - Centro de Computação Eletrônica da USP - em parceria com o MIT - Massachusetts Institute of Technology – representado por cinco pesquisadores: Adnan Shahid (Paquistão), Carlos Brovarone (Argentina), Frederic Giraut (França), Peter Klement (Alemanha) e Antoinne Machal Cajigas (Porto Rico).
Também participaram do evento a diretora do CCE-USP, professora Tereza Cristina Carvalho, o gerente do setor de Suporte Tecnológico da CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, Antonio de Castro Bruni, o responsável pela área ambiental da Itautec, João Carlos Redondo, e o gerente sênior de Assuntos Corporativos da Dell, Gleverton De Munno.
O QUE PODEMOS FAZER?
Segundo Bruni, a proporção entre o número de computadores domésticos e alocados em empresas é bastante próxima, por isso é grande o poder que os consumidores têm em mãos assim como é a responsabilidade. Corporações, normalmente, seguem alguns padrões, por isso os esforços devem ser mais intensos em relação à conscientização dos consumidores isolados.
Entregar as máquinas para os chamados “sucateiros” não costuma ser uma boa opção porque eles não dispõem da tecnologia necessária para reciclar 100% do material, o que é factível. Algumas vezes, não é do interesse desses trabalhadores reciclar tudo, já que nem todas as peças do computador tem valor de mercado atrativo como os metais preciosos encontrados em seu interior, como é o caso do vidro.
Ao doar para empresas também é preciso avaliar, visto que várias delas encontram limitações quanto ao que fazer com as placas, que é a parte mais complicada de reciclar. Muitas firmas as enviam para a Bélgica para receberem tratamento adequado devido a grande quantidade de metais incrustadas num espaço pequeno, embora já exista no país empresas que recuperem-na metal a metal. Uma possibilidade de negócios para reaproveitar parte dessa peça seria firmar parcerias com cimenteiras que têm interesse no silício proveniente das placas.
Em São Paulo, existem, hoje, 457 locais capacitados a receber lixo eletrônico licenciados pela CETESB e a ideia da Companhia é conseguir implantar a lógica reversa, que irá concentrar em apenas um local o descarte desses equipamentos que serão encaminhados à reciclagem adequada. A empresa ideal para mediar o processo seria a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
COMPUTADORES VERDES
Outra instrução, levantada pelo paquistanês Adnan Shahid, é a opção pelos computadores verdes. Como não existe um selo padrão nacional, o pesquisador aconselha que os consumidores procurem saber sobre qual a porcentagem reciclável do computador, se o fabricante se compromete a recolhê-lo e encaminhá-lo para a reciclagem, ao fim de sua vida útil, se ele economiza energia e se contém chumbo, entre outros critérios.
“Já existe solda sem chumbo, máquinas com maior eficiência energética, que oferecem menor risco para a saúde, com mais materiais recicláveis, placa-mãe de fácil manuseio e processo de reciclagem mais completos. Cabe ao consumidor a decisão de compra e isso pressiona os fabricantes”, afirmou. Para simplificar o trabalho, procurar pelo ISO 14001 de gestão ambiental e pelo ISO 9001 de qualidade também é uma boa opção.
Itautec e Dell são empresas que reciclam. A primeira verticalizou o processo: separa e destina para empresas homologadas e constatou que a valorização de um desktop vendido desmontado é de 140% em relação a ele desmontado. No caso do notebook, esse percentual sobe para 245%, mesmo assim o sistema não dá margem para a Itautec – e nem é esse o objetivo. “Os metais devem voltar para o ciclo produtivo da indústria”, afirmou Redondo.
Qualquer comprador da Dell pode requisitar à empresa que busque o computador antigo em casa e destine ao reuso e, posteriormente, ao descarte correto. E isso também vale para o Brasil. Em caso de computadores de outra marca, vale recorrer à Fundação Pensamento Digital que mobiliza empresas, voluntários e universidades.
A USP também recebe descarte de computadores da comunidade universitária e, gradualmente, irá atender à comunidade em geral.
As ONGs e os projetos de inclusão digital também se apresentam como opção para doações, desde que estejam em condições de serem direcionadas para o reuso. Outra preocupação é o descarte de tevês (cuja reciclagem é muito parecida com a de monitores de computador) que deve ser alto à medida que os modelos LCD e de plasma tenham preços mais acessíveis.
Outra boa solução é entregar as máquinas aos seus fabricantes, já que algumas empresas oferecem esse serviço. Por isso, foi consenso entre os presentes destacar que o mercado informal de máquinas passou de 73% em 2004 para 47% em 2007. “Isso é muito bom porque sabemos quem procurar para equacionar o problema”, disse Bruni.
Outro ponto positivo diz respeito aos cuidados com a saúde. Estima-se que sejam vendidas 1200 milhões de pilhas ao ano, das quais 800 milhões são certificadas, ou seja, contém 0,02 mg de mercúrio. Por outro lado, as falsificadas apresentam 80 mg de mercúrio. “Essas pilhas são pesadas, cancerígenas e, se estouram na pele, não adianta lavar”, explicou a diretora do CCE. Em mutirão organizado pela CETESB, no ano passado, que contou com a adesão de 350 municípios, foram recolhidas 18 mil quilos de pilhas em apenas um dia.
Leia também:
O consumidor pode mudar o sistema
O Brasil não dispõe de uma legislação federal para o descarte correto de lixo eletrônico, por isso uma montanha imensurável de baterias de celular, televisões, computadores, pilhas, aparelhos de celular e outros eletrônicos obsoletos, cuja vida útil é cada vez menor, ronda a população, trazendo prejuízos para o meio ambiente e para a saúde pública.
O troca-troca não se dá apenas pelas deficiências do equipamento que surgem em função do tempo de uso, mas muitas vezes, por pura vaidade, ou seja, para que o consumidor possa exibir um aparelho com design mais moderno. E isso é, especialmente, verdade quando o produto em questão são os celulares. Em 2007, foram 21 milhões de vendas de uma mercadoria com tempo de uso médio de um ano e meio.
Os números alarmaram 14 estados do país que se esforçam para criar leis e concentrar ações. Enquanto os projetos estão em trâmite, os usuários devem se adiantar e se informar sobre o melhor manejo de sua sucata digital e a mídia deve divulgar os problemas advindos das circunstâncias mal resolvidas oriundas de um lixo de descarte mais complexo.
É isso que pensam os especialistas presentes no painel sobre o tema, promovido, no início desta semana, pelo CCE-USP - Centro de Computação Eletrônica da USP - em parceria com o MIT - Massachusetts Institute of Technology – representado por cinco pesquisadores: Adnan Shahid (Paquistão), Carlos Brovarone (Argentina), Frederic Giraut (França), Peter Klement (Alemanha) e Antoinne Machal Cajigas (Porto Rico).
Também participaram do evento a diretora do CCE-USP, professora Tereza Cristina Carvalho, o gerente do setor de Suporte Tecnológico da CETESB - Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, Antonio de Castro Bruni, o responsável pela área ambiental da Itautec, João Carlos Redondo, e o gerente sênior de Assuntos Corporativos da Dell, Gleverton De Munno.
O QUE PODEMOS FAZER?
Segundo Bruni, a proporção entre o número de computadores domésticos e alocados em empresas é bastante próxima, por isso é grande o poder que os consumidores têm em mãos assim como é a responsabilidade. Corporações, normalmente, seguem alguns padrões, por isso os esforços devem ser mais intensos em relação à conscientização dos consumidores isolados.
Entregar as máquinas para os chamados “sucateiros” não costuma ser uma boa opção porque eles não dispõem da tecnologia necessária para reciclar 100% do material, o que é factível. Algumas vezes, não é do interesse desses trabalhadores reciclar tudo, já que nem todas as peças do computador tem valor de mercado atrativo como os metais preciosos encontrados em seu interior, como é o caso do vidro.
Ao doar para empresas também é preciso avaliar, visto que várias delas encontram limitações quanto ao que fazer com as placas, que é a parte mais complicada de reciclar. Muitas firmas as enviam para a Bélgica para receberem tratamento adequado devido a grande quantidade de metais incrustadas num espaço pequeno, embora já exista no país empresas que recuperem-na metal a metal. Uma possibilidade de negócios para reaproveitar parte dessa peça seria firmar parcerias com cimenteiras que têm interesse no silício proveniente das placas.
Em São Paulo, existem, hoje, 457 locais capacitados a receber lixo eletrônico licenciados pela CETESB e a ideia da Companhia é conseguir implantar a lógica reversa, que irá concentrar em apenas um local o descarte desses equipamentos que serão encaminhados à reciclagem adequada. A empresa ideal para mediar o processo seria a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos.
COMPUTADORES VERDES
Outra instrução, levantada pelo paquistanês Adnan Shahid, é a opção pelos computadores verdes. Como não existe um selo padrão nacional, o pesquisador aconselha que os consumidores procurem saber sobre qual a porcentagem reciclável do computador, se o fabricante se compromete a recolhê-lo e encaminhá-lo para a reciclagem, ao fim de sua vida útil, se ele economiza energia e se contém chumbo, entre outros critérios.
“Já existe solda sem chumbo, máquinas com maior eficiência energética, que oferecem menor risco para a saúde, com mais materiais recicláveis, placa-mãe de fácil manuseio e processo de reciclagem mais completos. Cabe ao consumidor a decisão de compra e isso pressiona os fabricantes”, afirmou. Para simplificar o trabalho, procurar pelo ISO 14001 de gestão ambiental e pelo ISO 9001 de qualidade também é uma boa opção.
Itautec e Dell são empresas que reciclam. A primeira verticalizou o processo: separa e destina para empresas homologadas e constatou que a valorização de um desktop vendido desmontado é de 140% em relação a ele desmontado. No caso do notebook, esse percentual sobe para 245%, mesmo assim o sistema não dá margem para a Itautec – e nem é esse o objetivo. “Os metais devem voltar para o ciclo produtivo da indústria”, afirmou Redondo.
Qualquer comprador da Dell pode requisitar à empresa que busque o computador antigo em casa e destine ao reuso e, posteriormente, ao descarte correto. E isso também vale para o Brasil. Em caso de computadores de outra marca, vale recorrer à Fundação Pensamento Digital que mobiliza empresas, voluntários e universidades.
A USP também recebe descarte de computadores da comunidade universitária e, gradualmente, irá atender à comunidade em geral.
As ONGs e os projetos de inclusão digital também se apresentam como opção para doações, desde que estejam em condições de serem direcionadas para o reuso. Outra preocupação é o descarte de tevês (cuja reciclagem é muito parecida com a de monitores de computador) que deve ser alto à medida que os modelos LCD e de plasma tenham preços mais acessíveis.
Outra boa solução é entregar as máquinas aos seus fabricantes, já que algumas empresas oferecem esse serviço. Por isso, foi consenso entre os presentes destacar que o mercado informal de máquinas passou de 73% em 2004 para 47% em 2007. “Isso é muito bom porque sabemos quem procurar para equacionar o problema”, disse Bruni.
Outro ponto positivo diz respeito aos cuidados com a saúde. Estima-se que sejam vendidas 1200 milhões de pilhas ao ano, das quais 800 milhões são certificadas, ou seja, contém 0,02 mg de mercúrio. Por outro lado, as falsificadas apresentam 80 mg de mercúrio. “Essas pilhas são pesadas, cancerígenas e, se estouram na pele, não adianta lavar”, explicou a diretora do CCE. Em mutirão organizado pela CETESB, no ano passado, que contou com a adesão de 350 municípios, foram recolhidas 18 mil quilos de pilhas em apenas um dia.
Leia também:
O consumidor pode mudar o sistema