a arte de reciclar
Eles transformam o lixo em design
Conheça sete paulistas de artes, design, fotografia e arquitetura dispostos a pinçar sobras de materiais descartáveis e restos com potencial para se transformar em objetos de decoração
Por Denise Gustavsen
Revista Casa Claudia - 10/2008
Você já parou para olhar seu lixo? Reunimos sete paulistas bambambãs de artes, design, fotografia e arquitetura dispostos a pinçar sobras de materiais descartáveis e restos com potencial para se transformar em objetos de decoração. Em prol de uma cidade mais limpa, esta turma iluminada foi tomada por idéias geniais e inventou peças sustentáveis capazes de enfeitiçar o olhar. Algumas cheias de detalhes e frufrus, outras mais singelas, mas todas com bossa.
| [img1] | LUXO DE RAIZ Apaixonada pelas formas da natureza, Isabelle Tuschband (tel. 11/3887-2720) não pensou duas vezes quando encontrou o pedaço de tronco largado em uma calçada perto de sua casa. Arrastou o pedaço de árvore portão adentro e logo imaginou uma utilidade gloriosa para ele. Chique e criativa, viu ali um mancebo à altura de suas bolsas Chanel e Louis Vuitton. Note como as linhas orgânicas trazem um pouco de natureza para o cenário, pontuado por uma tela da própria artista. “Meu único trabalho foi limpar o tronco com água”, conta. |
“O segredo é respeitar o traço da natureza, que é lindo.”
Isabelle Tuschband, artista plástica
| [img2] | PEÇA ÚNICA Sempre atrás de propostas inovadoras, Caio e Daniela (tel. 11/ 3032-0679) tiraram partido deste mancebo feito com sobras de carroceria de caminhão. Na última hora, resgataram a criação, que já fez sucesso inclusive na Maison & Objet, em Paris, para exprimir seu trabalho de valorização do artesanato. Encontrado num lixo qualquer, o pedaço de madeira teve os pregos arrancados, foi encerado e ganhou um pedacinho de espelho e um gancho de alumínio. “Pequenas interferências garantiram delicadeza à peça”, diz Daniela. |
“É legal criar um terceiro objeto de outro já usado.”
Caio de Medeiros e Daniela Scorza, designers do Estúdio Manus | [img3] | FORÇA PLÁSTICA Empenhada em criar luminárias maravilhosas, Simone Figueiredo (tel. 11/3081-9565) cumpriu o papel à risca. Ela deu asas à imaginação e, no dia da foto, apareceu com modelos lindos feitos com latas de azeite e leite condensado. O eleito foi o abajur com base formada por duas latinhas de fermento revestidas de espelho e intercaladas por mimos de vidro. Para valorizar a peça, Simone escolheu uma cúpula de xantungue de seda. “Eu me diverti muito selecionando as latas, imaginando os revestimentos, pensando nos detalhes”, revela. |
“O desafio mudou meu olhar sobre o que jogo fora.”
Simone Figueiredo, designer
| [img4] | TOQUE MACIO Quando foi convidada para transformar lixo em décor, Baba Vacaro (tel. 11/3022-6823) pensou, torceu o nariz, pensou mais um pouco e teve um clique. Resultado desse estalo criativo, o tapete feito com 18 kg de sobras de não-tecido à base de poliéster usado em fundo de tapetes convencionais da Avanti é simplesmente um luxo. Como a trama foi elaborada em tear manual, além de lindo e confortável, é um produto totalmente sustentável. “Fiquei feliz de criar algo de alto padrão e sem nenhum impacto ambiental”, comemora. |
“Se passar nos testes, o tapete poderá ser comercializado.”
Baba Vacaro, designer | [img5] | OUSADIA PURA Com um quê de professor Pardal nas veias, Carlos Verna (tel. 11/3871-4441) inventa novos usos para as coisas. Dessa vez, lançou mão de um móvel velho improvisado por um marceneiro para organizar parafusos. “Foi amor à primeira vista”, confessa. Levou a peça para casa já imaginando transformá-lo em um aparador. Ainda não tinha resolvido a base de sustentação, quando um amigo lhe falou de corpos de prova de concreteira que tinha achado na rua. Pronto, o aparador ganhou pés de concreto. O resultado? Beleza e personalidade. |
“É preciso ver beleza onde o tempo pinta sua história.”
Carlos Verna, arquiteto
| [img6] | LUZ INSPIRADA As sobras de cromos de fotos de vitrais do Brasil inteiro tinham um endereço bem provável na limpeza do estúdio de Ari Diesendruck (tel. 11/3814-4644): a lata do lixo. Convidado pela revista Casa Claudia para criar algo com material descartável, foi atrás das imagens e bolou uma luminosa cúpula de abajur. Comprou uma peça velha num brechó e colou sobre ela 64 imagens de lugares como a Igreja São Pedro, de Brasília, e a Catedral do Rio Grande do Sul. “Gastei apenas 74 reais com o pé de madeira, a instalação elétrica e a cúpula”, revela. |
“Fiquei satisfeito com meu trabalho. Achei bonito.”
Ari Diesendruck, fotógrafo
| [img7] | EFEITO ESPECIAL Tomado por um espírito à la Lavoisier, Sérgio De Divittis (tel. 11/3571-2023) não joga nada fora e costuma transformar velharias em objetos graciosos. “Gosto de catar até em caçambas”, afirma. “Depois é só deixar uma semana no sol para tirar a energia ruim.” Foi assim com as cadeiras de fórmica já feiosas encostadas havia um ano em seu ateliê. Mandou imprimir nelas versões fragmentadas de uma bela foto que tinha feito de um antigo Chevrolet. Agora as duas compõem um cantinho muito especial. |
“Dar cara nova às coisas velhas me dá um imenso prazer.”
Sérgio De Divittis, fotógrafo | [img8] | BOM GOSTO Pendurada no alto da parede do jardim, a cabeceira de cama de ferro enche os olhos. Herança de uma tia do interior, ficou tempos esquecida até Nesa Cesar (tel. 11/3571-2023) descobrir sua vocação, nesse caso mais do que natural, para acolher vasinhos de flores no jardim. “Gosto de inverter o uso natural das peças”, diz. Depois de ter a idéia, a decoradora apenas bolou alguns ganchos de arame para agarrar os vasos e suspender na formosa estrutura. Em meio ao verde, ela preenche o vazio da parede com muita delicadeza. |
“Peças carregadas de história podem enriquecer a casa.”
Nesa Cesar, decoradora DESPERDÍCIO Das 15 mil toneladas de lixo produzidas diariamente em São Paulo, 1,9 mil poderia ser reciclada. Mas a prefeitura recolhe apenas 6% desse total, entregue a 15 cooperativas conveniadas. O resto vai parar nos aterros sanitários. Quantas luminárias, tapetes, mancebos e móveis poderiam surgir dos 94% que viram lixo?
SOS TERRA
Uma lata leva até 100 anos para se decompor; o vidro, milhares de anos; o plástico, 450 longos anos; um fio de náilon, mais de 30 anos; um pedaço de madeira, cerca de 13 anos; um simples palito de fósforo necessita de seis meses até sumir completamente. Os aterros sanitários e lixões estão transbordando e o planeta pede socorro. Pense nisso!
SALVE O PLANETA
Estes materiais não podem ser reciclados e levam milhares de anos para se decompor. Antes de jogar fora, tente descobrir outra função para restos de vidros pirex, acrílico, lâmpadas fluorescentes, papéis plastificados ou metalizados, fotografias, pilhas e fitas. Será que, antes de esse lixo ser enterrado em algum lugar, não poderia virar uma peça divertida?
Você já parou para olhar seu lixo? Reunimos sete paulistas bambambãs de artes, design, fotografia e arquitetura dispostos a pinçar sobras de materiais descartáveis e restos com potencial para se transformar em objetos de decoração. Em prol de uma cidade mais limpa, esta turma iluminada foi tomada por idéias geniais e inventou peças sustentáveis capazes de enfeitiçar o olhar. Algumas cheias de detalhes e frufrus, outras mais singelas, mas todas com bossa.
| [img1] | LUXO DE RAIZ Apaixonada pelas formas da natureza, Isabelle Tuschband (tel. 11/3887-2720) não pensou duas vezes quando encontrou o pedaço de tronco largado em uma calçada perto de sua casa. Arrastou o pedaço de árvore portão adentro e logo imaginou uma utilidade gloriosa para ele. Chique e criativa, viu ali um mancebo à altura de suas bolsas Chanel e Louis Vuitton. Note como as linhas orgânicas trazem um pouco de natureza para o cenário, pontuado por uma tela da própria artista. “Meu único trabalho foi limpar o tronco com água”, conta. |
“O segredo é respeitar o traço da natureza, que é lindo.”
Isabelle Tuschband, artista plástica
| [img2] | PEÇA ÚNICA Sempre atrás de propostas inovadoras, Caio e Daniela (tel. 11/ 3032-0679) tiraram partido deste mancebo feito com sobras de carroceria de caminhão. Na última hora, resgataram a criação, que já fez sucesso inclusive na Maison & Objet, em Paris, para exprimir seu trabalho de valorização do artesanato. Encontrado num lixo qualquer, o pedaço de madeira teve os pregos arrancados, foi encerado e ganhou um pedacinho de espelho e um gancho de alumínio. “Pequenas interferências garantiram delicadeza à peça”, diz Daniela. |
“É legal criar um terceiro objeto de outro já usado.”
Caio de Medeiros e Daniela Scorza, designers do Estúdio Manus | [img3] | FORÇA PLÁSTICA Empenhada em criar luminárias maravilhosas, Simone Figueiredo (tel. 11/3081-9565) cumpriu o papel à risca. Ela deu asas à imaginação e, no dia da foto, apareceu com modelos lindos feitos com latas de azeite e leite condensado. O eleito foi o abajur com base formada por duas latinhas de fermento revestidas de espelho e intercaladas por mimos de vidro. Para valorizar a peça, Simone escolheu uma cúpula de xantungue de seda. “Eu me diverti muito selecionando as latas, imaginando os revestimentos, pensando nos detalhes”, revela. |
“O desafio mudou meu olhar sobre o que jogo fora.”
Simone Figueiredo, designer
| [img4] | TOQUE MACIO Quando foi convidada para transformar lixo em décor, Baba Vacaro (tel. 11/3022-6823) pensou, torceu o nariz, pensou mais um pouco e teve um clique. Resultado desse estalo criativo, o tapete feito com 18 kg de sobras de não-tecido à base de poliéster usado em fundo de tapetes convencionais da Avanti é simplesmente um luxo. Como a trama foi elaborada em tear manual, além de lindo e confortável, é um produto totalmente sustentável. “Fiquei feliz de criar algo de alto padrão e sem nenhum impacto ambiental”, comemora. |
“Se passar nos testes, o tapete poderá ser comercializado.”
Baba Vacaro, designer | [img5] | OUSADIA PURA Com um quê de professor Pardal nas veias, Carlos Verna (tel. 11/3871-4441) inventa novos usos para as coisas. Dessa vez, lançou mão de um móvel velho improvisado por um marceneiro para organizar parafusos. “Foi amor à primeira vista”, confessa. Levou a peça para casa já imaginando transformá-lo em um aparador. Ainda não tinha resolvido a base de sustentação, quando um amigo lhe falou de corpos de prova de concreteira que tinha achado na rua. Pronto, o aparador ganhou pés de concreto. O resultado? Beleza e personalidade. |
“É preciso ver beleza onde o tempo pinta sua história.”
Carlos Verna, arquiteto
| [img6] | LUZ INSPIRADA As sobras de cromos de fotos de vitrais do Brasil inteiro tinham um endereço bem provável na limpeza do estúdio de Ari Diesendruck (tel. 11/3814-4644): a lata do lixo. Convidado pela revista Casa Claudia para criar algo com material descartável, foi atrás das imagens e bolou uma luminosa cúpula de abajur. Comprou uma peça velha num brechó e colou sobre ela 64 imagens de lugares como a Igreja São Pedro, de Brasília, e a Catedral do Rio Grande do Sul. “Gastei apenas 74 reais com o pé de madeira, a instalação elétrica e a cúpula”, revela. |
“Fiquei satisfeito com meu trabalho. Achei bonito.”
Ari Diesendruck, fotógrafo
| [img7] | EFEITO ESPECIAL Tomado por um espírito à la Lavoisier, Sérgio De Divittis (tel. 11/3571-2023) não joga nada fora e costuma transformar velharias em objetos graciosos. “Gosto de catar até em caçambas”, afirma. “Depois é só deixar uma semana no sol para tirar a energia ruim.” Foi assim com as cadeiras de fórmica já feiosas encostadas havia um ano em seu ateliê. Mandou imprimir nelas versões fragmentadas de uma bela foto que tinha feito de um antigo Chevrolet. Agora as duas compõem um cantinho muito especial. |
“Dar cara nova às coisas velhas me dá um imenso prazer.”
Sérgio De Divittis, fotógrafo | [img8] | BOM GOSTO Pendurada no alto da parede do jardim, a cabeceira de cama de ferro enche os olhos. Herança de uma tia do interior, ficou tempos esquecida até Nesa Cesar (tel. 11/3571-2023) descobrir sua vocação, nesse caso mais do que natural, para acolher vasinhos de flores no jardim. “Gosto de inverter o uso natural das peças”, diz. Depois de ter a idéia, a decoradora apenas bolou alguns ganchos de arame para agarrar os vasos e suspender na formosa estrutura. Em meio ao verde, ela preenche o vazio da parede com muita delicadeza. |
“Peças carregadas de história podem enriquecer a casa.”
Nesa Cesar, decoradora DESPERDÍCIO Das 15 mil toneladas de lixo produzidas diariamente em São Paulo, 1,9 mil poderia ser reciclada. Mas a prefeitura recolhe apenas 6% desse total, entregue a 15 cooperativas conveniadas. O resto vai parar nos aterros sanitários. Quantas luminárias, tapetes, mancebos e móveis poderiam surgir dos 94% que viram lixo?
SOS TERRA
Uma lata leva até 100 anos para se decompor; o vidro, milhares de anos; o plástico, 450 longos anos; um fio de náilon, mais de 30 anos; um pedaço de madeira, cerca de 13 anos; um simples palito de fósforo necessita de seis meses até sumir completamente. Os aterros sanitários e lixões estão transbordando e o planeta pede socorro. Pense nisso!
SALVE O PLANETA
Estes materiais não podem ser reciclados e levam milhares de anos para se decompor. Antes de jogar fora, tente descobrir outra função para restos de vidros pirex, acrílico, lâmpadas fluorescentes, papéis plastificados ou metalizados, fotografias, pilhas e fitas. Será que, antes de esse lixo ser enterrado em algum lugar, não poderia virar uma peça divertida?