
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 13/05/2008
[img1]Em 2006, foi realizado o primeiro Global Forum, em Cleveland (Ohio, EUA). Na ocasião, acadêmicos e empresários de 40 países se reuniram para dialogar, trocar experiências e encontrar maneiras de aumentar a colaboração e a interação entre universidades e empresas na construção de um desenvolvimento mais sustentável.
Uma das ações sugeridas durante o evento foi a realização de encontros regionais para dar continuidade às discussões. Foi assim que Rodrigo Loures, presidente da FIEP - Federação das Indústrias do Estado do Paraná, se ofereceu para organizar a edição latino-americana do fórum, com sede no Brasil, concorrendo com outros países como China e Índia, que também se propuseram a abrigar o evento. O Global Compact decidiu apoiar esse primeiro encontro latino-americano - que acontece de 18 a 20 de junho, em Curitiba - a título de experiência, visando a construção de um modelo que oriente a realização de novos eventos.
Em entrevista ao Planeta Sustentável, Rodrigo Loures contou como será a dinâmica do Global Forum América Latina para facilitar a troca de idéias e a construção de conhecimento. Ele ainda ressaltou a urgência de se repensar os métodos de ensino das universidades e escolas de negócios, que considera incompatíveis com as novas exigências de sustentabilidade colocadas ao mercado. Para Rodrigo, sustentabilidade é uma questão de atitude e de cultura, mas, também, tem uma dimensão técnica que não pode ser deixada de lado.
Planeta Sustentável: De que forma podemos considerar a educação como o centro para o desenvolvimento sustentável?
Rodrigo Loures: Os egressos das escolas sofrem o impacto do tipo de educação que lhes é dado. Na reunião do Global Compact de 2004, uma das questões identificadas foi a de que precisamos de executivos que sejam gestores de novas competências, diferentes dos que têm vindo das escolas para o mercado de trabalho.
Qual a importância de se repensar esse papel das universidades atualmente?
As universidades refletem processos e métodos de ensino que foram construídos no passado, quando tudo era muito voltado para a especialidade. Os formandos saem da graduação e da especialização e vão para o mundo dos negócios sem que estejam preparados para pensar no impacto sistêmico que suas decisões podem ter. Eles são muito orientados para produzir resultados específicos para a empresa, sem considerar a que custo social, ambiental e político isso será alcançado.
Que ajustes seriam necessários para que as universidades formassem profissionais mais compatíveis com as novas demandas do mercado?
É justamente isso o que será debatido durante o fórum. Não há respostas prontas, esse conhecimento terá de ser construído a partir da conversação entre os dois atores-chave - acadêmicos e empresários -, mas também entre sociedade, representantes de ONGs e do setor público, já que o pressuposto da sustentabilidade é que as decisões estratégicas sejam formuladas com a presença de todas as partes interessadas.
De todo modo, dada a complexidade dos negócios na atualidade e a natureza dos problemas que têm de ser resolvidos no plano ambiental e social, as empresas não podem mais desconhecer o impacto que geram nessas dimensões. Por conseguinte, as universidades em geral e, em especial, as de Administração precisam rever as atividades de ensino, os currículos e os conteúdos. Acima de tudo, é preciso que seja adquirida uma cultura que permeie as atividades das universidades, as atitudes dos professores e o modelo mental dos formandos.
Que cultura seria essa?
Nos últimos anos, as carreiras que despertaram o interesse da maioria dos alunos de MBA e Administração foram da área financeira. No período anterior, o destaque era para o Marketing. Sempre ocorrem esses períodos onde há mais ênfase em determinada área e os jovens são estimulados a desenvolver competências para produzir resultados específicos para ela. O sucesso é medido por ali. Essa visão do que se entende por sucesso e por progresso é que precisa ser redefinida, uma vez que questões de ordem social, ambiental e política também não podem ser ignoradas pelas universidades que impactam na formação desses dirigentes.
Então, a ênfase na revisão das escolas de Administração e negócios é por conta da formação desses dirigentes?
Exatamente. Hoje, há perto de 500 mil cursos de MBA no mundo - só na China são 30 mil - e esse número cresce 7% ao ano, isso sem falar em graduação. Os estudantes dos cursos de Administração e correlatos representam mais de 20% do total de universitários no Brasil e nos Estados Unidos. Quem ocupa funções de chefia e liderança têm formação nesses cursos ou acabam fazendo-os depois. O que se ensina nas escolas de Administração está diretamente relacionado à maneira como as empresas são tocadas: com que espírito, valores, propósitos e métodos.
Esse caminho de discussão não aconteceu por acaso. Em 2004, 500 líderes empresariais estiveram presentes em uma reunião da ONU, em Nova York, para construir um plano diretor estratégico que nortearia as empresas na implementação dos 10 princípios do Global Compact. Entre as ações aprovadas, estava a construção de um programa permanente que promovesse a revisão do ensino superior de Administração.
Há a intenção de que essa mudança de cultura nas universidades se amplie para outros cursos?
A idéia é que se desenvolva um programa permanente de suporte e de monitoramento para verificar como esse tema da sustentabilidade está sendo tratado e desenvolvido nas universidades em geral. É importante destacar que a universidade - como um todo - tem de estar presente nesse processo. Muitas escolas de Administração estão dentro das universidades, juntamente com cursos correlatos como Economia, Contabilidade, Direito, Engenharia, que formam profissionais com quem os gestores vão trabalhar no futuro.
Por isso, o Global Forum América Latina resolveu ampliar o escopo, envolvendo a universidade como um todo. Até porque, hoje, egressos de diversos cursos têm ocupado funções gerenciais.
O senhor percebe que ainda existe preconceito na interação entre universidades e empresas?
Existe preconceito dos dois lados, mas isso é superável e não chega a ser um obstáculo para o entendimento entre eles. O formato desse encontro favorece a conversação positiva e produtiva entre empresários e acadêmicos.
Essa proximidade entre os dois lados já está sendo inserida no currículo dos cursos?
Sim. Existem escolas de Administração que já oferecem cursos para a área da sustentabilidade. O desafio é fazer com que esses cursos ampliem sua influência e deixem de ser uma especialidade dentro do currículo e se transformem em uma referência em todas as disciplinas.
Que medidas serão tomadas para que as idéias discutidas durante o fórum tenham continuidade nas escolas e universidades?
A EAESP - Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV - Fundação Getúlio Vargas está encarregada de coordenar a parte científica do Fórum, que também conta com a presença da ANPAD - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, da ANGRAD - Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração, do Centro Latino Americano de Administração para o Desenvolvimento. Essas instituições devem dizer, a partir do que for construído durante o fórum, como será a arquitetura para se dar continuidade ao processo. De todo modo, as escolas precisam identificar a necessidade de mudança e se convencer disso para mudar de dentro para fora. Desenvolvimento é feito de maneira endógena.
Como o senhor avalia as parcerias que estão sendo estabelecidas para o evento?
As parcerias estão se formando com muita facilidade. Vejo que há um objetivo comum entre os parceiros e não pode deixar de ser diferente. Esse é um tema que tem força para aglutinar a todos: empresários, universitários, mídia... É assunto de interesse comum, como segurança, qualidade da água ou do ar, por exemplo.
Durante o fórum, serão apresentados cases de experiências do Wal-Mart, do Planeta Sustentável e do Bilbao Biscaia. Qual a importância deles para a programação?
São setores de grande impacto e que podem facilitar o encaminhamento das discussões. O Wal-Mart representa a área de comércio. Quando se cria uma cultura na instituição comercial, com novos métodos e atitudes, há um impacto em toda a cadeia de fornecimento. O banco Bilbao Biscaia vai mostrar o impacto da cultura da sustentabilidade em uma instituição financeira.
No Planeta Sustentável, vejo um bom exemplo de como organizar um programa permanente voltado para a sustentabilidade e que funciona como um catalisador para que as inúmeras revistas e veículos de comunicação da Editora Abril tenham esse entendimento e essa cultura. Trata-se de uma empresa que trabalha com uma mídia abrangente, com revistas que cobrem praticamente todos os públicos. E a sustentabilidade tem de estar presente para todos os públicos, ainda que respeitando as peculiaridades quanto ao raciocínio para se chegar a isso em cada caso. Sustentabilidade tem tudo a ver com vida e quem colabora para cultivar ou dificultar a vida são as próprias pessoas, influenciadas pelo que aprendem nas escolas e pelo que sai na mídia.
No encontro de Cleveland, em 2006, já se tinha conhecimento de empresas que tinham bons exemplos de sustentabilidade a compartilhar, por fazerem parte do BAWB - Business as an Agent of Word Benefit. No Brasil, essas empresas já foram identificadas?
No Brasil, já houve cinco conferências do BAWB, sendo três em Curitiba, uma em Fortaleza e uma em Vitória. Esse ano ainda vai acontecer outra em Manaus. A CNI - Confederação Nacional da Indústria e o SESI - Serviço Social da Indústria patrocinam esses encontros no Brasil.
Então, já temos algumas dezenas de empresas que participam desse programa e temos o prêmio do SESI de qualidade no trabalho - que é uma versão socioambiental dos programas de qualidade total. Só no ano passado, 2.500 indústrias foram identificadas como tendo um bom procedimento de gestão, coerente com esses princípios. Esse é um processo em curso que tende a crescer e é deste universo que vêm empresários e executivos para participar do fórum. É gente que tem o que falar, mostrar e compartilhar.
Esses exemplos de negócios lucrativos e com impacto socioambiental positivo podem servir de campo de estudo para a academia, que identifica fenômenos e os transforma em teorias, propondo novos métodos que concorram para sustentabilidade.
Qual é a expectativa para o final do evento?
Vamos desenvolver um plano de ação. No último dia será realizada uma "call for action", uma convocação para ação. Com a metodologia que adotaremos - vamos trabalhar com mesas redondas, em uma verdadeira oficina -, trataremos da construção de uma visão de futuro, pensando em recomendações para ações estratégicas em torno de temas que são relevantes para a sustentabilidade como tecnologias limpas, ecoeficiência, ações sociais, relacionamento das empresas com seus diversos públicos... A partir disso, vamos chegar a um consenso em torno de diretrizes e visões.
O que será feito para que as visões se transformem em políticas públicas?
O encontro vai contar com a presença de representantes públicos, além da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e do Conselho Federal de Educação. Certamente vão surgir recomendações para esses órgãos e as lideranças devem formar convencimentos, convicções próprias quanto a seus papéis de facilitar para que as mudanças necessárias aconteçam.
De que maneira as idéias pensadas durante o fórum se tornarão de conhecimento público?
O fórum vai contar com a presença de 600 a 800 participantes, que é um número bastante expressivo, com público de todo o Brasil e representantes latino-americanos. Pelo tamanho da audiência e pela representatividade, o que for construído no Global Forum tem muita legitimidade e vai servir como norte para que os objetivos sejam adotados de forma mais local, em nossas cidades, nas escolas de Administração, nas salas de aula.
Também contamos com o papel da mídia para disseminar as informações. Estamos convidando jornalistas e profissionais da área de Comunicação para participar do processo e fazer a ponte entre o programa e a opinião pública.
Ainda será possível ter livre acesso ao resultado dos trabalhos desenvolvidos durante o fórum por meio do site do evento. E será criado um bureau com informações e que prestará apoio às organizações de forma a manter o movimento vivo.
Há planos para que o encontro aconteça novamente?
O Global Forum não é um evento pelo evento, mas faz parte de um processo. No ano que vem, haverá uma nova edição mundial, em Cleveland. Os subsídios colhidos este ano, no fórum latino-americano, vão contribuir para os trabalhos do mundial.
Aqui, podemos realizar um Global Forum Brasil, depois um São Paulo... Os eventos vão se tornando mais locais, o que é muito saudável. Até que cheguemos ao ponto - e isso não deve demorar a acontecer- de que isso seja feito em uma universidade, para identificar peculiaridades.
Estamos em um estágio no qual é necessário construir uma visão global, de conjunto. Mas para que ela seja implementada, certamente, é preciso que aconteçam ações em planos mais específicos e que mantenham objetivos e princípios comuns.
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 13/05/2008
Uma das ações sugeridas durante o evento foi a realização de encontros regionais para dar continuidade às discussões. Foi assim que Rodrigo Loures, presidente da FIEP - Federação das Indústrias do Estado do Paraná, se ofereceu para organizar a edição latino-americana do fórum, com sede no Brasil, concorrendo com outros países como China e Índia, que também se propuseram a abrigar o evento. O Global Compact decidiu apoiar esse primeiro encontro latino-americano - que acontece de 18 a 20 de junho, em Curitiba - a título de experiência, visando a construção de um modelo que oriente a realização de novos eventos.
Em entrevista ao Planeta Sustentável, Rodrigo Loures contou como será a dinâmica do Global Forum América Latina para facilitar a troca de idéias e a construção de conhecimento. Ele ainda ressaltou a urgência de se repensar os métodos de ensino das universidades e escolas de negócios, que considera incompatíveis com as novas exigências de sustentabilidade colocadas ao mercado. Para Rodrigo, sustentabilidade é uma questão de atitude e de cultura, mas, também, tem uma dimensão técnica que não pode ser deixada de lado.
Planeta Sustentável: De que forma podemos considerar a educação como o centro para o desenvolvimento sustentável?
Rodrigo Loures: Os egressos das escolas sofrem o impacto do tipo de educação que lhes é dado. Na reunião do Global Compact de 2004, uma das questões identificadas foi a de que precisamos de executivos que sejam gestores de novas competências, diferentes dos que têm vindo das escolas para o mercado de trabalho.
Qual a importância de se repensar esse papel das universidades atualmente?
As universidades refletem processos e métodos de ensino que foram construídos no passado, quando tudo era muito voltado para a especialidade. Os formandos saem da graduação e da especialização e vão para o mundo dos negócios sem que estejam preparados para pensar no impacto sistêmico que suas decisões podem ter. Eles são muito orientados para produzir resultados específicos para a empresa, sem considerar a que custo social, ambiental e político isso será alcançado.
Que ajustes seriam necessários para que as universidades formassem profissionais mais compatíveis com as novas demandas do mercado?
É justamente isso o que será debatido durante o fórum. Não há respostas prontas, esse conhecimento terá de ser construído a partir da conversação entre os dois atores-chave - acadêmicos e empresários -, mas também entre sociedade, representantes de ONGs e do setor público, já que o pressuposto da sustentabilidade é que as decisões estratégicas sejam formuladas com a presença de todas as partes interessadas.
De todo modo, dada a complexidade dos negócios na atualidade e a natureza dos problemas que têm de ser resolvidos no plano ambiental e social, as empresas não podem mais desconhecer o impacto que geram nessas dimensões. Por conseguinte, as universidades em geral e, em especial, as de Administração precisam rever as atividades de ensino, os currículos e os conteúdos. Acima de tudo, é preciso que seja adquirida uma cultura que permeie as atividades das universidades, as atitudes dos professores e o modelo mental dos formandos.
Que cultura seria essa?
Nos últimos anos, as carreiras que despertaram o interesse da maioria dos alunos de MBA e Administração foram da área financeira. No período anterior, o destaque era para o Marketing. Sempre ocorrem esses períodos onde há mais ênfase em determinada área e os jovens são estimulados a desenvolver competências para produzir resultados específicos para ela. O sucesso é medido por ali. Essa visão do que se entende por sucesso e por progresso é que precisa ser redefinida, uma vez que questões de ordem social, ambiental e política também não podem ser ignoradas pelas universidades que impactam na formação desses dirigentes.
Então, a ênfase na revisão das escolas de Administração e negócios é por conta da formação desses dirigentes?
Exatamente. Hoje, há perto de 500 mil cursos de MBA no mundo - só na China são 30 mil - e esse número cresce 7% ao ano, isso sem falar em graduação. Os estudantes dos cursos de Administração e correlatos representam mais de 20% do total de universitários no Brasil e nos Estados Unidos. Quem ocupa funções de chefia e liderança têm formação nesses cursos ou acabam fazendo-os depois. O que se ensina nas escolas de Administração está diretamente relacionado à maneira como as empresas são tocadas: com que espírito, valores, propósitos e métodos.
Esse caminho de discussão não aconteceu por acaso. Em 2004, 500 líderes empresariais estiveram presentes em uma reunião da ONU, em Nova York, para construir um plano diretor estratégico que nortearia as empresas na implementação dos 10 princípios do Global Compact. Entre as ações aprovadas, estava a construção de um programa permanente que promovesse a revisão do ensino superior de Administração.
Há a intenção de que essa mudança de cultura nas universidades se amplie para outros cursos?
A idéia é que se desenvolva um programa permanente de suporte e de monitoramento para verificar como esse tema da sustentabilidade está sendo tratado e desenvolvido nas universidades em geral. É importante destacar que a universidade - como um todo - tem de estar presente nesse processo. Muitas escolas de Administração estão dentro das universidades, juntamente com cursos correlatos como Economia, Contabilidade, Direito, Engenharia, que formam profissionais com quem os gestores vão trabalhar no futuro.
Por isso, o Global Forum América Latina resolveu ampliar o escopo, envolvendo a universidade como um todo. Até porque, hoje, egressos de diversos cursos têm ocupado funções gerenciais.
O senhor percebe que ainda existe preconceito na interação entre universidades e empresas?
Existe preconceito dos dois lados, mas isso é superável e não chega a ser um obstáculo para o entendimento entre eles. O formato desse encontro favorece a conversação positiva e produtiva entre empresários e acadêmicos.
Essa proximidade entre os dois lados já está sendo inserida no currículo dos cursos?
Sim. Existem escolas de Administração que já oferecem cursos para a área da sustentabilidade. O desafio é fazer com que esses cursos ampliem sua influência e deixem de ser uma especialidade dentro do currículo e se transformem em uma referência em todas as disciplinas.
Que medidas serão tomadas para que as idéias discutidas durante o fórum tenham continuidade nas escolas e universidades?
A EAESP - Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da FGV - Fundação Getúlio Vargas está encarregada de coordenar a parte científica do Fórum, que também conta com a presença da ANPAD - Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração, da ANGRAD - Associação Nacional dos Cursos de Graduação em Administração, do Centro Latino Americano de Administração para o Desenvolvimento. Essas instituições devem dizer, a partir do que for construído durante o fórum, como será a arquitetura para se dar continuidade ao processo. De todo modo, as escolas precisam identificar a necessidade de mudança e se convencer disso para mudar de dentro para fora. Desenvolvimento é feito de maneira endógena.
Como o senhor avalia as parcerias que estão sendo estabelecidas para o evento?
As parcerias estão se formando com muita facilidade. Vejo que há um objetivo comum entre os parceiros e não pode deixar de ser diferente. Esse é um tema que tem força para aglutinar a todos: empresários, universitários, mídia... É assunto de interesse comum, como segurança, qualidade da água ou do ar, por exemplo.
Durante o fórum, serão apresentados cases de experiências do Wal-Mart, do Planeta Sustentável e do Bilbao Biscaia. Qual a importância deles para a programação?
São setores de grande impacto e que podem facilitar o encaminhamento das discussões. O Wal-Mart representa a área de comércio. Quando se cria uma cultura na instituição comercial, com novos métodos e atitudes, há um impacto em toda a cadeia de fornecimento. O banco Bilbao Biscaia vai mostrar o impacto da cultura da sustentabilidade em uma instituição financeira.
No Planeta Sustentável, vejo um bom exemplo de como organizar um programa permanente voltado para a sustentabilidade e que funciona como um catalisador para que as inúmeras revistas e veículos de comunicação da Editora Abril tenham esse entendimento e essa cultura. Trata-se de uma empresa que trabalha com uma mídia abrangente, com revistas que cobrem praticamente todos os públicos. E a sustentabilidade tem de estar presente para todos os públicos, ainda que respeitando as peculiaridades quanto ao raciocínio para se chegar a isso em cada caso. Sustentabilidade tem tudo a ver com vida e quem colabora para cultivar ou dificultar a vida são as próprias pessoas, influenciadas pelo que aprendem nas escolas e pelo que sai na mídia.
No encontro de Cleveland, em 2006, já se tinha conhecimento de empresas que tinham bons exemplos de sustentabilidade a compartilhar, por fazerem parte do BAWB - Business as an Agent of Word Benefit. No Brasil, essas empresas já foram identificadas?
No Brasil, já houve cinco conferências do BAWB, sendo três em Curitiba, uma em Fortaleza e uma em Vitória. Esse ano ainda vai acontecer outra em Manaus. A CNI - Confederação Nacional da Indústria e o SESI - Serviço Social da Indústria patrocinam esses encontros no Brasil.
Então, já temos algumas dezenas de empresas que participam desse programa e temos o prêmio do SESI de qualidade no trabalho - que é uma versão socioambiental dos programas de qualidade total. Só no ano passado, 2.500 indústrias foram identificadas como tendo um bom procedimento de gestão, coerente com esses princípios. Esse é um processo em curso que tende a crescer e é deste universo que vêm empresários e executivos para participar do fórum. É gente que tem o que falar, mostrar e compartilhar.
Esses exemplos de negócios lucrativos e com impacto socioambiental positivo podem servir de campo de estudo para a academia, que identifica fenômenos e os transforma em teorias, propondo novos métodos que concorram para sustentabilidade.
Qual é a expectativa para o final do evento?
Vamos desenvolver um plano de ação. No último dia será realizada uma "call for action", uma convocação para ação. Com a metodologia que adotaremos - vamos trabalhar com mesas redondas, em uma verdadeira oficina -, trataremos da construção de uma visão de futuro, pensando em recomendações para ações estratégicas em torno de temas que são relevantes para a sustentabilidade como tecnologias limpas, ecoeficiência, ações sociais, relacionamento das empresas com seus diversos públicos... A partir disso, vamos chegar a um consenso em torno de diretrizes e visões.
O que será feito para que as visões se transformem em políticas públicas?
O encontro vai contar com a presença de representantes públicos, além da CAPES - Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior e do Conselho Federal de Educação. Certamente vão surgir recomendações para esses órgãos e as lideranças devem formar convencimentos, convicções próprias quanto a seus papéis de facilitar para que as mudanças necessárias aconteçam.
De que maneira as idéias pensadas durante o fórum se tornarão de conhecimento público?
O fórum vai contar com a presença de 600 a 800 participantes, que é um número bastante expressivo, com público de todo o Brasil e representantes latino-americanos. Pelo tamanho da audiência e pela representatividade, o que for construído no Global Forum tem muita legitimidade e vai servir como norte para que os objetivos sejam adotados de forma mais local, em nossas cidades, nas escolas de Administração, nas salas de aula.
Também contamos com o papel da mídia para disseminar as informações. Estamos convidando jornalistas e profissionais da área de Comunicação para participar do processo e fazer a ponte entre o programa e a opinião pública.
Ainda será possível ter livre acesso ao resultado dos trabalhos desenvolvidos durante o fórum por meio do site do evento. E será criado um bureau com informações e que prestará apoio às organizações de forma a manter o movimento vivo.
Há planos para que o encontro aconteça novamente?
O Global Forum não é um evento pelo evento, mas faz parte de um processo. No ano que vem, haverá uma nova edição mundial, em Cleveland. Os subsídios colhidos este ano, no fórum latino-americano, vão contribuir para os trabalhos do mundial.
Aqui, podemos realizar um Global Forum Brasil, depois um São Paulo... Os eventos vão se tornando mais locais, o que é muito saudável. Até que cheguemos ao ponto - e isso não deve demorar a acontecer- de que isso seja feito em uma universidade, para identificar peculiaridades.
Estamos em um estágio no qual é necessário construir uma visão global, de conjunto. Mas para que ela seja implementada, certamente, é preciso que aconteçam ações em planos mais específicos e que mantenham objetivos e princípios comuns.
























