Em 1989, o jornalista Zuenir Ventura foi enviado, pelo Jornal do Brasil, ao Acre para cobrir a repercussão - tanto na mídia nacional, quanto na internacional - da morte do líder seringueiro Chico Mendes. Como o assassinato de um acreano conseguira chamar a atenção de tantas pessoas no mundo?
E foi com base nessa investigação que Ventura escreveu e publicou uma série de reportagens - sob o título "O Acre de Chico Mendes" -, que foi compilada em livro quatro anos mais tarde: "Chico Mendes - Crime e Castigo".
Dividido em três partes - O Crime, O Castigo e Quinze Anos Depois -, o livro conta como agiu a Justiça em um país que vivia um momento tão peculiar: "terminava o ano com 900% de inflação, o naufrágio do Bateau Mouche e uma sensação de impunidade generalizada", como Ventura narra no começo do livro.
O delegado de Xapuri (cidade do seringueiro), Nilson Alves de Oliveira, é ainda mais explícito: "No Brasil não é difícil identificar os executantes, mas os mandantes". Mais especificamente na cidade do norte do país, a situação estava tensa.
Grandes fazendeiros de terra estavam sendo acusados de matar o líder seringueiro Chico Mendes. Havia um peso no ar. Muitas pessoas estavam com medo de andar pelas ruas desacompanhadas ou desarmadas. Ou como a Dra. Denise Carla Bernardo Peixoto, uma dos dois únicos médicos da cidade, exalta: "Temo que isto se transforme num faroeste."
Zuenir não estava focado em escrever uma biografia do seringueiro, mas contar o que aconteceu após a morte do líder seringueiro. A primeira parte da série de reportagens - vencedora dos prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog de Reportagem -é mais um perfil social da cidade do interior do Acre do que um relato sobre as conquistas e derrotas de Chico.
Seguindo as histórias contadas pelo jornalista a partir do relato dos moradores da região - que às vezes dão a impressão de que está sendo montado um quebra-cabeças -, tem-se idéia de quem era o líder que abalou a mídia internacional. Ele ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores no Estado e criou as Cooperativas Extrativistas, que tinham também o objetivo de educar os seringueiros.
Enquanto os personagens vivos dessa história salientavam o quão difícilseriaprender os mandantes do crime e todos os cúmplices do caso, naturalmente revelavam particularidades da personalidade de Chico, ajudando Zuenir a compor um precioso perfil. Ao mesmo tempo em que era o personagem principal dessa investigação, muitas vezes Mendes aparecia como mero coadjuvante em meio a riqueza de situações e personagens que envolveram sua história.
[img02] Foi brigando com fazendeiros e políticos que Chico mostrou a realidade da floresta devastada. Uma de suas maiores preocupações era com a implantação de uma economia sustentável, na qual a biodiversidade da mata era a principal fonte de riqueza. E foi com bordões como "lutarei até as últimas conseqüências para defender a floresta" e "quero viver para defender a Amazônia" que Chico deu o seu recado.
A atuação do seringueiro foi de tal impacto naquele cenário, que sua morte já era prevista até por ele próprio. Foram diversas as vezes em que ele procurou as autoridades com uma lista com os nomes das pessoas que desejavam vê-lo morto. Inútil.
Já prevendo o desfecho e com a certeza que morreria até o dia 30 de dezembro daquele ano, Chico escreveu uma carta de despedida: "Não quero flores no meu enterro, pois sei que irão arrancá-las da floresta. Quero apenas que o meu assassinato sirva para acabar com a impunidade dos jagunços sob a proteção da Polícia Federal do Acre que, de 1975 para cá, já mataram mais de 50 pessoas como eu, líderes seringueiros empenhados em defender a Floresta Amazônica e, com ela, provar que é possível progredir sem destruir".
[img03] Neste caso, a impunidade foi vencida, apesar de ter levado dois anos para que os criminosos fossem, finalmente, presos. Na segunda parte do livro, Zuenir narra o julgamento do crime, realizado em 1990, que condenou a 19 anos de prisão Darly Alves da Silva, mandante, e seu filho Darci, autor do disparo.
Mesmo longe dos grandes centros metropolitanos e com a escassez de recursos, o histórico julgamento, dirigido pelo juiz Adair Longuini, foi considerado exemplar. Zuenir conta como foi difícil para o magistrado angariar recursos para dar suporte a todos e organizar a multidão de jornalistas, fotógrafos e curiosos que esperavam a sentença.
Ele também entrevistou Darly e Darci na prisão, contando um pouco do pensamento torto do mandante do crime sobre o assunto. Mesmo depois que o filho confessou o crime, Darly se recusava a assumi-lo, dizendo que ficou sabendo da confissão pelos jornais.
UM MARCO DIVISOR
Na última parte do livro, Zuenir volta ao Acre após 15 anos. E é aqui que temos a certeza de que a morte de Chico Mendes não foi em vão. Foram diversas as mudanças que ocorreram no Estado depois que ele morreu.
Para apurar a atmosfera da época, Ventura entrevistou os quatro juízes do Estado: "Todos reconhecem que a Justiça avançou no Acre nesses últimos quinze anos. Jair (Facundes, um dos juízes) disse que a morte de Chico Mendes foi 'um marco divisor' porque a condenação dos assassinos 'serviu para mostrar que os poderosos também iam para a cadeia'. Arquilau (de Castro, outro magistrado) não tem dúvida de que os tempos são outros e que o deslocamento do foco - 'a luta pela terra deu lugar à luta pelo meio ambiente e a evolução do Chico já desenhava isso' - ajudou no 'esfriamento das tensões no campo'."
A preocupação com o meio ambiente pode ser conferida até no Palácio de Rio Branco, onde fica a sede do governo. Se na primeira visita de Zuenir a edificação estava abandonada e malcuidada, na segunda o jornalista encontrou-a surpreendentemente reformada: "Depois de anos de restauração, o palácio está aberto ao público e funciona como museu, cujas salas foram concebidas e ambientadas por Bia Lessa, enquanto as mais de cem peças de madeira do interior, entre sofás, cadeiras e mesas, têm a assinatura da designer Etel Carmona. Como se diz com orgulho no Acre, 'é o primeiro palácio do mundo com selo verde'."
É nesta última parte do livro, também, que Zuenir conversa com uma das pessoas mais interessantes da história: o "Professor Rego" como é conhecido José Fernandes do Rego. Ele relatou ao jornalista as idéias que compartilhava com Chico Mendes.
Entre elas a que Ventura explica: "A exemplo de Chico Mendes, o professor Rego não propõe transformar a floresta em santuário. Prefere falar de uma 'economia da floresta' e de um 'neo-extrativismo', sugerindo que o homem acreano viva da floresta, de tudo o que ela pode lhe dar".
E Rego ainda completa: "Na verdade, nós não precisamos de uma reforma agrária, pelo menos no que diz respeito à propriedade da terra. Na Amazônia, não é a terra que precisa ser dividida; a floresta é que não pode ser privatizada".