Embora uns assinem sob pseudônimo e outros mostrem o nome; embora uns se digam socialistas e outros anarquistas, os autores dos ensaios de "Apocalipse Motorizado - A tirania do automóvel em um planeta poluído" têm a convicção de que os carros devem ser abolidos e que só são uma "necessidade" porque a indústria assim os impôs. O livro é organizado por Ned Ludd, que assina dois textos.
No primeiro ensaio, Ludd trata com desdém o termo "acidentes" de trânsito. Ele justifica que, se não há por parte do motorista a intenção de matar ou ferir alguém quando dirige, também se poderia falar em "acidentes de fluxo econômico", "acidentes de lucro" ou, até mesmo, "acidentes de nutrição" para tratar da "miséria material", "subnutrição" e das "mortes conseqüentes do sistema econômico capitalista". Afinal, os "capitalistas" nunca tiveram intenção de matar ninguém através de sua atividade econômica.
Ivan Illich, guru de todos os autores do livro, afirma que cada cidadão possui um grau de utilização de energia que, se ultrapassado, prejudica os outros. Parece complexo e é. O autor, morto em 2002, defende que a velocidade máxima dos transportes deveria ser limitada a 25 km/h, pois quanto maior a velocidade que uns poucos privilegiados alcançam, mais pessoas ficam excluídas da "circulação". A maior fraqueza do pensamento de Illich é a idéia permanente de que há um opressor e um oprimido, reduzindo a questão.
André Gorz, por sua vez, oferece uma visão muito mais clara e prática do problema dos carros. Para ele, cada vez mais espaço é usado para os carros transitarem - construção de estradas, pontes, viadutos etc. Los Angeles, Detroit, Houston, Trappes e Bruxelas, por exemplo, se transformaram em cidades de auto-estradas. As distâncias ficaram maiores para os carros poderem andar mais rápido. Ou seja: ao invés de encurtar as distâncias, os carros as aumentaram! Outro exemplo: as pessoas moram cada vez mais afastadas da cidade, já que esta se tornou inabitável graças ao barulho, poluição e engarrafamentos causados pelos carros. Portanto, as pessoas precisam de carros para fugir dos carros!
A alternativa ao automóvel, para Gorz, deve ser global. Para as pessoas, não bastará transporte coletivo mais cômodo. É preciso que elas possam dispensá-lo por completo, por se sentirem em casa no seu bairro, na sua comunidade. As cidades, portanto, seriam menores ou mais divididas, de forma que a população precisasse no máximo de bicicletas para ir trabalhar, fazer compras e se divertir.
Já o artigo reproduzido da publicação inglesa "Aufheben "exibe números que mostram o quanto os carros são prejudiciais à Terra (outros dados também são encontrados num apêndice). "O carro é responsável por 90% das emissões de monóxido de carbono no Reino Unido"; "Em Londres, 25% da terra são dedicados ao carro. Cada milha para carros toma 25 acres de terra"; "uma vez que alternativas 'mais ecológicas' à gasolina fossem postas em uso, uma enorme quantidade de petróleo poderia ser usada para a fabricação de plásticos etc.".
O forte deste artigo, porém, é a linha do tempo explicando como chegamos na atual fase em que as estradas são tão necessárias. A Aufheben conta como os caminhões substituíram os trens e ataca o sistema "just in time" de entregas, que economiza nos custos com estocagem fazendo os produtos serem transportados de acordo com a demanda. Muito adotado na União Européia, o "just in time" transforma as estradas em verdadeiros armazéns, exigindo o uso ainda mais freqüente das estradas e caminhões.
Mas se você está achando que o livro é uma compilação de depoimentos raivosos de esquerdistas mal humorados, está enganado. O bom humor é uma marca dos atuais ativistas anticarro. O britânico Mr. Social Control, por exemplo, define seu ensaio como "um protesto sincero e zeloso contra a superabundância de carros motorizados, ao lado de algumas sugestões para a eliminação desse excremento, na forma de uma carta aberta a todos os motoristas". O texto é bem divertido. Traz trechos como: "Na índia, a vaca é tida como animal sagrado ao qual os motoristas devem dar passagem. Em nenhuma parte do mundo o ser humano é similarmente sagrado. O fato de não podermos atravessar a rua se você estiver vindo de carro é tão óbvio, tão banal, que mal parece ser questionável".
Todos os autores têm como heroína da história da bicicleta. Ned Ludd chama a atenção para o fato - pouco conhecido - de que o Código de Trânsito Brasileiro determina que o ciclista tem preferência no trânsito quando não há ciclovia, ciclofaixa ou acostamento transitável (em se tratando de Brasil, sempre). O CTB, "anos-luz à frente da realidade das ruas", diz ainda que os veículos devem "reduzir a velocidade de forma compatível com a segurança no trânsito" para ultrapassar o ciclista, além de "guardar distância lateral de um metro e meio durante a ultrapassagem".
Com ilustrações de Andy Singer (www.andysinger.com), o livro se encerra com um apêndice ensinando todos os passos para promover uma "bicicletada" (ou "Massa Crítica") na sua cidade. A "bicicletada" é uma mobilização de ciclistas que busca, entre outros motivos, chamar a atenção da sociedade para a opção da bicicleta como meio de transporte. As primeiras "bicicletadas" brasileiras ocorreram em São Paulo e Florianópolis, em 2002. Depois dessas, outras já aconteceram em Brasília, Porto Alegre, Petrópolis e Rio de Janeiro. A primeira "Critical Mass" foi em San Francisco, em 1992, com 60 participantes. Já no ano seguinte reuniu mil ciclistas.
Aqui no Brasil, alguns ativistas anticarros falam se suas ações num blog (http://apocalipsemotorizado.blogspot.com) com o mesmo nome do livro. São outros idealistas que não ficam apenas reclamando e vão à ação. Outra fonte do livro é o site Car Busters (www.carbusters.org). Você pode muito bem pegar sua bicicleta e ir até a livraria mais próxima. Nem é preciso ser radical para ajudar a salvar o planeta.