Se um país relaxar suas leis ambientais, irá acelerar o seu crescimento econômico? Essa pergunta, que tem permeado o debate no Brasil, é talvez o principal foco do livro "A emergência socioambiental" (Editora Senac-São Paulo).
A resposta, segundo seu autor, o economista José Eli da Veiga, é sim, num primeiro momento. Da mesma maneira, se forem flexibilizadas as legislações contra o trabalho infantil ou escravo, também será mais fácil crescer.
O que Veiga procura mostrar com essa provocação é que o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) não significa desenvolvimento humano ou desenvolvimento sustentável. E que os riscos e incertezas que as sociedades enfrentarão por conta da degradação ambiental tornam emergente um novo olhar sobre a realidade, um olhar socioambiental, ou seja, aquele em que homem e natureza sejam indissociáveis e que as soluções para as questões sociais e ambientais sejam integradas.
Dirigido a leigos, estudantes universitários e ativistas da área socioambiental, o livro, ao invés de trazer casos de sucesso em estratégias empresariais ou de governança, prefere colocar os holofotes sobre os principais focos de resistência detectados no debate público sobre o processo de desenvolvimento.
Com uma linguagem muito acessível e para ser lido quase de um fôlego só, a publicação mostra, por exemplo, que o Brasil, com desempenho econômico a passos de tartaruga, conseguiu progredir muito mais no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, entre 1985 e 2003, do que países que tiveram desempenho econômico superior, como China, Índia, Coréia ou Chile.
No prefácio, Fernando Gabeira diz que "o livro de José Eli da Veiga vai transformar nosso enfoque do crescimento econômico. Depois dele, as grandes discussões sobre aumento do PIB serão relativizadas". Para o autor, o PIB é um falso indicador de riqueza, pois "como o cálculo não inclui a depreciação de importantes ativos, não existe maneira mais fácil de aumentar o PIB do que abusar da depleção de recursos humanos e naturais.
Com superexploração do trabalho e/ou da natureza, ele só aumenta, ao mesmo tempo em que diminuem as riquezas verdadeiras. Foi o que aconteceu, por exemplo, no Brasil do famoso 'milagre econômico' (1968-1973), campeão de acidentes de trabalho, mortalidade infantil e devastação transamazônica.
Professor titular do Departamento de Economia da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), onde coordena o Núcleo de Economia Socioambiental (Nessa), e autor de diversos livros e artigos, José Eli da Veiga mostra, por exemplo, porque o crescimento econômico tem sido tão grande na China, onde não há limites aos acidentes de trabalho em milhares de minas de carvão que lembram as condições de vida do proletariado inglês do século XVIII e onde não há um órgão ambiental - como o Ibama -, ou procuradores, promotores ou juízes que tentem evitar os piores impactos ambientais de qualquer investimento.
O economista lembra que sociedades que não se preocupam com essas questões estão ameaçadas de sofrer colapsos semelhantes aos que liquidaram muitas civilizações antigas, como a dos maias, cuja população chegou a 50 milhões antes de - literalmente - se destruir por falta de recursos naturais. "É preciso que o crescimento econômico respeite os limites da natureza em vez de destruir seus ecossistemas. E que dê, assim, uma chance às gerações futuras de que também possam progredir", diz.
Mas isso não quer dizer que o Brasil deva se conformar com o melancólico aumento do PIB per capita do último quarto de século. Segundo Veiga, o maior investimento brasileiro deve ser em Ciência e Tecnologia, para fazer frente aos doze principais desafios ambientais do planeta: perda de hábitat, fontes protéicas, biodiversidade e solos; falta de energia, água doce e capacidade fotossintética; problemas gerados pelos químicos tóxicos, espécies exóticas e gases de efeito estufa ou danosos à camada de ozônio; e o crescimento da população e suas aspirações de consumo.
Assim, o PIB brasileiro só voltará a aumentar com firmeza quando surgirem os efeitos de imprescindíveis investimentos em inovação, umbilicalmente dependentes de avanços na educação científica e dos demais coringas intangíveis que têm sido chamados de capital humano e de capital social.
Para o economista, o que os humanos devem decidir - ao adotarem ou não uma postura socioambiental - é "se procurarão se aproximar, devagar, desse fim inevitável ou se preferirão gozar, intensamente, de uma permanência bem mais curta, porém muito mais excitante. E será impossível que evitem o drástico encurtamento de sua existência se não estiverem convictos de que, sim, podem progredir.
Ao contrário de todo o resto da natureza, as sociedades humanas vivem em simbiose com suas culturas, o que permite que conhecimentos e experiências adquiridos pelos mais maduros sejam transferidos aos que os sucedem".