
Tiago Lethbridge, de Roscoe
Revista Exame – 09/09/2009
"Lembra da camada de ozônio? Ela não ia acabar e torrar todo mundo aqui embaixo? Não aconteceu nada. Pois então. Com o aquecimento global é a mesma coisa. Me desculpe, mas aqui na minha cidade ninguém está perdendo o sono por causa do meio ambiente." Cliff Etheredge, fazendeiro de 66 anos, é um dos maiores ecologistas dos Estados Unidos - mas, como é possível notar pela frase acima, um ecologista à moda texana. Ou seja, sem querer. Sua fazenda não segue nenhuma das rígidas regras da agricultura orgânica. Ele cultiva algodão transgênico, aquele da Monsanto, em Roscoe, vilarejo de 1 400 habitantes no oeste do Texas. Mas Etheredge é, ou deveria ser, um herói da causa verde. É ele o principal responsável pela construção da maior usina de energia eólica do mundo, um conjunto de 627 turbinas com capacidade para abastecer uma cidade de 250 000 habitantes. E tudo isso sem emitir uma só molécula de carbono para a atmosfera. Não que ele se importe, claro.
Até 2004, Etheredge tinha mesmo poucas razões para nutrir grande apreço pela natureza -- em Roscoe, ela está mais para inimiga. O cultivo do algodão, a mais tradicional atividade econômica da região, é atrapalhado ano após ano por uma praga: um vento que dura o ano inteiro. "O vento deixa a terra arenosa, só atrapalha", diz ele. "É muito difícil ganhar dinheiro com o algodão." Sem alternativa, sua família se dedica à agricultura desde 1886. Há cinco anos, porém, Etheredge percebeu que aquela ventania toda poderia ajudar em vez de atrapalhar. Algumas turbinas de energia eólica estavam sendo instaladas nas fazendas de uma região próxima a Roscoe. As energias renováveis começaram a fazer sentido quando Etheredge descobriu que as empresas de energia estavam pagando aos fazendeiros até 10 000 dólares ao ano -- por turbina. Ele começou a procurar interessados em fazer o mesmo em Roscoe. Não obteve nenhum retorno até que uma companhia irlandesa, a Airtricity, ligou de volta. Para que o projeto desse certo, Etheredge teria de organizar todos os fazendeiros da cidade e convencê-los de que as turbinas são um bom negócio. Após negociar com mais de 100 agricultores, ele fechou contrato com a Airtricity, que decidiu investir mais de 1 bilhão de dólares. O projeto será concluído em 2009.
Nos últimos cinco anos, essa isolada região do Texas se transformou no maior polo de investimentos da história da energia eólica no país. Quando Cliff Etheredge começou sua empreitada, havia menos de 100 turbinas no pequeno condado de Nolan, que abrange Roscoe e apenas outras duas cidades. Hoje, são mais de 1 500. "Os maiores projetos do mundo estão aqui", diz Greg Wortham, prefeito de Sweetwater, a maior cidade do condado e autointitulada "capital mundial do vento". Em 2008, os Estados Unidos ultrapassaram a Alemanha e se tornaram o maior mercado para energia eólica do mundo. O crescimento foi de 60% no ano passado. Empresas como a alemã E.ON e a americana Florida Power and Light estão descobrindo o potencial daquilo que foi apelidado de "Arábia Saudita do vento" -- a região das Grandes Planícies, que começa no Texas, ao sul, e cobre todo o centro dos Estados Unidos até a fronteira com o Canadá. Poucas regiões são consideradas tão propícias para a transformação da energia eólica num negócio de grande escala. Segundo planos do governo, o vento será responsável por 20% da matriz energética americana até 2030. Hoje, o percentual não chega a 2%. E é no oeste do Texas que essa corrida está começando.
VEJA QUADRO: Vento a favor
Até recentemente, a geração de boas notícias econômicas no condado de Nolan dependia da construção de novos presídios. Na absoluta falta de fontes de renda e investimentos, as cidades lutavam entre si para abrigar a próxima penitenciária a ser construída pelo estado. Os bons tempos da exploração do petróleo, que criou fortunas no Texas, já tinham ficado para trás. Para piorar o que já estava muito ruim, no fim dos anos 90 a região passou por uma das piores estiagens de sua história. Imagine só. Venta sem parar. A água estava rareando. E as únicas novas vagas de emprego que surgiam eram para carcereiro. Ninguém ficou surpreso quando os moradores da região começaram a ir embora.
Com a chegada das turbinas, esse panorama desolador mudou. Estima-se que elas gerem mais de 500 milhões de dólares em receitas para os donos de fazendas e ranchos. "As turbinas salvaram minha vida", diz o fazendeiro Ray McDaniel. Hoje, McDaniel tem 50 turbinas em suas terras. Em troca, ganha 500 000 dólares por ano. Esse dinheiro mudou a cara do condado. Uma loja da rede de supermercados Walmart foi inaugurada em Sweetwater. Cadeias de hotéis chegaram para abrigar centenas de funcionários das empresas de energia. E os comerciantes já começam a perceber sinais de uma onda de novo-riquismo. "Em um ano, vendemos mais de 1 000 pares de chinelos com cristais Swarovski encravados", diz Marty Foust, dono da maior loja de roupas típicas texanas da região. Cada par custa 400 dólares. "Dinheiro não é problema neste pedaço do Texas."
A brutal transformação por que o condado de Nolan vem passando causa, claro, reações. Essa é uma das regiões mais conservadoras dos Estados Unidos. Seus moradores são descendentes dos primeiros americanos a povoar o oeste do Texas, no século 19, e mantêm com gosto a cultura caubói daqueles tempos. A grande cidade mais próxima, Dallas, fica a quase 400 quilômetros. Isolada, a comunidade manteve tradições que em outras regiões do país seriam impensáveis. Por razões religiosas, é proibido, por exemplo, vender bebidas alcoólicas em restaurantes. Em cinco anos, cidades como Sweetwater passaram por uma transformação que já seria traumática se levasse uma geração inteira. Dois fazendeiros estão na Justiça exigindo que os milhares de turbinas da região sejam simplesmente derrubados. Eles argumentam que as torres, maiores que a Estátua da Liberdade, estragam o visual a que estão acostumados. Querem seu Velho Oeste de volta, mas, a julgar pelo ânimo da maioria, não vão ter. As mudanças tendem a acelerar. Em novembro, uma eleição decidirá se a proibição ao álcool nos restaurantes será ou não suspensa. A campanha do sim tem um forte patrocinador -- os funcionários da General Electric, um dos maiores fabricantes de turbinas eólicas do mundo.
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Tiago Lethbridge, de Roscoe
Revista Exame – 09/09/2009
"Lembra da camada de ozônio? Ela não ia acabar e torrar todo mundo aqui embaixo? Não aconteceu nada. Pois então. Com o aquecimento global é a mesma coisa. Me desculpe, mas aqui na minha cidade ninguém está perdendo o sono por causa do meio ambiente." Cliff Etheredge, fazendeiro de 66 anos, é um dos maiores ecologistas dos Estados Unidos - mas, como é possível notar pela frase acima, um ecologista à moda texana. Ou seja, sem querer. Sua fazenda não segue nenhuma das rígidas regras da agricultura orgânica. Ele cultiva algodão transgênico, aquele da Monsanto, em Roscoe, vilarejo de 1 400 habitantes no oeste do Texas. Mas Etheredge é, ou deveria ser, um herói da causa verde. É ele o principal responsável pela construção da maior usina de energia eólica do mundo, um conjunto de 627 turbinas com capacidade para abastecer uma cidade de 250 000 habitantes. E tudo isso sem emitir uma só molécula de carbono para a atmosfera. Não que ele se importe, claro.
Até 2004, Etheredge tinha mesmo poucas razões para nutrir grande apreço pela natureza -- em Roscoe, ela está mais para inimiga. O cultivo do algodão, a mais tradicional atividade econômica da região, é atrapalhado ano após ano por uma praga: um vento que dura o ano inteiro. "O vento deixa a terra arenosa, só atrapalha", diz ele. "É muito difícil ganhar dinheiro com o algodão." Sem alternativa, sua família se dedica à agricultura desde 1886. Há cinco anos, porém, Etheredge percebeu que aquela ventania toda poderia ajudar em vez de atrapalhar. Algumas turbinas de energia eólica estavam sendo instaladas nas fazendas de uma região próxima a Roscoe. As energias renováveis começaram a fazer sentido quando Etheredge descobriu que as empresas de energia estavam pagando aos fazendeiros até 10 000 dólares ao ano -- por turbina. Ele começou a procurar interessados em fazer o mesmo em Roscoe. Não obteve nenhum retorno até que uma companhia irlandesa, a Airtricity, ligou de volta. Para que o projeto desse certo, Etheredge teria de organizar todos os fazendeiros da cidade e convencê-los de que as turbinas são um bom negócio. Após negociar com mais de 100 agricultores, ele fechou contrato com a Airtricity, que decidiu investir mais de 1 bilhão de dólares. O projeto será concluído em 2009.
Nos últimos cinco anos, essa isolada região do Texas se transformou no maior polo de investimentos da história da energia eólica no país. Quando Cliff Etheredge começou sua empreitada, havia menos de 100 turbinas no pequeno condado de Nolan, que abrange Roscoe e apenas outras duas cidades. Hoje, são mais de 1 500. "Os maiores projetos do mundo estão aqui", diz Greg Wortham, prefeito de Sweetwater, a maior cidade do condado e autointitulada "capital mundial do vento". Em 2008, os Estados Unidos ultrapassaram a Alemanha e se tornaram o maior mercado para energia eólica do mundo. O crescimento foi de 60% no ano passado. Empresas como a alemã E.ON e a americana Florida Power and Light estão descobrindo o potencial daquilo que foi apelidado de "Arábia Saudita do vento" -- a região das Grandes Planícies, que começa no Texas, ao sul, e cobre todo o centro dos Estados Unidos até a fronteira com o Canadá. Poucas regiões são consideradas tão propícias para a transformação da energia eólica num negócio de grande escala. Segundo planos do governo, o vento será responsável por 20% da matriz energética americana até 2030. Hoje, o percentual não chega a 2%. E é no oeste do Texas que essa corrida está começando.
VEJA QUADRO: Vento a favor
Até recentemente, a geração de boas notícias econômicas no condado de Nolan dependia da construção de novos presídios. Na absoluta falta de fontes de renda e investimentos, as cidades lutavam entre si para abrigar a próxima penitenciária a ser construída pelo estado. Os bons tempos da exploração do petróleo, que criou fortunas no Texas, já tinham ficado para trás. Para piorar o que já estava muito ruim, no fim dos anos 90 a região passou por uma das piores estiagens de sua história. Imagine só. Venta sem parar. A água estava rareando. E as únicas novas vagas de emprego que surgiam eram para carcereiro. Ninguém ficou surpreso quando os moradores da região começaram a ir embora.
Com a chegada das turbinas, esse panorama desolador mudou. Estima-se que elas gerem mais de 500 milhões de dólares em receitas para os donos de fazendas e ranchos. "As turbinas salvaram minha vida", diz o fazendeiro Ray McDaniel. Hoje, McDaniel tem 50 turbinas em suas terras. Em troca, ganha 500 000 dólares por ano. Esse dinheiro mudou a cara do condado. Uma loja da rede de supermercados Walmart foi inaugurada em Sweetwater. Cadeias de hotéis chegaram para abrigar centenas de funcionários das empresas de energia. E os comerciantes já começam a perceber sinais de uma onda de novo-riquismo. "Em um ano, vendemos mais de 1 000 pares de chinelos com cristais Swarovski encravados", diz Marty Foust, dono da maior loja de roupas típicas texanas da região. Cada par custa 400 dólares. "Dinheiro não é problema neste pedaço do Texas."
A brutal transformação por que o condado de Nolan vem passando causa, claro, reações. Essa é uma das regiões mais conservadoras dos Estados Unidos. Seus moradores são descendentes dos primeiros americanos a povoar o oeste do Texas, no século 19, e mantêm com gosto a cultura caubói daqueles tempos. A grande cidade mais próxima, Dallas, fica a quase 400 quilômetros. Isolada, a comunidade manteve tradições que em outras regiões do país seriam impensáveis. Por razões religiosas, é proibido, por exemplo, vender bebidas alcoólicas em restaurantes. Em cinco anos, cidades como Sweetwater passaram por uma transformação que já seria traumática se levasse uma geração inteira. Dois fazendeiros estão na Justiça exigindo que os milhares de turbinas da região sejam simplesmente derrubados. Eles argumentam que as torres, maiores que a Estátua da Liberdade, estragam o visual a que estão acostumados. Querem seu Velho Oeste de volta, mas, a julgar pelo ânimo da maioria, não vão ter. As mudanças tendem a acelerar. Em novembro, uma eleição decidirá se a proibição ao álcool nos restaurantes será ou não suspensa. A campanha do sim tem um forte patrocinador -- os funcionários da General Electric, um dos maiores fabricantes de turbinas eólicas do mundo.
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