
Por Paulo Montóia
Guia do Estudante - Atualidades e Vestibular 2009
Ter uma matriz energética diversificada vem sendo uma meta para governos do mundo todo, pois quem depende demais de uma só fonte de energia pode sofrer desabastecimento ou enfrentar crises que afetem a economia, como ocorreu com o choque do petróleo em 1973. Até um passado recente, era bem-vinda qualquer fonte de energia, de preferência a mais barata. Mas nunca, como atualmente, essa diretriz foi tão dirigida à busca de fontes renováveis e, de preferência, limpas.
O último relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) acendeu mais uma luz vermelha de preocupações. Segundo a instituição, o aumento do consumo de petróleo e carvão mineral na China e na Índia poderá neutralizar todos os esforços queestão sendo feitos para frear o agravamento do efeito estufa. É necessário acelerar o uso de energias alternativas e, para isso, aumentar os investimentos em novas tecnologias, em cooperação científi ca e econômica, mudar o consumo e ampliar o mercado de compra de créditos de carbono adotado no Protocolo de. Enfim, é preciso acelerar o Plano B.
NOVAS FORMAS DE ENERGIA
O vínculo entre meio ambiente e energia tornou-se mais forte a partir dos anos 1980. Nessa década, ganhou força a necessidade de diminuir a poluição ambiental, que resultou em práticas e programas urbanos para reciclar materiais como alumínio, plástico e vidro. Esse processo deu origem à moderna indústria de reciclagem e a um novo ímpeto de processos que já eram utilizados, como os projetos integrados e auto-sustentáveis de produção agrícola e industrial.
A geração de energia está diretamente ligada a isso. O alumínio e o vidro, por exemplo, exigem grande quantidade de energia em sua fabricação e menos energia na reciclagem. Nos projetos autosustentáveis, as energias renováveis geralmente estão no coração do sistema, como na agroindústria alcooleira, na qual o bagaço da cana é queimado para produzir a energia na usina.
O Brasil é um exemplo significativo no cenário internacional, pois nenhum outro país tem a cana-de-açúcar como a segunda principal fonte de energia da matriz. Do ponto de vista ambiental, o álcool de cana é considerado mais limpo do que a gasolina, além de ser renovável e, com planejamento, uma fonte sustentável. Esses três conceitos, aliás, às vezes se confundem. Veja o que significam.
ENERGIA SUSTENTÁVEL
É a que dá sustentação à produção e ao consumo porque está disponível para o uso no decorrer do tempo – ou seja, é a energia gasta numa quantidade e numa velocidade nas quais a natureza pode repô-la. O conceito está diretamente ligado ao de desenvolvimento sustentável: levam-se em conta os fatores ambientais, mas não significa necessariamente energia limpa. A lenha, por exemplo, é um recurso sustentável, quando a madeira é cultivada para esse fim; mas é um dos piores poluentes do efeito estufa, e a fumaça é tóxica e danosa à saúde, portanto, não é limpa. Várias fontes de energia podem ser ou não sustentáveis.
A água é sustentável desde que seus mananciais e o fluxo sejam preservados, o que às vezes implica proteger as matas e evitar que um rio ou uma represa percam volume. Esse conceito dá origem, também, ao de autosustentável: por exemplo, usinas de álcool e fazendas que geram as fontes de energia que consomem (como o bagaço de cana).
ENERGIA LIMPA
É aquela que não polui ou polui menos, na produção e no consumo, e os exemplos mais comuns são a energia hidrelétrica, a dos ventos (eólica) e a solar. Contudo, a energia limpa é quase uma utopia, que tem de ser constantemente pesquisada, aprimorada e objetivada. No Brasil, grandes represas hidrelétricas foram priorizadas e construídas porque sua energia é renovável – mas os projetos deixaram de considerar a necessidade de retirar antes as florestas e matas nativas. Como resultado, debaixo d’água, as árvores estão em decomposição e liberam grande quantidade de gases que agravarão o efeito estufa por dezenas de anos, como é o caso de Itaipu, Balbina e Tucuruí.
O conceito também é aplicado na comparação entre os materiais: os automóveis movidos a gás natural são considerados mais limpos do que os movidos a gasolina, porque liberam menos gases do efeito estufa.
Atualmente, em razão da urgência em frear o ritmo do aquecimento global, há especialistas que defendem a construção prioritária e acelerada de centrais termonucleares para substituir ou evitar novas centrais termelétricas movidas a óleo e carvão. Essa energia está sendo considerada mais limpa, porque, apesar de produzir rejeitos que permanecem radioativos por séculos, esse lixo atômico não é jogado na atmosfera nem suja o ar.
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ENERGIA RENOVÁVEL
É toda energia produzida com o uso de recursos naturais que se renovam ou podem ser renovados. O conceito existe em oposição ao da energia não renovável, gerada por combustíveis como petróleo e carvão mineral, que um dia acabarão. A mais antiga em uso é a queima de lenha, pois replantar as árvores garante o suprimento. Mas a energia produzida pelo movimento da água (em turbinas ou das ondas do mar), luz solar, ventos e biocombustíveis são os exemplos mais relevantes hoje.
MATRIZ ALTERNATIVA
Em todo o dossiê, você deve ter notado que há sempre metas para o ano de 2030. E isso não é coincidência, mas resultado de um esforço global de planejamento das nações para enfrentar o desafi o futuro: aumentar a oferta de energia, mas frear o aquecimento da atmosfera. O grande impedimento atual para a adoção em larga escala de energia solar ou eólica é seu custo, já que são muito mais caras do que a energia obtida do petróleo.
Por isso, agora há uma aposta na tecnologia para desenvolver energia limpa a custos mais baixos para uso em larga escala. As pesquisas com hidrogênio e para aprimorar e baratear a energia solar poderão resultar em energias sustentáveis, limpas e renováveis. Mas será preciso tempo para implementar mudanças na matriz energética. Enquanto isso, os governos investem nas energias já conhecidas, pois não podem correr o risco de sofrer “apagões” – como se chamou o colapso no fornecimento de energia elétrica que atingiu o Brasil em 2001.
Um bom exemplo das possibilidades à frente é a utilização da força do ar. O ser humano usou os ventos para inflar as velas das caravelas e, depois, para mover as pás dos moinhos de cereais. Mas foi só a partir da crise do petróleo dos anos 1970 que decidiu utilizar o vento para produzir eletricidade. É nessa época que os países desenvolvidos começam a investir em tecnologia para construir usinas eólicas.
Segundo o Centro Brasileiro de Energia Eólica, existem atualmente no mundo mais de 30 mil turbinas eólicas de grande potência, e os fabricantes têm registrado crescimento de encomendas acima de 30% ao ano. Mesmo assim, a União Européia espera, como meta, elevar sua produção de energia eólica para 10% do total de eletricidade em 2030, e o Brasil, de 0,1% no ano passado para 1% também para 2030. É pouco, pois estamos falando em dezenas ou centenas de megawatts (MW), enquanto o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, elaborado em 2000, aponta para uma estimative de um potência elétrica eólica no país de 143 gigawatts (GW), unidade mil vezes maior. O Brasil possui 16 usinas eólicas em operação e outras 16 em construção. O início das obras para montar mais 50 já foi autorizado.
Atualmente, o uso de fontes alternativas de energia, renováveis ou não, com e sem reciclagem, faz parte de um esforço generalizado. O Brasil, por exemplo, há muitas décadas coleta e recicla óleos lubrificantes trocados nos postos de gasolina; na Europa, há programas de coleta e reciclagem inclusive de óleo de fritura dos restaurantes para produzir biodiesel. Certamente estamos na liderança mundial no programa de álcool combustível para transportes, mas dezenas de países utilizam etanol como combustível para transportes, e não apenas nós.
Um estudo divulgado pela multinacional Beyond Petroleum (BP, ex-British Petroleum), com dados mundiais, revela que a capacidade instalada para produzir energia eólica cresceu 26,5% em 2006. Esse percentual é maior em alguns mercados: quase 43% na América do Norte, 46,5% na América Central e 48% na Ásia e Pacífico. O mesmo estudo indica aumento de 36% na produção de energia solar, quase 28% na de etanol e 1,5% na produção de energia geotérmica, que vem do calor no subsolo terrestre.
PLANO B DE BRASIL?
Aumentar o uso de álcool no transporte parece ser mesmo a prioridade da vez. De acordo com o relatório da BP, em apenas um ano a utilização de etanol combustível cresceu 97% na França, 79% na Austrália, 33% nos Estados Unidos e 44% no Canadá. O relatório traz dados de 24 países. Há ressalvas: em oito deles, houve uma redução no uso do álcool combustível, algumas superiores a 50%, como nos casos de Suécia e Itália.
Adicionar álcool anidro à gasolina é uma solução que já estava sendo usada em vários países, porém como paliativo para reduzir a poluição urbana (e com a vantagem de economizar um dinheiro!). Mas passou a ser muito atraente a partir da entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, em 2005, da alta de preços do petróleo e do aquecimento do clima. Nesse novo cenário, o Brasil ganha destaque por apresentar respostas para dois problemas: garantir fornecimento do combustível e fabricar carros flexfuel para substituir a frota existente. Para isso, o país se propõe a ampliar e a padronizar a produção de ambos e transformar o etanol em commodity – ou seja, um produto básico negociado em bolsas internacionais. Com essas diretrizes, o Brasil está atraindo uma grande massa de investimentos internacionais.
Em entrevista ao Atualidades Vestibular, o engenheiro de produção Leonardo Caio, da Associação Paulista de Cogeração de Energia, explicou que o setor vem passando por inovações com muita rapidez. Em meados de 2008, estavam em construção 104 usinas, sobretudo em Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo, com tecnologias de auto-sustentação muito eficientes para gerar energia ao queimar o bagaço de cana. Em pelo menos 100 das 347 usinas já existentesno Brasil, todos os equipamentos estão sendo trocados por essa tecnologia.
Viabilizar excedentes de energia como esses faz parte do processo permanente da busca para atender às necessidades de consumo. No ano passado, o Brasil produziu 219 milhões de tep em energia, mas teve de importar quase 40 milhões de tep. Nos últimos anos, o governo federal deflagrou diferentes programas e planos, como o Plano Nacional da Agroenergia. Este plano prevê, por exemplo, planejamento, metas e custos da instalação de redes de cabos que ligarão as usinas de álcool ao sistema elétrico. Ele prevê, ainda, que a oferta de eletricidade nova a partir da queima do bagaço de cana suba para 2.170 MW em 2010 e 6.830 MW em 2030.
BAGAÇO DE CANA E PALHA DE ARROZ
Criado em 2002, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa) está ampliando a produção de pequenas hidrelétricas e termelétricas de biomassa agrícola (de bagaço de cana à palha de arroz e resíduos de madeira). Só a produção brasileira de arroz, acima de 10 milhões de toneladas ao ano, produz mais de 2 milhões de toneladas de casca, capazes de gerar de 200 MW a 250 MW de energia, segundo dados oficiais.
O Proinfa organiza, também, o aumento do atual parque eólico brasileiro. Pelos dados do Ministério de Minas e Energia, antes desse programa a produção eólica era de apenas 28,5 MW de potência instalada, mas, em dezembro de 2006, a potência já atingia 236,8 MW. Em 2006 foram inaugurados os parques eólicos de Osório, de Sangradouro e dos Índios, cada um com 50 MW, todos no Rio Grande do Sul; no outro canto do Brasil, no Rio Grande do Norte, começou a funcionar a usina eólica Rio do Fogo, com 49 MW. Os dois estados são conhecidos pela força de seus ventos. A meta para este ano é acrescentar mais 1.400 MW na nossa matriz com energia eólica.
Um aspecto particularmente importante desse programa é promover a geração elétrica a partir de lixo urbano. Em 26 de setembro de 2007, por exemplo, foi realizado no Brasil o primeiro leilão para a compra de créditos de carbono, previsto pelo Protocolo de Kyoto, por uma instância pública: a prefeitura de São Paulo.
Ela recebeu de um banco holandês 34,5 milhões de reais por 808.450 créditos de carbono de sua sociedade (50%) na usina que gera eletricidade queimando gases produzidos pelo lixo do Aterro Sanitário Bandeirantes. A outra parte, de igual volume, foi vendida pelos sócios. Cada crédito correspondeu a 1 tonelada de gases do efeito estufa que o aterro deixou de emitir entre dezembro de 2003 e dezembro de 2006. Nesse período, 1,6 milhão de toneladas de gases deixaram de poluir o ar e viraram dinheiro.
A energia solar também está em crescimento no Brasil, tanto com a tecnologia fotovoltaica (para eletricidade) quanto a heliotérmica (para aquecer água). A principal barreira é o custo ainda elevado da tecnologia fotovoltaica. Mesmo assim, o governo já contabilizava 30 mil sistemas fotovoltaicos instalados no país até 2004.
Também em 2003 veio o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, que pretende abraçar tanto a produção agroindustrial de larga escala, com soja, quanto os pequenos produtores de mamona, dendê, entre outras plantas das quais se extraem óleos vegetais. O programa prevê a adição contínua de óleo vegetal ao diesel, em proporções e metas anuais, e também está provocando uma corrida de investimentos nesse novo ramo da área de energia.
Por Paulo Montóia
Guia do Estudante - Atualidades e Vestibular 2009
Ter uma matriz energética diversificada vem sendo uma meta para governos do mundo todo, pois quem depende demais de uma só fonte de energia pode sofrer desabastecimento ou enfrentar crises que afetem a economia, como ocorreu com o choque do petróleo em 1973. Até um passado recente, era bem-vinda qualquer fonte de energia, de preferência a mais barata. Mas nunca, como atualmente, essa diretriz foi tão dirigida à busca de fontes renováveis e, de preferência, limpas.
O último relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) acendeu mais uma luz vermelha de preocupações. Segundo a instituição, o aumento do consumo de petróleo e carvão mineral na China e na Índia poderá neutralizar todos os esforços queestão sendo feitos para frear o agravamento do efeito estufa. É necessário acelerar o uso de energias alternativas e, para isso, aumentar os investimentos em novas tecnologias, em cooperação científi ca e econômica, mudar o consumo e ampliar o mercado de compra de créditos de carbono adotado no Protocolo de. Enfim, é preciso acelerar o Plano B.
NOVAS FORMAS DE ENERGIA
O vínculo entre meio ambiente e energia tornou-se mais forte a partir dos anos 1980. Nessa década, ganhou força a necessidade de diminuir a poluição ambiental, que resultou em práticas e programas urbanos para reciclar materiais como alumínio, plástico e vidro. Esse processo deu origem à moderna indústria de reciclagem e a um novo ímpeto de processos que já eram utilizados, como os projetos integrados e auto-sustentáveis de produção agrícola e industrial.
A geração de energia está diretamente ligada a isso. O alumínio e o vidro, por exemplo, exigem grande quantidade de energia em sua fabricação e menos energia na reciclagem. Nos projetos autosustentáveis, as energias renováveis geralmente estão no coração do sistema, como na agroindústria alcooleira, na qual o bagaço da cana é queimado para produzir a energia na usina.
O Brasil é um exemplo significativo no cenário internacional, pois nenhum outro país tem a cana-de-açúcar como a segunda principal fonte de energia da matriz. Do ponto de vista ambiental, o álcool de cana é considerado mais limpo do que a gasolina, além de ser renovável e, com planejamento, uma fonte sustentável. Esses três conceitos, aliás, às vezes se confundem. Veja o que significam.
ENERGIA SUSTENTÁVEL
É a que dá sustentação à produção e ao consumo porque está disponível para o uso no decorrer do tempo – ou seja, é a energia gasta numa quantidade e numa velocidade nas quais a natureza pode repô-la. O conceito está diretamente ligado ao de desenvolvimento sustentável: levam-se em conta os fatores ambientais, mas não significa necessariamente energia limpa. A lenha, por exemplo, é um recurso sustentável, quando a madeira é cultivada para esse fim; mas é um dos piores poluentes do efeito estufa, e a fumaça é tóxica e danosa à saúde, portanto, não é limpa. Várias fontes de energia podem ser ou não sustentáveis.
A água é sustentável desde que seus mananciais e o fluxo sejam preservados, o que às vezes implica proteger as matas e evitar que um rio ou uma represa percam volume. Esse conceito dá origem, também, ao de autosustentável: por exemplo, usinas de álcool e fazendas que geram as fontes de energia que consomem (como o bagaço de cana).
ENERGIA LIMPA
É aquela que não polui ou polui menos, na produção e no consumo, e os exemplos mais comuns são a energia hidrelétrica, a dos ventos (eólica) e a solar. Contudo, a energia limpa é quase uma utopia, que tem de ser constantemente pesquisada, aprimorada e objetivada. No Brasil, grandes represas hidrelétricas foram priorizadas e construídas porque sua energia é renovável – mas os projetos deixaram de considerar a necessidade de retirar antes as florestas e matas nativas. Como resultado, debaixo d’água, as árvores estão em decomposição e liberam grande quantidade de gases que agravarão o efeito estufa por dezenas de anos, como é o caso de Itaipu, Balbina e Tucuruí.
O conceito também é aplicado na comparação entre os materiais: os automóveis movidos a gás natural são considerados mais limpos do que os movidos a gasolina, porque liberam menos gases do efeito estufa.
Atualmente, em razão da urgência em frear o ritmo do aquecimento global, há especialistas que defendem a construção prioritária e acelerada de centrais termonucleares para substituir ou evitar novas centrais termelétricas movidas a óleo e carvão. Essa energia está sendo considerada mais limpa, porque, apesar de produzir rejeitos que permanecem radioativos por séculos, esse lixo atômico não é jogado na atmosfera nem suja o ar.
[img1]
ENERGIA RENOVÁVEL
É toda energia produzida com o uso de recursos naturais que se renovam ou podem ser renovados. O conceito existe em oposição ao da energia não renovável, gerada por combustíveis como petróleo e carvão mineral, que um dia acabarão. A mais antiga em uso é a queima de lenha, pois replantar as árvores garante o suprimento. Mas a energia produzida pelo movimento da água (em turbinas ou das ondas do mar), luz solar, ventos e biocombustíveis são os exemplos mais relevantes hoje.
MATRIZ ALTERNATIVA
Em todo o dossiê, você deve ter notado que há sempre metas para o ano de 2030. E isso não é coincidência, mas resultado de um esforço global de planejamento das nações para enfrentar o desafi o futuro: aumentar a oferta de energia, mas frear o aquecimento da atmosfera. O grande impedimento atual para a adoção em larga escala de energia solar ou eólica é seu custo, já que são muito mais caras do que a energia obtida do petróleo.
Por isso, agora há uma aposta na tecnologia para desenvolver energia limpa a custos mais baixos para uso em larga escala. As pesquisas com hidrogênio e para aprimorar e baratear a energia solar poderão resultar em energias sustentáveis, limpas e renováveis. Mas será preciso tempo para implementar mudanças na matriz energética. Enquanto isso, os governos investem nas energias já conhecidas, pois não podem correr o risco de sofrer “apagões” – como se chamou o colapso no fornecimento de energia elétrica que atingiu o Brasil em 2001.
Um bom exemplo das possibilidades à frente é a utilização da força do ar. O ser humano usou os ventos para inflar as velas das caravelas e, depois, para mover as pás dos moinhos de cereais. Mas foi só a partir da crise do petróleo dos anos 1970 que decidiu utilizar o vento para produzir eletricidade. É nessa época que os países desenvolvidos começam a investir em tecnologia para construir usinas eólicas.
Segundo o Centro Brasileiro de Energia Eólica, existem atualmente no mundo mais de 30 mil turbinas eólicas de grande potência, e os fabricantes têm registrado crescimento de encomendas acima de 30% ao ano. Mesmo assim, a União Européia espera, como meta, elevar sua produção de energia eólica para 10% do total de eletricidade em 2030, e o Brasil, de 0,1% no ano passado para 1% também para 2030. É pouco, pois estamos falando em dezenas ou centenas de megawatts (MW), enquanto o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, elaborado em 2000, aponta para uma estimative de um potência elétrica eólica no país de 143 gigawatts (GW), unidade mil vezes maior. O Brasil possui 16 usinas eólicas em operação e outras 16 em construção. O início das obras para montar mais 50 já foi autorizado.
Atualmente, o uso de fontes alternativas de energia, renováveis ou não, com e sem reciclagem, faz parte de um esforço generalizado. O Brasil, por exemplo, há muitas décadas coleta e recicla óleos lubrificantes trocados nos postos de gasolina; na Europa, há programas de coleta e reciclagem inclusive de óleo de fritura dos restaurantes para produzir biodiesel. Certamente estamos na liderança mundial no programa de álcool combustível para transportes, mas dezenas de países utilizam etanol como combustível para transportes, e não apenas nós.
Um estudo divulgado pela multinacional Beyond Petroleum (BP, ex-British Petroleum), com dados mundiais, revela que a capacidade instalada para produzir energia eólica cresceu 26,5% em 2006. Esse percentual é maior em alguns mercados: quase 43% na América do Norte, 46,5% na América Central e 48% na Ásia e Pacífico. O mesmo estudo indica aumento de 36% na produção de energia solar, quase 28% na de etanol e 1,5% na produção de energia geotérmica, que vem do calor no subsolo terrestre.
PLANO B DE BRASIL?
Aumentar o uso de álcool no transporte parece ser mesmo a prioridade da vez. De acordo com o relatório da BP, em apenas um ano a utilização de etanol combustível cresceu 97% na França, 79% na Austrália, 33% nos Estados Unidos e 44% no Canadá. O relatório traz dados de 24 países. Há ressalvas: em oito deles, houve uma redução no uso do álcool combustível, algumas superiores a 50%, como nos casos de Suécia e Itália.
Adicionar álcool anidro à gasolina é uma solução que já estava sendo usada em vários países, porém como paliativo para reduzir a poluição urbana (e com a vantagem de economizar um dinheiro!). Mas passou a ser muito atraente a partir da entrada em vigor do Protocolo de Kyoto, em 2005, da alta de preços do petróleo e do aquecimento do clima. Nesse novo cenário, o Brasil ganha destaque por apresentar respostas para dois problemas: garantir fornecimento do combustível e fabricar carros flexfuel para substituir a frota existente. Para isso, o país se propõe a ampliar e a padronizar a produção de ambos e transformar o etanol em commodity – ou seja, um produto básico negociado em bolsas internacionais. Com essas diretrizes, o Brasil está atraindo uma grande massa de investimentos internacionais.
Em entrevista ao Atualidades Vestibular, o engenheiro de produção Leonardo Caio, da Associação Paulista de Cogeração de Energia, explicou que o setor vem passando por inovações com muita rapidez. Em meados de 2008, estavam em construção 104 usinas, sobretudo em Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e São Paulo, com tecnologias de auto-sustentação muito eficientes para gerar energia ao queimar o bagaço de cana. Em pelo menos 100 das 347 usinas já existentesno Brasil, todos os equipamentos estão sendo trocados por essa tecnologia.
Viabilizar excedentes de energia como esses faz parte do processo permanente da busca para atender às necessidades de consumo. No ano passado, o Brasil produziu 219 milhões de tep em energia, mas teve de importar quase 40 milhões de tep. Nos últimos anos, o governo federal deflagrou diferentes programas e planos, como o Plano Nacional da Agroenergia. Este plano prevê, por exemplo, planejamento, metas e custos da instalação de redes de cabos que ligarão as usinas de álcool ao sistema elétrico. Ele prevê, ainda, que a oferta de eletricidade nova a partir da queima do bagaço de cana suba para 2.170 MW em 2010 e 6.830 MW em 2030.
BAGAÇO DE CANA E PALHA DE ARROZ
Criado em 2002, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa) está ampliando a produção de pequenas hidrelétricas e termelétricas de biomassa agrícola (de bagaço de cana à palha de arroz e resíduos de madeira). Só a produção brasileira de arroz, acima de 10 milhões de toneladas ao ano, produz mais de 2 milhões de toneladas de casca, capazes de gerar de 200 MW a 250 MW de energia, segundo dados oficiais.
O Proinfa organiza, também, o aumento do atual parque eólico brasileiro. Pelos dados do Ministério de Minas e Energia, antes desse programa a produção eólica era de apenas 28,5 MW de potência instalada, mas, em dezembro de 2006, a potência já atingia 236,8 MW. Em 2006 foram inaugurados os parques eólicos de Osório, de Sangradouro e dos Índios, cada um com 50 MW, todos no Rio Grande do Sul; no outro canto do Brasil, no Rio Grande do Norte, começou a funcionar a usina eólica Rio do Fogo, com 49 MW. Os dois estados são conhecidos pela força de seus ventos. A meta para este ano é acrescentar mais 1.400 MW na nossa matriz com energia eólica.
Um aspecto particularmente importante desse programa é promover a geração elétrica a partir de lixo urbano. Em 26 de setembro de 2007, por exemplo, foi realizado no Brasil o primeiro leilão para a compra de créditos de carbono, previsto pelo Protocolo de Kyoto, por uma instância pública: a prefeitura de São Paulo.
Ela recebeu de um banco holandês 34,5 milhões de reais por 808.450 créditos de carbono de sua sociedade (50%) na usina que gera eletricidade queimando gases produzidos pelo lixo do Aterro Sanitário Bandeirantes. A outra parte, de igual volume, foi vendida pelos sócios. Cada crédito correspondeu a 1 tonelada de gases do efeito estufa que o aterro deixou de emitir entre dezembro de 2003 e dezembro de 2006. Nesse período, 1,6 milhão de toneladas de gases deixaram de poluir o ar e viraram dinheiro.
A energia solar também está em crescimento no Brasil, tanto com a tecnologia fotovoltaica (para eletricidade) quanto a heliotérmica (para aquecer água). A principal barreira é o custo ainda elevado da tecnologia fotovoltaica. Mesmo assim, o governo já contabilizava 30 mil sistemas fotovoltaicos instalados no país até 2004.
Também em 2003 veio o Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel, que pretende abraçar tanto a produção agroindustrial de larga escala, com soja, quanto os pequenos produtores de mamona, dendê, entre outras plantas das quais se extraem óleos vegetais. O programa prevê a adição contínua de óleo vegetal ao diesel, em proporções e metas anuais, e também está provocando uma corrida de investimentos nesse novo ramo da área de energia.
























