dossiê energia
Alternativa sob suspeita
Especialistas propõem voltar a construir usinas nucleares para conter o efeito estufa
Por Paulo Montóia
Guia do Estudante - Atualidades e Vestibular 2009
A gravidade do aquecimento acelerado da atmosfera tem levado alguns especialistas e ambientalistas a defender um remédio radical para salvar o doente: voltar a construir em larga escala as usinas nucleares, a mais cara e perigosa forma de gerar eletricidade já inventada. Elas seriam construídas para frear as termelétricas a carvão mineral, o vilão poluidor que tem consumo crescente. O argumento usado é o de que, apesar de produzir rejeitos sólidos que são radiativos por séculos – o chamado lixo atômico –, essas usinas não liberam na atmosfera gases do efeito estufa.
Evidentemente, essa proposta interessa bastante aos países que exportam as usinas por bilhões de dólares, como os Estados Unidos e a Alemanha. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) já divulgou um documento-base para essas discussões, chamado Considerações para o Lançamento de um Programa de Energia Nuclear. A favor da energia nuclear, o relatório registra que 1,6 bilhão de pessoas no mundo não têm acesso à eletricidade e que 2,4 bilhões cozinham queimando lenha ou algum tipo de biomassa. Contra ela, ressalva que a energia nuclear é cara, exige muitos funcionários treinados, programas e cuidados prévios e permanentes de segurança. Além disso, construir usinas é algo demorado.
Em 2005 havia no mundo 438 usinas nucleares em 30 países. Em 2005, elas forneceram 15% do total de eletricidade no mundo, contra 16% das usinas hidrelétricas e 19% das termelétricas a gás. No conjunto, a distribuição parece equilibrada, mas a visão é outra ao observarmos a localização das usinas nos diversos países. Os Estados Unidos possuem nada menos que 104 usinas nucleares (um quarto do total), com uma geração potencial instalada de 99 mil mega watts (MW), o equivalente à produção atual de toda a eletricidade do Brasil, que é de 100 mil MW instalados. A França, que fez a opção mais radical pela energia atômica, possui 59 usinas, com potencial instalado de 63 mil MW, 77% de toda a eletricidade do país. Juntam-se a esses a Alemanha (19) e o Reino Unido (33), e vemos que apenas quatro países somam 215 usinas atômicas, quase metade do total global de 441.
RISCOS E CONFLITOS
O mundo já conhece o perigo potencial dessa energia, seja pelas duas bombas
atômicas que os EUA lançaram sobre o Japão, em 1945, seja pelo risco dos acidentes registrados nas décadas recentes, dos quais o de Chernobyl, em 1986, foi o mais trágico. O número de vítimas desse acidente nunca foi defi nido, mas as estimativas são de que entre 30 mil e 100 mil pessoas tenham morrido ou tenham sido contaminadas por radiação; cerca de 350 mil perderam sua casa. Além dele, houve acidentes menores: em Three Mile Island (EUA), em 1979, e em Tokaimura (Japão), em 1999. No Brasil, a violação de uma simples cápsulade césio 137, usada em um aparelho de radioterapia, em 1987, em Goiânia, liberou uma radiação que matou quarto pessoas, contaminou 621 e produziu 6 mil toneladas de lixo radiativo.
A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia com urânio e outros materiais radiativos têm usos em medicina geral, odontologia, saneamento e pesquisa ambiental, entre outras áreas. Mas a AIEA acompanha e fiscaliza particularmente o desenvolvimento específi co da tecnologia para enriquecer urânio, nome dado ao processo de ampliar a concentração de átomos instáveis – urânio 235, ou U-235 –, que existem em baixa concentração na natureza. Com uma concentração de até 3% do U-235, tem-se o combustível em pastilhas para usinas nucleares; com 20%, combustível para submarinos atômicos; com mais de 90%, a matéria-prima para uma bomba atômica. Há um acordo internacional de restrição às armas atômicas –, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) –, que entrou em vigor em 1970 e prevê inspeção de rotina nos países participantes. A ele foi agregado, em 1997, um protocolo adicional estipulando inspeção sem aviso prévio e sem restrição a quaisquer fábricas, equipamentos ou instalações nucleares.
As nações que querem bloquear o desenvolvimento de tecnologia para enriquecer urânio não repassam essa tecnologia e lucram com a exportação das pastilhas. Por isso, há países que avançam nas pesquisas para enriquecer urânio, visando a ser auto-suficientes em combustível para as usinas ou para outras finalidades. O Brasil, por exemplo, considera estratégico fabricar submarinos nucleares com autonomia de combustível para navegar pelos 8 mil quilômetros de costa e desenvolveu a tecnologia de enriquecimento do urânio.
Mas, como o domínio sobre o enriquecimento do urânio pode permitir a produção da bomba atômica, o TNP se mantém aos trancos. Por um lado, os países que têm a bomba atômica desde a implantação do tratado – Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Federação Russa (ex-União Soviética) – comprometeramse a reduzir os arsenais nucleares, masnão fizeram isso e recusam-se a iniciar negociações. Por outro, querem ampliar as inspeções contra as demais nações, o que boa parte das outras não aceita. Assim, há países que assinaram o tratado de desarmamento, como o Brasil e o Irã, mas não assinaram o protocolo adicional – ou seja, sofrem apenas inspeções negociadas e restritas a verificar se os níveis de enriquecimento estão de acordo com o uso pacífico. Para fragilizar ainda mais o TNP, a Índia e o Paquistão possuem bombas atômicas às claras, e avalia-se que Israel também possua. Esses países não assinam o tratado.
Nos últimos anos, há países que entraram em confl ito político e diplomático aberto com o governo dos EUA, com a AIEA ou com a União Européia por enriquecerem urânio ou construir bombas. A Coréia do Norte anunciou fabricar bombas e fez explosões de testes a partir de 2005, mas acabou assinando um acordo em 2007 de destruir seu arsenal em troca de benefícios econômicos. Mais grave é o conflito aberto com o Irã, que já está na esfera do Conselho de Segurança da ONU, cujos cinco principais países são os mesmos do clube atômico. Os EUA e a União Européia suspeitam que o Irã esteja enriquecendo urânio para fabricar bombas. O governo do Irã, signatário do TNP, afi rma que desenvolve a tecnologia unicamente para fins pacíficos, que não aceitará limitações à sua soberania e que concorda com as inspeções negociadas com a AIEA, mas isso é tudo. O impasse é um dos focos de tensão no Oriente Médio.
BRASIL E AMÉRICA LATINA
O Brasil possui um programa nuclear iniciado nos anos 1960 que levou à construção das usinas Angra I e II e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, que desenvolve produtos para saúde, saneamento básico e pesquisa ambiental. Os acordos realizados para construir as usinas,com os Estados Unidos e a Alemanha, previam um intercâmbio de tecnologia que nunca aconteceu. Em razão disso, o Brasil desenvolveu uma tecnologia própria para enriquecer urânio, considerada estratégica para aproveitar nossas reservas desse minério (sexto manancial mundial), desenvolver o submarino, baratear o funcionamento das usinas nucleares já prontas e para viabilizar Angra III, que será construída. Hoje, as pilhas de urânio enriquecido de Angra são fabricadas ali perto, nas Indústrias Nucleares do Brasil, em Resende (RJ).
Em 2004, o país enfrentou pressão da AIEA, mas só aceitou uma visita limitada à fábrica de enriquecimento de urânio. Na América Latina, além do Brasil, produzem eletricidade com energia nuclear apenas a Argentina, com três usinas, e o México, com uma.
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O mundo movido a petróleo
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Evidentemente, essa proposta interessa bastante aos países que exportam as usinas por bilhões de dólares, como os Estados Unidos e a Alemanha. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) já divulgou um documento-base para essas discussões, chamado Considerações para o Lançamento de um Programa de Energia Nuclear. A favor da energia nuclear, o relatório registra que 1,6 bilhão de pessoas no mundo não têm acesso à eletricidade e que 2,4 bilhões cozinham queimando lenha ou algum tipo de biomassa. Contra ela, ressalva que a energia nuclear é cara, exige muitos funcionários treinados, programas e cuidados prévios e permanentes de segurança. Além disso, construir usinas é algo demorado.
Em 2005 havia no mundo 438 usinas nucleares em 30 países. Em 2005, elas forneceram 15% do total de eletricidade no mundo, contra 16% das usinas hidrelétricas e 19% das termelétricas a gás. No conjunto, a distribuição parece equilibrada, mas a visão é outra ao observarmos a localização das usinas nos diversos países. Os Estados Unidos possuem nada menos que 104 usinas nucleares (um quarto do total), com uma geração potencial instalada de 99 mil mega watts (MW), o equivalente à produção atual de toda a eletricidade do Brasil, que é de 100 mil MW instalados. A França, que fez a opção mais radical pela energia atômica, possui 59 usinas, com potencial instalado de 63 mil MW, 77% de toda a eletricidade do país. Juntam-se a esses a Alemanha (19) e o Reino Unido (33), e vemos que apenas quatro países somam 215 usinas atômicas, quase metade do total global de 441.
RISCOS E CONFLITOS
O mundo já conhece o perigo potencial dessa energia, seja pelas duas bombas
atômicas que os EUA lançaram sobre o Japão, em 1945, seja pelo risco dos acidentes registrados nas décadas recentes, dos quais o de Chernobyl, em 1986, foi o mais trágico. O número de vítimas desse acidente nunca foi defi nido, mas as estimativas são de que entre 30 mil e 100 mil pessoas tenham morrido ou tenham sido contaminadas por radiação; cerca de 350 mil perderam sua casa. Além dele, houve acidentes menores: em Three Mile Island (EUA), em 1979, e em Tokaimura (Japão), em 1999. No Brasil, a violação de uma simples cápsulade césio 137, usada em um aparelho de radioterapia, em 1987, em Goiânia, liberou uma radiação que matou quarto pessoas, contaminou 621 e produziu 6 mil toneladas de lixo radiativo.
A pesquisa e o desenvolvimento de tecnologia com urânio e outros materiais radiativos têm usos em medicina geral, odontologia, saneamento e pesquisa ambiental, entre outras áreas. Mas a AIEA acompanha e fiscaliza particularmente o desenvolvimento específi co da tecnologia para enriquecer urânio, nome dado ao processo de ampliar a concentração de átomos instáveis – urânio 235, ou U-235 –, que existem em baixa concentração na natureza. Com uma concentração de até 3% do U-235, tem-se o combustível em pastilhas para usinas nucleares; com 20%, combustível para submarinos atômicos; com mais de 90%, a matéria-prima para uma bomba atômica. Há um acordo internacional de restrição às armas atômicas –, o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP) –, que entrou em vigor em 1970 e prevê inspeção de rotina nos países participantes. A ele foi agregado, em 1997, um protocolo adicional estipulando inspeção sem aviso prévio e sem restrição a quaisquer fábricas, equipamentos ou instalações nucleares.
As nações que querem bloquear o desenvolvimento de tecnologia para enriquecer urânio não repassam essa tecnologia e lucram com a exportação das pastilhas. Por isso, há países que avançam nas pesquisas para enriquecer urânio, visando a ser auto-suficientes em combustível para as usinas ou para outras finalidades. O Brasil, por exemplo, considera estratégico fabricar submarinos nucleares com autonomia de combustível para navegar pelos 8 mil quilômetros de costa e desenvolveu a tecnologia de enriquecimento do urânio.
Mas, como o domínio sobre o enriquecimento do urânio pode permitir a produção da bomba atômica, o TNP se mantém aos trancos. Por um lado, os países que têm a bomba atômica desde a implantação do tratado – Estados Unidos, Reino Unido, França, China e Federação Russa (ex-União Soviética) – comprometeramse a reduzir os arsenais nucleares, masnão fizeram isso e recusam-se a iniciar negociações. Por outro, querem ampliar as inspeções contra as demais nações, o que boa parte das outras não aceita. Assim, há países que assinaram o tratado de desarmamento, como o Brasil e o Irã, mas não assinaram o protocolo adicional – ou seja, sofrem apenas inspeções negociadas e restritas a verificar se os níveis de enriquecimento estão de acordo com o uso pacífico. Para fragilizar ainda mais o TNP, a Índia e o Paquistão possuem bombas atômicas às claras, e avalia-se que Israel também possua. Esses países não assinam o tratado.
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BRASIL E AMÉRICA LATINA
O Brasil possui um programa nuclear iniciado nos anos 1960 que levou à construção das usinas Angra I e II e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, que desenvolve produtos para saúde, saneamento básico e pesquisa ambiental. Os acordos realizados para construir as usinas,com os Estados Unidos e a Alemanha, previam um intercâmbio de tecnologia que nunca aconteceu. Em razão disso, o Brasil desenvolveu uma tecnologia própria para enriquecer urânio, considerada estratégica para aproveitar nossas reservas desse minério (sexto manancial mundial), desenvolver o submarino, baratear o funcionamento das usinas nucleares já prontas e para viabilizar Angra III, que será construída. Hoje, as pilhas de urânio enriquecido de Angra são fabricadas ali perto, nas Indústrias Nucleares do Brasil, em Resende (RJ).
Em 2004, o país enfrentou pressão da AIEA, mas só aceitou uma visita limitada à fábrica de enriquecimento de urânio. Na América Latina, além do Brasil, produzem eletricidade com energia nuclear apenas a Argentina, com três usinas, e o México, com uma.
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