interesse comum
Pais e escolas, parceria necessária
Não há contraindicação para a participação dos pais na escola dos filhos, uma aliança em que todos têm a ganhar – principalmente o aluno. Se esse é um consenso, por que tão poucas famílias se fazem presentes?Aqui, explicações e antídotos
Paulo de Camargo
Revista Claudia – 07/2009
[img01] Em 1998, a Escola Estadual Ângelo Trevisan, em Curitiba, estava em vias de fechar. Localizada em um bairro de classe média, sofria com a deterioração física, a indisciplina e, sobretudo, com a baixa performance acadêmica. A qualidade do ensino era deplorável, com média próxima a 3 nas avaliações feitas pelo governo. Naquele ano, porém, as coisas começaram a mudar. Hoje, a média da escola nas mesmas provas chega a 7 – a melhor da rede pública do Paraná. A escola recebe prêmios de gestão e serve de modelo para outras instituições. Um dos principais segredos da mudança? A presença maciça das famílias, que hoje participam de encontros pedagógicos, eventos e de decisões estratégicas. São, por exemplo, as responsáveis pela festa junina, com a qual levantam recursos para adquirir para a escola equipamentos de última geração, relata a pedagoga Maria Gorete Estival Paula. “Temos a participação constante de pelo menos 80% dos pais”, comemora a educadora.
O exemplo paranaense é a face concreta do que um grande número de estudos vem demonstrando ao longo dos últimos 40 anos: famílias, escola e alunos compõem um trio inseparável num projeto educativo de sucesso. O tema se tornou tão importante que nos Estados Unidos já existem políticas públicas específicas para estimular a presença dos pais no ambiente educativo.
A escola de educação de Harvard criou até o Harvard Family Research Project, programa dedicado a auxiliar escolas e famílias a se entrosarem melhor. No Brasil, o Ministério da Educação começa a embarcar nessa onda e publicou, em 2008, um manual distribuído a pais de alunos em estabelecimentos públicos, mostrando a importância de participar da educação dos filhos.
“A escola que se abre para seu público é mais questionada, mas, se fica fechada, não há comunidade em torno dela” Marcelo Cunha Bueno
Não há contraindicações, apenas benefícios, qualquer que seja a idade do aluno. Para começar, a participação dos pais está diretamente ligada ao sucesso acadêmico. Facilita transições como da educação infantil e para o ensino fundamental, fortalece os vínculos sociais, ajuda a formar valores e estimula a inclusão, seja dos portadores de deficiência, seja dos que provêm de outras culturas e etnias. Alguns estudos sugerem, ainda, que a presença especificamente do pai influi nas atitudes do aluno diante da vida escolar e também na relação entre o aluno e seus professores.
PAIS FISCAIS E PAIS AUSENTES
Embora haja um consenso sobre o tema, na prática participar da vida escolar dentro do espaço educativo é uma equação delicada. De um lado, não é verdade que as escolas desejem sempre a participação dos familiares, que podem trazer mais críticas, ingerência e confusão de papéis. De outro, os pais nem sempre estão prontos a marcar presença, envolvidos numa rotina intensa de trabalho. A verdade é que, nesse campo, estamos todos aprendendo. Até 20 anos atrás, ainda era incomum que os pais participassem da educação dos filhos, quanto mais da vida escolar. O papel deles era entregar as crianças no portão, e os dois lados mantinham contatos formais esporádicos. De acordo com o pesquisador Joe Garcia, doutor em educação pela PUC-SP, isso está mudando. “Observo o surgimento de uma nova atitude nas escolas, mais em sintonia com a nossa época”, revela. “Cada vez mais, buscam abrir novos canais de diálogo, bem como os pais se mostram mais dispostos a colaborar.” Para ele, há vários níveis possíveis de participação. O mais básico – do qual, porém, boa parte das famílias brasileiras ainda está distante – é o apoio à aprendizagem em casa.
A partir daí, pode haver um envolvimento progressivo, que vai da participação nas reuniões formais e informais, passa pela atuação em eventos como voluntários e chega à participação em decisões colegiadas. É o caso do Colégio São Domingos, em São Paulo, que tem a Fundação São Paulo (a mesma da PUC) como mantenedora principal. Completando 50 anos em 2009, o São Domingos se diferencia pela gestão participativa, segundo o diretor Silvio Barini Pinto. Lá é frequente ver, por exemplo, um pai fotógrafo realizar oficinas para os alunos. Mas o sistema de gestão estabelece também que os pais tenham assento no Conselho de Escola e se tornem responsáveis pelas decisões, inclusive para garantir o acompanhamento do que foi combinado. Mas nem tudo é um mar de rosas. “O receio das escolas quanto à participação tem fundamento, pois existe o risco de se perder o foco quando as demandas individuais são muito dispersas”,lembra Barini.
Para evitar isso, de acordo com o diretor, é importante que os pais não se coloquem na posição de clientes, assumindo posturas “eu pago-eu quero”, mas que tenham um compromisso com o coletivo.“Temos aprendido muito ao trabalhar em parceria com os pais. Posso ouvi-los e processar suas demandas com base em princípios comuns a todos, mas para tanto é preciso que esses princípios sejam claros”, explica.
CRIANDO LAÇOS
O caso do São Domingos não é regra no segmento privado. Escolas particulares têm maiores dificuldades em definir os espaços de participação, mas também nessa área está em curso uma renovação. Segundo Elaine Moura, diretora do Colégio Santana, em São Paulo, a pré-condição é que haja uma boa definição do que é papel da escola e o que cabe aos pais.
Outro caminho é o estímulo à participação das famílias em eventos. Duas vezes por semestre, a Escola Estilo de Aprender, em São Paulo, torna-se um centro cultural, com peças de teatro, narrativa de histórias e shows musicais. O objetivo, conforme o diretor, Marcelo Cunha Bueno, é fazer com que os pais vejam a escola sob outra perspectiva. “Aquela que se abre para seu público é mais questionada, claro, mas, se fica fechada, não permite que se forme de fato uma comunidade em torno dela”, diz. Elevar a participação dos pais não é uma decisão apenas da escola. Poucas famílias frequentam os espaços de formação continuada, ou seja, dos cursos e palestras abertos às famílias para que discutam o processo educativo dos filhos.
Atrair os pais não é fácil, queixam- se os educadores. Embora o argumento seja sempre o da falta de tempo, a verdade é que, diferentemente de outras culturas, não há uma tradição comunitária na escola brasileira, que se revela no relacionamento fugaz com as instituições. Mas isso precisa mudar. Em síntese, está mais do que na hora de dar um passo além na relação com a instituição com quem divide a educação das crianças e jovens. Mais do que saber o que querem da escola, cabe às famílias descobrir agora o que podem fazer pela escola. Quem ganha é seu filho.
O LÍDER
Se procurar na memória, certamente você vai lembrar do diretor como uma figura sisuda e distante. Pois muitos pais carregaram para o presente essa visão anacrônica do diretor e são capazes de manter os filhos por mais de uma década na mesma instituição sem nunca ter trocado duas palavras com o gestor. Se é o seu caso, é hora de marcar uma visita ou de aproveitar um dos eventos da escola para entabular uma conversa. O assunto? Educação, é claro. O diretor ganha cada vez mais importância na educação contemporânea. “A liderança dele, conduzindo o grupo com suavidade e firmeza, é um dos itens que fazem uma escola ser melhor do que outra”, diz o economista Claudio de Moura Castro. Assim, se quer conhecer uma escola, um bom caminho é começar encontrando o diretor, pois provavelmente a instituição espelha seu líder.
Na rede pública, até pela falta de profissionais de nível intermediário, como coordenadores e professores, as comunidades têm mais acesso ao diretor. Contudo, como esses profissionais ainda são escolhidos majoritariamente por progressão na carreira, e não por méritos de gestão, eles nem sempre têm características típicas do líder, como a capacidade de articulação e mobilização de recursos. Quando o diretor possui tais atributos, as escolas costumam avançar, como ocorreu com a paranaense Ângelo Trevisan. A diretora, Antonia Lobato, que ganhou um prêmio nacional de gestão em 2004, recebe sucessivos convites para partilhar sua experiência, que se caracteriza pela perspectiva democrática. “Não tomo decisões sem ouvir as comissões de pais e sou acessível a toda a comunidade”, afirma. Na rede particular, o relacionamento das famílias pode ficar restrito aos coordenadores imediatos da série do filho ou aos orientadores, o que também é importante, mas não exclui uma conversa com o gestor. Para o diretor Silvio Barini, do São Domingos, manter a porta aberta é uma boa prática. “O olho no olho é fundamental para criar confiabilidade.”
[img01] Em 1998, a Escola Estadual Ângelo Trevisan, em Curitiba, estava em vias de fechar. Localizada em um bairro de classe média, sofria com a deterioração física, a indisciplina e, sobretudo, com a baixa performance acadêmica. A qualidade do ensino era deplorável, com média próxima a 3 nas avaliações feitas pelo governo. Naquele ano, porém, as coisas começaram a mudar. Hoje, a média da escola nas mesmas provas chega a 7 – a melhor da rede pública do Paraná. A escola recebe prêmios de gestão e serve de modelo para outras instituições. Um dos principais segredos da mudança? A presença maciça das famílias, que hoje participam de encontros pedagógicos, eventos e de decisões estratégicas. São, por exemplo, as responsáveis pela festa junina, com a qual levantam recursos para adquirir para a escola equipamentos de última geração, relata a pedagoga Maria Gorete Estival Paula. “Temos a participação constante de pelo menos 80% dos pais”, comemora a educadora.
O exemplo paranaense é a face concreta do que um grande número de estudos vem demonstrando ao longo dos últimos 40 anos: famílias, escola e alunos compõem um trio inseparável num projeto educativo de sucesso. O tema se tornou tão importante que nos Estados Unidos já existem políticas públicas específicas para estimular a presença dos pais no ambiente educativo.
A escola de educação de Harvard criou até o Harvard Family Research Project, programa dedicado a auxiliar escolas e famílias a se entrosarem melhor. No Brasil, o Ministério da Educação começa a embarcar nessa onda e publicou, em 2008, um manual distribuído a pais de alunos em estabelecimentos públicos, mostrando a importância de participar da educação dos filhos.
“A escola que se abre para seu público é mais questionada, mas, se fica fechada, não há comunidade em torno dela” Marcelo Cunha Bueno
Não há contraindicações, apenas benefícios, qualquer que seja a idade do aluno. Para começar, a participação dos pais está diretamente ligada ao sucesso acadêmico. Facilita transições como da educação infantil e para o ensino fundamental, fortalece os vínculos sociais, ajuda a formar valores e estimula a inclusão, seja dos portadores de deficiência, seja dos que provêm de outras culturas e etnias. Alguns estudos sugerem, ainda, que a presença especificamente do pai influi nas atitudes do aluno diante da vida escolar e também na relação entre o aluno e seus professores.
PAIS FISCAIS E PAIS AUSENTES
Embora haja um consenso sobre o tema, na prática participar da vida escolar dentro do espaço educativo é uma equação delicada. De um lado, não é verdade que as escolas desejem sempre a participação dos familiares, que podem trazer mais críticas, ingerência e confusão de papéis. De outro, os pais nem sempre estão prontos a marcar presença, envolvidos numa rotina intensa de trabalho. A verdade é que, nesse campo, estamos todos aprendendo. Até 20 anos atrás, ainda era incomum que os pais participassem da educação dos filhos, quanto mais da vida escolar. O papel deles era entregar as crianças no portão, e os dois lados mantinham contatos formais esporádicos. De acordo com o pesquisador Joe Garcia, doutor em educação pela PUC-SP, isso está mudando. “Observo o surgimento de uma nova atitude nas escolas, mais em sintonia com a nossa época”, revela. “Cada vez mais, buscam abrir novos canais de diálogo, bem como os pais se mostram mais dispostos a colaborar.” Para ele, há vários níveis possíveis de participação. O mais básico – do qual, porém, boa parte das famílias brasileiras ainda está distante – é o apoio à aprendizagem em casa.
A partir daí, pode haver um envolvimento progressivo, que vai da participação nas reuniões formais e informais, passa pela atuação em eventos como voluntários e chega à participação em decisões colegiadas. É o caso do Colégio São Domingos, em São Paulo, que tem a Fundação São Paulo (a mesma da PUC) como mantenedora principal. Completando 50 anos em 2009, o São Domingos se diferencia pela gestão participativa, segundo o diretor Silvio Barini Pinto. Lá é frequente ver, por exemplo, um pai fotógrafo realizar oficinas para os alunos. Mas o sistema de gestão estabelece também que os pais tenham assento no Conselho de Escola e se tornem responsáveis pelas decisões, inclusive para garantir o acompanhamento do que foi combinado. Mas nem tudo é um mar de rosas. “O receio das escolas quanto à participação tem fundamento, pois existe o risco de se perder o foco quando as demandas individuais são muito dispersas”,lembra Barini.
Para evitar isso, de acordo com o diretor, é importante que os pais não se coloquem na posição de clientes, assumindo posturas “eu pago-eu quero”, mas que tenham um compromisso com o coletivo.“Temos aprendido muito ao trabalhar em parceria com os pais. Posso ouvi-los e processar suas demandas com base em princípios comuns a todos, mas para tanto é preciso que esses princípios sejam claros”, explica.
CRIANDO LAÇOS
O caso do São Domingos não é regra no segmento privado. Escolas particulares têm maiores dificuldades em definir os espaços de participação, mas também nessa área está em curso uma renovação. Segundo Elaine Moura, diretora do Colégio Santana, em São Paulo, a pré-condição é que haja uma boa definição do que é papel da escola e o que cabe aos pais.
Outro caminho é o estímulo à participação das famílias em eventos. Duas vezes por semestre, a Escola Estilo de Aprender, em São Paulo, torna-se um centro cultural, com peças de teatro, narrativa de histórias e shows musicais. O objetivo, conforme o diretor, Marcelo Cunha Bueno, é fazer com que os pais vejam a escola sob outra perspectiva. “Aquela que se abre para seu público é mais questionada, claro, mas, se fica fechada, não permite que se forme de fato uma comunidade em torno dela”, diz. Elevar a participação dos pais não é uma decisão apenas da escola. Poucas famílias frequentam os espaços de formação continuada, ou seja, dos cursos e palestras abertos às famílias para que discutam o processo educativo dos filhos.
Atrair os pais não é fácil, queixam- se os educadores. Embora o argumento seja sempre o da falta de tempo, a verdade é que, diferentemente de outras culturas, não há uma tradição comunitária na escola brasileira, que se revela no relacionamento fugaz com as instituições. Mas isso precisa mudar. Em síntese, está mais do que na hora de dar um passo além na relação com a instituição com quem divide a educação das crianças e jovens. Mais do que saber o que querem da escola, cabe às famílias descobrir agora o que podem fazer pela escola. Quem ganha é seu filho.
O LÍDER
Se procurar na memória, certamente você vai lembrar do diretor como uma figura sisuda e distante. Pois muitos pais carregaram para o presente essa visão anacrônica do diretor e são capazes de manter os filhos por mais de uma década na mesma instituição sem nunca ter trocado duas palavras com o gestor. Se é o seu caso, é hora de marcar uma visita ou de aproveitar um dos eventos da escola para entabular uma conversa. O assunto? Educação, é claro. O diretor ganha cada vez mais importância na educação contemporânea. “A liderança dele, conduzindo o grupo com suavidade e firmeza, é um dos itens que fazem uma escola ser melhor do que outra”, diz o economista Claudio de Moura Castro. Assim, se quer conhecer uma escola, um bom caminho é começar encontrando o diretor, pois provavelmente a instituição espelha seu líder.
Na rede pública, até pela falta de profissionais de nível intermediário, como coordenadores e professores, as comunidades têm mais acesso ao diretor. Contudo, como esses profissionais ainda são escolhidos majoritariamente por progressão na carreira, e não por méritos de gestão, eles nem sempre têm características típicas do líder, como a capacidade de articulação e mobilização de recursos. Quando o diretor possui tais atributos, as escolas costumam avançar, como ocorreu com a paranaense Ângelo Trevisan. A diretora, Antonia Lobato, que ganhou um prêmio nacional de gestão em 2004, recebe sucessivos convites para partilhar sua experiência, que se caracteriza pela perspectiva democrática. “Não tomo decisões sem ouvir as comissões de pais e sou acessível a toda a comunidade”, afirma. Na rede particular, o relacionamento das famílias pode ficar restrito aos coordenadores imediatos da série do filho ou aos orientadores, o que também é importante, mas não exclui uma conversa com o gestor. Para o diretor Silvio Barini, do São Domingos, manter a porta aberta é uma boa prática. “O olho no olho é fundamental para criar confiabilidade.”