Juntos
Unidos aprenderemos
Muito mais do que simplesmente dividir tarefas, trabalhar em grupo é uma excelente oportunidade de trocar experiências e conhecimento
Maria Clara Braz
Revista Bons Fluídos – 07/2009
[img01] O desgosto de ser julgado é o que motiva Garcin, personagem criado por Jean-Paul Sartre (1905-1980), a dizer a célebre frase “o inferno são os outros” durante a peça Huis Clos, de 1944. E é esse mesmo dissabor um dos motivos que faz com que muita gente torça o nariz quando tem de trabalhar em grupo — seja na faculdade, seja no curso de ioga, de artesanato ou de idiomas.
Por que será que nos sentimos incomodados nessa situação? “Porque não consideramos a riqueza que o momento coletivo, quando bem organizado, é capaz de proporcionar para a aprendizagem”, diz Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Não é de hoje que o tema é discutido e incentivado por profissionais ligados à educação. O psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) realizou estudos que comprovaram a influência do papel das relações interpessoais no desenvolvimento intelectual. E se firmou como um entusiasta das situações que provocavam interação – exatamente o oposto do que geralmente ocorre com o tradicional esquema “cada um faz um pedaço e depois alguém é eleito para montar o material a ser apresentado”. Em uma estrutura desconectada como essa, o intercâmbio do conhecimento não acontece, pois existe somente a simples divisão de tarefas. Ou seja, trata-se de algo muito aquém do que um trabalho em grupo, de fato, poderia acrescentar a seus integrantes.
Nos dias atuais, Anne Nelly Perret- Clermont, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, que é uma das mais renomadas estudiosas que se dedicam ao assunto, aponta para a importância da situação, ainda que as respostas alcançadas pelos estudantes estejam erradas. Eis aí um bom nome com que se apegar quando surgir uma pontinha de vergonha durante a avaliação feita pelo professor de uma tarefa em dupla de conversação em espanhol. Ok, vocês erraram o tempo verbal e precisam atentar mais a isso. Mas juntos, certamente, aprenderam novos vocábulos e aperfeiçoaram a pronúncia e a compreensão.
UM OLHAR DIFERENTE SOBRE O OUTRO
Para ver esse tipo de organização com bons olhos, como algo que realmente é proveitoso para proporcionar aprendizagem, é importante ter em mente que o conflito é algo inerente (e muito útil) à situação. Trocando em miúdos, é preciso dar ao companheiro de tarefa uma chance (e quantas mais forem necessárias) para que, juntos, todos aprendam e encontrem as soluções que estão buscando. “O enfrentamento de opiniões é importante para que a pessoa mude o foco, analise outros pontos de vista. Isso provoca a evolução do pensamento lógico”, diz Luciene. Então, desvincule a prática da ideia de batalha: nesse tipo de trabalho, ninguém deve agir querendo vencer o outro. E muito menos ter a pretensão de considerar o conhecimento de um colega como algo irrelevante. É a síntese de opiniões e dúvidas e a reflexão que ambas provocam que geram a aprendizagem.
A tudo isso deve-se somar ainda o entendimento de que a diversidade de competências é algo natural e imprescindível para favorecer a construção do saber em âmbito coletivo. Grupos homogêneos não apresentam vantagens pedagógicas. “Saberes em diferentes níveis ajudam o educador trazer à cena a questão da colaboração”, diz Beatriz Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá, de São Paulo. Quando o professor divide o trio de amigas inseparáveis e as coloca em grupos diferentes, ele fomenta o papel do aluno como informante — trabalhando com pessoas de círculos não muito familiares, cada uma delas tem muito a apresentar aos outros, tal como a ouvir. Quem já passou por essa situação sabe que o início é complicado, até que todos entrem em sintonia. Mas também reconhece que é bastante possível se surpreender e aprender com as estratégias de pensamento de um colega com quem nunca trocou um mísero bom-dia.
“O enfrentamento de opiniões é importante para que a pessoa mude o seu foco e analise outros pontos de vista”, Luciene Tognetta, professora de Psicologia Educacional
Por fim, a construção da autonomia é outro ponto a ser desenvolvido. Se a prática é aplicada desde os primeiros anos da escola, fica mais fácil desenvolver a ideia de como agir em duplas ou em grupos maiores e a relevância de falar com o colega e de escutá-lo. “Para os pequenos, o professor, ao dirigir um grupão, funciona como o modelo que permite que, no futuro, a turma possa caminhar bem dividida em grupinhos”, explica Beatriz.
UM NOVO OLHAR SOBRE MIM
Ao fugir do agrupamento e eleger o trabalho individual como algo melhor, nos esquivamos também da chance de aperfeiçoar nossa estrutura psicológica. Os tímidos evitam o crivo dos outros, mas se deparam, inevitavelmente, com situações de conflito interno a respeito da tarefa. Questionamentos que têm de ser resolvidos em silêncio, consultando seu próprio repertório. Se aproveitassem a oportunidade de agir coletivamente, poderiam exercitar sua confiança e teriam a chance de sanar suas dúvidas dialogando com seus iguais — os colegas — sem sentir o peso natural da relação professor/aluno.
Pessoas intolerantes, que têm certeza que de nada vale trabalhar com quem sabe o mesmo (ou menos) que elas, ou que admitem não ter paciência para ouvir opiniões diferentes, desperdiçam um momento precioso para aprender a trabalhar o autocontrole e o respeito.
Retomando o início desta reportagem, se Garcin tivesse tido a oportunidade de conhecer a obra de Henri Wallon (1879-1962), certamente teria mudado o olhar sobre o inferno a que foi condenado a viver para sempre. Afinal, é com a ajuda do outro que nos constituímos, esse outro que é o nosso eterno parceiro psicológico.
[img01] O desgosto de ser julgado é o que motiva Garcin, personagem criado por Jean-Paul Sartre (1905-1980), a dizer a célebre frase “o inferno são os outros” durante a peça Huis Clos, de 1944. E é esse mesmo dissabor um dos motivos que faz com que muita gente torça o nariz quando tem de trabalhar em grupo — seja na faculdade, seja no curso de ioga, de artesanato ou de idiomas.
Por que será que nos sentimos incomodados nessa situação? “Porque não consideramos a riqueza que o momento coletivo, quando bem organizado, é capaz de proporcionar para a aprendizagem”, diz Luciene Tognetta, professora do Departamento de Psicologia Educacional da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Não é de hoje que o tema é discutido e incentivado por profissionais ligados à educação. O psicólogo bielo-russo Lev Vygotsky (1896-1934) realizou estudos que comprovaram a influência do papel das relações interpessoais no desenvolvimento intelectual. E se firmou como um entusiasta das situações que provocavam interação – exatamente o oposto do que geralmente ocorre com o tradicional esquema “cada um faz um pedaço e depois alguém é eleito para montar o material a ser apresentado”. Em uma estrutura desconectada como essa, o intercâmbio do conhecimento não acontece, pois existe somente a simples divisão de tarefas. Ou seja, trata-se de algo muito aquém do que um trabalho em grupo, de fato, poderia acrescentar a seus integrantes.
Nos dias atuais, Anne Nelly Perret- Clermont, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, que é uma das mais renomadas estudiosas que se dedicam ao assunto, aponta para a importância da situação, ainda que as respostas alcançadas pelos estudantes estejam erradas. Eis aí um bom nome com que se apegar quando surgir uma pontinha de vergonha durante a avaliação feita pelo professor de uma tarefa em dupla de conversação em espanhol. Ok, vocês erraram o tempo verbal e precisam atentar mais a isso. Mas juntos, certamente, aprenderam novos vocábulos e aperfeiçoaram a pronúncia e a compreensão.
UM OLHAR DIFERENTE SOBRE O OUTRO
Para ver esse tipo de organização com bons olhos, como algo que realmente é proveitoso para proporcionar aprendizagem, é importante ter em mente que o conflito é algo inerente (e muito útil) à situação. Trocando em miúdos, é preciso dar ao companheiro de tarefa uma chance (e quantas mais forem necessárias) para que, juntos, todos aprendam e encontrem as soluções que estão buscando. “O enfrentamento de opiniões é importante para que a pessoa mude o foco, analise outros pontos de vista. Isso provoca a evolução do pensamento lógico”, diz Luciene. Então, desvincule a prática da ideia de batalha: nesse tipo de trabalho, ninguém deve agir querendo vencer o outro. E muito menos ter a pretensão de considerar o conhecimento de um colega como algo irrelevante. É a síntese de opiniões e dúvidas e a reflexão que ambas provocam que geram a aprendizagem.
A tudo isso deve-se somar ainda o entendimento de que a diversidade de competências é algo natural e imprescindível para favorecer a construção do saber em âmbito coletivo. Grupos homogêneos não apresentam vantagens pedagógicas. “Saberes em diferentes níveis ajudam o educador trazer à cena a questão da colaboração”, diz Beatriz Gouveia, coordenadora do programa Além das Letras, do Instituto Avisa Lá, de São Paulo. Quando o professor divide o trio de amigas inseparáveis e as coloca em grupos diferentes, ele fomenta o papel do aluno como informante — trabalhando com pessoas de círculos não muito familiares, cada uma delas tem muito a apresentar aos outros, tal como a ouvir. Quem já passou por essa situação sabe que o início é complicado, até que todos entrem em sintonia. Mas também reconhece que é bastante possível se surpreender e aprender com as estratégias de pensamento de um colega com quem nunca trocou um mísero bom-dia.
“O enfrentamento de opiniões é importante para que a pessoa mude o seu foco e analise outros pontos de vista”, Luciene Tognetta, professora de Psicologia Educacional
Por fim, a construção da autonomia é outro ponto a ser desenvolvido. Se a prática é aplicada desde os primeiros anos da escola, fica mais fácil desenvolver a ideia de como agir em duplas ou em grupos maiores e a relevância de falar com o colega e de escutá-lo. “Para os pequenos, o professor, ao dirigir um grupão, funciona como o modelo que permite que, no futuro, a turma possa caminhar bem dividida em grupinhos”, explica Beatriz.
UM NOVO OLHAR SOBRE MIM
Ao fugir do agrupamento e eleger o trabalho individual como algo melhor, nos esquivamos também da chance de aperfeiçoar nossa estrutura psicológica. Os tímidos evitam o crivo dos outros, mas se deparam, inevitavelmente, com situações de conflito interno a respeito da tarefa. Questionamentos que têm de ser resolvidos em silêncio, consultando seu próprio repertório. Se aproveitassem a oportunidade de agir coletivamente, poderiam exercitar sua confiança e teriam a chance de sanar suas dúvidas dialogando com seus iguais — os colegas — sem sentir o peso natural da relação professor/aluno.
Pessoas intolerantes, que têm certeza que de nada vale trabalhar com quem sabe o mesmo (ou menos) que elas, ou que admitem não ter paciência para ouvir opiniões diferentes, desperdiçam um momento precioso para aprender a trabalhar o autocontrole e o respeito.
Retomando o início desta reportagem, se Garcin tivesse tido a oportunidade de conhecer a obra de Henri Wallon (1879-1962), certamente teria mudado o olhar sobre o inferno a que foi condenado a viver para sempre. Afinal, é com a ajuda do outro que nos constituímos, esse outro que é o nosso eterno parceiro psicológico.