como gente grande
Pequenos diplomatas
Quatro adolescentes de escolas públicas de São Paulo vão representar o Brasil em simulação de reunião da ONU, na cidade de Nova York, em maio
Por Thays Prado
Planeta Sustentável - 11/03/2008
Com calças jeans, camisetas e tênis, eles adentram a sala de reuniões da sede da ANUBRA - Associação das Nações Unidas - Brasil que contém uma daquelas mesas enormes, típicas dos executivos. Vieram para aprimorar o inglês, aprender boas maneiras e "comportamento diplomático", entender mais sobre as normas da ONU - Organização das Nações Unidas, desenvolver a retórica, saber negociar e redigir documentos formais.
Falantes, com a empolgação típica dos 16 anos, eles estão ansiosos: vão andar de avião pela primeira vez, conhecer Nova York, conviver com jovens de mais de 15 países e falar somente em inglês por uma semana. Se essas parecem emoções fortes o bastante para quatro adolescentes, acrescente três dias de reunião no prédio da ONU, negociando interesses de diferentes países e propondo soluções diplomáticas ao mundo!
Essa será a missão de Laís Moreira, Helga Gonçalves, Diego Soares e Caio Mansini. Alunos de escolas públicas da cidade de São Paulo, eles concorreram com 450 estudantes pelas quatro vagas disponibilizadas pelo Global Classrooms, um programa que organiza simulações gratuitas de reuniões da ONU com alunos do Ensino Médio em escolas da rede pública estadual de São Paulo. No Brasil, o Global Classrooms é realizado pela ANUBRA, com o apoio da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
PROCESSO SELETIVO
Durante oito meses, eles pesquisaram sobre temas indicados pela ONU, como pobreza, conflitos armados, proteção de refugiados e meio ambiente. Inicialmente, foi aplicada uma prova de conhecimentos gerais, em português, para os mil alunos que se inscreveram. Desses, 450 foram escolhidos para simular um debate em sala de aula, como os que acontecem de verdade na organização.
Nas escolas, cada grupo de alunos ficou responsável por defender um país em um determinado comitê, que era encarregado de propor soluções para uma dada questão primordial. Diego precisou defender o Camboja, no SOCHUM (Social, Humanitário e Cultural) e pensar em como repatriar seus refugiados; Laís representou os interesses da França na OMS (Organização Mundial de Saúde) e discutiu como erradicar as principais epidemias globais; Helga também ficou com a França, mas no UNSC (sigla em inglês do Conselho de Segurança das Nações Unidas), o órgão mais poderoso da ONU; e Caio participou do mesmo comitê, mas sob o ponto de vista da Rússia. Os dois tiveram de encontrar saídas para acabar com o terrorismo. No UNSC as defesas deviam ser feitas em inglês.
"O comitê não é para você aprender sobre o país. Você já tem que ir sabendo sobre as posições daquele país e defender os interesses dele", explica Diego. "E o mais interessante é que você precisa assumir um país que não é o seu e apresentar argumentos favoráveis a ele, mesmo que você não concorde com aquilo e ainda que seja contra o Brasil!", complementa Helga. "Também precisamos desenvolver o espírito de negociação levando em conta as diferentes realidades culturais de cada lugar", conta Laís. "A gente se diverte estudando, porque encontra aplicação prática para aquilo", se empolga Caio.
Ao final de dois dias de discussão, eles apresentaram uma resolução para o desafio dado. Seria bom que os grandes líderes mundiais pudessem aprender com esses pequenos diplomatas cheios de boa vontade, que propuseram:
- Auxílio dos países desenvolvidos aos mais carentes - com a criação de um relatório bianual para garantir que o dinheiro chegasse a quem realmente precisa -, mais alimentação, saúde e educação para combater o terrorismo, já que, principalmente em países pobres, os grupos radicais cuidam da população carente que adere à causa (alguma semelhança com as favelas brasileiras?);
- Dar mais atenção à África no combate à AIDS, não apenas distribuindo métodos contraceptivos, mas também promovendo a reeducação da população, que ainda tem conceitos religiosos bastante arraigados (outro ponto em comum conosco?). "Não se muda a cultura de um país, mas, com o tempo, o povo pode perceber que algum conceito não é mais útil para o seu dia-a-dia", explica Laís e
- Cuidar dos refugiados do país vizinho, enquanto este cuida dos seus refugiados, proporcionando-lhes condições de vida favoráveis até que voltem aos países de origem, numa verdadeira lição de solidariedade.
Sessenta e três alunos ganharam menção honrosa por seu desempenho nessa etapa. Desses, 48 - do 1º e do 2º ano do Ensino Médio - foram convidados a fazer uma redação sobre corrupção no Brasil. Em seguida, realizaram uma prova em inglês e, por fim, passaram por uma entrevista em português e inglês, quando os quatro foram selecionados.
NA ONU
Em maio, os garotos vão passar uma semana em Nova York e, durante três dias, repetirão a experiência, só que, desta vez, a simulação acontece no próprio prédio da ONU. Eles ficaram responsáveis por defender os interesses da Tanzânia, um país da África Oriental. Dois deles vão participar do comitê da OMS e os outros dois, do comitê da Assembléia Geral.
Os quatro estão estudando o país a fundo, para saber defendê-lo bem. Eles já adiantam que, ao contrário da imagem que temos de países africanos com condições humanas precárias, a Tanzânia é o único país da África em que todos os direitos humanos são cumpridos e homens e mulheres são tratados em perfeita igualdade. Esse deve ser um dos argumentos fortes do grupo para pressionar países como os Estados Unidos a melhorar suas posturas.
A coordenadora do Global Classrooms, Raquel Mozzer, diz que, na verdade, é o Brasil que vão representar, demonstrando aos outros estudantes que os brasileiros são tão inteligentes e cultos quanto o restante do mundo e que têm muito a dividir.
E se o país da simulação na ONU fosse mesmo o Brasil? Eles dizem que defenderiam o meio-ambiente, em especial a Floresta Amazônica. Os meninos iriam deixar bem claro para os americanos que a Amazônia é dos brasileiros; puniriam os estrangeiros que vêm fazer pesquisas por aqui sem autorização do governo e mudariam a cultura de submissão do Brasil diante de outros países mais desenvolvidos.
Aliás, essa é outra lição dos quatro para os negociadores do futuro do mundo: "Todos os países têm os mesmos direitos. Os membros que estão em debate são seres humanos, independentemente do país que representam. É preciso que haja respeito e não medo. O chamado 'comportamento diplomático' ensina que é possível argumentar e defender os próprios direitos com classe".
O exercício é uma excelente oportunidade para os estudantes aprenderem sobre cidadania, mas os acordos firmados são todos fictícios. E na prática, será que eles acreditam que podem mudar o mundo de verdade? A resposta é unânime: "Se conseguirmos influenciar as pessoas que estão próximas, elas poderão exercer essa influência sobre mais pessoas e assim por diante", argumenta Laís. Diego é ainda mais enfático: "Assim, uma grande mudança será apenas uma conseqüência". "Afinal, nós somos o futuro do mundo", lembra Caio. E Helga completa: "Estamos prontos para fazer a diferença".
Com calças jeans, camisetas e tênis, eles adentram a sala de reuniões da sede da
ANUBRA - Associação das Nações Unidas - Brasil que contém uma daquelas mesas enormes, típicas dos executivos. Vieram para aprimorar o inglês, aprender boas maneiras e "comportamento diplomático", entender mais sobre as normas da
ONU - Organização das Nações Unidas, desenvolver a retórica, saber negociar e redigir documentos formais.
Falantes, com a empolgação típica dos 16 anos, eles estão ansiosos: vão andar de avião pela primeira vez, conhecer Nova York, conviver com jovens de mais de 15 países e falar somente em inglês por uma semana. Se essas parecem emoções fortes o bastante para quatro adolescentes, acrescente três dias de reunião no prédio da ONU, negociando interesses de diferentes países e propondo soluções diplomáticas ao mundo!
Essa será a missão de Laís Moreira, Helga Gonçalves, Diego Soares e Caio Mansini. Alunos de escolas públicas da cidade de São Paulo, eles concorreram com 450 estudantes pelas quatro vagas disponibilizadas pelo
Global Classrooms, um programa que organiza simulações gratuitas de reuniões da ONU com alunos do Ensino Médio em escolas da rede pública estadual de São Paulo. No Brasil, o Global Classrooms é realizado pela ANUBRA, com o apoio da
Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
PROCESSO SELETIVO
Durante oito meses, eles pesquisaram sobre temas indicados pela ONU, como pobreza, conflitos armados, proteção de refugiados e meio ambiente. Inicialmente, foi aplicada uma prova de conhecimentos gerais, em português, para os mil alunos que se inscreveram. Desses, 450 foram escolhidos para simular um debate em sala de aula, como os que acontecem de verdade na organização.
Nas escolas, cada grupo de alunos ficou responsável por defender um país em um determinado comitê, que era encarregado de propor soluções para uma dada questão primordial. Diego precisou defender o Camboja, no
SOCHUM (Social, Humanitário e Cultural) e pensar em como repatriar seus refugiados; Laís representou os interesses da França na
OMS (Organização Mundial de Saúde) e discutiu como erradicar as principais epidemias globais; Helga também ficou com a França, mas no
UNSC (sigla em inglês do Conselho de Segurança das Nações Unidas), o órgão mais poderoso da ONU; e Caio participou do mesmo comitê, mas sob o ponto de vista da Rússia. Os dois tiveram de encontrar saídas para acabar com o terrorismo. No UNSC as defesas deviam ser feitas em inglês.
"O comitê não é para você aprender sobre o país. Você já tem que ir sabendo sobre as posições daquele país e defender os interesses dele", explica Diego. "E o mais interessante é que você precisa assumir um país que não é o seu e apresentar argumentos favoráveis a ele, mesmo que você não concorde com aquilo e ainda que seja contra o Brasil!", complementa Helga. "Também precisamos desenvolver o espírito de negociação levando em conta as diferentes realidades culturais de cada lugar", conta Laís. "A gente se diverte estudando, porque encontra aplicação prática para aquilo", se empolga Caio.
Ao final de dois dias de discussão, eles apresentaram uma resolução para o desafio dado. Seria bom que os grandes líderes mundiais pudessem aprender com esses pequenos diplomatas cheios de boa vontade, que propuseram:
-
Auxílio dos países desenvolvidos aos mais carentes - com a criação de um relatório bianual para garantir que o dinheiro chegasse a quem realmente precisa -, mais alimentação, saúde e educação para combater o terrorismo, já que, principalmente em países pobres, os grupos radicais cuidam da população carente que adere à causa (alguma semelhança com as favelas brasileiras?);
-
Dar mais atenção à África no combate à AIDS, não apenas distribuindo métodos contraceptivos, mas também promovendo a reeducação da população, que ainda tem conceitos religiosos bastante arraigados (outro ponto em comum conosco?). "Não se muda a cultura de um país, mas, com o tempo, o povo pode perceber que algum conceito não é mais útil para o seu dia-a-dia", explica Laís e
-
Cuidar dos refugiados do país vizinho, enquanto este cuida dos seus refugiados, proporcionando-lhes condições de vida favoráveis até que voltem aos países de origem, numa verdadeira lição de solidariedade.
Sessenta e três alunos ganharam menção honrosa por seu desempenho nessa etapa. Desses, 48 - do 1º e do 2º ano do Ensino Médio - foram convidados a fazer uma redação sobre corrupção no Brasil. Em seguida, realizaram uma prova em inglês e, por fim, passaram por uma entrevista em português e inglês, quando os quatro foram selecionados.
NA ONU
Em maio, os garotos vão passar uma semana em Nova York e, durante três dias, repetirão a experiência, só que, desta vez, a simulação acontece no próprio prédio da ONU. Eles ficaram responsáveis por defender os interesses da Tanzânia, um país da África Oriental. Dois deles vão participar do comitê da OMS e os outros dois, do comitê da
Assembléia Geral.
Os quatro estão estudando o país a fundo, para saber defendê-lo bem. Eles já adiantam que, ao contrário da imagem que temos de países africanos com condições humanas precárias, a Tanzânia é o único país da África em que todos os direitos humanos são cumpridos e homens e mulheres são tratados em perfeita igualdade. Esse deve ser um dos argumentos fortes do grupo para pressionar países como os Estados Unidos a melhorar suas posturas.
A coordenadora do Global Classrooms, Raquel Mozzer, diz que, na verdade, é o Brasil que vão representar, demonstrando aos outros estudantes que os brasileiros são tão inteligentes e cultos quanto o restante do mundo e que têm muito a dividir.
E se o país da simulação na ONU fosse mesmo o Brasil? Eles dizem que defenderiam o meio-ambiente, em especial a Floresta Amazônica. Os meninos iriam deixar bem claro para os americanos que a Amazônia é dos brasileiros; puniriam os estrangeiros que vêm fazer pesquisas por aqui sem autorização do governo e mudariam a cultura de submissão do Brasil diante de outros países mais desenvolvidos.
Aliás, essa é outra lição dos quatro para os negociadores do futuro do mundo: "Todos os países têm os mesmos direitos. Os membros que estão em debate são seres humanos, independentemente do país que representam. É preciso que haja respeito e não medo. O chamado 'comportamento diplomático' ensina que é possível argumentar e defender os próprios direitos com classe".
O exercício é uma excelente oportunidade para os estudantes aprenderem sobre cidadania, mas os acordos firmados são todos fictícios. E na prática, será que eles acreditam que podem mudar o mundo de verdade? A resposta é unânime: "Se conseguirmos influenciar as pessoas que estão próximas, elas poderão exercer essa influência sobre mais pessoas e assim por diante", argumenta Laís. Diego é ainda mais enfático: "Assim, uma grande mudança será apenas uma conseqüência". "Afinal, nós somos o futuro do mundo", lembra Caio. E Helga completa: "Estamos prontos para fazer a diferença".