Caiaques
Estruturas impermanentes
O artista plástico Eduardo Srur fez em 2006 uma intervenção urbana soltando diversos caiaques no rio Pinheiros, em Sâo Paulo. Srur convidou o jornalista Marcelo Rezende para contar suas impressões e detalhar o projeto
Por Marcelo Rezende*
"Escolha o que você quer fazer - ou veja alguém fazendo algo. Aprenda como usar as ferramentas, ou apenas ouça sua canção favorita. (...) Se debruce sobre o espaço com um drink e observe o que está acontecendo em outra parte da cidade. Tente iniciar um distúrbio nas ruas ou comece uma pintura - ou apenas deite-se e olhe para o céu." Esse é o convite feito pelo arquiteto britânico Cedric Price em seu projeto The Fun Palace (1961, nunca realizado) - a construção de um espaço para a deriva e a diversão como atividade educativa e política. Price, um dos grandes e mais influentes pensadores das questões arquitetônica, acreditava na idéia de que uma cidade necessita de soluções não permanentes para seus problemas, porque ela é também uma construção sem fim, ou, ainda, uma destruição sem início preciso. A cidade, a constituição de um olhar sobre a cidade e o opressivo e encantador binômio carregar/descarregar são os elementos que Eduardo Srur usa como matéria no projeto "Caiaques", uma intervenção urbana na qual a obra é menos aquilo que pode ser visto, mas, e essencialmente, o que pode ser ouvido.
Ouvir, aqui, traduz um processo de reação. No dia 1º de outubro de 2006, Srur espalhou cem caiaques "conduzidos" por 150 manequins em um trecho do rio Pinheiros, no centro da capital paulista. O Pinheiros, assim como o Tietê, não é apenas um rio; é um dos signos de São Paulo, um dos signos que a cidade possui sobre seus erros. Isso significa, para seus moradores, assumir uma identidade que soma caos, desordem militante, sujeira, violência, desvios urbanos e administrativos que constituem a história e o presente de um dos maiores centros urbanos no mundo, como se as intenções de Price tivessem atravessado uma violenta distopia e São Paulo fosse destinada a ser um Sad Palace; logo, o Pinheiros é um signo para ser esquecido. Não seria possível recusá-lo ou abandoná-lo, restando então uma única estratégia para o esquecimento: a invisibilidade, fazendo desta uma - frágil - proteção contra a definição lacaniana de civilização: "Civilização é merda, cloaca máxima".
Tornar um rio invisível não é uma tarefa simples ou solitária. Esquecer um objeto, uma questão histórica e social ou um marco urbano é sempre resultado de um esforço coletivo, uma energia dirigida para uma única função, que é exatamente a de eliminar qualquer ação energética desse espaço na cidade; ele deve, de todas as maneiras, desaparecer. Energia não é apenas uma metáfora. É toda uma situação de controle, de dedos para cima ou dedos para baixo indicando o que merece ou não continuar vivo, um esquema sempre em ação. Retirar a enegia de algo é condená-lo ao esquecimento ou, em casos mais extremos, à morte.
Eduardo Srur, com seus caiaques, oferece um curto-circuito. Srur se propõe a criar uma situação na qual seja possível eliminar a barreira da invisibilidade a fim de que esse elemento moribundo, em estado de dissipação, possa ser recarregado de um potencial de reflexão. Pensar sobre algo (ou alguém) é admitir, de início, que existe ao menos mais de uma possibilidade... Seus caiaques sobre a água funcionam como verdadeiras linhas de força, criando uma luminosidade em torno do rio e das escolhas feitas pela cidade e seus cidadãos - por essas linhas é possível observar essa parte maldita sendo devolvida ao imaginário da cidade, que se vê mais uma vez diante de algo, antes, inexistente; de invisível, agora se torna presente, capaz de dar vida a um murmúrio urbano, um no qual mesmo quem não pôde ver o Pinheiros invadido por caiaques, ao menos ouviu algo sobre esse acontecimento. Tudo se expande, porque algo foi recarregado, recuperado por uma ação energética.
Deriva
Em novembro de 1956, na revista surrealista belga Les Lèvres Nues, Guy Debord apresenta sua Teoria da Deriva, uma "técnica de passagem rápida através de ambientes variados". Debord pensa um método, dentro de seu imenso sistema, para penetrar e avançar na cidade: "Na deriva, uma ou mais pessoas durante um certo período abandonam suas relações, seu trabalho e suas atividades de lazer, todas suas outras razões de movimento e ação, e se deixam levar pelas atrações do lugar e pelos encontros que descobrem lá. O acaso é um fator menos importante do que parece: do ponto de vista da deriva, as cidades têm contornos psicogeográficos, com correntes constantes, pontos fixos e turbilhões que desencorajam fortemente a entrada ou a saída de certas zonas". A cidade, a organização urbana, é palco privilegiado para a experiência psicogeográfica, "o estudo dos efeitos da condição geográfica, controlada conscientemente ou não, agindo diretamente nos modos e no comportamento do indivíduo".
Para a psicogeografia, o espaço urbano é composto não apenas de edifícios, vias, viadutos e avenidas. O que percorre essa mais evidente descrição de uma cidade é algo menos palpável. As cidades podem ser imaginadas, projetadas, executadas, mas seu funcionamento, seus regimes de força são determinados a partir de uma cartografia emocional. O que é amado ou detestado, a área proibida ou francamente aberta, é determinado por questões que avançam para além das estruturas físicas, se expandem em um horizonte muito maior do que aquele que os olhos alcançam.
Em seu primeiro momento, "Caiaques" provoca na cidade o processo de redescobrimento de um espaço. Com a situação construída - e o rumor servindo de meio de passagem para a informação -, a intervenção ganha um segundo instante. Da mesma maneira que os bonecos em caiaques coloridos compõem a ação, mas não a "obra", definida esta pela recuperação de uma parte da cidade antes invisível (socialmente e politicamente invisível), os efeitos gerados pelo trabalho são também parte constitutiva de todo o projeto.
Os comentários sobre "Caiaques" na mídia de São Paulo (reduzindo a aparição dos bonecos a uma espécie de "arte-denúncia", sobretudo "contra a poluição dos rios da capital"), definem de que maneira a situação criada por Eduardo Srur é apropriada pela cidade. O Pinheiros se torna uma "metáfora" sobre a nação, sobretudo com a imagem de caiaques encalhados no lixo do rio, em um formato "lembrando" o mapa do Brasil. Tudo se torna "leituras"; os bonecos flutuando sobre a água passam a ser "como de brinquedo", enquanto se coloca em suspeita - um quase hábito nesses casos - o signficado da arte agora.
Sob esse discurso, "Caiaques" mostra, se disfarça uma defesa. Quando o rio Pinheiros reaparece, ele ressurge no papel de objeto do passado ou do futuro, e nunca do presente, como se dissesse respeito a um cidadão de outra parte e o lixo não fosse resultado de um projeto de civilização; e as decisões em torno dos rumos do lugar, e do rio, não pertencessem mais àquela cidade e a seus moradores. Eduardo Srur, com sua ação, uma construção impermanente, coloca a cidade em xeque, cria uma zona de conflito. Mesmo que os caiaques tenham sido retirados do rio, eles, de alguma maneira, continuam visíveis. Não se trata mais do que a cidade dá, mas sim do que ela, à força, retira.
* Marcelo Rezende é escritor e jornalista. É autor do romance Arno Schmidt (Planeta, 2005) e do ensaio Ciência do Sonho - A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry (Alameda, 2005). Criou e dirige a coleção de ensaios Situações.
"Escolha o que você quer fazer - ou veja alguém fazendo algo. Aprenda como usar as ferramentas, ou apenas ouça sua canção favorita. (...) Se debruce sobre o espaço com um drink e observe o que está acontecendo em outra parte da cidade. Tente iniciar um distúrbio nas ruas ou comece uma pintura - ou apenas deite-se e olhe para o céu." Esse é o convite feito pelo arquiteto britânico Cedric Price em seu projeto
The Fun Palace (1961, nunca realizado) - a construção de um espaço para a deriva e a diversão como atividade educativa e política. Price, um dos grandes e mais influentes pensadores das questões arquitetônica, acreditava na idéia de que uma cidade necessita de soluções não permanentes para seus problemas, porque ela é também uma construção sem fim, ou, ainda, uma destruição sem início preciso. A cidade, a constituição de um olhar sobre a cidade e o opressivo e encantador binômio carregar/descarregar são os elementos que Eduardo Srur usa como matéria no projeto "Caiaques", uma intervenção urbana na qual a obra é menos aquilo que pode ser visto, mas, e essencialmente, o que pode ser ouvido.
Ouvir, aqui, traduz um processo de reação. No dia 1º de outubro de 2006, Srur espalhou cem caiaques "conduzidos" por 150 manequins em um trecho do rio Pinheiros, no centro da capital paulista. O Pinheiros, assim como o Tietê, não é apenas um rio; é um dos signos de São Paulo, um dos signos que a cidade possui sobre seus erros. Isso significa, para seus moradores, assumir uma identidade que soma caos, desordem militante, sujeira, violência, desvios urbanos e administrativos que constituem a história e o presente de um dos maiores centros urbanos no mundo, como se as intenções de Price tivessem atravessado uma violenta distopia e São Paulo fosse destinada a ser um Sad Palace; logo, o Pinheiros é um signo para ser esquecido. Não seria possível recusá-lo ou abandoná-lo, restando então uma única estratégia para o esquecimento: a invisibilidade, fazendo desta uma - frágil - proteção contra a definição lacaniana de civilização: "Civilização é merda, cloaca máxima".
Tornar um rio invisível não é uma tarefa simples ou solitária. Esquecer um objeto, uma questão histórica e social ou um marco urbano é sempre resultado de um esforço coletivo, uma energia dirigida para uma única função, que é exatamente a de eliminar qualquer ação energética desse espaço na cidade; ele deve, de todas as maneiras, desaparecer. Energia não é apenas uma metáfora. É toda uma situação de controle, de dedos para cima ou dedos para baixo indicando o que merece ou não continuar vivo, um esquema sempre em ação. Retirar a enegia de algo é condená-lo ao esquecimento ou, em casos mais extremos, à morte.
Eduardo Srur, com seus caiaques, oferece um curto-circuito. Srur se propõe a criar uma situação na qual seja possível eliminar a barreira da invisibilidade a fim de que esse elemento moribundo, em estado de dissipação, possa ser recarregado de um potencial de reflexão. Pensar sobre algo (ou alguém) é admitir, de início, que existe ao menos mais de uma possibilidade... Seus caiaques sobre a água funcionam como verdadeiras linhas de força, criando uma luminosidade em torno do rio e das escolhas feitas pela cidade e seus cidadãos - por essas linhas é possível observar essa parte maldita sendo devolvida ao imaginário da cidade, que se vê mais uma vez diante de algo, antes, inexistente; de invisível, agora se torna presente, capaz de dar vida a um murmúrio urbano, um no qual mesmo quem não pôde ver o Pinheiros invadido por caiaques, ao menos ouviu algo sobre esse acontecimento. Tudo se expande, porque algo foi recarregado, recuperado por uma ação energética.
Deriva
Em novembro de 1956, na revista surrealista belga Les Lèvres Nues, Guy Debord apresenta sua Teoria da Deriva, uma "técnica de passagem rápida através de ambientes variados". Debord pensa um método, dentro de seu imenso sistema, para penetrar e avançar na cidade: "Na deriva, uma ou mais pessoas durante um certo período abandonam suas relações, seu trabalho e suas atividades de lazer, todas suas outras razões de movimento e ação, e se deixam levar pelas atrações do lugar e pelos encontros que descobrem lá. O acaso é um fator menos importante do que parece: do ponto de vista da deriva, as cidades têm contornos psicogeográficos, com correntes constantes, pontos fixos e turbilhões que desencorajam fortemente a entrada ou a saída de certas zonas". A cidade, a organização urbana, é palco privilegiado para a experiência psicogeográfica, "o estudo dos efeitos da condição geográfica, controlada conscientemente ou não, agindo diretamente nos modos e no comportamento do indivíduo".
Para a psicogeografia, o espaço urbano é composto não apenas de edifícios, vias, viadutos e avenidas. O que percorre essa mais evidente descrição de uma cidade é algo menos palpável. As cidades podem ser imaginadas, projetadas, executadas, mas seu funcionamento, seus regimes de força são determinados a partir de uma cartografia emocional. O que é amado ou detestado, a área proibida ou francamente aberta, é determinado por questões que avançam para além das estruturas físicas, se expandem em um horizonte muito maior do que aquele que os olhos alcançam.
Em seu primeiro momento, "Caiaques" provoca na cidade o processo de redescobrimento de um espaço. Com a situação construída - e o rumor servindo de meio de passagem para a informação -, a intervenção ganha um segundo instante. Da mesma maneira que os bonecos em caiaques coloridos compõem a ação, mas não a "obra", definida esta pela recuperação de uma parte da cidade antes invisível (socialmente e politicamente invisível), os efeitos gerados pelo trabalho são também parte constitutiva de todo o projeto.
Os comentários sobre "Caiaques" na mídia de São Paulo (reduzindo a aparição dos bonecos a uma espécie de "arte-denúncia", sobretudo "contra a poluição dos rios da capital"), definem de que maneira a situação criada por Eduardo Srur é apropriada pela cidade. O Pinheiros se torna uma "metáfora" sobre a nação, sobretudo com a imagem de caiaques encalhados no lixo do rio, em um formato "lembrando" o mapa do Brasil. Tudo se torna "leituras"; os bonecos flutuando sobre a água passam a ser "como de brinquedo", enquanto se coloca em suspeita - um quase hábito nesses casos - o signficado da arte agora.
Sob esse discurso, "Caiaques" mostra, se disfarça uma defesa. Quando o rio Pinheiros reaparece, ele ressurge no papel de objeto do passado ou do futuro, e nunca do presente, como se dissesse respeito a um cidadão de outra parte e o lixo não fosse resultado de um projeto de civilização; e as decisões em torno dos rumos do lugar, e do rio, não pertencessem mais àquela cidade e a seus moradores. Eduardo Srur, com sua ação, uma construção impermanente, coloca a cidade em xeque, cria uma zona de conflito. Mesmo que os caiaques tenham sido retirados do rio, eles, de alguma maneira, continuam visíveis. Não se trata mais do que a cidade dá, mas sim do que ela, à força, retira.
* Marcelo Rezende é escritor e jornalista. É autor do romance Arno Schmidt (Planeta, 2005) e do ensaio Ciência do Sonho - A imaginação sem fim do diretor Michel Gondry (Alameda, 2005). Criou e dirige a coleção de ensaios Situações.