Vamos fugir?
Cultura ocidental e juventude
Maria Rita Kehl comenta o papel que a juventude ocupa no imaginário da cultura ocidental
O papel que a juventude ocupa no imaginário da cultura ocidental, e as repercussões sociais e de saúde pública dessa percepção - como o uso de drogas -, foi comentado no Espaço Cultural CPFL pela psicanalista Maria Rita Kehl. Ela fez suas observações como parte do módulo que discutiu o impacto na vida por causa das rápidas transformações em curso na sociedade contemporânea.
Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo e autora de livros como "Videologias" (Boitempo Editorial, com Eugênio Bucci), "O amor é uma droga pesada" (Vertente, 1983), "A Mínima Diferença - O Masculino e o Feminino na Cultura" (Imago, 1996) e "Sobre Ética e Psicanálise" (Companhia das Letras, 2002).
MODOS DE SOFRER
Para a psicanalista, a cultura ocidental é a que acredita ser possível viver sem nenhuma dor. Que acredita que boa vida é "só de prazeres, só de conquistas, realizações, sucesso, palavra muito usada". Assim, é uma cultura que "não produz modos de sofrer", ao contrário por exemplo do Cristianismo, "que durante séculos produziu modos se sofrer".
Na tradição judaico-cristã, observou, as pessoas "aceitam o sofrimento porque acham que Deus enviou o sofrimento, sofrer é normal, e isso não deixa de ser um conforto. As pessoas não deixam de sofrer, mas o sofrimento faz sentido".
A corrente literário-filosófica do Romantismo que prosperou na Alemanha e outros países entre os séculosXVIII eXIX também enfatizou o sofrimento, pela "perda de relação com a natureza, pela separação da natureza, pela impossibilidade da comunhão com o todo". No Romantismo, o sofrimento tornou-se, enfim, fonte de inspiração poética, sinal de sensibilidade.
Estes são os modos de produção de sofrimento no contexto de algumas culturas. "O sofrimento passa a ter sentido para a pessoa que sofre", disse.
A CULTURA DOS PRAZERES E DASDROGAS
A atual cultura do Ocidente, em contrapartida, é uma cultura individualista e hedonista. "É a cultura dos prazeres, em que o sofrimento nos deixa em uma solidão absoluta. Cada um fica sozinho com seu sofrimento e tem vergonha de dizer para o outro que sofre. Porque, afinal, sofrer é coisa de otário! Quem é esperto não sofre!" No Brasil as pessoas ainda se amparam mais, mas em alguns países essa postura é exacerbada, notou.
E nesse sentido as drogas, salientou Maria Rita Kehl, se tornam uma porta de entrada, se transformam em um escape, "em algo que apazigua, se transforma em objeto poderoso, capaz de proporcionar grandes coisas, e também é um objeto proibido, que seduz".
MUDANÇA CULTURAL
A cultura dos prazeres, disse, está associada à cultura do consumo, atual fase do capitalismo. O capitalismo de produção, do séculoXIX e início do século XX, foi construído pelo culto à renúncia do prazer, "as pessoas tinham que se sacrificar para produzir, o que marcou muito a ética protestante, por exemplo, e Freud cuidou do sujeito produzido por esse contexto".
Mas agora é diferente. É o capitalismo de consumo,do imperativo do prazer. "Mas todos sabemos que não é bem assim, não é só fazer isso e o prazer vem imediatamente. E mesmo que os imperativos de consumo se dirijam a todos em uma sociedade, a resposta só é possível para alguns. Muita gente fica de fora. Aí é que a droga entra, como um objeto que substituiria a todas as outras mercadorias que o cara não pode ter e que ele todo dia vê anunciadas que ele deveria ter".
ADOLESCENTES, AS VÍTIMAS
Maria Rita Kehl entende que os adolescentes talvez sejam, hoje, "as maiores vítimas desse imperativo do gozo que está na cultura". A publicidade, porta-voz mais importante desse imperativo de prazer, de felicidade absoluta, de gozo sem limites, "tem no jovem a figura privilegiada. Ele é o eleito para gozar. A criança ainda tem que ser educada, tem que ir para a escola, tem algumas tarefas, ainda está sob as ordens do pai e da mãe. Mas o adolescente, no imaginário da publicidade e da telenovela, é aquele que chegou, digamos, no potencial da vida adulta que já tem, com certa autonomia no ir e vir e de consumir, e ao mesmo tempo não tem as responsabilidades da vida adulta. Então, é a figura privilegiada, a qual se dirigem todos os apelos de consumo".
Mesmo quando a marca anunciada pela publicidade seja para consumo de adultos, a imagem que será usada é a do jovem e do adolescente. "A não ser que seja propaganda e um creme anti-rugas ou algo assim", brincou a psicanalista.
CERCADOS DE GOZANTES
Assim, todos estamos hoje, disse Maria Rita Kehl, "cercados de adolescentes gozantes", em propagandas de tênis, carro, roupa, cerveja, espalhadas por outdoors, televisão ou capas de revista.
E o adolescente, observou, naturalmente se identifica com essa imagem que é devolvida a ele, de gozo total. "Mas todos sabemos que ser adolescente não é um gozo absoluto. Ser adolescente é uma época de inseguranças, ele perdeu o corpo de criança e ainda não está à vontade com o novo corpo, que não é totalmente adulto ainda. Ele mudou de turma, a família não protege mais, tem que se proteger sozinho e tem medo da rejeição. O adolescente fica apavorado sem amigos".
De novo, a porta da droga se oferece. "Nessa idade - que não é o pleno gozo que a publicidade representa -é muito fácil para o adolescente resolver o seu problema, a sua inadequação, a sua solidão, a suadificuldade de dominar os códigos da vida adulta, o seu medo do futuro pelo caminho da droga, que está aberto para ele."
PORTAS DE ENTRADA
Maria Rita Kehl assinala que, em termos bem pessoais, acredita que a cultura ocidental oferece duas grandes portas para o adolescente entrar na vida adulta. Uma é a porta do shopping center, "onde ele pode ir sozinho, é lugar protegido". E a outra é "a porta da maconha", o rito de entrada para a vida adulta em alguns círculos.
Ela entende ser fundamental, então, que sejam oferecidas outras "portas de entrada" para o jovem, em termos por exemplo de atuação política, de ação social, de informação, de cultura, de estímulo à criatividade, como ocorria na geração da contracultura dos anos 60.
A VISÃO DOS ADULTOS
Outra questão a ser considerada, advertiu a psicanalista, é que "os pais também são influenciados pela cultura individualista, hedonista, da pós-modernidade. Achamos que temos filhos para poder dar tudo a eles. Se não pudermos dar tudo a eles, somos fracassados".
Muitas vezes, assinalou, os pais depositam nos filhos, principalmente na adolescência, "as nossas fantasias, o que a gente queria ter tido de boa vida e não teve. E essa nossa fantasia favorece o caminho da drogadição", alertou.
Pressionados, estimuladospela cultura do hiper-consumo e do prazer, os jovens podem encontrar na droga, de novo, a porta de entrada, e que muitas vezes será a porta de saída da vida. É assim um desafio para os pais procurarem entender o que está acontecendo e contribuir para ajudar os filhos a encontrar as outras portas, as da criatividade, das ações política e cultural, marcadas pela valorização da vida e do não-consumo pelo puro consumo.
O papel que a juventude ocupa no imaginário da cultura ocidental, e as repercussões sociais e de saúde pública dessa percepção - como o uso de drogas -, foi comentado no Espaço Cultural CPFL pela psicanalista Maria Rita Kehl. Ela fez suas observações como parte do módulo que discutiu o impacto na vida por causa das rápidas transformações em curso na sociedade contemporânea.
Maria Rita Kehl é doutora em psicanálise pela PUC de São Paulo e autora de livros como "Videologias" (Boitempo Editorial, com Eugênio Bucci), "O amor é uma droga pesada" (Vertente, 1983), "A Mínima Diferença - O Masculino e o Feminino na Cultura" (Imago, 1996) e "Sobre Ética e Psicanálise" (Companhia das Letras, 2002).
MODOS DE SOFRER
Para a psicanalista, a cultura ocidental é a que acredita ser possível viver sem nenhuma dor. Que acredita que boa vida é "só de prazeres, só de conquistas, realizações, sucesso, palavra muito usada". Assim, é uma cultura que "não produz modos de sofrer", ao contrário por exemplo do Cristianismo, "que durante séculos produziu modos se sofrer".
Na tradição judaico-cristã, observou, as pessoas "aceitam o sofrimento porque acham que Deus enviou o sofrimento, sofrer é normal, e isso não deixa de ser um conforto. As pessoas não deixam de sofrer, mas o sofrimento faz sentido".
A corrente literário-filosófica do Romantismo que prosperou na Alemanha e outros países entre os séculosXVIII eXIX também enfatizou o sofrimento, pela "perda de relação com a natureza, pela separação da natureza, pela impossibilidade da comunhão com o todo". No Romantismo, o sofrimento tornou-se, enfim, fonte de inspiração poética, sinal de sensibilidade.
Estes são os modos de produção de sofrimento no contexto de algumas culturas. "O sofrimento passa a ter sentido para a pessoa que sofre", disse.
A CULTURA DOS PRAZERES E DASDROGAS
A atual cultura do Ocidente, em contrapartida, é uma cultura individualista e hedonista. "É a cultura dos prazeres, em que o sofrimento nos deixa em uma solidão absoluta. Cada um fica sozinho com seu sofrimento e tem vergonha de dizer para o outro que sofre. Porque, afinal, sofrer é coisa de otário! Quem é esperto não sofre!" No Brasil as pessoas ainda se amparam mais, mas em alguns países essa postura é exacerbada, notou.
E nesse sentido as drogas, salientou Maria Rita Kehl, se tornam uma porta de entrada, se transformam em um escape, "em algo que apazigua, se transforma em objeto poderoso, capaz de proporcionar grandes coisas, e também é um objeto proibido, que seduz".
MUDANÇA CULTURAL
A cultura dos prazeres, disse, está associada à cultura do consumo, atual fase do capitalismo. O capitalismo de produção, do séculoXIX e início do século XX, foi construído pelo culto à renúncia do prazer, "as pessoas tinham que se sacrificar para produzir, o que marcou muito a ética protestante, por exemplo, e Freud cuidou do sujeito produzido por esse contexto".
Mas agora é diferente. É o capitalismo de consumo,do imperativo do prazer. "Mas todos sabemos que não é bem assim, não é só fazer isso e o prazer vem imediatamente. E mesmo que os imperativos de consumo se dirijam a todos em uma sociedade, a resposta só é possível para alguns. Muita gente fica de fora. Aí é que a droga entra, como um objeto que substituiria a todas as outras mercadorias que o cara não pode ter e que ele todo dia vê anunciadas que ele deveria ter".
ADOLESCENTES, AS VÍTIMAS
Maria Rita Kehl entende que os adolescentes talvez sejam, hoje, "as maiores vítimas desse imperativo do gozo que está na cultura". A publicidade, porta-voz mais importante desse imperativo de prazer, de felicidade absoluta, de gozo sem limites, "tem no jovem a figura privilegiada. Ele é o eleito para gozar. A criança ainda tem que ser educada, tem que ir para a escola, tem algumas tarefas, ainda está sob as ordens do pai e da mãe. Mas o adolescente, no imaginário da publicidade e da telenovela, é aquele que chegou, digamos, no potencial da vida adulta que já tem, com certa autonomia no ir e vir e de consumir, e ao mesmo tempo não tem as responsabilidades da vida adulta. Então, é a figura privilegiada, a qual se dirigem todos os apelos de consumo".
Mesmo quando a marca anunciada pela publicidade seja para consumo de adultos, a imagem que será usada é a do jovem e do adolescente. "A não ser que seja propaganda e um creme anti-rugas ou algo assim", brincou a psicanalista.
CERCADOS DE GOZANTES
Assim, todos estamos hoje, disse Maria Rita Kehl, "cercados de adolescentes gozantes", em propagandas de tênis, carro, roupa, cerveja, espalhadas por outdoors, televisão ou capas de revista.
E o adolescente, observou, naturalmente se identifica com essa imagem que é devolvida a ele, de gozo total. "Mas todos sabemos que ser adolescente não é um gozo absoluto. Ser adolescente é uma época de inseguranças, ele perdeu o corpo de criança e ainda não está à vontade com o novo corpo, que não é totalmente adulto ainda. Ele mudou de turma, a família não protege mais, tem que se proteger sozinho e tem medo da rejeição. O adolescente fica apavorado sem amigos".
De novo, a porta da droga se oferece. "Nessa idade - que não é o pleno gozo que a publicidade representa -é muito fácil para o adolescente resolver o seu problema, a sua inadequação, a sua solidão, a suadificuldade de dominar os códigos da vida adulta, o seu medo do futuro pelo caminho da droga, que está aberto para ele."
PORTAS DE ENTRADA
Maria Rita Kehl assinala que, em termos bem pessoais, acredita que a cultura ocidental oferece duas grandes portas para o adolescente entrar na vida adulta. Uma é a porta do shopping center, "onde ele pode ir sozinho, é lugar protegido". E a outra é "a porta da maconha", o rito de entrada para a vida adulta em alguns círculos.
Ela entende ser fundamental, então, que sejam oferecidas outras "portas de entrada" para o jovem, em termos por exemplo de atuação política, de ação social, de informação, de cultura, de estímulo à criatividade, como ocorria na geração da contracultura dos anos 60.
A VISÃO DOS ADULTOS
Outra questão a ser considerada, advertiu a psicanalista, é que "os pais também são influenciados pela cultura individualista, hedonista, da pós-modernidade. Achamos que temos filhos para poder dar tudo a eles. Se não pudermos dar tudo a eles, somos fracassados".
Muitas vezes, assinalou, os pais depositam nos filhos, principalmente na adolescência, "as nossas fantasias, o que a gente queria ter tido de boa vida e não teve. E essa nossa fantasia favorece o caminho da drogadição", alertou.
Pressionados, estimuladospela cultura do hiper-consumo e do prazer, os jovens podem encontrar na droga, de novo, a porta de entrada, e que muitas vezes será a porta de saída da vida. É assim um desafio para os pais procurarem entender o que está acontecendo e contribuir para ajudar os filhos a encontrar as outras portas, as da criatividade, das ações política e cultural, marcadas pela valorização da vida e do não-consumo pelo puro consumo.