


Existe forte tendência para que, na discussão sobre o pós-Kyoto,os países em desenvolvimento como o Brasil, China e Índia também sejam levados a assumir metas para redução de emissões de gasescausadores doefeito estufa, como acontece hoje com os países industrializados. Essa discussão começa na 13ª Conferência das Partes (COP-13) da Convenção do Clima, entre 3 e 14 de dezembro em Bali, na Indonésia.
As observações são da dra. Suzana Kahn Ribeiro, professora da COPPE/UFRJ, e foram feitas, no dia 24 demaio,durante sua exposição no painel científico internacional sobre o aquecimento global realizado no espaço Cultural CPFL, em Campinas (SP). O painel científico tem a curadoria do climatologista Carlos Nobre (CPTEC/INPE).
Integrante do Grupo de Trabalho III do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a professora Suzana comentou vários aspectos políticos associados ao debate sobre o aquecimento global.
EMISSÕES ESTÁVEIS
A professora da COPPE/UFRJ comentou que o IPCC trabalha com a perspectiva de estabilização das emissões de gasesprovocadores doefeito estufa em torno de 450 partes por milhão (ppm). Atualmente, o índice é de cerca de 380 ppm, contra 280 ppm no início da Era Industrial. E o Grupo de Trabalho III, do qual faz parte, apresentou em seu último relatório, divulgado no início de maio em Bangkok, Tailândia, as medidas que podem ser tomadas até 2030 para a estabilização.
AUMENTO DA TEMPERATURA
Com 450 a 480 ppm de dióxido de carbono equivalente, a temperatura média global deve aumentar em cerca de 2 graus Celsius. A dra.Suzana observou que isto é muito no sistema climático global, sendo equivalente a uma passagem de Era Glacial para Inter-Glacial.
PÓS-KYOTO
Pelo Protocolo de Kyoto, de 1997, apenas os países industrializados, integrantes do Anexo I, têm metas (em média em 5%) para reduzir emissões de gasesresponsáveis peloefeito estufa, entre 2008 e 2012. Mas as emissões globais aumentaram em 70% entre 1970 e 2004, em função principalmente do alto crescimento econômico de países em desenvolvimento como China, queprecisam demais energia.
Por isso, ela acredita que em algum momento os países em desenvolvimento devem se comprometer com a redução de suas emissões, e essa discussão estará presente na COP-13 em Bali, no final de 2007. Já existe pressão dos países industrializados para que isso ocorra.
ALTERNATIVAS JÁ EXISTEM
Dra.Suzana Kahn Ribeiro observou que as alternativas tecnológicas e gerenciais para a redução das emissões de gases de efeito estufa de fontes antropogênicas já existem. "Não existe a necessidade de grandes saltos tecnológicos", destacou. O que existe, então, é o imperativo da tomada de decisão, de políticas públicas para que as medidas sejam levadas à prática. O papel dos cientistas, observou, vem sendo feito, que é o de apontar os caminhos existentes.
RELATÓRIOS DO IPCC
A conferencista observou que os relatórios do IPCC consideram apenas a literatura já existente, à base dos livros, artigos científicos e estudos comprovados. E a maior parte dessa literatura, destacou, é produzida nos países industrializados. Por isso, defendeu a urgente necessidade de incremento de pesquisas sobre as alternativas de combate ao aquecimento global que vêm sendo implementadas em países em desenvolvimento.
Em função do predomínioprodução acadêmicanos países industrializados, ocorre, eventualmente, a percepção de que os relatórios poderiam estar sendo dirigidos.
A professora, contudo,ressaltou que interferências políticas não acontecem na confecção e divulgação dos relatórios. Mas admitiu que existe debate de natureza política quando é discutido, nas plenárias do IPCC, o sumário para tomadores de decisão, que é direcionado então aos líderes dos países.
Comentou também que no relatório do Grupo III, por exemplo, representantes do Canadá reclamaram que não foi incluída a alternativa de veículos movidos a célula de combustível, setor no qual o governo canadense investe em pesquisas.
Dra.Suzana lembrou que os relatórios apenas consideram as experiências comprovadas pela literatura existente, e nesse campo, os veículos a célula de combustível não são considerados viáveis economicamente até 2030, que é o horizonte trabalhado pelo IPCC. Do mesmo modo, apontou como países escandinavos e a Alemanha defendem com ênfase a energia eólica, exatamente porque são os maiores produtores mundiais dessa tecnologia.
POTENCIAIS DE REDUÇÃO
De acordo com o relatório do Grupo de Trabalho III do IPCC, que trata das alternativas de mitigação das emissões de gases de efeito estufa, o setor de edificações (residencial, comercial) é o que apresenta maior potencial de redução de poluentes, a custos mais baixos, com a aplicação do uso eficiente de energia e outras medidas.
A esse respeito, o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) do governo brasileiro foi indicado como exemplo de ação interessante. A redução de desmatamento, maior causa de emissão de gases-estufa no Brasil (por causa da situação naAmazônia), também apresenta alto potencial de redução, com custos menores.
CUSTOS POLÍTICOS
Medidas para mitigar a emissão dos gases têm custos políticos, "que muitas vezes os governos não querem arcar", lembrou a dra. Suzana no Espaço Cultural CPFL. Casos, por exemplo, de rodízios e pedágios em áreas urbanas, como já aconteceu com sucesso em Londres. Apenas essa medida, que teve muita reação inicial da opinião pública, resultou em uma diminuição das emissões em 20% pelo setor de transportes na capital britânica.
O aumentodo uso de biocombustível, a transferência de modal, o incentivo a uso de transporte não motorizado, a redução de subsídios para quem usa combustível de origem fóssil são outras alternativas de mitigação, identificadas no relatório do GT-III do IPCC, e que demandam ações de ordem política.
A professora da COPPE/UFRJ comentou o caso da inspeção veicular, medida de baixo custo que poderia auxiliar na redução de emissões pelo setor de transportes no Brasil. Mas a maior parte dos veículos com problemas nesse sentido, notou, é de famílias de baixa renda, e nesse aspecto torna-se uma questão social e política. "Qual o político que iria arcar com esse ônus, de apertar a fiscalização em um setor que poderia prejudicar parte da população?", indagou.
ESTILO DE VIDA
A professora dra.Suzana Kahn Ribeiro considerou uma grande vitória a inclusão, no relatório do GT-III, pela primeira vez na trajetória do IPCC da mudança de estilo de vida como uma medida fundamental para mitigar as emissões de gases que contribuem para o aquecimento global. Houve resistência, por exemplo, dos Estados Unidosna inclusão do tema no sumário para tomadores de decisão.
Mas, de fato, para a conferencista, a questão do estilo de vida é essencial. Não faz sentido, disse, prosseguir o modelo de um veículo pesado, com baixa eficiência, transportando apenas uma pessoa. Daí a necessidade de estímulo a alternativas eficientes para o transporte coletivo, como as aplicadas em Curitiba (PR) e Bogotá, Colômbia.
Mesmo nesse caso, ela lembrou que em muitas linhas do Rio de Janeiro, por exemplo, os ônibus trafegam vazios em grande parte do tempo. Assim, o ônibus não é, por si só, uma alternativa mais eficiente que o veículo particular. Depende da forma como ele é usado.
"Isso porque são as linhas mais rentáveis, circulando na Zona Sul da cidade, onde as pessoas pegam ônibus e saltam logo em seguida", disse. Diferente, por exemplo, das linhas para bairros distantes, utilizadas pelos moradores apenas uma vez por dia. E, nesse caso, não existe o interesse das empresas em colocar mais ônibus à disposição.
ACORDOS GLOBAIS
A mitigação das emissões, completou a dra.Suzana, não será alcançada apenas com uma medida isolada. Pode ser obtida com um conjunto de medidas e praticada pelo conjunto dos países, daí a necessidade de acordos globais cada vez mais refinados. E são acordos com implicações políticas, por exemplo, como a necessária transferência de tecnologia, hoje muito concentrada nos países ricos, industrializados.
As observações são da dra. Suzana Kahn Ribeiro, professora da COPPE/UFRJ, e foram feitas, no dia 24 demaio,durante sua exposição no painel científico internacional sobre o aquecimento global realizado no espaço Cultural CPFL, em Campinas (SP). O painel científico tem a curadoria do climatologista Carlos Nobre (CPTEC/INPE).
Integrante do Grupo de Trabalho III do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a professora Suzana comentou vários aspectos políticos associados ao debate sobre o aquecimento global.
EMISSÕES ESTÁVEIS
A professora da COPPE/UFRJ comentou que o IPCC trabalha com a perspectiva de estabilização das emissões de gasesprovocadores doefeito estufa em torno de 450 partes por milhão (ppm). Atualmente, o índice é de cerca de 380 ppm, contra 280 ppm no início da Era Industrial. E o Grupo de Trabalho III, do qual faz parte, apresentou em seu último relatório, divulgado no início de maio em Bangkok, Tailândia, as medidas que podem ser tomadas até 2030 para a estabilização.
AUMENTO DA TEMPERATURA
Com 450 a 480 ppm de dióxido de carbono equivalente, a temperatura média global deve aumentar em cerca de 2 graus Celsius. A dra.Suzana observou que isto é muito no sistema climático global, sendo equivalente a uma passagem de Era Glacial para Inter-Glacial.
PÓS-KYOTO
Pelo Protocolo de Kyoto, de 1997, apenas os países industrializados, integrantes do Anexo I, têm metas (em média em 5%) para reduzir emissões de gasesresponsáveis peloefeito estufa, entre 2008 e 2012. Mas as emissões globais aumentaram em 70% entre 1970 e 2004, em função principalmente do alto crescimento econômico de países em desenvolvimento como China, queprecisam demais energia.
Por isso, ela acredita que em algum momento os países em desenvolvimento devem se comprometer com a redução de suas emissões, e essa discussão estará presente na COP-13 em Bali, no final de 2007. Já existe pressão dos países industrializados para que isso ocorra.
ALTERNATIVAS JÁ EXISTEM
Dra.Suzana Kahn Ribeiro observou que as alternativas tecnológicas e gerenciais para a redução das emissões de gases de efeito estufa de fontes antropogênicas já existem. "Não existe a necessidade de grandes saltos tecnológicos", destacou. O que existe, então, é o imperativo da tomada de decisão, de políticas públicas para que as medidas sejam levadas à prática. O papel dos cientistas, observou, vem sendo feito, que é o de apontar os caminhos existentes.
RELATÓRIOS DO IPCC
A conferencista observou que os relatórios do IPCC consideram apenas a literatura já existente, à base dos livros, artigos científicos e estudos comprovados. E a maior parte dessa literatura, destacou, é produzida nos países industrializados. Por isso, defendeu a urgente necessidade de incremento de pesquisas sobre as alternativas de combate ao aquecimento global que vêm sendo implementadas em países em desenvolvimento.
Em função do predomínioprodução acadêmicanos países industrializados, ocorre, eventualmente, a percepção de que os relatórios poderiam estar sendo dirigidos.
A professora, contudo,ressaltou que interferências políticas não acontecem na confecção e divulgação dos relatórios. Mas admitiu que existe debate de natureza política quando é discutido, nas plenárias do IPCC, o sumário para tomadores de decisão, que é direcionado então aos líderes dos países.
Comentou também que no relatório do Grupo III, por exemplo, representantes do Canadá reclamaram que não foi incluída a alternativa de veículos movidos a célula de combustível, setor no qual o governo canadense investe em pesquisas.
Dra.Suzana lembrou que os relatórios apenas consideram as experiências comprovadas pela literatura existente, e nesse campo, os veículos a célula de combustível não são considerados viáveis economicamente até 2030, que é o horizonte trabalhado pelo IPCC. Do mesmo modo, apontou como países escandinavos e a Alemanha defendem com ênfase a energia eólica, exatamente porque são os maiores produtores mundiais dessa tecnologia.
POTENCIAIS DE REDUÇÃO
De acordo com o relatório do Grupo de Trabalho III do IPCC, que trata das alternativas de mitigação das emissões de gases de efeito estufa, o setor de edificações (residencial, comercial) é o que apresenta maior potencial de redução de poluentes, a custos mais baixos, com a aplicação do uso eficiente de energia e outras medidas.
A esse respeito, o Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel) do governo brasileiro foi indicado como exemplo de ação interessante. A redução de desmatamento, maior causa de emissão de gases-estufa no Brasil (por causa da situação naAmazônia), também apresenta alto potencial de redução, com custos menores.
CUSTOS POLÍTICOS
Medidas para mitigar a emissão dos gases têm custos políticos, "que muitas vezes os governos não querem arcar", lembrou a dra. Suzana no Espaço Cultural CPFL. Casos, por exemplo, de rodízios e pedágios em áreas urbanas, como já aconteceu com sucesso em Londres. Apenas essa medida, que teve muita reação inicial da opinião pública, resultou em uma diminuição das emissões em 20% pelo setor de transportes na capital britânica.
O aumentodo uso de biocombustível, a transferência de modal, o incentivo a uso de transporte não motorizado, a redução de subsídios para quem usa combustível de origem fóssil são outras alternativas de mitigação, identificadas no relatório do GT-III do IPCC, e que demandam ações de ordem política.
A professora da COPPE/UFRJ comentou o caso da inspeção veicular, medida de baixo custo que poderia auxiliar na redução de emissões pelo setor de transportes no Brasil. Mas a maior parte dos veículos com problemas nesse sentido, notou, é de famílias de baixa renda, e nesse aspecto torna-se uma questão social e política. "Qual o político que iria arcar com esse ônus, de apertar a fiscalização em um setor que poderia prejudicar parte da população?", indagou.
ESTILO DE VIDA
A professora dra.Suzana Kahn Ribeiro considerou uma grande vitória a inclusão, no relatório do GT-III, pela primeira vez na trajetória do IPCC da mudança de estilo de vida como uma medida fundamental para mitigar as emissões de gases que contribuem para o aquecimento global. Houve resistência, por exemplo, dos Estados Unidosna inclusão do tema no sumário para tomadores de decisão.
Mas, de fato, para a conferencista, a questão do estilo de vida é essencial. Não faz sentido, disse, prosseguir o modelo de um veículo pesado, com baixa eficiência, transportando apenas uma pessoa. Daí a necessidade de estímulo a alternativas eficientes para o transporte coletivo, como as aplicadas em Curitiba (PR) e Bogotá, Colômbia.
Mesmo nesse caso, ela lembrou que em muitas linhas do Rio de Janeiro, por exemplo, os ônibus trafegam vazios em grande parte do tempo. Assim, o ônibus não é, por si só, uma alternativa mais eficiente que o veículo particular. Depende da forma como ele é usado.
"Isso porque são as linhas mais rentáveis, circulando na Zona Sul da cidade, onde as pessoas pegam ônibus e saltam logo em seguida", disse. Diferente, por exemplo, das linhas para bairros distantes, utilizadas pelos moradores apenas uma vez por dia. E, nesse caso, não existe o interesse das empresas em colocar mais ônibus à disposição.
ACORDOS GLOBAIS
A mitigação das emissões, completou a dra.Suzana, não será alcançada apenas com uma medida isolada. Pode ser obtida com um conjunto de medidas e praticada pelo conjunto dos países, daí a necessidade de acordos globais cada vez mais refinados. E são acordos com implicações políticas, por exemplo, como a necessária transferência de tecnologia, hoje muito concentrada nos países ricos, industrializados.























