
Maurício Barros de Castro – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 04/05/2009
Espremidas entre o tráfico de drogas e a pobreza, as favelas cariocas se reinventam e mostram à sociedade sua capacidade de resistir ao preconceito e criar alternativas para mudar o cenário em volta. Essas mudanças só foram possíveis graças às ações sociais e culturais orquestradas por instituições criadas nos próprios morros, que acreditam na inclusão social e na sustentabilidade das comunidades.
[img1]Um exemplo incontestável é o Grupo Cultural Afro Reggae, que surgiu em janeiro de 1993 inspirado pelo jornal Afro Reggae Notícias, produzido por jovens da periferia carioca com o objetivo de valorizar e divulgar ritmos da cultura negra, como reggae e o soul. Foi nesse ano que, na favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio de Janeiro, 21 moradores foram executados por policiais militares.
O episódio ficou conhecido como “Chacina de Vigário Geral” e chocou o país, mas foi um momento oportuno para implementar o projeto que pretendia oferecer uma formação cultural e artística aos jovens moradores das comunidades. Um mês depois do crime, o Afro Reggae entrou na favela e inaugurou seu primeiro “Núcleo de Cultura Comunitária”, com a missão de trazer alternativas ao subemprego e ao tráfico de drogas para a juventude local.
Vitor Onofre, coordenador do núcleo de Vigário Geral é um dos exemplos do acerto dessa iniciativa. Ele aderiu ao Afro Reggae logo no início, em 1993. Na época, era um adolescente de 13 anos, revoltado com o crime que tinha abalado sua comunidade. “Não posso imaginar que rumo minha vida teria tomado se não tivesse ingressado no Grupo. O que existia antes dele era tráfico, violência e drogas. Não tínhamos no que nos espelhar porque os traficantes é que promoviam as festas e comemorações na favela. Com o Afro Reggae isso mudou”, salienta.
O Afro Reggae tornou-se, então, o mais famoso projeto social nascido numa favela do Rio. Sua história chegou a ser contada no cinema, no filme Favela Rising. Mas o Grupo não ficou limitado aos muros de Vigário e se instalou em outros morros da cidade - mais precisamente em Parada de Lucas, Cidade de Deus, Cantagalo, Pavão-Pavãozinho - além de fazer apresentações e realizar oficinas em diversos países. O carro-chefe da instituição é a música e a Banda Afro Reggae, mas também mantém diversos subgrupos que atuam em outras áreas, como o circo, o teatro e a dança. “Apesar de ser nossa referência mais conhecida - a banda de música é fruto do trabalho social que desenvolvemos -, todos os que fazem parte dela estão envolvidos com os projetos sociais que implantamos na comunidade”, explica Vitor.
Além da cultura e da arte, outra forma de romper com a desigualdade social nas favelas é a educação. Este é o foco principal do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM). Esta Associação Civil, sem fins lucrativos, surgiu, em 1997, no Complexo da Maré, que abrange o maior número de favelas do Rio de Janeiro. São 16 no total e reúnem cerca de 130 mil moradores.
Localizada entre as margens da Avenida Brasil e da Baía de Guanabara, no bairro de Bonsucesso, a Maré é um complexo onde atuam facções rivais do tráfico de drogas. Os conflitos são constantes e os territórios demarcados por comunidades vizinhas, mas “inimigas”. Neste contexto, o CEASM foi criado por moradores que cresceram na comunidade e que conseguiram transpor a barreira da exclusão, alcançando a Universidade. “A idéia inicial era criar uma instituição que oferecesse oportunidades para que os jovens da Maré chegassem ao nível de educação superior, como nós”, conta Lourenço Cesar, fundador e coordenador de projeto do CEASM.
O Centro iniciou suas atividades com um pré-vestibular que, em dez anos de existência, conseguiu colocar nas universidades 800 alunos de dentro e fora da Maré. Atualmente, também atinge milhares de moradores com 14 projetos diferenciados, que englobam educação, esportes, cultura e capacitação profissional em diversas áreas, como fotografia, produção gráfica, teatro, música, dança e guia de museus. O premiado “Museu da Favela”, criado pela instituição e localizado no Complexo, já contabiliza 16 mil visitas.
Em 2002, o CEASM produziu o espetáculo “Dança das Marés”, dirigido pelo coreógrafo paulistano Ivaldo Bertazzo e protagonizado por 62 jovens da comunidade. Esse encontro também rendeu o livro “Vida na favela”, com textos do médico Drauzio Varela. “Inicialmente a idéia do Bertazzo foi trazer jovens da Maré para fazer oficinas. Depois desse projeto, vários deles conseguiram chegar às companhias e faculdades de dança”, explica Lourenço Cesar.
TEATRO E CINEMA, NA ZONA SUL
[img3]Além da zona norte, a área nobre da cidade do Rio também registra bons exemplos de projetos sociais importantes criados nas favelas. Eles lançaram luz sobre as encostas da zona sul carioca. Um trabalho pioneiro é o Nós do Morro, fundado em 1986, no Morro do Vidigal, localizado em São Conrado. A idéia foi do jornalista e ator Guti Fraga, que também morava na comunidade. Ao lado de um grupo de jovens moradores, deu início a uma proposta inovadora: o Teatro-Comunidade, que originou o grupo de dramaturgos e atores da favela.
“O diferencial do grupo Nós do Morro é que, até então, os projetos que entravam nas comunidades vinham de fora da favela. Desde 1976, Guti morava no Vidigal”, lembra Luiz Paulo Corrêa e Castro, autor das peças e adaptações, além de ser o único fundador do grupo que nasceu na favela de São Conrado.
Mais de vinte anos depois, já foram encenadas 75 peças, tendo como protagonistas - no papel de atores, atrizes, diretores e técnicos - os jovens do Vidigal e de outras favelas da cidade. Com a consolidação do Nós do Morro, o projeto se ampliou e, atualmente, oferece cursos de formação nas áreas de teatro (atores e técnicos) e cinema (roteiristas, diretores e técnicos). “Até 2004, só aceitávamos moradores do Vidigal, mas como a procura é muito grande, acabamos abrindo a participação para quem mora em outras comunidades”, explica Luiz Paulo. Neste ano, o grupo conta com 530 alunos e 60 pessoas que compõem seu corpo técnico.
O aprendizado adquirido com o Nós do Morro está rendendo uma série de frutos, como prêmios e convites para outros trabalhos. O jovem Babu Santana, “prata da casa”, foi premiado pela Academia Brasileira de Cinema (ABC) como melhor ator coadjuvante de 2008, pela sua participação no filme Estômago.
O grupo também vai participar da realização das oficinas para a preparação da equipe técnica e do elenco do filme “5 Vezes Favela”. O projeto é coordenado por Cacá Diegues e o filme, que será dividido em cinco episódios, terá dois deles dirigidos por Luciana Bezerra e Luciano Vidigal, integrantes do Nós do Morro. “O nosso resultado é indireto. Quem passa por aqui tem seus horizontes ampliados, consegue romper as distâncias sociais e participar de outras realidades. Por isso nossa perda para o tráfico é mínima”, analisa o dramaturgo.
MORRINHO: BRINCADEIRA VIRA DOCUMENTÁRIO
[img2]Ainda na zona sul, no bairro de Laranjeiras, está sendo realizada uma “pequena revolução”, conforme o slogan criado pelos fundadores da Ong Morrinho. Localizada na Vila Pereira da Silva, mais conhecida como “Favela do Pereirão”, a iniciativa surgiu de uma história lúdica e, ao mesmo tempo, inusitada: uma maquete de 300 m2, construída pelos jovens moradores do lugar, que fica exposta ao ar livre na comunidade e pode ser visitada por turistas.
O Morrinho - como é chamada a maquete - reconstitui o Pereirão em detalhes minuciosos que revelam o cotidiano do local. Miniaturas de quadras de baile funk, bocas de fumo, vielas, escadarias, ruas, biroscas, praças e delegacias dão uma visão privilegiada da vida numa favela carioca. Uma perspectiva que não fugiu aos olhos dos diretores Fábio Gavião e Marco Oliveira, que subiram o morro em 2001, para realizar um documentário sobre o trabalho dos garotos do Pereirão. “Quando vi o Morrinho, pela primeira vez, fiquei embasbacado. Falei para os garotos que, sem querer, eles criaram algo mais do que uma brincadeira: fizeram uma obra de arte”, elogia Gavião.
O documentário, em fase de finalização, conta como surgiu o Morrinho, que começou a ser construído, em 1998, por Neucirlam de Oliveira, um adolescente de 14 anos, que havia chegado do interior do Rio e se encantou com a vastidão da favela. Com a ajuda do irmão Maiquinho, ele iniciou uma brincadeira sobre aquele universo. Com o tempo passaram a usar tijolos, por ser um material resistente às chuvas, para dar vida a seu mundo. O brinquedo cresceu e atraiu outros garotos da comunidade. “Desses oito rapazes que participam do Morrinho, talvez dois ou três não estivessem mais vivos caso não se envolvessem com esse projeto. Sua repercussão deu a eles outra perspectiva de vida”, reflete o documentarista.
A arte dos jovens já foi exposta em várias mostras internacionais e deu origem à Ong Morrinho, que atua em quatro eixos: produtora de TV, exposição, turismo e projeto social, oferecendo oficinas de vídeo para os moradores da comunidade do Pereirão. Uma das mais novas iniciativas que existem nas favelas cariocas, o Morrinho tem encontrado dificuldades em se solidificar. “Apesar de termos exposto em vários países da Europa não conseguimos encontrar os parceiros que precisamos. No final das contas, a realidade se impôs e muitos dos garotos estão trabalhando em outras atividades”, explica Gavião, que se afastou do projeto para finalizar o documentário.
Apesar das dificuldades, a chama da esperança continua acesa. O Morrinho acaba de se tornar um Ponto de Cultura do Ministério da Cultura – MinC. A instituição atualmente é dirigida pelo jovem Neucirlam, que deu origem à brincadeira que virou obra de arte. Seu irmão, Maiquinho, se tornou um MC de sucesso nos bailes funk da cidade. A maquete também continua atraindo visitantes. “O turismo é a forma do Morrinho se manter sustentável”, acredita o diretor. Mais do isso, é uma das pequenas revoluções que acontecem nas favelas cariocas.
Maurício Barros de Castro – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 04/05/2009
Espremidas entre o tráfico de drogas e a pobreza, as favelas cariocas se reinventam e mostram à sociedade sua capacidade de resistir ao preconceito e criar alternativas para mudar o cenário em volta. Essas mudanças só foram possíveis graças às ações sociais e culturais orquestradas por instituições criadas nos próprios morros, que acreditam na inclusão social e na sustentabilidade das comunidades.
[img1]Um exemplo incontestável é o Grupo Cultural Afro Reggae, que surgiu em janeiro de 1993 inspirado pelo jornal Afro Reggae Notícias, produzido por jovens da periferia carioca com o objetivo de valorizar e divulgar ritmos da cultura negra, como reggae e o soul. Foi nesse ano que, na favela de Vigário Geral, na zona norte do Rio de Janeiro, 21 moradores foram executados por policiais militares.
O episódio ficou conhecido como “Chacina de Vigário Geral” e chocou o país, mas foi um momento oportuno para implementar o projeto que pretendia oferecer uma formação cultural e artística aos jovens moradores das comunidades. Um mês depois do crime, o Afro Reggae entrou na favela e inaugurou seu primeiro “Núcleo de Cultura Comunitária”, com a missão de trazer alternativas ao subemprego e ao tráfico de drogas para a juventude local.
Vitor Onofre, coordenador do núcleo de Vigário Geral é um dos exemplos do acerto dessa iniciativa. Ele aderiu ao Afro Reggae logo no início, em 1993. Na época, era um adolescente de 13 anos, revoltado com o crime que tinha abalado sua comunidade. “Não posso imaginar que rumo minha vida teria tomado se não tivesse ingressado no Grupo. O que existia antes dele era tráfico, violência e drogas. Não tínhamos no que nos espelhar porque os traficantes é que promoviam as festas e comemorações na favela. Com o Afro Reggae isso mudou”, salienta.
O Afro Reggae tornou-se, então, o mais famoso projeto social nascido numa favela do Rio. Sua história chegou a ser contada no cinema, no filme Favela Rising. Mas o Grupo não ficou limitado aos muros de Vigário e se instalou em outros morros da cidade - mais precisamente em Parada de Lucas, Cidade de Deus, Cantagalo, Pavão-Pavãozinho - além de fazer apresentações e realizar oficinas em diversos países. O carro-chefe da instituição é a música e a Banda Afro Reggae, mas também mantém diversos subgrupos que atuam em outras áreas, como o circo, o teatro e a dança. “Apesar de ser nossa referência mais conhecida - a banda de música é fruto do trabalho social que desenvolvemos -, todos os que fazem parte dela estão envolvidos com os projetos sociais que implantamos na comunidade”, explica Vitor.
Além da cultura e da arte, outra forma de romper com a desigualdade social nas favelas é a educação. Este é o foco principal do Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM). Esta Associação Civil, sem fins lucrativos, surgiu, em 1997, no Complexo da Maré, que abrange o maior número de favelas do Rio de Janeiro. São 16 no total e reúnem cerca de 130 mil moradores.
Localizada entre as margens da Avenida Brasil e da Baía de Guanabara, no bairro de Bonsucesso, a Maré é um complexo onde atuam facções rivais do tráfico de drogas. Os conflitos são constantes e os territórios demarcados por comunidades vizinhas, mas “inimigas”. Neste contexto, o CEASM foi criado por moradores que cresceram na comunidade e que conseguiram transpor a barreira da exclusão, alcançando a Universidade. “A idéia inicial era criar uma instituição que oferecesse oportunidades para que os jovens da Maré chegassem ao nível de educação superior, como nós”, conta Lourenço Cesar, fundador e coordenador de projeto do CEASM.
O Centro iniciou suas atividades com um pré-vestibular que, em dez anos de existência, conseguiu colocar nas universidades 800 alunos de dentro e fora da Maré. Atualmente, também atinge milhares de moradores com 14 projetos diferenciados, que englobam educação, esportes, cultura e capacitação profissional em diversas áreas, como fotografia, produção gráfica, teatro, música, dança e guia de museus. O premiado “Museu da Favela”, criado pela instituição e localizado no Complexo, já contabiliza 16 mil visitas.
Em 2002, o CEASM produziu o espetáculo “Dança das Marés”, dirigido pelo coreógrafo paulistano Ivaldo Bertazzo e protagonizado por 62 jovens da comunidade. Esse encontro também rendeu o livro “Vida na favela”, com textos do médico Drauzio Varela. “Inicialmente a idéia do Bertazzo foi trazer jovens da Maré para fazer oficinas. Depois desse projeto, vários deles conseguiram chegar às companhias e faculdades de dança”, explica Lourenço Cesar.
TEATRO E CINEMA, NA ZONA SUL
[img3]Além da zona norte, a área nobre da cidade do Rio também registra bons exemplos de projetos sociais importantes criados nas favelas. Eles lançaram luz sobre as encostas da zona sul carioca. Um trabalho pioneiro é o Nós do Morro, fundado em 1986, no Morro do Vidigal, localizado em São Conrado. A idéia foi do jornalista e ator Guti Fraga, que também morava na comunidade. Ao lado de um grupo de jovens moradores, deu início a uma proposta inovadora: o Teatro-Comunidade, que originou o grupo de dramaturgos e atores da favela.
“O diferencial do grupo Nós do Morro é que, até então, os projetos que entravam nas comunidades vinham de fora da favela. Desde 1976, Guti morava no Vidigal”, lembra Luiz Paulo Corrêa e Castro, autor das peças e adaptações, além de ser o único fundador do grupo que nasceu na favela de São Conrado.
Mais de vinte anos depois, já foram encenadas 75 peças, tendo como protagonistas - no papel de atores, atrizes, diretores e técnicos - os jovens do Vidigal e de outras favelas da cidade. Com a consolidação do Nós do Morro, o projeto se ampliou e, atualmente, oferece cursos de formação nas áreas de teatro (atores e técnicos) e cinema (roteiristas, diretores e técnicos). “Até 2004, só aceitávamos moradores do Vidigal, mas como a procura é muito grande, acabamos abrindo a participação para quem mora em outras comunidades”, explica Luiz Paulo. Neste ano, o grupo conta com 530 alunos e 60 pessoas que compõem seu corpo técnico.
O aprendizado adquirido com o Nós do Morro está rendendo uma série de frutos, como prêmios e convites para outros trabalhos. O jovem Babu Santana, “prata da casa”, foi premiado pela Academia Brasileira de Cinema (ABC) como melhor ator coadjuvante de 2008, pela sua participação no filme Estômago.
O grupo também vai participar da realização das oficinas para a preparação da equipe técnica e do elenco do filme “5 Vezes Favela”. O projeto é coordenado por Cacá Diegues e o filme, que será dividido em cinco episódios, terá dois deles dirigidos por Luciana Bezerra e Luciano Vidigal, integrantes do Nós do Morro. “O nosso resultado é indireto. Quem passa por aqui tem seus horizontes ampliados, consegue romper as distâncias sociais e participar de outras realidades. Por isso nossa perda para o tráfico é mínima”, analisa o dramaturgo.
MORRINHO: BRINCADEIRA VIRA DOCUMENTÁRIO
[img2]Ainda na zona sul, no bairro de Laranjeiras, está sendo realizada uma “pequena revolução”, conforme o slogan criado pelos fundadores da Ong Morrinho. Localizada na Vila Pereira da Silva, mais conhecida como “Favela do Pereirão”, a iniciativa surgiu de uma história lúdica e, ao mesmo tempo, inusitada: uma maquete de 300 m2, construída pelos jovens moradores do lugar, que fica exposta ao ar livre na comunidade e pode ser visitada por turistas.
O Morrinho - como é chamada a maquete - reconstitui o Pereirão em detalhes minuciosos que revelam o cotidiano do local. Miniaturas de quadras de baile funk, bocas de fumo, vielas, escadarias, ruas, biroscas, praças e delegacias dão uma visão privilegiada da vida numa favela carioca. Uma perspectiva que não fugiu aos olhos dos diretores Fábio Gavião e Marco Oliveira, que subiram o morro em 2001, para realizar um documentário sobre o trabalho dos garotos do Pereirão. “Quando vi o Morrinho, pela primeira vez, fiquei embasbacado. Falei para os garotos que, sem querer, eles criaram algo mais do que uma brincadeira: fizeram uma obra de arte”, elogia Gavião.
O documentário, em fase de finalização, conta como surgiu o Morrinho, que começou a ser construído, em 1998, por Neucirlam de Oliveira, um adolescente de 14 anos, que havia chegado do interior do Rio e se encantou com a vastidão da favela. Com a ajuda do irmão Maiquinho, ele iniciou uma brincadeira sobre aquele universo. Com o tempo passaram a usar tijolos, por ser um material resistente às chuvas, para dar vida a seu mundo. O brinquedo cresceu e atraiu outros garotos da comunidade. “Desses oito rapazes que participam do Morrinho, talvez dois ou três não estivessem mais vivos caso não se envolvessem com esse projeto. Sua repercussão deu a eles outra perspectiva de vida”, reflete o documentarista.
A arte dos jovens já foi exposta em várias mostras internacionais e deu origem à Ong Morrinho, que atua em quatro eixos: produtora de TV, exposição, turismo e projeto social, oferecendo oficinas de vídeo para os moradores da comunidade do Pereirão. Uma das mais novas iniciativas que existem nas favelas cariocas, o Morrinho tem encontrado dificuldades em se solidificar. “Apesar de termos exposto em vários países da Europa não conseguimos encontrar os parceiros que precisamos. No final das contas, a realidade se impôs e muitos dos garotos estão trabalhando em outras atividades”, explica Gavião, que se afastou do projeto para finalizar o documentário.
Apesar das dificuldades, a chama da esperança continua acesa. O Morrinho acaba de se tornar um Ponto de Cultura do Ministério da Cultura – MinC. A instituição atualmente é dirigida pelo jovem Neucirlam, que deu origem à brincadeira que virou obra de arte. Seu irmão, Maiquinho, se tornou um MC de sucesso nos bailes funk da cidade. A maquete também continua atraindo visitantes. “O turismo é a forma do Morrinho se manter sustentável”, acredita o diretor. Mais do isso, é uma das pequenas revoluções que acontecem nas favelas cariocas.
























