urbanidade
A cidade é nosso meio ambiente
Os arquitetos Sylvio Podestá e Jaime Lerner, o diretor do Instituto Cidade Jardim, Sérgio Rocha, e o artista Jean Paul Ganem, mostram que, com um pouco mais de verde e, especialmente, de respeito com os de nossa espécie, poderemos voltar a viver de forma mais integrada com a natureza, sentir que também fazemos parte do meio ambiente, e que as cidades se tornaram, há muito tempo, nosso habitat natural
Thays Prado – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentavel - 01/06/2009
A natureza está distante de nós, especialmente nas grandes cidades, em que, muitas vezes, ela se resume a um vasinho de planta esquecido na área de serviço ou a um cachorro que levamos duas vezes ao dia para passear – no máximo. Quando precisamos de um alívio em relação ao tumulto urbano, passamos um tempo no parque – só não dá para ir embora muito tarde! é uma questão de segurança... – ou vamos para a praia, que, aliás, nos parece sempre cheia demais.
Preocupados em sobreviver na “lei da selva” dos seres humanos, nos esquecemos de que também somos natureza, de que todas as pessoas fazem parte da mesma espécie, não importa quais sejam a etnia, a língua, a orientação sexual, a profissão, os hábitos de vida ou quanto dinheiro têm no bolso ou no banco. No reino da individualidade, onde o mais forte prevalece por questões que vão muito além da busca pela sobrevivência, sequer nos damos conta de que as cidades onde moramos são o nosso meio ambiente e que podemos ter uma convivência mais harmônica e integrada se cuidarmos delas como nosso lar. O próprio dicionário Michaelis nos lembra da definição:
Ambiente - adj m+f (lat ambiente) 1 Que envolve os corpos por todos os lados. 2 Aplica-se ao ar que nos rodeia, ou ao meio em que vive cada um. sm 1 O ar que respiramos ou que nos cerca. 2 O meio em que vivemos ou em que estamos: Ambiente físico, social, familiar. A. de campus, Inform: área extensa ou local com muitos usuários conectados por várias redes, como uma universidade ou hospital. A. físico: parte do ambiente humano que inclui fatores puramente físicos (como solo, clima etc.).
GENTILEZA URBANA
Uma das máximas da arquitetura – a de que a rua deve ser a extensão da casa – traz clara essa noção de meio ambiente urbano. O arquiteto e urbanista Sylvio Podestá, de Belo Horizonte, diz que é mais fácil sentir essa integração nas pequenas cidades. “Quando caminhamos pela calçada, percebemos que o espaço público é feito de pequenos momentos, de pequenas gentilezas urbanas”.
[img1] Podestá soa quase utópico ao acreditar que ainda vai presenciar a queda dos muros. “Eles desabarão e as ruas respirarão de novo, com um ganho de mais ou menos três metros para cada lado. A cidade terá um ganho de qualidade de vida”. Mas, para que isso aconteça, será necessário muito investimento, principalmente no aspecto social, mas o arquiteto diz que já consegue perceber um pequeno movimento nesse sentido. “Quando um edifício se preocupa em deixar sua calçada mais verde e plana, por exemplo, cria ali um pequeno espaço onde uma troca de olhares gentis pode acontecer. Se isso for multiplicado para uma escala infinita, teremos um ambiente urbano construído com base nas gentilezas”, diz.
Entre os novos edifícios, também vem sendo disseminada uma tendência de substituir os muros e as grades por folhas de vidro que, ao mesmo tempo que garantem a separação do espaço público e do privado, permitem uma transição mais suave entre um e outro. Podestá, que foi um dos primeiros a usar o artifício em Belo Horizonte, diz que está de fora não se sente tão excluído e afastado dali como quando há um muro de concreto e cercas elétricas.
CIDADE VIVA
A integração dos moradores de uma cidade também pode acontecer por meio da revitalização das ruas e da movimentação do comércio. É nisso que aposta o urbanista Jaime Lerner com seu projeto de Ruas Portáteis (leia a reportagem As ideias arrojadas de Jaime Lerner).
[img4] Apresentado à prefeitura de São Paulo, a solução para revitalizar a região da Cracolândia pode vencer a licitação ainda este ano. Por meio de módulos portáteis que fariam as vezes de barraquinhas, os comerciantes de rua movimentariam a região durante o final de semana, quando ela fica vazia e vira cenário para o tráfico de drogas, o que a torna insegura e dificulta a procura do local como área residencial.
O movimento intenso de pessoas de sexta à noite a segunda de manhã deixaria a região mais segura, mais diversa e mais apropriada para ser escolhida como local de moradia. O custo de se implementar uma iniciativa como essa é infinitamente menor do que desapropriar prédios e deixar a área completamente abandonada, nas mãos dos tráfico. Isso sem falar na geração de renda para os pequenos comerciantes e na possibilidade de encontros entre pessoas diferentes nestas ruas mais alegres e seguras.
UM NOVO OLHAR
Sylvio Podestá observa que, com a construção de prédios cada vez mais altos, adquirimos novos ângulos de onde enxergamos a cidade. Olhando de cima para baixo, não é nada agradável vermos aquelas antigas caixas d’água azuis, a confusão de fios - cidades como Nova York aboliram essa interferência há tanto tempo... - , inclusive aqueles destinados a roubar energia ou tevê a cabo, ou mesmo uma paisagem cinza, opaca e sem graça. Por isso, um dos ensinamentos que Podestá deixa para seus alunos e futuros arquitetos é a de que, “hoje, as construções precisam ser pensadas como se tivessem, no mínimo, cinco fachadas – as laterais e os telhados – cuidem delas todas com a mesma galhardia”.
Seguindo essa mesma lógica, nos últimos anos, a tecnologia dos telhados verdes e jardins suspensos tem ganhado cada vez mais adeptos. Sérgio Rocha, do Instituto Cidade Jardim, de São Paulo, procura promover esse mercado, que já ganhou o mundo, no Brasil.
[img2] Visto como uma solução de adaptação às mudanças climáticas, os telhados verdes retêm boa parte da água das chuvas, cada vez mais intensas, evitando enchentes, proporcionam conforto térmico e eficiência energética e ainda sequestram carbono por meio do crescimento das plantas e árvores. Os telhados verdes ainda melhoram a qualidade do ar, abrem espaço para uma nova fronteira agrícola, já que comunidades inteiras poderão fazer o plantio de alimentos localmente, gerando emprego, dinamizando a economia local e evitando o transporte de longas distâncias.
Além disso, essa pode ser uma maneira de trazer, de novo, a natureza para perto de nós. Sérgio lembra que pragas urbanas, como os roedores e certos insetos nocivos só se proliferam tanto nas grandes cidades pela ausência de predadores. Se a cidade se mobiliza e adere aos telhados verdes, começaremos a atrair mais aves, borboletas, abelhas etc, e a ter um ecossistema mais rico e dinâmico, além de um ambiente mais limpo, que se beneficia de uma série de serviços ambientais.
BELEZA DEMOCRÁTICA
Também pensando em reaproximar o ser humano de outros elementos naturais, especialmente as flores, que o francês Jean Paul Ganem viaja o mundo desenvolvendo trabalhos de land art. Sua missão é colocar a arte a serviço de um ambiente urbano mais belo, ameno e agradável. Por isso, ele escolhe escombros, aterros sanitários e locais abandonados para plantar flores, que formam uma imensa obra viva. Jean Paul aposta que a beleza é capaz de melhorar a auto-estima das pessoas. (Veja as reportagens A arte de plantar ,Campos dos Sonhos e A arte das flores).
[img3] Este ano, o artista está no Brasil e vem desenvolvendo um projeto em São Paulo, na antiga Favela Aldeinha, na Marginal do Tietê, de onde cerca de dois mil moradores foram desalojados. Quando chegou ao local, Jean Paul encontrou 20 mil metros quadrados completamente destruídos. Agora, será plantado ali um jardim com uma enorme variedade de flores coloridas.
O processo vai contar com o trabalho de vários moradores, especialmente dos jovens, que terão acesso a uma escola de jardinagem. As flores colhidas no local serão vendidas pela comunidade em uma floricultura ali mesmo, o que deve gerar renda em torno de 800 reais para os associados. Ainda será construído no local o “Museu da Favela”, com a intenção de mostrar uma estética própria e dar visibilidade aos excluídos.
A natureza está distante de nós, especialmente nas grandes cidades, em que, muitas vezes, ela se resume a um vasinho de planta esquecido na área de serviço ou a um cachorro que levamos duas vezes ao dia para passear – no máximo. Quando precisamos de um alívio em relação ao tumulto urbano, passamos um tempo no parque – só não dá para ir embora muito tarde! é uma questão de segurança... – ou vamos para a praia, que, aliás, nos parece sempre cheia demais.
Preocupados em sobreviver na “lei da selva” dos seres humanos, nos esquecemos de que também somos natureza, de que todas as pessoas fazem parte da mesma espécie, não importa quais sejam a etnia, a língua, a orientação sexual, a profissão, os hábitos de vida ou quanto dinheiro têm no bolso ou no banco. No reino da individualidade, onde o mais forte prevalece por questões que vão muito além da busca pela sobrevivência, sequer nos damos conta de que as cidades onde moramos são o nosso meio ambiente e que podemos ter uma convivência mais harmônica e integrada se cuidarmos delas como nosso lar. O próprio dicionário Michaelis nos lembra da definição:
Ambiente - adj m+f (lat ambiente) 1 Que envolve os corpos por todos os lados. 2 Aplica-se ao ar que nos rodeia, ou ao meio em que vive cada um. sm 1 O ar que respiramos ou que nos cerca. 2 O meio em que vivemos ou em que estamos: Ambiente físico, social, familiar. A. de campus, Inform: área extensa ou local com muitos usuários conectados por várias redes, como uma universidade ou hospital. A. físico: parte do ambiente humano que inclui fatores puramente físicos (como solo, clima etc.).
GENTILEZA URBANA
Uma das máximas da arquitetura – a de que a rua deve ser a extensão da casa – traz clara essa noção de meio ambiente urbano. O arquiteto e urbanista Sylvio Podestá, de Belo Horizonte, diz que é mais fácil sentir essa integração nas pequenas cidades. “Quando caminhamos pela calçada, percebemos que o espaço público é feito de pequenos momentos, de pequenas gentilezas urbanas”.
[img1] Podestá soa quase utópico ao acreditar que ainda vai presenciar a queda dos muros. “Eles desabarão e as ruas respirarão de novo, com um ganho de mais ou menos três metros para cada lado. A cidade terá um ganho de qualidade de vida”. Mas, para que isso aconteça, será necessário muito investimento, principalmente no aspecto social, mas o arquiteto diz que já consegue perceber um pequeno movimento nesse sentido. “Quando um edifício se preocupa em deixar sua calçada mais verde e plana, por exemplo, cria ali um pequeno espaço onde uma troca de olhares gentis pode acontecer. Se isso for multiplicado para uma escala infinita, teremos um ambiente urbano construído com base nas gentilezas”, diz.
Entre os novos edifícios, também vem sendo disseminada uma tendência de substituir os muros e as grades por folhas de vidro que, ao mesmo tempo que garantem a separação do espaço público e do privado, permitem uma transição mais suave entre um e outro. Podestá, que foi um dos primeiros a usar o artifício em Belo Horizonte, diz que está de fora não se sente tão excluído e afastado dali como quando há um muro de concreto e cercas elétricas.
CIDADE VIVA
A integração dos moradores de uma cidade também pode acontecer por meio da revitalização das ruas e da movimentação do comércio. É nisso que aposta o urbanista Jaime Lerner com seu projeto de Ruas Portáteis (leia a reportagem As ideias arrojadas de Jaime Lerner).
[img4] Apresentado à prefeitura de São Paulo, a solução para revitalizar a região da Cracolândia pode vencer a licitação ainda este ano. Por meio de módulos portáteis que fariam as vezes de barraquinhas, os comerciantes de rua movimentariam a região durante o final de semana, quando ela fica vazia e vira cenário para o tráfico de drogas, o que a torna insegura e dificulta a procura do local como área residencial.
O movimento intenso de pessoas de sexta à noite a segunda de manhã deixaria a região mais segura, mais diversa e mais apropriada para ser escolhida como local de moradia. O custo de se implementar uma iniciativa como essa é infinitamente menor do que desapropriar prédios e deixar a área completamente abandonada, nas mãos dos tráfico. Isso sem falar na geração de renda para os pequenos comerciantes e na possibilidade de encontros entre pessoas diferentes nestas ruas mais alegres e seguras.
UM NOVO OLHAR
Sylvio Podestá observa que, com a construção de prédios cada vez mais altos, adquirimos novos ângulos de onde enxergamos a cidade. Olhando de cima para baixo, não é nada agradável vermos aquelas antigas caixas d’água azuis, a confusão de fios - cidades como Nova York aboliram essa interferência há tanto tempo... - , inclusive aqueles destinados a roubar energia ou tevê a cabo, ou mesmo uma paisagem cinza, opaca e sem graça. Por isso, um dos ensinamentos que Podestá deixa para seus alunos e futuros arquitetos é a de que, “hoje, as construções precisam ser pensadas como se tivessem, no mínimo, cinco fachadas – as laterais e os telhados – cuidem delas todas com a mesma galhardia”.
Seguindo essa mesma lógica, nos últimos anos, a tecnologia dos telhados verdes e jardins suspensos tem ganhado cada vez mais adeptos. Sérgio Rocha, do Instituto Cidade Jardim, de São Paulo, procura promover esse mercado, que já ganhou o mundo, no Brasil.
[img2] Visto como uma solução de adaptação às mudanças climáticas, os telhados verdes retêm boa parte da água das chuvas, cada vez mais intensas, evitando enchentes, proporcionam conforto térmico e eficiência energética e ainda sequestram carbono por meio do crescimento das plantas e árvores. Os telhados verdes ainda melhoram a qualidade do ar, abrem espaço para uma nova fronteira agrícola, já que comunidades inteiras poderão fazer o plantio de alimentos localmente, gerando emprego, dinamizando a economia local e evitando o transporte de longas distâncias.
Além disso, essa pode ser uma maneira de trazer, de novo, a natureza para perto de nós. Sérgio lembra que pragas urbanas, como os roedores e certos insetos nocivos só se proliferam tanto nas grandes cidades pela ausência de predadores. Se a cidade se mobiliza e adere aos telhados verdes, começaremos a atrair mais aves, borboletas, abelhas etc, e a ter um ecossistema mais rico e dinâmico, além de um ambiente mais limpo, que se beneficia de uma série de serviços ambientais.
BELEZA DEMOCRÁTICA
Também pensando em reaproximar o ser humano de outros elementos naturais, especialmente as flores, que o francês Jean Paul Ganem viaja o mundo desenvolvendo trabalhos de land art. Sua missão é colocar a arte a serviço de um ambiente urbano mais belo, ameno e agradável. Por isso, ele escolhe escombros, aterros sanitários e locais abandonados para plantar flores, que formam uma imensa obra viva. Jean Paul aposta que a beleza é capaz de melhorar a auto-estima das pessoas. (Veja as reportagens A arte de plantar ,Campos dos Sonhos e A arte das flores).
[img3] Este ano, o artista está no Brasil e vem desenvolvendo um projeto em São Paulo, na antiga Favela Aldeinha, na Marginal do Tietê, de onde cerca de dois mil moradores foram desalojados. Quando chegou ao local, Jean Paul encontrou 20 mil metros quadrados completamente destruídos. Agora, será plantado ali um jardim com uma enorme variedade de flores coloridas.
O processo vai contar com o trabalho de vários moradores, especialmente dos jovens, que terão acesso a uma escola de jardinagem. As flores colhidas no local serão vendidas pela comunidade em uma floricultura ali mesmo, o que deve gerar renda em torno de 800 reais para os associados. Ainda será construído no local o “Museu da Favela”, com a intenção de mostrar uma estética própria e dar visibilidade aos excluídos.