Natureza ameaçada
Trancoso no limite
O Quadrado continua lindo, mas seu entorno...quanta diferença. Lixão a céu aberto, obras clandestinas e derrubada da mata ameaçam o vilarejo
Por Afonso Capelas Jr.
Revista Viagem & Turismo - 03/2008
Trancoso é desses lugares a que é preciso ir. O vilarejo de Porto Seguro é, na definição do Guia Brasil, "um local que muda todo ano. E não muda nunca". Não mudam as falésias, o mar, as casinhas coloridas e os habitantes do Quadrado - sua praça principal, um morro com vista para o mar pontuado por uma linda igreja caiada do século 17. Tudo isso ajuda a preservar o ar easygoing do lugar, a despeito das levas de publicitários, anfetaminas, helicópteros, grifes do Sudeste e modelos internacionais que "embelezam" a vila no verão. Mas a vida real não vai bem na "área de serviço" de Trancoso. No lado B do Quadrado, o bairro da Invasão e mais além, a paisagem se transforma para pior. Obras clandestinas pipocam. Surgiu um lixão a céu aberto, e esgotos são despejados nos rios. Isso se vê, por exemplo, em Maria Viúva e no Condomínio 2000, a 1 quilômetro do Quadrado, em que a desordem urbana é a regra.
Bairros como Trancosinho e Mirante do Rio Verde crescem à custa do desmatamento de porções consideráveis do que ainda resta de Mata Atlântica - que em Trancoso está em estágio secundário, mas, mesmo assim, não pode ser derrubada, já que a vila está em Área
de Proteção Ambiental. "Cansei de ver destinos turísticos acabarem pelos mesmos problemas de lá. Tudo começa com o desmatamento criminoso", diz Mario Mantovani, diretor da Fundação SOS Mata Atlântica. "Existe um plano diretor que regulamenta o crescimento de Trancoso, mas quem disse que alguém respeita?", pergunta o empresário Randolfo Calenda, membro da Sociedade Amigos de Trancoso (SAT), formada recentemente por empresários e moradores preocupados com a preservação da vila. Por seu lado, a Secretaria de Obras de Porto Seguro afirma que fiscaliza e multa os infratores. "Obras sem alvará são notificadas e paralisadas", diz o secretário Odenir Barni. "Infelizmente, como em qualquer lugar do mundo, sempre há quem prefira ficar na ilegalidade, e em Trancoso não é diferente."
Barni alega que muitas infrações não são denunciadas, o que dificulta sua fiscalização. "Quando ligam para a secretaria, é para reclamar de problemas de iluminação e esgoto." Em 2007, a secretaria contabilizou apenas 15 reclamações relativas a Trancoso, entre obras irregulares, problemas de iluminação e esgoto. As praias já sofrem. Esgotos escorrem in natura pelos riachos que deságuam no Rio Trancoso - e que chega ao mar. "Até o óleo de fritura dos barraqueiros é despejado no rio sem cerimônia", diz Randolfo Calenda. Mesmo medidas simples, como fechar o Quadrado ao trânsito de veículos, tornam-se árdua batalha em Trancoso. "Desde 1986 tentamos bloquear a praça para veículos, mas os prefeitos preferem abri-la e fechá-la de acordo com a sua vontade", diz o empresário.
Mas há boas notícias. A Sociedade Amigos de Trancoso lançou, no fim de 2007, o movimento Trancoso Sustentável. O objetivo é traçar um plano piloto de sustentabilidade que sirva também de modelo a outros destinos. "A região está com o sinal amarelo aceso e pode acabar em cinco anos se não fi zermos algo já", diz o ambientalista Fábio Feldmann. Fala-se em fortalecer parcerias estratégicas com ONGs e autoridades de turismo, cultura e meio ambiente. "Queremos envolver todos, ambientalistas, moradores e turistas", diz o empresário Carlos "Calé" Bittencourt, sócio do Terravista, complexo de condomínios e resorts da região. Um pouco menos abstrata é a idéia de profissionalização da entidade. A SAT quer contratar e remunerar técnicos de meio ambiente para buscar soluções para a região.
DECÁLOGO DO TURISTA SUSTENTÁVEL
Seja um viajante responsável e ajude a preservar o lugar que você visita
VALORIZE a cultura local: trave contato com os moradores e estimule-os a preservar os próprios costumes e a manter a cidade limpa.
PREFIRA restaurantes de culinária típica e que reciclam o lixo.
HOSPEDE-SE em pousadas e hotéis que utilizem energia alternativa (como a solar), reciclem o lixo e respeitem ao máximo a natureza e os costumes de onde estão instalados.
COMPRE o artesanato típico.
RECOLHA E DEPOSITE seu lixo em lugares apropriados, tomando o cuidado de separar os dejetos recicláveis (latas, plástico, papel e vidro) dos orgânicos (restos de alimento e outros materiais não-recicláveis).
CUIDE da preservação de patrimônios históricos e naturais. Se presenciar atos de vandalismo, denuncie aos órgãos competentes.
DENUNCIE práticas de turismo sexual.
RESPEITE os cidadãos nativos, seus hábitos e crenças.
DEIXE o carro parado.
ZELE por seu destino de férias. Não só você seguirá desfrutando dele como dará oportunidade para que mais pessoaspossam desfrutar do local.
Trancoso é desses lugares a que é preciso ir. O vilarejo de Porto Seguro é, na definição do Guia Brasil, "um local que muda todo ano. E não muda nunca". Não mudam as falésias, o mar, as casinhas coloridas e os habitantes do Quadrado - sua praça principal, um morro com vista para o mar pontuado por uma linda igreja caiada do século 17. Tudo isso ajuda a preservar o ar easygoing do lugar, a despeito das levas de publicitários, anfetaminas, helicópteros, grifes do Sudeste e modelos internacionais que "embelezam" a vila no verão. Mas a vida real não vai bem na "área de serviço" de Trancoso. No lado B do Quadrado, o bairro da Invasão e mais além, a paisagem se transforma para pior. Obras clandestinas pipocam. Surgiu um lixão a céu aberto, e esgotos são despejados nos rios. Isso se vê, por exemplo, em Maria Viúva e no Condomínio 2000, a 1 quilômetro do Quadrado, em que a desordem urbana é a regra.
Bairros como Trancosinho e Mirante do Rio Verde crescem à custa do desmatamento de porções consideráveis do que ainda resta de Mata Atlântica - que em Trancoso está em estágio secundário, mas, mesmo assim, não pode ser derrubada, já que a vila está em Área
de Proteção Ambiental. "Cansei de ver destinos turísticos acabarem pelos mesmos problemas de lá. Tudo começa com o desmatamento criminoso", diz Mario Mantovani, diretor da Fundação SOS Mata Atlântica. "Existe um plano diretor que regulamenta o crescimento de Trancoso, mas quem disse que alguém respeita?", pergunta o empresário Randolfo Calenda, membro da Sociedade Amigos de Trancoso (SAT), formada recentemente por empresários e moradores preocupados com a preservação da vila. Por seu lado, a Secretaria de Obras de Porto Seguro afirma que fiscaliza e multa os infratores. "Obras sem alvará são notificadas e paralisadas", diz o secretário Odenir Barni. "Infelizmente, como em qualquer lugar do mundo, sempre há quem prefira ficar na ilegalidade, e em Trancoso não é diferente."
Barni alega que muitas infrações não são denunciadas, o que dificulta sua fiscalização. "Quando ligam para a secretaria, é para reclamar de problemas de iluminação e esgoto." Em 2007, a secretaria contabilizou apenas 15 reclamações relativas a Trancoso, entre obras irregulares, problemas de iluminação e esgoto. As praias já sofrem. Esgotos escorrem in natura pelos riachos que deságuam no Rio Trancoso - e que chega ao mar. "Até o óleo de fritura dos barraqueiros é despejado no rio sem cerimônia", diz Randolfo Calenda. Mesmo medidas simples, como fechar o Quadrado ao trânsito de veículos, tornam-se árdua batalha em Trancoso. "Desde 1986 tentamos bloquear a praça para veículos, mas os prefeitos preferem abri-la e fechá-la de acordo com a sua vontade", diz o empresário.
Mas há boas notícias. A Sociedade Amigos de Trancoso lançou, no fim de 2007, o movimento Trancoso Sustentável. O objetivo é traçar um plano piloto de sustentabilidade que sirva também de modelo a outros destinos. "A região está com o sinal amarelo aceso e pode acabar em cinco anos se não fi zermos algo já", diz o ambientalista Fábio Feldmann. Fala-se em fortalecer parcerias estratégicas com ONGs e autoridades de turismo, cultura e meio ambiente. "Queremos envolver todos, ambientalistas, moradores e turistas", diz o empresário Carlos "Calé" Bittencourt, sócio do Terravista, complexo de condomínios e resorts da região. Um pouco menos abstrata é a idéia de profissionalização da entidade. A SAT quer contratar e remunerar técnicos de meio ambiente para buscar soluções para a região.
DECÁLOGO DO TURISTA SUSTENTÁVEL
Seja um viajante responsável e ajude a preservar o lugar que você visita
VALORIZE a cultura local: trave contato com os moradores e estimule-os a preservar os próprios costumes e a manter a cidade limpa.
PREFIRA restaurantes de culinária típica e que reciclam o lixo.
HOSPEDE-SE em pousadas e hotéis que utilizem energia alternativa (como a solar), reciclem o lixo e respeitem ao máximo a natureza e os costumes de onde estão instalados.
COMPRE o artesanato típico.
RECOLHA E DEPOSITE seu lixo em lugares apropriados, tomando o cuidado de separar os dejetos recicláveis (latas, plástico, papel e vidro) dos orgânicos (restos de alimento e outros materiais não-recicláveis).
CUIDE da preservação de patrimônios históricos e naturais. Se presenciar atos de vandalismo, denuncie aos órgãos competentes.
DENUNCIE práticas de turismo sexual.
RESPEITE os cidadãos nativos, seus hábitos e crenças.
DEIXE o carro parado.
ZELE por seu destino de férias. Não só você seguirá desfrutando dele como dará oportunidade para que mais pessoaspossam desfrutar do local.