princípios verdes
Moda do bem
Comprar roupas de segunda mão, fazer bazar de trocas com as amigas, customizar para dar cara nova ou doar o que ficou encalhado nas prateleiras. Mais que modismo, essas atitudes refletem um novo jeito de rechear o armário sem descuidar do planeta
Giuliana Capello
Revista Bons Fluidos – 10/2009
Se nossas roupas falassem, contariam histórias de uma vida que deixou inúmeros rastros pelo caminho: fábricas onde operários trabalham dia e noite por salários ínfimos, contaminação de rios por causa dos processos fabris, toneladas de lixo que poluem o meio ambiente e grifes exaltando o consumismo desvairado. Parte dessa história é mostrada no documentário Useless, do premiado diretor chinês Jia Zhang-Ke. No filme, a moda surge como produto da mistura de fábricas deprimentes de roupas no sul da China e de chiquérrimos desfiles em Paris.
Ainda que lentamente, essas contradições estão começando a mexer com os hábitos de consumo da população. "É crescente o número de pessoas que querem conhecer e praticar o vestir consciente, e isso não se restringe apenas à moda ecológica produzida com matéria-prima sustentável", diz Ana Cândida Zanesco, fundadora do Instituto Ecotece, que trabalha para divulgar princípios e práticas mais verdes no setor da moda. "É uma mudança que tem a ver com a reconexão com a natureza, mas também com bem-estar social e valorização das mãos e vidas por trás dos processos de produção das roupas que nos aquecem, confortam e embelezam."
TROCAS ENTRE AMIGAS
Diferentemente da moda que dita o comprimento de vestidos ou o corte de calças, o eixo central desse movimento se apoia num guarda-roupa mais enxuto, na medida da necessidade de cada um. Nem mais nem menos. Que o diga a americana Suzanne Agasi. Ela criou o site www.clothingswaps.com para incentivar a troca de roupas e acessórios entre amigas e não poupa argumentos para o que denomina de prática boa, ecológica e glamourosa (good, green and glam): reunir as amigas para trocar roupas é um jeito de renovar o armário, reduzir o lixo, prolongar a vida de peças que ainda estão em boas condições, gastar menos e, claro, se divertir. Por aqui, dezenas de iniciativas como essa também estão pipocando na rede mundial de computadores na forma de blogues e sites.
A nova febre entre meninas descoladas são os blogues-bazares, vitrines virtuais de roupas encalhadas - mas bonitinhas. As autoras expõem fotos, preços e características dos produtos à venda e, feito o negócio, enviam pelo correio às clientes de todo o Brasil. Resultado: ventilam o guarda-roupa e ainda conseguem um dinheiro extra no fim do mês. No blogue O Que Era Meu Pode Ser Seu, a médica carioca Fernanda Vieira exibe peças dela e das amigas. "Há um ano e meio, passei por uma crise financeira e resolvi criar o blogue para vender roupas que já não me serviam. Deu para pagar algumas contas", lembra. No endereço, há dezenas de links para outros blogues do gênero, com nomes para lá de sugestivos: Arara Reformada, Reciclando Moda, Única Dona, entre outros.
Em São Paulo, a psicanalista Sylvia Loeb entrou na onda quase por acaso. Depois de uma arrumação que fez no guarda-roupa, três anos atrás, ela retirou algumas peças que já não usava e decidiu convidar as amigas para um bazar de trocas em sua casa. Detalhe: elas também teriam que fazer uma limpeza no armário. Valeu a pena. O encontro rendeu peças "novas" para todas. "Temos o mesmo gosto, mesmo estilo e mais ou menos o mesmo tamanho. Isso ajudou bastante", conta Sylvia. O que sobra dos encontros não volta para o armário. "Doamos para bazares beneficentes", diz Sylvia, lembrando que a atividade é também um exercício de desapego.
Mais do que com a moda, o vestir consciente está relacionado com o bem-estar social e com a proteção do planeta, Ana Cândida Zanesco, do Instituto Ecotece
Recentemente, elas se reuniram para mais uma tarde de bazar, regada a chá e biscoitinhos. Não deu outra: foi um sucesso. "Acho importante não manter roupas que ficam só ocupando espaço no armário, porque a energia fica retida. Nas trocas, a gente faz com que ela circule", avalia Vera Petrich, psicóloga e consultora de harmonização de ambientes. E não é só. "Quando troco uma roupa ou bolsa com uma amiga, sei de onde ela veio. É diferente de comprar em brechó", compara. Mas também não é preciso fugir das lojas de roupas usadas. "Se você se sentir incomodada de vestir algo de quem não conhece, lave a peça com a intenção mental de limpá-la profundamente", conta. "Também dá para passar sobre ela a fumaça de um incenso ou usar um floral de limpeza."
ECONOMIA SOLIDÁRIA
Existem ainda as feiras de trocas, nas quais, como o próprio nome diz, amigos e desconhecidos se encontram para intercambiar roupas e outros produtos que perderam o uso em casa mas continuam em bom estado. Em São Paulo, a Morada da Floresta organiza atividades desse tipo há alguns anos. Itens de vestuário estão entre os principais artigos que aparecem por lá, mas há também livros, sapatos, alimentos orgânicos, artesanatos e objetos de decoração. "Algumas das minhas roupas preferidas foram adquiridas nas feiras e, com isso, reduzi a compra de roupas novas", relata Ana Paula Silva, professora de ioga e uma das organizadoras do evento.
Laura Sabato, psicóloga e integrante da Ecovila Clareando, no interior paulista, é outra fã desse tipo de negócio. "É sempre muito divertido e instigante ver que algo que para você não tem mais utilidade pode ter valor para outra pessoa", resume. Outro ponto positivo é que a prática otimiza os recursos consumidos para a produção das roupas. "Esticamos a vida útil dos produtos, reduzindo a necessidade de mais matéria-prima e processos fabris para a produção de novas peças", ressalta Ana Cândida Zanesco, do Ecotece.
DE SEGUNDA MÃO
A moda das roupas usadas não é apenas opção dos mais alternativos. "Toda mulher pode se sentir bem e montar um look interessante com peças de segunda mão. É só esquecer o preconceito e ter criatividade", afirma a estilista e consultora de moda Chiara Gadaleta. Fã desse mercado, Chiara já realizou dois bazares sustentáveis com peças de seu acervo e está preparando outros para até o fim do ano. Em muitas cidades da Europa e dos Estados Unidos, a crise econômica está abrindo espaço para novos negócios, que apostam em peças seminovas para garantir aos clientes preços mais acessíveis.
A americana Buffalo Exchange, que ganhou até prêmio de empresa do ano, já tem mais de 30 lojas no país. O diferencial? A marca compra, vende e troca roupas usadas. O modelo foi a inspiração das sócias da Super Cool Market, inaugurada em São Paulo no fim de julho passado. O foco principal da loja são as roupas usadas, desde que bem contemporâneas (nada de vintage ou peças muito datadas). Há também uma pequena coleção própria. Funciona assim: tudo é higienizado antes de ir para as prateleiras. O cliente leva para a loja uma peça usada e, se interessar ao negócio, escolhe se quer receber 30% do preço da venda em dinheiro ou 50% desse valor em crédito para trocar por outros produtos. "A maioria escolhe trocar por novas roupas", garante a sócia Daniela Klaiman.
CUSTOMIZAR
Aprender a pregar um botão, fazer uma barra de calça e outras noções básicas de costura faz parte dessa nova onda de prolongar a vida das roupas. Na Escola de Moda Sigbol Fashion, de São Paulo, a procura por cursos desse tipo aumentou nos últimos anos. "Muita gente vem para se profissionalizar, porque sabe que é um setor que está em expansão", diz a professora de estilo Elizangela Teixeira Gomes.
Nas aulas, o aluno aprende com base no próprio guarda-roupa. Uma calça se transforma em bermuda, uma saia ganha novo comprimento. Sem falar nos bordados e fuxicos, capazes de mudar a cara de uma roupa sem muito trabalho. "Customizar significa tornar suas roupas exclusivas. Na hora de vender ou trocar, o que é feito a mão sempre vale mais." Para o planeta também.
Se nossas roupas falassem, contariam histórias de uma vida que deixou inúmeros rastros pelo caminho: fábricas onde operários trabalham dia e noite por salários ínfimos, contaminação de rios por causa dos processos fabris, toneladas de lixo que poluem o meio ambiente e grifes exaltando o consumismo desvairado. Parte dessa história é mostrada no documentário Useless, do premiado diretor chinês Jia Zhang-Ke. No filme, a moda surge como produto da mistura de fábricas deprimentes de roupas no sul da China e de chiquérrimos desfiles em Paris.
Ainda que lentamente, essas contradições estão começando a mexer com os hábitos de consumo da população. "É crescente o número de pessoas que querem conhecer e praticar o vestir consciente, e isso não se restringe apenas à moda ecológica produzida com matéria-prima sustentável", diz Ana Cândida Zanesco, fundadora do Instituto Ecotece, que trabalha para divulgar princípios e práticas mais verdes no setor da moda. "É uma mudança que tem a ver com a reconexão com a natureza, mas também com bem-estar social e valorização das mãos e vidas por trás dos processos de produção das roupas que nos aquecem, confortam e embelezam."
TROCAS ENTRE AMIGAS
Diferentemente da moda que dita o comprimento de vestidos ou o corte de calças, o eixo central desse movimento se apoia num guarda-roupa mais enxuto, na medida da necessidade de cada um. Nem mais nem menos. Que o diga a americana Suzanne Agasi. Ela criou o site www.clothingswaps.com para incentivar a troca de roupas e acessórios entre amigas e não poupa argumentos para o que denomina de prática boa, ecológica e glamourosa (good, green and glam): reunir as amigas para trocar roupas é um jeito de renovar o armário, reduzir o lixo, prolongar a vida de peças que ainda estão em boas condições, gastar menos e, claro, se divertir. Por aqui, dezenas de iniciativas como essa também estão pipocando na rede mundial de computadores na forma de blogues e sites.
A nova febre entre meninas descoladas são os blogues-bazares, vitrines virtuais de roupas encalhadas - mas bonitinhas. As autoras expõem fotos, preços e características dos produtos à venda e, feito o negócio, enviam pelo correio às clientes de todo o Brasil. Resultado: ventilam o guarda-roupa e ainda conseguem um dinheiro extra no fim do mês. No blogue O Que Era Meu Pode Ser Seu, a médica carioca Fernanda Vieira exibe peças dela e das amigas. "Há um ano e meio, passei por uma crise financeira e resolvi criar o blogue para vender roupas que já não me serviam. Deu para pagar algumas contas", lembra. No endereço, há dezenas de links para outros blogues do gênero, com nomes para lá de sugestivos: Arara Reformada, Reciclando Moda, Única Dona, entre outros.
Em São Paulo, a psicanalista Sylvia Loeb entrou na onda quase por acaso. Depois de uma arrumação que fez no guarda-roupa, três anos atrás, ela retirou algumas peças que já não usava e decidiu convidar as amigas para um bazar de trocas em sua casa. Detalhe: elas também teriam que fazer uma limpeza no armário. Valeu a pena. O encontro rendeu peças "novas" para todas. "Temos o mesmo gosto, mesmo estilo e mais ou menos o mesmo tamanho. Isso ajudou bastante", conta Sylvia. O que sobra dos encontros não volta para o armário. "Doamos para bazares beneficentes", diz Sylvia, lembrando que a atividade é também um exercício de desapego.
Mais do que com a moda, o vestir consciente está relacionado com o bem-estar social e com a proteção do planeta, Ana Cândida Zanesco, do Instituto Ecotece
Recentemente, elas se reuniram para mais uma tarde de bazar, regada a chá e biscoitinhos. Não deu outra: foi um sucesso. "Acho importante não manter roupas que ficam só ocupando espaço no armário, porque a energia fica retida. Nas trocas, a gente faz com que ela circule", avalia Vera Petrich, psicóloga e consultora de harmonização de ambientes. E não é só. "Quando troco uma roupa ou bolsa com uma amiga, sei de onde ela veio. É diferente de comprar em brechó", compara. Mas também não é preciso fugir das lojas de roupas usadas. "Se você se sentir incomodada de vestir algo de quem não conhece, lave a peça com a intenção mental de limpá-la profundamente", conta. "Também dá para passar sobre ela a fumaça de um incenso ou usar um floral de limpeza."
ECONOMIA SOLIDÁRIA
Existem ainda as feiras de trocas, nas quais, como o próprio nome diz, amigos e desconhecidos se encontram para intercambiar roupas e outros produtos que perderam o uso em casa mas continuam em bom estado. Em São Paulo, a Morada da Floresta organiza atividades desse tipo há alguns anos. Itens de vestuário estão entre os principais artigos que aparecem por lá, mas há também livros, sapatos, alimentos orgânicos, artesanatos e objetos de decoração. "Algumas das minhas roupas preferidas foram adquiridas nas feiras e, com isso, reduzi a compra de roupas novas", relata Ana Paula Silva, professora de ioga e uma das organizadoras do evento.
Laura Sabato, psicóloga e integrante da Ecovila Clareando, no interior paulista, é outra fã desse tipo de negócio. "É sempre muito divertido e instigante ver que algo que para você não tem mais utilidade pode ter valor para outra pessoa", resume. Outro ponto positivo é que a prática otimiza os recursos consumidos para a produção das roupas. "Esticamos a vida útil dos produtos, reduzindo a necessidade de mais matéria-prima e processos fabris para a produção de novas peças", ressalta Ana Cândida Zanesco, do Ecotece.
DE SEGUNDA MÃO
A moda das roupas usadas não é apenas opção dos mais alternativos. "Toda mulher pode se sentir bem e montar um look interessante com peças de segunda mão. É só esquecer o preconceito e ter criatividade", afirma a estilista e consultora de moda Chiara Gadaleta. Fã desse mercado, Chiara já realizou dois bazares sustentáveis com peças de seu acervo e está preparando outros para até o fim do ano. Em muitas cidades da Europa e dos Estados Unidos, a crise econômica está abrindo espaço para novos negócios, que apostam em peças seminovas para garantir aos clientes preços mais acessíveis.
A americana Buffalo Exchange, que ganhou até prêmio de empresa do ano, já tem mais de 30 lojas no país. O diferencial? A marca compra, vende e troca roupas usadas. O modelo foi a inspiração das sócias da Super Cool Market, inaugurada em São Paulo no fim de julho passado. O foco principal da loja são as roupas usadas, desde que bem contemporâneas (nada de vintage ou peças muito datadas). Há também uma pequena coleção própria. Funciona assim: tudo é higienizado antes de ir para as prateleiras. O cliente leva para a loja uma peça usada e, se interessar ao negócio, escolhe se quer receber 30% do preço da venda em dinheiro ou 50% desse valor em crédito para trocar por outros produtos. "A maioria escolhe trocar por novas roupas", garante a sócia Daniela Klaiman.
CUSTOMIZAR
Aprender a pregar um botão, fazer uma barra de calça e outras noções básicas de costura faz parte dessa nova onda de prolongar a vida das roupas. Na Escola de Moda Sigbol Fashion, de São Paulo, a procura por cursos desse tipo aumentou nos últimos anos. "Muita gente vem para se profissionalizar, porque sabe que é um setor que está em expansão", diz a professora de estilo Elizangela Teixeira Gomes.
Nas aulas, o aluno aprende com base no próprio guarda-roupa. Uma calça se transforma em bermuda, uma saia ganha novo comprimento. Sem falar nos bordados e fuxicos, capazes de mudar a cara de uma roupa sem muito trabalho. "Customizar significa tornar suas roupas exclusivas. Na hora de vender ou trocar, o que é feito a mão sempre vale mais." Para o planeta também.