
Laís Duarte
Revista Claudia – 09/2009
Se você fosse morrer amanhã, o que gostaria de fazer hoje? Francisco*, 72 anos, portador de câncer na garganta, quis se casar. Ele vivia com uma lavradora havia anos. Quando soube que sua doença era incurável, decidiu oficializar a união. Não era apenas um impulso romântico, mas um gesto de proteção para que a companheira, sem estudos, recebesse uma pensão quando ele faltasse. Para muitos, isso seria resolvido com um juiz de paz. Mas não foi o que ocorreu.
No salão de festas cedido por uma igreja, o sonho realizou-se com pompa: noiva de véu e grinalda; noivo de fraque e sapatos reluzentes; damas de honra engomadas nos vestidos rodados; alianças; jantar. Depois do enlace, Francisco, que já não conseguia comer por causa da doença, ainda saboreou um pedido extra: uma taça de sorvete de milho. Enfim, uma vida com final feliz. Quem relata a história, emocionada, é Marinalva de Carvalho, 58 anos, integrante da equipe de voluntários do Hospital do Câncer de Uberlândia. O grupo fez contatos com empresários e comerciantes para angariar fundos para a cerimônia.
Como muitos que se dedicam a esse tipo de atividade humanitária, Marinalva foi impulsionada a atuar depois de uma experiência de perda. Ela nasceu em Recife e morou em São Paulo, onde era comerciante. Ao se aposentar, mudouse com o marido para Uberlândia. Após 21 dias na nova cidade, ele morreu. "Chorei durante uma semana. Uma manhã, abri a janela e afirmei para mim mesma: ‘Sou perfeita, cheia de saúde. Preciso colocar o que eu tenho à disposição de quem não tem’." O voluntariado ocupou seu tempo e seu coração.
MAIS DO QUE REMÉDIO
Centro de referência de diagnóstico, o Hospital do Câncer de Uberlândia atende pacientes do Triângulo Mineiro, de Goiás e até do oeste de São Paulo. Só em 2008, foram mais de 77 mil atendimentos. Muita gente chega de longe para receber ali as piores notícias e o melhor tratamento. Para abrandar o que parece insuportável, 30 voluntários, 26 mulheres e quatro homens abraçaram a rotina hospitalar doando tempo, amor e entusiasmo a quem não conhecem. A maioria iniciou a atividade depois de perder um parente querido vítima de câncer. A especialidade deles é calor humano, perceptível na recepção dos pacientes, no lanche caprichado, na sala de brinquedos, que mantém viva a fantasia das crianças enfermas.
Oferecer colo e remédio, porém, parece pouco quando o paciente enfrenta todas as sessões de rádio e quimioterapia sem sucesso. Os doentes terminais sofrem de desesperança, angústia, frustração - que, às vezes, doem mais que a doença. "O câncer é um mal revelador. Ele revela de tudo: perdão, mágoa, dor, fraqueza, força", diz a assistente social Giovana Rita Lucas, 42 anos, dez dedicados ao HC. Ela percebeu que, nos instantes finais, as pessoas fazem o possível para tentar solucionar o que está pendente. "Por isso a morte é transformadora."
Cristiano Nabuco, psicólogo do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, concorda. Ele acredita que grandes crises abrem janelas para repensarmos nossas escolhas, nosso comportamento. "O cérebro tem um sistema de adaptação que busca confortar, dar estabilidade em momentos de desespero. Para os doentes, conseguir acionar esse recurso é uma forma de sobrevivência", explica. Na visão de Nabuco, o trabalho de humanização dentro de hospitais tem mão dupla. Não é só o voluntário que apoia o doente; o paciente também fortalece e ensina o voluntário, e ambos saem enriquecidos.
ALÍVIO E CUIDADO
Quando remédio e terapia deixam de ser eficazes para as dores do corpo, como aliviar a dor da alma? Para responder a essa pergunta, Giovana e outros assistentes sociais, médicos, psicólogos, enfermeiros e voluntários do hospital criaram em 2003 a Unidade de Cuidados Paliativos. O objetivo não é aumentar a expectativa de vida dos doentes, e sim imprimir qualidade ao tempo que lhes resta.
Funciona assim: quando chega a notícia de que o tratamento não surte mais efeito e a morte será inevitável, os voluntários entram em ação. A família é cercada de apoio e cuidado. O paciente é convidado a aproveitar melhor cada minuto. Se não tem o que comer, onde morar, eles arrumam. Se não há cobertores ou companhia, providenciam. Onde falta carinho, sobram abraços solidários. E, se restam sonhos, os voluntários se desdobram para realizá-los. É preciso uma dose extra de humanidade para perguntar a alguém às portas da morte: "Qual é seu último desejo?" e, a partir daí, tornálo realidade. Em seis anos, mais de 40 pacientes terminais foram atendidos.
Todas as histórias são inesquecíveis. Giovana se lembra de uma mulher com câncer no intestino que, em uma noite de Natal, pediu para ver o filho, com quem perdera o contato havia tempos. O grupo localizou o rapaz em São Paulo e providenciou passagens. Quando ele chegou ao hospital, a mãe sorriu, segurou a mão dele e morreu. "Eu falei para o moço que ele fora o escolhido. Ela sofreu muito na fase final e escolheu falecer ao lado dele. Dias depois, ele me procurou para conversar. Disse que não deveria ter ido embora nem demorado tanto tempo para rever a mãe", relata.
FUTEBOL E DVD
Alguns desejos custam caro. Outros emocionam de tão singelos. Camisetas de times de futebol e sanduíches do McDonald’s já foram escolhas de quem estava partindo. Por meio de doações, voluntários também conseguem o que o Sistema Único de Saúde, o SUS, não provê: remédios especiais, suplementos alimentares, roupas, brinquedos. Tudo arrecadado com empresas, indústrias e doadores da comunidade que pedem anonimato. Não é fácil, mas a gente não desiste. Além dos obstáculos diários, precisamos vencer a resistência das pessoas em ajudar e em ser ajudadas", define Giovana.
Outro episódio marcante foi o da mulher que chegou ao hospital agarrada às filhas pequenas. Nascida em uma família do Nordeste com boa situação financeira, aos 36 anos ela fugiu do marido que a espancava. Seguiu para Minas Gerais sem um tostão e com duas meninas a tiracolo. Casouse por lá e passou a morar em um assentamento rural. Ao receber o diagnóstico de câncer avançado, ela não queria deixar as crianças com o novo marido. "A paciente disse que só ficaria em paz se localizássemos algum parente", lembra a assistente social.
Vários telefonemas depois, os voluntários encontraram um tio. Conseguiram passagem e hospedagem para o visitante, que assumiria a guarda das sobrinhas. Antes de partir, a mãe ainda quis gravar um DVD com conselhos que acompanharão as filhas até a idade adulta. "Tenho certeza de que ela morreu tranquila", diz Giovana.
Na Unidade de Cuidados Paliativos, os funcionários do hospital não ganham nada a mais para acalentar doentes sem esperança. Como os colegas, muitas vezes a assistente social sacrifica o convívio com os próprios filhos para dedicarse aos filhos alheios. Assim, garante que aprende a ser uma pessoa melhor. "Tivemos um paciente de 7 anos com câncer no fêmur. Foi preciso amputar a perna do menino. Antes de morrer, em 2005, pediu que cuidássemos da mãe dele. Era uma mulher jovem, usuária de drogas. O grupo se aproximou dessa moça e, para nossa surpresa, enquanto a criança esteve no hospital, a mãe deixou de se drogar."
A dona de casa Cristina Campello resolveu conhecer o hospital quando suas filhas cresceram e já não precisavam tanto dela. Passou por todas as etapas para se tornar voluntária: palestras, treinamento, entrevista com psicólogos e assistentes sociais. Depois de tudo, é preciso aguardar uma vaga. Ela começou servindo lanche aos doentes e não quis outra vida. Hoje, aos 51 anos, mata a fome alheia de comida e de afeto. Participou de vários atendimentos, entre eles a um andarilho, expresidiário, que ao sair do hospital não tinha para onde ir.
Os voluntários conseguiram casa, cama hospitalar, televisão. O último desejo dele era que seu relógio de pulso e 20 reais fossem enviados a suas filhas, no interior de Goiás. O relógio seguiu acompanhado de 350 reais, brinquedos e roupas para seus parentes. "É um trabalho maravilhoso. Ao tentar amparar as famílias carentes, auxiliamos nós mesmas", afirma Cristina. Marinalva concorda: "Não tenho stress nem problemas. Sou feliz porque ajudo quem já não pode ser ajudado". Elas habituaramse a viver no limite entre a tragédia e a esperança, a morte e a vida. "Se a gente consegue um sorriso de alguém que só quer chorar, já é uma gratificação", diz Giovana, emocionada.
Graças ao trabalho do grupo, vários sorrisos iluminaram o rosto de um caminhoneiro de 66 anos, vítima de câncer de pele. "O médico estimou que ele viveria seis meses. Ficou conosco seis anos e nos ensinou muito: o último desejo dele era viver", conta a assistente social. Essa é a lição e também a vontade eterna de cada voluntário: viver cada dia como se fosse o último.
Laís Duarte
Revista Claudia – 09/2009
Se você fosse morrer amanhã, o que gostaria de fazer hoje? Francisco*, 72 anos, portador de câncer na garganta, quis se casar. Ele vivia com uma lavradora havia anos. Quando soube que sua doença era incurável, decidiu oficializar a união. Não era apenas um impulso romântico, mas um gesto de proteção para que a companheira, sem estudos, recebesse uma pensão quando ele faltasse. Para muitos, isso seria resolvido com um juiz de paz. Mas não foi o que ocorreu.
No salão de festas cedido por uma igreja, o sonho realizou-se com pompa: noiva de véu e grinalda; noivo de fraque e sapatos reluzentes; damas de honra engomadas nos vestidos rodados; alianças; jantar. Depois do enlace, Francisco, que já não conseguia comer por causa da doença, ainda saboreou um pedido extra: uma taça de sorvete de milho. Enfim, uma vida com final feliz. Quem relata a história, emocionada, é Marinalva de Carvalho, 58 anos, integrante da equipe de voluntários do Hospital do Câncer de Uberlândia. O grupo fez contatos com empresários e comerciantes para angariar fundos para a cerimônia.
Como muitos que se dedicam a esse tipo de atividade humanitária, Marinalva foi impulsionada a atuar depois de uma experiência de perda. Ela nasceu em Recife e morou em São Paulo, onde era comerciante. Ao se aposentar, mudouse com o marido para Uberlândia. Após 21 dias na nova cidade, ele morreu. "Chorei durante uma semana. Uma manhã, abri a janela e afirmei para mim mesma: ‘Sou perfeita, cheia de saúde. Preciso colocar o que eu tenho à disposição de quem não tem’." O voluntariado ocupou seu tempo e seu coração.
MAIS DO QUE REMÉDIO
Centro de referência de diagnóstico, o Hospital do Câncer de Uberlândia atende pacientes do Triângulo Mineiro, de Goiás e até do oeste de São Paulo. Só em 2008, foram mais de 77 mil atendimentos. Muita gente chega de longe para receber ali as piores notícias e o melhor tratamento. Para abrandar o que parece insuportável, 30 voluntários, 26 mulheres e quatro homens abraçaram a rotina hospitalar doando tempo, amor e entusiasmo a quem não conhecem. A maioria iniciou a atividade depois de perder um parente querido vítima de câncer. A especialidade deles é calor humano, perceptível na recepção dos pacientes, no lanche caprichado, na sala de brinquedos, que mantém viva a fantasia das crianças enfermas.
Oferecer colo e remédio, porém, parece pouco quando o paciente enfrenta todas as sessões de rádio e quimioterapia sem sucesso. Os doentes terminais sofrem de desesperança, angústia, frustração - que, às vezes, doem mais que a doença. "O câncer é um mal revelador. Ele revela de tudo: perdão, mágoa, dor, fraqueza, força", diz a assistente social Giovana Rita Lucas, 42 anos, dez dedicados ao HC. Ela percebeu que, nos instantes finais, as pessoas fazem o possível para tentar solucionar o que está pendente. "Por isso a morte é transformadora."
Cristiano Nabuco, psicólogo do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, concorda. Ele acredita que grandes crises abrem janelas para repensarmos nossas escolhas, nosso comportamento. "O cérebro tem um sistema de adaptação que busca confortar, dar estabilidade em momentos de desespero. Para os doentes, conseguir acionar esse recurso é uma forma de sobrevivência", explica. Na visão de Nabuco, o trabalho de humanização dentro de hospitais tem mão dupla. Não é só o voluntário que apoia o doente; o paciente também fortalece e ensina o voluntário, e ambos saem enriquecidos.
ALÍVIO E CUIDADO
Quando remédio e terapia deixam de ser eficazes para as dores do corpo, como aliviar a dor da alma? Para responder a essa pergunta, Giovana e outros assistentes sociais, médicos, psicólogos, enfermeiros e voluntários do hospital criaram em 2003 a Unidade de Cuidados Paliativos. O objetivo não é aumentar a expectativa de vida dos doentes, e sim imprimir qualidade ao tempo que lhes resta.
Funciona assim: quando chega a notícia de que o tratamento não surte mais efeito e a morte será inevitável, os voluntários entram em ação. A família é cercada de apoio e cuidado. O paciente é convidado a aproveitar melhor cada minuto. Se não tem o que comer, onde morar, eles arrumam. Se não há cobertores ou companhia, providenciam. Onde falta carinho, sobram abraços solidários. E, se restam sonhos, os voluntários se desdobram para realizá-los. É preciso uma dose extra de humanidade para perguntar a alguém às portas da morte: "Qual é seu último desejo?" e, a partir daí, tornálo realidade. Em seis anos, mais de 40 pacientes terminais foram atendidos.
Todas as histórias são inesquecíveis. Giovana se lembra de uma mulher com câncer no intestino que, em uma noite de Natal, pediu para ver o filho, com quem perdera o contato havia tempos. O grupo localizou o rapaz em São Paulo e providenciou passagens. Quando ele chegou ao hospital, a mãe sorriu, segurou a mão dele e morreu. "Eu falei para o moço que ele fora o escolhido. Ela sofreu muito na fase final e escolheu falecer ao lado dele. Dias depois, ele me procurou para conversar. Disse que não deveria ter ido embora nem demorado tanto tempo para rever a mãe", relata.
FUTEBOL E DVD
Alguns desejos custam caro. Outros emocionam de tão singelos. Camisetas de times de futebol e sanduíches do McDonald’s já foram escolhas de quem estava partindo. Por meio de doações, voluntários também conseguem o que o Sistema Único de Saúde, o SUS, não provê: remédios especiais, suplementos alimentares, roupas, brinquedos. Tudo arrecadado com empresas, indústrias e doadores da comunidade que pedem anonimato. Não é fácil, mas a gente não desiste. Além dos obstáculos diários, precisamos vencer a resistência das pessoas em ajudar e em ser ajudadas", define Giovana.
Outro episódio marcante foi o da mulher que chegou ao hospital agarrada às filhas pequenas. Nascida em uma família do Nordeste com boa situação financeira, aos 36 anos ela fugiu do marido que a espancava. Seguiu para Minas Gerais sem um tostão e com duas meninas a tiracolo. Casouse por lá e passou a morar em um assentamento rural. Ao receber o diagnóstico de câncer avançado, ela não queria deixar as crianças com o novo marido. "A paciente disse que só ficaria em paz se localizássemos algum parente", lembra a assistente social.
Vários telefonemas depois, os voluntários encontraram um tio. Conseguiram passagem e hospedagem para o visitante, que assumiria a guarda das sobrinhas. Antes de partir, a mãe ainda quis gravar um DVD com conselhos que acompanharão as filhas até a idade adulta. "Tenho certeza de que ela morreu tranquila", diz Giovana.
Na Unidade de Cuidados Paliativos, os funcionários do hospital não ganham nada a mais para acalentar doentes sem esperança. Como os colegas, muitas vezes a assistente social sacrifica o convívio com os próprios filhos para dedicarse aos filhos alheios. Assim, garante que aprende a ser uma pessoa melhor. "Tivemos um paciente de 7 anos com câncer no fêmur. Foi preciso amputar a perna do menino. Antes de morrer, em 2005, pediu que cuidássemos da mãe dele. Era uma mulher jovem, usuária de drogas. O grupo se aproximou dessa moça e, para nossa surpresa, enquanto a criança esteve no hospital, a mãe deixou de se drogar."
A dona de casa Cristina Campello resolveu conhecer o hospital quando suas filhas cresceram e já não precisavam tanto dela. Passou por todas as etapas para se tornar voluntária: palestras, treinamento, entrevista com psicólogos e assistentes sociais. Depois de tudo, é preciso aguardar uma vaga. Ela começou servindo lanche aos doentes e não quis outra vida. Hoje, aos 51 anos, mata a fome alheia de comida e de afeto. Participou de vários atendimentos, entre eles a um andarilho, expresidiário, que ao sair do hospital não tinha para onde ir.
Os voluntários conseguiram casa, cama hospitalar, televisão. O último desejo dele era que seu relógio de pulso e 20 reais fossem enviados a suas filhas, no interior de Goiás. O relógio seguiu acompanhado de 350 reais, brinquedos e roupas para seus parentes. "É um trabalho maravilhoso. Ao tentar amparar as famílias carentes, auxiliamos nós mesmas", afirma Cristina. Marinalva concorda: "Não tenho stress nem problemas. Sou feliz porque ajudo quem já não pode ser ajudado". Elas habituaramse a viver no limite entre a tragédia e a esperança, a morte e a vida. "Se a gente consegue um sorriso de alguém que só quer chorar, já é uma gratificação", diz Giovana, emocionada.
Graças ao trabalho do grupo, vários sorrisos iluminaram o rosto de um caminhoneiro de 66 anos, vítima de câncer de pele. "O médico estimou que ele viveria seis meses. Ficou conosco seis anos e nos ensinou muito: o último desejo dele era viver", conta a assistente social. Essa é a lição e também a vontade eterna de cada voluntário: viver cada dia como se fosse o último.
























