mulheres-maravilha
Entrevista com Diane Von Furstenberg
Ela casou com um príncipe, mas abriu mão da vida de princesa para fazer carreira na moda. Virou ícone nos anos 1970, enfrentou fracassos e construiu um império fashion com uma ideia fixa: deixar as mulheres mais poderosas. Agora, junta-se a uma ONG dedicada a impulsionar a força feminina no mundo
Andrezza Duarte e Sibelle Pedral
Revista Claudia – 10/2009
Carreira espetacular da estilista Diane Von Furstenberg começou onde a maioria dos contos de fadas acaba: quando ela se casou com um príncipe.
Nascida em berço de ouro na Bélgica, Diane conheceu o suíço Egon Von Furstenberg, seu príncipe – de verdade, e ainda por cima herdeiro da indústria automobilística Fiat –, numa temporada em Genebra. Apaixonaram-se, trocaram alianças, tiveram dois filhos, Alexandre, hoje com 39 anos, e Tatiana, 38, e não viveram felizes para sempre. Antes que se separassem, porém, depois de três anos de casamento, Diane, que não queria ser apenas princesa, já tinha dado os primeiros passos no mundo da moda, criando peças que chamaram a atenção da então todo-poderosa editora da Vogue americana, Diana Vreeland. Sua principal invenção, no começo dos anos 1970, foi o wrap dress, o vestido-envelope, peça única que modela o corpo com elegância – e é a cara da mulherque trabalha. “Ele surgiu num momento de euforia pela liberação feminina”, conta Diane, que sempre teve como bandeira dar poder às mulheres. Coroando essa postura, nos últimos anos a estilista se uniu à ONG Vital Voices, cuja meta é ajudar mulheres empreendedoras no mundo inteiro.
“Há uma mulher-maravilha dentro de nós. Às vezes, falta só um empurrãozinho”,
diz ela. De seu escritório no descolado Meat packing District, em Nova York, a estilista, de 62 anos, comanda hoje a própria marca de luxo, emprestando seu nome a roupas, acessórios e joias – estas em parceria com a joalheria brasileira H. Stern. Depois de falir duas vezes, tem hoje 29 lojas em cidades tão diferentes quanto Paris e Jacarta, na Indonésia, e representantes em 56 países. No ano que vem, ela pretende inaugurar sua primeira loja no Brasil, em São Paulo. Diane é casada com Barry Diller, executivo do canal Fox, e tem três netos.
Você é uma mulher de negócios, designer, mãe, avó e esposa. Ainda assim, encontra tempo para lutar pelas mulheres por meio da ONG Vital Voices. Como dá conta de todos esses papéis?
Me cerco de outras mulheres extraordinárias. Duas coisas são fundamentais na vida e no trabalho: ter uma forte rede social para nos amparar e confiar em si mesma. Nós podemos quase tudo. Também penso que os aspectos pessoais da minha vida – meus filhos, meus casamentos, meus sucessos e fracassos – ajudaram a construir a designer e a mulher de negócios que sou. Sem eles eu não estaria no patamar em que estou hoje.
Que diferença o trabalho da Vital Voices pode fazer, levando-se em conta as barreiras sexistas, que ainda dificultam a ascensão das mulheres?
Toda a diferença. Nunca encontrei uma mulher que não fosse forte. Algumas, por causa do ambiente ou da situação em que vivem, não conseguem expressar essa força. Mas ela está sempre lá. Quando se dá combustível para que se manifeste, as possibilidades são infinitas. Conheci o trabalho dessa ONG pelas mãos de minha amiga Tina Brown (jornalista, ex-editora da revista Vanity Fair) e fui instantaneamente seduzida pela missão a que se propõe, que é dar poder às mulheres. É o que sempre tentei fazer com minhas roupas. A conexão foi imediata.
“Nunca encontrei uma mulher que não fosse forte. Mesmo oculta, a força está sempre lá”
As mulheres atendidas pela Vital Voices são pioneiras, como você. De que uma mulher precisa para ser bemsucedida?
Precisa de confiança, perseverance e gratidão pelo que conquistamos. E, apesar do machismo que encontramos pela frente, é preciso continuar trabalhando.
Na Vital Voices, deve ser comum ser confrontada com histórias terríveis de mulheres do mundo inteiro. Você às vezes perde a esperança?
Pelo contrário: me sinto ainda mais inspirada. Há algumas semanas, uma mulher do Congo veio ao meu escritório para contar como andava a organização que ela criou em seu país. É uma estação de rádio que divulga histórias de mulheres vítimas de violência. Ao levar ao ar o relato dessas mulheres, ela esperava mobilizar muitas outras no combate às agressões. Mas não tinha equipamento. Fiquei tão impressionada com o comprometimento dela com a causa que a ajudei na hora. Com alguns telefonemas, consegui que doassem dois computadores e outras máquinas. É claro que eu gostaria de ajudar mais mulheres, mas estamos fazendo o que é possível, todos os dias.
O célebre wrap dress, criado por você, acabou virando um sinônimo do poder e da liberdade das mulheres e, nesse sentido, combina com a proposta da Vital Voices. Como ele se tornou um símbolo tão forte?
Para mim, o wrap dress é sinônimo de ser mulher, ao mesmo tempo poderoso e feminino, sexy e forte. E passou a representar o mesmo para outras mulheres... Perdi a conta de quanta’s já me abordaram vestindo seus wraps e disseram: “Esse vestido me faz sentir confiante e sexy!” É exatamente o que eu queria passar. O wrap foi criado nos anos 1970, período de efervescência nos Estados Unidos e no mundo, de grande euforia pela liberação feminina. Fez um sucesso tão grande que cheguei a confeccionar 25 mil vestidos por semana! Eu tinha 24, 25 anos e saí na capa do The Wall Street Journal (mais influente jornal de economia dos Estados Unidos).
Aliás, tem uma história que adoro contar. Quando isso aconteceu, eu estava num voo para Cleveland, em viagem de negócios, orgulhosa, lendo no avião o artigo sobre mim. Eu era a única mulher naquele voo. Do meu lado, um homem me abordou: “Por que uma mulher tão linda como você lê o The Wall Street Journal?” Nesse dia, descobri que as melhores satisfações da vida a gente não partilha com ninguém.
Eu me senti tão bem que não precisei dizer nada. Enfim, voltando ao wrap dress, ele ressurgiu nos anos 2000, contemporâneo, quando minha filha, minha nora e outras jovens me contaram que suas amigas estavam comprando vestidos como aqueles em brechós.
Você produziu um livro em quadrinhos, Be the Wonder Woman You Can Be (Seja a mulher-maravilha que você pode ser), que pretende estimular a mu lher a encontrar a mulher-maravilha – numa referência ao personagem das histórias em quadrinhos – dentro de si. Como entrar em contato com nossa força interna? O segredo é olhar para dentro. Em vez de olhar para as barreiras, vislumbrar quem você é de verdade e ter consciência da mulher que deseja ser. Ao longo de minhas duas carreiras, a primeira nos anos 1970 e a segunda agora, experimentei muitos fracassos. Aprendi a ser forte com minha mãe. Ela me ensinou que o medo não é uma opção. Dezoito meses antes de eu nascer, minha mãe estava em Auschwitz, pesava 28 quilos e ninguém esperava que sobrevivesse. Mas eu nasci. Não quero que is so soe dramático. Apenas verdadeiro.
Existe alguma mulher que simboliza essa grande força interior?
Todas as mulheres simbolizam essa força. Somos todas mulheres-maravilha.
Você viaja pelo mundo inteiro e está sempre envolvida em mil tarefas. Como mantém a sanidade?
Encontrando tempo para ficar com minha família, ler e fotografar, hobby que valorizo muito. Também adoro escalada e as viagens pelo mundo.
De onde mais vem a inspiração?
Eu encontro inspiração em toda parte. A natureza, por exemplo, definitivamente desperta minha criatividade. Mas talvez a minha maior fonte de inspiração sejam as mulheres. Temos uma conexão especial. Tudo o que eu crio pretende levar a elas um sentimento de independência e individualidade.
Como surgiu a parceria com a H. Stern?
Eu já conhecia as peças da H.Stern e apreciava a qualidade do trabalho. Passei anos tentando convencer o senhor Hans Stern (o fundador da rede) a trabalhar comigo, mas ele não estava interessado. Esperei o Roberto (Stern, filho do fundador e atual presidente) crescer (risos). As joias prestam-se particularmente bem à minha filosofia de dar poder às mulheres.
Depois de ter se casado duas vezes e vivido romances intensos, como lida com o amor?
Amor é vida… É o que vivemos e respiramos, e está sempre ao nosso redor. Pode ser injusto, às vezes, mas também é bonito.
Haverá uma loja DVF no Brasil em breve?
Sim. Tudo caminha bem e esperamos inaugurar a primeira loja brasileira em 2010, num shopping em São Paulo. Tenho grande admiração pelo Brasil e acho que os brasileiros também deveriam ter orgulho de seu país: é tão lindo, tão rico, tão pleno de futuro! Os brasileiros têm 1,5 mil anos de sucesso pela frente.
Carreira espetacular da estilista Diane Von Furstenberg começou onde a maioria dos contos de fadas acaba: quando ela se casou com um príncipe.
Nascida em berço de ouro na Bélgica, Diane conheceu o suíço Egon Von Furstenberg, seu príncipe – de verdade, e ainda por cima herdeiro da indústria automobilística Fiat –, numa temporada em Genebra. Apaixonaram-se, trocaram alianças, tiveram dois filhos, Alexandre, hoje com 39 anos, e Tatiana, 38, e não viveram felizes para sempre. Antes que se separassem, porém, depois de três anos de casamento, Diane, que não queria ser apenas princesa, já tinha dado os primeiros passos no mundo da moda, criando peças que chamaram a atenção da então todo-poderosa editora da Vogue americana, Diana Vreeland. Sua principal invenção, no começo dos anos 1970, foi o wrap dress, o vestido-envelope, peça única que modela o corpo com elegância – e é a cara da mulherque trabalha. “Ele surgiu num momento de euforia pela liberação feminina”, conta Diane, que sempre teve como bandeira dar poder às mulheres. Coroando essa postura, nos últimos anos a estilista se uniu à ONG Vital Voices, cuja meta é ajudar mulheres empreendedoras no mundo inteiro.
“Há uma mulher-maravilha dentro de nós. Às vezes, falta só um empurrãozinho”,
diz ela. De seu escritório no descolado Meat packing District, em Nova York, a estilista, de 62 anos, comanda hoje a própria marca de luxo, emprestando seu nome a roupas, acessórios e joias – estas em parceria com a joalheria brasileira H. Stern. Depois de falir duas vezes, tem hoje 29 lojas em cidades tão diferentes quanto Paris e Jacarta, na Indonésia, e representantes em 56 países. No ano que vem, ela pretende inaugurar sua primeira loja no Brasil, em São Paulo. Diane é casada com Barry Diller, executivo do canal Fox, e tem três netos.
Você é uma mulher de negócios, designer, mãe, avó e esposa. Ainda assim, encontra tempo para lutar pelas mulheres por meio da ONG Vital Voices. Como dá conta de todos esses papéis?
Me cerco de outras mulheres extraordinárias. Duas coisas são fundamentais na vida e no trabalho: ter uma forte rede social para nos amparar e confiar em si mesma. Nós podemos quase tudo. Também penso que os aspectos pessoais da minha vida – meus filhos, meus casamentos, meus sucessos e fracassos – ajudaram a construir a designer e a mulher de negócios que sou. Sem eles eu não estaria no patamar em que estou hoje.
Que diferença o trabalho da Vital Voices pode fazer, levando-se em conta as barreiras sexistas, que ainda dificultam a ascensão das mulheres?
Toda a diferença. Nunca encontrei uma mulher que não fosse forte. Algumas, por causa do ambiente ou da situação em que vivem, não conseguem expressar essa força. Mas ela está sempre lá. Quando se dá combustível para que se manifeste, as possibilidades são infinitas. Conheci o trabalho dessa ONG pelas mãos de minha amiga Tina Brown (jornalista, ex-editora da revista Vanity Fair) e fui instantaneamente seduzida pela missão a que se propõe, que é dar poder às mulheres. É o que sempre tentei fazer com minhas roupas. A conexão foi imediata.
“Nunca encontrei uma mulher que não fosse forte. Mesmo oculta, a força está sempre lá”
As mulheres atendidas pela Vital Voices são pioneiras, como você. De que uma mulher precisa para ser bemsucedida?
Precisa de confiança, perseverance e gratidão pelo que conquistamos. E, apesar do machismo que encontramos pela frente, é preciso continuar trabalhando.
Na Vital Voices, deve ser comum ser confrontada com histórias terríveis de mulheres do mundo inteiro. Você às vezes perde a esperança?
Pelo contrário: me sinto ainda mais inspirada. Há algumas semanas, uma mulher do Congo veio ao meu escritório para contar como andava a organização que ela criou em seu país. É uma estação de rádio que divulga histórias de mulheres vítimas de violência. Ao levar ao ar o relato dessas mulheres, ela esperava mobilizar muitas outras no combate às agressões. Mas não tinha equipamento. Fiquei tão impressionada com o comprometimento dela com a causa que a ajudei na hora. Com alguns telefonemas, consegui que doassem dois computadores e outras máquinas. É claro que eu gostaria de ajudar mais mulheres, mas estamos fazendo o que é possível, todos os dias.
O célebre wrap dress, criado por você, acabou virando um sinônimo do poder e da liberdade das mulheres e, nesse sentido, combina com a proposta da Vital Voices. Como ele se tornou um símbolo tão forte?
Para mim, o wrap dress é sinônimo de ser mulher, ao mesmo tempo poderoso e feminino, sexy e forte. E passou a representar o mesmo para outras mulheres... Perdi a conta de quanta’s já me abordaram vestindo seus wraps e disseram: “Esse vestido me faz sentir confiante e sexy!” É exatamente o que eu queria passar. O wrap foi criado nos anos 1970, período de efervescência nos Estados Unidos e no mundo, de grande euforia pela liberação feminina. Fez um sucesso tão grande que cheguei a confeccionar 25 mil vestidos por semana! Eu tinha 24, 25 anos e saí na capa do The Wall Street Journal (mais influente jornal de economia dos Estados Unidos).
Aliás, tem uma história que adoro contar. Quando isso aconteceu, eu estava num voo para Cleveland, em viagem de negócios, orgulhosa, lendo no avião o artigo sobre mim. Eu era a única mulher naquele voo. Do meu lado, um homem me abordou: “Por que uma mulher tão linda como você lê o The Wall Street Journal?” Nesse dia, descobri que as melhores satisfações da vida a gente não partilha com ninguém.
Eu me senti tão bem que não precisei dizer nada. Enfim, voltando ao wrap dress, ele ressurgiu nos anos 2000, contemporâneo, quando minha filha, minha nora e outras jovens me contaram que suas amigas estavam comprando vestidos como aqueles em brechós.
Você produziu um livro em quadrinhos, Be the Wonder Woman You Can Be (Seja a mulher-maravilha que você pode ser), que pretende estimular a mu lher a encontrar a mulher-maravilha – numa referência ao personagem das histórias em quadrinhos – dentro de si. Como entrar em contato com nossa força interna? O segredo é olhar para dentro. Em vez de olhar para as barreiras, vislumbrar quem você é de verdade e ter consciência da mulher que deseja ser. Ao longo de minhas duas carreiras, a primeira nos anos 1970 e a segunda agora, experimentei muitos fracassos. Aprendi a ser forte com minha mãe. Ela me ensinou que o medo não é uma opção. Dezoito meses antes de eu nascer, minha mãe estava em Auschwitz, pesava 28 quilos e ninguém esperava que sobrevivesse. Mas eu nasci. Não quero que is so soe dramático. Apenas verdadeiro.
Existe alguma mulher que simboliza essa grande força interior?
Todas as mulheres simbolizam essa força. Somos todas mulheres-maravilha.
Você viaja pelo mundo inteiro e está sempre envolvida em mil tarefas. Como mantém a sanidade?
Encontrando tempo para ficar com minha família, ler e fotografar, hobby que valorizo muito. Também adoro escalada e as viagens pelo mundo.
De onde mais vem a inspiração?
Eu encontro inspiração em toda parte. A natureza, por exemplo, definitivamente desperta minha criatividade. Mas talvez a minha maior fonte de inspiração sejam as mulheres. Temos uma conexão especial. Tudo o que eu crio pretende levar a elas um sentimento de independência e individualidade.
Como surgiu a parceria com a H. Stern?
Eu já conhecia as peças da H.Stern e apreciava a qualidade do trabalho. Passei anos tentando convencer o senhor Hans Stern (o fundador da rede) a trabalhar comigo, mas ele não estava interessado. Esperei o Roberto (Stern, filho do fundador e atual presidente) crescer (risos). As joias prestam-se particularmente bem à minha filosofia de dar poder às mulheres.
Depois de ter se casado duas vezes e vivido romances intensos, como lida com o amor?
Amor é vida… É o que vivemos e respiramos, e está sempre ao nosso redor. Pode ser injusto, às vezes, mas também é bonito.
Haverá uma loja DVF no Brasil em breve?
Sim. Tudo caminha bem e esperamos inaugurar a primeira loja brasileira em 2010, num shopping em São Paulo. Tenho grande admiração pelo Brasil e acho que os brasileiros também deveriam ter orgulho de seu país: é tão lindo, tão rico, tão pleno de futuro! Os brasileiros têm 1,5 mil anos de sucesso pela frente.