mundo feminino
Heroínas do cotidiano
Assim podem ser chamadas as mulheres do planeta, que ganharam voz, cores e amplitude numa megaexposição assinada pelo marroquino Titouan Lamazou, um artista-viajante que percorreu os cinco continentes em busca dos segredos femininos
Raphaela de Campos Mello
Revista Bons Fluídos – 07/2009
Aos 17 anos de idade, o marroquino Titouan Lamazou se juntou por livre e espontânea vontade à tripulação de um barco. Queria desbravar o mundo. Àquela altura, não sabia nada sobre a arte de velejar, mas já caminhava com desenvoltura entre telas, pincéis e tintas. Vinte anos depois, carregando a medalha de campeão mundial de regata oceânica no peito, havia conhecido boa parte do globo e aproveitado suas idas e vindas para exercitar seus múltiplos talentos.
Titouan pinta, desenha, fotografa, filma e escreve. Faz uso de todos os meios ao seu alcance para capturar a diversidade humana. “Não sou jornalista, antropólogo nem sociólogo, embora esses conhecimentos me guiem. Como artista, utilizo as ferramentas da minha época”, esclarece o artista-viajante — ou será o contrário? —, que faz do mundo seu estúdio de criação.
Dentre todas as belezas que seus olhos puderam testemunhar ao longo dos anos embalados pelo mar, uma em especial tornou-se seu grande tema de investigação: as mulheres. “As trajetórias das figuras femininas da atualidade, sejam elas ministras ou camponesas, são infinitamente significativas para a evolução das sociedades”, justifica. “Através das imagens capturadas consegui fazer um retrato bastante fiel do mundo atual.”
O misto de atração e fascínio por esse universo se transformou no combustível de uma jornada de seis anos pelos cinco continentes, dessa vez longe dos barcos. Ao todo, foram 15 viagens realizadas entre 2002 e 2007. O tour rendeu um rico e extenso material, mais de 200 perfis, 3 mil obras e 50 filmes, apresentados ao público na exposição Mulheres do Planeta. A mostra, que integra as comemorações do Ano da França no Brasil, desembarcou na Oca, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, no começo de maio, depois de ter sido exibida no Museu da Humanidade, em Paris. Por aqui, ela fica em cartaz até 11 de julho.
Suas “modelos” são personagens reais dos mais variados matizes. Freiras, prostitutas, refugiadas, guerrilheiras, soldadas, modelos, sambistas, camponesas, fazendeiras, ativistas, advogadas, vaqueiras, donas de casa, artistas de circo. Apesar dos diferentes endereços e sotaques, todas abriram a porta de casa e de seu universo interior, revelando, cada uma a seu tempo, medos, sonhos e reivindicações.
“Quando vou à China ou ao Brasil, não pinto a mulher chinesa ou a brasileira. Eu as vejo como seres autônomos, livres de suas heranças étnicas, sociais, nacionais e religiosas”, Titouan Lamazou
APROXIMAÇÃO RESPEITOSA
Para lidar com a especificidade que esse tipo de trabalho apresenta, o artista optou por uma abordagem flutuante. Passeou pela pintura, indo para a fotografia até chegar à entrevista, ou então improvisava outra sequência, deter mi nada pela personalidade da interlocutora.
Em todos os encontros, contudo, ele aplicou o mesmo questionário composto de perguntas pessoais. Quem é você? Você gosta de ser mulher? O que é que lhe dá medo? O que você acha dos homens? O que é o amor? O que a beleza representa para você? Questões formuladas com o objetivo de quebrar possíveis resistências e alcançar a essência de cada entrevistada.
Os olhares eternizados pelos grandes painéis transmitem todo tipo de mensagens. Vemos mulheres deslumbradas com seus atributos físicos, desconfiadas em relação aos propósitos de Titouan, endurecidas pela guerra, amedrontadas pela repressão e pelo machismo, ansiosas por mais liberdade. As falas, gravadas ou escritas, confirmam as impressões antecipadas pelas imagens. “Tenho orgulho de sus sustentar sozinha meus filhos e netos. Como um homem”, dispara Halime, capitã de pesca do Chade, na África. “O relâmpago vem de Deus. É das armas que temos medo”, confessa Khadija, refugiada que vive no mesmo país. “Os homens de antigamente eram ruins, os de hoje são piores”, compara a indiana Hirô. “Amor... não! Agora não penso mais nisso”, afirma Marina, uma viúva afegã. “A beleza? Ser 80% loira”, diz a romena Ana, esbelta e sorridente.
“As mulheres de Los Angeles não se abrem com facilidade. Para elas, a imagem é mais importante do que a vida interior. Já as de Cabul, no Afeganistão, não temem a aproximação”, Titouan Lamazou
As brasileiras também deram seus recados. Ao longo de uma viagem de quatro meses realizada em 2004, Titouan conheceu 19 mulheres radicadas nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Mi nas Gerais. Uma delas é Tiana, moradora da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, que diz: “Cada um é cada um. Quem trabalha pela grana não pode ensinar outra coisa pros filhos. Uma coisa boa”. Desabafo semelhante parte de Maria de Lourdes, cortadora de cana de Ribeirão Preto, interior de São Paulo: “Melhorias para nós? Só quando Jesus Cristo voltar à Terra”.
Uma lição de simplicidade e doçuravem do sertão de Tocantins, com o aval de quem já viveu o bastante para distribuir bons conselhos. “Só gente besta não ama”, defende dona Joana, 107 anos, descendente de escravos. Dercy Gonçalves, outra anciã de espírito jovem, dá o ar da graça, com muita graça, claro! Em 2004, então com 97 anos, a comediante fez poses irreverentes para a câmera do artista, deitada numa cama. Na época, afirmou: “Já fui vaidosa, sou vaidosa, gosto de ser vaidosa”.
Também chama a atenção os cuidados com a aparência e o apreço pela casa, seja ela um casebre de madeira na mata tropical, uma cabana de palha em pleno deserto, um iglu na tundra siberiana, seja um apartamento na selva de pedra. As fotos revelam um festival de tecidos estampados e objetos decorativos, detalhes estéticos que só uma mulher é capaz de providenciar.
A LUTA CONTINUA
Entre amores e dores, as heroínas do cotidiano caminham. A estrada já foi mais esburacada do que é hoje, mas, para muitas, ainda se mostra longa, tortuosa e incerta. “Em todas as partes do globo, as mulheres estão tomando consciência de seus direitos”, comemora Titouan. Por outro lado, ele desanima ao constatar que a pobreza ainda é um obstáculo que afasta uma boa parcela do exercício da cidadania e da realização profissional.
Para complicar ainda mais a história, o machismo resiste mundo afora. De um lado, fêmeas em franca expansão. De outro, machos humilhados e ressentidos pelas mudanças dos papéis sociais. E, para detonar a bomba em pontos localizados do globo, como a África e o Oriente Médio, há ainda falta de esclarecimento e fanatismo religioso. “Em muitos locais, a violência sexual é grande, já que o estupro é moralmente mais danoso que a bala. É algo vergonhoso. Por causa dele, em algumas culturas, a mulher é banida da família, da sociedade”, observa.
O acúmulo de tarefas domésticas, profissionais e afetivas gerenciadas pelo sexo feminino é outra constatação feita pelo artista, assim como a disparidade econômica. O que mostra, aos quatro ventos, que o combate está longe de acabar. “Mesmo na França, o salário da mulher ainda é inferior ao do homem. Há ainda muita luta pelafrente”, avalia Titouan.
Denúncia, alerta, reflexão, debate. O trabalho desse cidadão do mundo se desdobra em muitas frentes de batalha. Com mérito, ele recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o título de “artista pela paz”. Imbuído dessa missão humanitária, ele segue sua jornada munido de lentes curiosas e imparciais. “Quando tiro uma foto, tento capturar a beleza e a verdade de cada uma delas. Tento manter o olhar virgem para, dessa forma, não fazer julgamentos”, confessa. Seus olhos azuis não o deixam mentir. Dentro do artista- viajante sobram admiração e respeito pelas mulheres do planeta.
Aos 17 anos de idade, o marroquino Titouan Lamazou se juntou por livre e espontânea vontade à tripulação de um barco. Queria desbravar o mundo. Àquela altura, não sabia nada sobre a arte de velejar, mas já caminhava com desenvoltura entre telas, pincéis e tintas. Vinte anos depois, carregando a medalha de campeão mundial de regata oceânica no peito, havia conhecido boa parte do globo e aproveitado suas idas e vindas para exercitar seus múltiplos talentos.
Titouan pinta, desenha, fotografa, filma e escreve. Faz uso de todos os meios ao seu alcance para capturar a diversidade humana. “Não sou jornalista, antropólogo nem sociólogo, embora esses conhecimentos me guiem. Como artista, utilizo as ferramentas da minha época”, esclarece o artista-viajante — ou será o contrário? —, que faz do mundo seu estúdio de criação.
Dentre todas as belezas que seus olhos puderam testemunhar ao longo dos anos embalados pelo mar, uma em especial tornou-se seu grande tema de investigação: as mulheres. “As trajetórias das figuras femininas da atualidade, sejam elas ministras ou camponesas, são infinitamente significativas para a evolução das sociedades”, justifica. “Através das imagens capturadas consegui fazer um retrato bastante fiel do mundo atual.”
O misto de atração e fascínio por esse universo se transformou no combustível de uma jornada de seis anos pelos cinco continentes, dessa vez longe dos barcos. Ao todo, foram 15 viagens realizadas entre 2002 e 2007. O tour rendeu um rico e extenso material, mais de 200 perfis, 3 mil obras e 50 filmes, apresentados ao público na exposição Mulheres do Planeta. A mostra, que integra as comemorações do Ano da França no Brasil, desembarcou na Oca, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, no começo de maio, depois de ter sido exibida no Museu da Humanidade, em Paris. Por aqui, ela fica em cartaz até 11 de julho.
Suas “modelos” são personagens reais dos mais variados matizes. Freiras, prostitutas, refugiadas, guerrilheiras, soldadas, modelos, sambistas, camponesas, fazendeiras, ativistas, advogadas, vaqueiras, donas de casa, artistas de circo. Apesar dos diferentes endereços e sotaques, todas abriram a porta de casa e de seu universo interior, revelando, cada uma a seu tempo, medos, sonhos e reivindicações.
“Quando vou à China ou ao Brasil, não pinto a mulher chinesa ou a brasileira. Eu as vejo como seres autônomos, livres de suas heranças étnicas, sociais, nacionais e religiosas”, Titouan Lamazou
APROXIMAÇÃO RESPEITOSA
Para lidar com a especificidade que esse tipo de trabalho apresenta, o artista optou por uma abordagem flutuante. Passeou pela pintura, indo para a fotografia até chegar à entrevista, ou então improvisava outra sequência, deter mi nada pela personalidade da interlocutora.
Em todos os encontros, contudo, ele aplicou o mesmo questionário composto de perguntas pessoais. Quem é você? Você gosta de ser mulher? O que é que lhe dá medo? O que você acha dos homens? O que é o amor? O que a beleza representa para você? Questões formuladas com o objetivo de quebrar possíveis resistências e alcançar a essência de cada entrevistada.
Os olhares eternizados pelos grandes painéis transmitem todo tipo de mensagens. Vemos mulheres deslumbradas com seus atributos físicos, desconfiadas em relação aos propósitos de Titouan, endurecidas pela guerra, amedrontadas pela repressão e pelo machismo, ansiosas por mais liberdade. As falas, gravadas ou escritas, confirmam as impressões antecipadas pelas imagens. “Tenho orgulho de sus sustentar sozinha meus filhos e netos. Como um homem”, dispara Halime, capitã de pesca do Chade, na África. “O relâmpago vem de Deus. É das armas que temos medo”, confessa Khadija, refugiada que vive no mesmo país. “Os homens de antigamente eram ruins, os de hoje são piores”, compara a indiana Hirô. “Amor... não! Agora não penso mais nisso”, afirma Marina, uma viúva afegã. “A beleza? Ser 80% loira”, diz a romena Ana, esbelta e sorridente.
“As mulheres de Los Angeles não se abrem com facilidade. Para elas, a imagem é mais importante do que a vida interior. Já as de Cabul, no Afeganistão, não temem a aproximação”, Titouan Lamazou
As brasileiras também deram seus recados. Ao longo de uma viagem de quatro meses realizada em 2004, Titouan conheceu 19 mulheres radicadas nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Goiás, Tocantins e Mi nas Gerais. Uma delas é Tiana, moradora da favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, que diz: “Cada um é cada um. Quem trabalha pela grana não pode ensinar outra coisa pros filhos. Uma coisa boa”. Desabafo semelhante parte de Maria de Lourdes, cortadora de cana de Ribeirão Preto, interior de São Paulo: “Melhorias para nós? Só quando Jesus Cristo voltar à Terra”.
Uma lição de simplicidade e doçuravem do sertão de Tocantins, com o aval de quem já viveu o bastante para distribuir bons conselhos. “Só gente besta não ama”, defende dona Joana, 107 anos, descendente de escravos. Dercy Gonçalves, outra anciã de espírito jovem, dá o ar da graça, com muita graça, claro! Em 2004, então com 97 anos, a comediante fez poses irreverentes para a câmera do artista, deitada numa cama. Na época, afirmou: “Já fui vaidosa, sou vaidosa, gosto de ser vaidosa”.
Também chama a atenção os cuidados com a aparência e o apreço pela casa, seja ela um casebre de madeira na mata tropical, uma cabana de palha em pleno deserto, um iglu na tundra siberiana, seja um apartamento na selva de pedra. As fotos revelam um festival de tecidos estampados e objetos decorativos, detalhes estéticos que só uma mulher é capaz de providenciar.
A LUTA CONTINUA
Entre amores e dores, as heroínas do cotidiano caminham. A estrada já foi mais esburacada do que é hoje, mas, para muitas, ainda se mostra longa, tortuosa e incerta. “Em todas as partes do globo, as mulheres estão tomando consciência de seus direitos”, comemora Titouan. Por outro lado, ele desanima ao constatar que a pobreza ainda é um obstáculo que afasta uma boa parcela do exercício da cidadania e da realização profissional.
Para complicar ainda mais a história, o machismo resiste mundo afora. De um lado, fêmeas em franca expansão. De outro, machos humilhados e ressentidos pelas mudanças dos papéis sociais. E, para detonar a bomba em pontos localizados do globo, como a África e o Oriente Médio, há ainda falta de esclarecimento e fanatismo religioso. “Em muitos locais, a violência sexual é grande, já que o estupro é moralmente mais danoso que a bala. É algo vergonhoso. Por causa dele, em algumas culturas, a mulher é banida da família, da sociedade”, observa.
O acúmulo de tarefas domésticas, profissionais e afetivas gerenciadas pelo sexo feminino é outra constatação feita pelo artista, assim como a disparidade econômica. O que mostra, aos quatro ventos, que o combate está longe de acabar. “Mesmo na França, o salário da mulher ainda é inferior ao do homem. Há ainda muita luta pelafrente”, avalia Titouan.
Denúncia, alerta, reflexão, debate. O trabalho desse cidadão do mundo se desdobra em muitas frentes de batalha. Com mérito, ele recebeu da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) o título de “artista pela paz”. Imbuído dessa missão humanitária, ele segue sua jornada munido de lentes curiosas e imparciais. “Quando tiro uma foto, tento capturar a beleza e a verdade de cada uma delas. Tento manter o olhar virgem para, dessa forma, não fazer julgamentos”, confessa. Seus olhos azuis não o deixam mentir. Dentro do artista- viajante sobram admiração e respeito pelas mulheres do planeta.