Homem de bem
Demorou!
Por que nos esquecemos sempre de que o futuro a gente faz agora?
Por Caco de Paula
Revista Vida Simples - 11-12/2007
[img1]Nunca participei de tantas reuniões quanto agora. Mas há uma em especial de que gosto muito. Participo de um grupo que conversa sobre sustentabilidade e propõe ações de comunicação.
Partimos de uma idéia simples: ambiente, economia e sociedade são interdependentes, causam e sofrem impactos e devem ser considerados também a médio e longo prazos. Numa dessas reuniões, redigimos títulos, que ocupariam buttons e manifestos. O futuro a gente faz agora, diz um dos slogans.
Talvez, de tão trivial, essa fosse uma daquelas verdades que nem precisassem ser lembradas. Talvez não se deva dizer idéias tão óbvias como "cada efeito corresponde a uma causa". Mas, observando como nós somos negligentes diante dessa formulação básica, talvez faça sentido lembrar o óbvio, sim.
Por exemplo, que o abuso dos recursos naturais e o modo como produzimos lixo hoje terão conseqüências para a natureza, a sociedade e a economia, agora e no futuro. Alguém já definiu esse tipo de consciência como "solidariedade para com os descendentes". Mas poucos pensam para além de seu próprio período de existência.
Sucumbimos em um torvelinho do cotidiano que parece nos dar todas as falsas justificativas por não termos tempo de ver os filhos crescer, plantar árvores ou ser gentis. Não temos tempo para o presente e, ainda assim, parecemos tão despreocupados com o futuro. Não se trata de pensar só no presente ou só no futuro, mas de pensar no presente e no futuro.
Nestes dias em que as decisões submetem-se ao imediatismo que nos deixa devedores com o amanhã, é mais que necessário instruir as ações com visão de futuro, considerando seus efeitos para nós mesmos, nossos filhos e netos e também para os netos dos netos deles. O texto do button foi uma forma de dizer isso de maneira sintética. Há outras.
Uma de minhas preferidas é uma breve cena ocorrida 200 anos atrás, recontada aqui pelo amigo e mestre José Roberto Guzzo, autor, do começo ao fim, desta história sobre o agora e o futuro.
Certo dia de grande calor, marchando com o exército pelo interior da França, Napoleão chamou seus generais e disse:
- A tropa se cansa muito com esse calor. Se marchar à sombra, vai cansar menos. E cansando menos vai marchar mais depressa.
- Claro, mas o problema é como fazer a sombra, comentou um dos generais.
- Não há problema nenhum. Basta plantar árvores à beira das estradas.
- Árvores? Mas em quais estradas?
- Em todas.
- Todas?
- Sim, porque a gente não pode saber em quais estradas vamos ter de marchar.
- Mas vai levar uma enormidade de tempo.
- É exatamente por isso que temos de começar hoje.
Diz a lenda que vem daí a lenda segundo a qual as estradas arborizadas do interior da França foram obra do Corso. Hoje quase não existem mais, porque atrapalhavam os carros, mas já existiram. Eu mesmo vi.
Caco de Paula é jornalista e acredita que o futuro é o que fizermos dele. homemdebem@abril.com.br
[img1]Nunca participei de tantas reuniões quanto agora. Mas há uma em especial de que gosto muito. Participo de um grupo que conversa sobre sustentabilidade e propõe ações de comunicação.
Partimos de uma idéia simples: ambiente, economia e sociedade são interdependentes, causam e sofrem impactos e devem ser considerados também a médio e longo prazos. Numa dessas reuniões, redigimos títulos, que ocupariam buttons e manifestos. O futuro a gente faz agora, diz um dos slogans.
Talvez, de tão trivial, essa fosse uma daquelas verdades que nem precisassem ser lembradas. Talvez não se deva dizer idéias tão óbvias como "cada efeito corresponde a uma causa". Mas, observando como nós somos negligentes diante dessa formulação básica, talvez faça sentido lembrar o óbvio, sim.
Por exemplo, que o abuso dos recursos naturais e o modo como produzimos lixo hoje terão conseqüências para a natureza, a sociedade e a economia, agora e no futuro. Alguém já definiu esse tipo de consciência como "solidariedade para com os descendentes". Mas poucos pensam para além de seu próprio período de existência.
Sucumbimos em um torvelinho do cotidiano que parece nos dar todas as falsas justificativas por não termos tempo de ver os filhos crescer, plantar árvores ou ser gentis. Não temos tempo para o presente e, ainda assim, parecemos tão despreocupados com o futuro. Não se trata de pensar só no presente ou só no futuro, mas de pensar no presente e no futuro.
Nestes dias em que as decisões submetem-se ao imediatismo que nos deixa devedores com o amanhã, é mais que necessário instruir as ações com visão de futuro, considerando seus efeitos para nós mesmos, nossos filhos e netos e também para os netos dos netos deles. O texto do button foi uma forma de dizer isso de maneira sintética. Há outras.
Uma de minhas preferidas é uma breve cena ocorrida 200 anos atrás, recontada aqui pelo amigo e mestre José Roberto Guzzo, autor, do começo ao fim, desta história sobre o agora e o futuro.
Certo dia de grande calor, marchando com o exército pelo interior da França, Napoleão chamou seus generais e disse:
- A tropa se cansa muito com esse calor. Se marchar à sombra, vai cansar menos. E cansando menos vai marchar mais depressa.
- Claro, mas o problema é como fazer a sombra, comentou um dos generais.
- Não há problema nenhum. Basta plantar árvores à beira das estradas.
- Árvores? Mas em quais estradas?
- Em todas.
- Todas?
- Sim, porque a gente não pode saber em quais estradas vamos ter de marchar.
- Mas vai levar uma enormidade de tempo.
- É exatamente por isso que temos de começar hoje.
Diz a lenda que vem daí a lenda segundo a qual as estradas arborizadas do interior da França foram obra do Corso. Hoje quase não existem mais, porque atrapalhavam os carros, mas já existiram. Eu mesmo vi.
Caco de Paula é jornalista e acredita que o futuro é o que fizermos dele. homemdebem@abril.com.br