
Por Márcia Bindo
Revista Vida Simples - 08/2007
Estilistas, fashionistas e especialistas de todo o globo apontam a última tendência da moda: a ausência de tendências. É que não houve nenhuma época como esta, onde você tem tudo-ao-mesmo-tempo-agora no quesito estilo de roupas - basta sair nas ruas para comprovar. Modelitos de outras épocas misturam-se a novos tecidos, cortes, modismos. Estabelecer um padrão virou demodê.
Mesmo que a cada temporada algumas peças fiquem em evidência, o mercado do vestuário, em constante renovação, faz com que seja impossível seguir modelos como antigamente.
Mais do que nunca, a moda é uma forma de expressão individual. E a indústria fashion, que dita os costumes, começa a buscar refências naquilo que as pessoas comuns estão usando. Não é para menos que o blog de moda mais cool do momento é o do publicitário americano Scott Schuman. Ele trabalhou por 15 anos com moda e percebeu um descompasso entre o que vendia e o que as pessoas usavam na vida real. Passou a fotografar o que americanos, italianos e franceses vestem no dia-a-dia, deixando as fotos comentadas em seu blog. "Vejo pessoas nas ruas com estilo próprio e acho mais inspiradores e interessantes que os modelos dos desfiles", diz ele, que mantém o blog "The Sartorialist" na rede.
Se dentro da gama do que é oferecido nas lojas você faz um recorte e escolhe aquilo que o representa, a moda ganha um sentido maior. "O estilo é uma escolha pessoal. A moda passa. O estilo permanece", afirma Glória Kalil em seu livro "Chic - Um Guia Básico de Moda e Estilo". A consultora de moda diz que estilo é aquilo que respeita sua personalidade. É o seu modo de dizer ao mundo "eu sou singular", mesmo quando a roupa é necessária para mostrar que você faz parte de um grupo.
E diz mais: quem tem estilo adota uma atitude sustentável, porque faz escolhas de forma consciente e não se deixa virar escravo da moda. Parece brincadeira de criança: as opções são muitas, mas é você quem faz a sua moda. Divirta-se!
A revista Vida Simples criou quatro figurinos bacanas para você se inspirar e mudar o seu comportamento diante do armário e nas compras:
[img01]LOOK 1 - A NATUREZA COMO INSPIRAÇÃO
Clique aqui para veras peças
Regata natural: de algodão orgânico que já nasce colorido, da marca Artesã
Saia artesanal: feita a mão por bordadeiras, de Isabela Capeto
Bolsa vegetal:parece couro, mas seu material é o látex extraído de seringueiras, da Amazon Life
Sandália reciclada: de borracha de pneu reutilizado, da Goóc.
[img02]LOOK 2 - DO SEU JEITO
Clique aqui para ver as peças
Camiseta customizada:você é o artista e faz a estampa do jeito que quiser
Calça do bem: parte do valor da compra vai para projetos sustentáveis
Tênis renovado:o bom e velho companheiro produzido com malha reciclada.
[img03]LOOK 3 -VISUALVINTAGE
Clique aqui para ver as peças
Camisa exclusiva:de outros tempos, uma peça única garimpada em brechó
Calça sociável:já ocupou o guarda-roupa do tio e do avô e sobreviveu por gerações
Sapato ergonômico:deixa os pés confortáveis, ainda mais com a palmilha de fibra de coco reciclável.
[img04]LOOK 4 - CONSUMO CONSCIENTE
Clique aqui para ver o look
Vestido renovável:a matéria-prima é a fibra de bambu, da UMA
Sapatilha engajada:de couro sintético, a marca não usa pêlos nem couro de animais, da Adidas by Stella McCartney
Bolsa luxuosa:produzida a partir de sacolas plásticas de lixo reutilizadas, da Maria Lixo
Tricô chique: feito com muito esmero pela avó (acervo pessoal).
MODA SUSTENTÁVEL
Exatamente porque existe um público mais exigente quanto à procedência dos produtos, muitos fabricantes de roupas buscam se diferenciar usando materiais ecológicos e maneiras mais sustentáveis de produzir. "Essa busca vem tímida desde a década de 70 e se intensificou nos últimos três anos", diz a jornalista inglesa Sally Lohan, do WGSN, prestigiado site de moda internacional. E arremata: "Essa tomada de consciência deixou de ser coisa de hippie, e as roupas não têm mais um caráter artesanal, incorporaram design e tecnologia".
Sally esteve em junho no São Paulo Fashion Week, que pela segunda vez adotou a sustentabilidade como tema. O evento foi decorado com papelão reciclado e reduziu em 70% o consumo de energia, entre outras ações. Nas passarelas, contudo, pouco se viu sobre o tema. "A indústria têxtil brasileira está começando a adaptar suas fábricas a esse novo conceito", diz Sylvio Napoli, gerente de capacitação tecnológica da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil).
Se por aqui esse mercado engatinha, lá fora anda a passos firmes. A semana de moda de Londres, que acontece em setembro, terá o Esthetica, um espaço só para marcas ecológicas. E, em outubro, Paris é o palco da quarta edição de uma semana de moda exclusiva para marcas adeptas do comércio ético (todas as etapas de confecção priorizam a redução do impacto ambiental, promovem a atividade de artesãos e pequenas comunidades e valorizam os funcionários).
Na Europa e nos Estados Unidos tem de tudo: marcas de sapatos, bolsas e lojas inteiras especializadas em peças ecologicamente corretas - como a recém-inaugurada Organic Avenue, em Nova York. A estilista inglesa (e vegetariana) Stella McCartney, famosa defensora dos animais, não usa couro nem pele de bichos - e suas coleções são um sucesso. O cantor Bono, do U2, criou a Edun, marca de roupas com tecidos orgânicos produzidos por comunidades na África. Grifes como Armani e Levi's lançaram linhas especiais de roupas com algodão orgânico. Até a megarrede varejista Wal-Mart entrou nesse filão. "Hoje é fashion usar roupas e acessórios que contribuem para a preservação do planeta", diz asocióloga americana Diane Crane, autora do livro "A Moda e seu Papel Social". Por essas e outras é que o lançamento de uma singela bolsa de algodão em junho causou o maior frisson em Londres. Estampada com os dizeres "I'm not a plastic bag" (eu não sou uma sacola de plástico), a idéia era que a bolsa da designer Anya Hindmarch substituísse os bilhões de sacolas plásticas descartadas todo ano no país - virou objeto de desejo e foi vendida em poucas horas nos supermercados de lá.
Quer saber o que existe no mercado brasileiro? Pule para o próximo texto.
MATÉRIA-PRIMA VERDE
"As roupas ecológicas são aquelas feitas de materiais reciclados, tecidos orgânicos, couros alternativos e novas fibras naturais", diz Selma Fernandes, coordenadora do Instituto E, organização brasileira que faz a ponte entre os produtores de materiais ecológicos e os estilistas e suas marcas.
No Brasil, pequenas marcas são as pioneiras no uso desses materiais. Como a carioca Amazon Life, que vende bolsas e sapatos feitos de couro vegetal, criado com o látex extraído de seringueiras por cooperativas no Acre. Outro exemplo é a marca Goóc, que usa a borracha reciclada de pneus no solado dos seus calçados. A indústria têxtil brasileira desenvolveu fibras a partir de garrafas PET recicladas e fibras de plantas como o bambu e o cânhamo, que algumas marcas, como a Osklen, usam em suas coleções.
Você deve estar se perguntando: como descobrir se tal roupa segue os preceitos da moda sustentável? "As empresas e marcas que buscam esse diferencial fazem questão de anunciar, criando selos e etiquetas que falam sobre a origem do produto", diz Cyntia Malagutti, professora de ecodesign do Senac-SP. Para as roupas orgânicas, já existe o selo de certificação NOW (Natural Organic World).
Você também pode checar na etiqueta a composição do tecido. As fibras naturais, de origem vegetal ou animal, são matérias-primas renováveis, costumam ser mais agradáveis ao toque e absorvem melhor a umidade do corpo. As fibras sintéticas são derivadas do petróleo (repare na etiqueta: elas têm as iniciais "po" - poliamida, poliéster, polietileno, polipropileno). Mas o hit dessa leva "verde" são as roupas feitas de algodão orgânico, cultivado sem o uso de agrotóxicos e pesticidas. Apenas 1% do algodão produzido no país é orgânico. A fábrica Coexis, de São Paulo, criou o primeiro tecido de algodão orgânico nacional, tingido com corantes naturais. Entre os clientes estão as marcas cariocas Redley e Cantão, que desfilaram na última semana de moda do Rio roupas com o selo orgânico.
Outro babado é o algodão que já nasce colorido, nos tons marrom, vermelho e verde - uma saída aos estragos causados pelo tingimento químico. Desenvolvido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) há seis anos através do melhoramento genético da planta, a nova espécie (que só cresce na Paraíba) é produzida por cooperativas que valorizam a agricultura familiar e o artesanato local.
Agora, se você está pensando em aderir à moda sustentável, prepare o bolso: por serem produzidas em baixa escala, a maioria das roupas são cerca de 30% mais caras. A boa notícia é que você pode entrar nessa onda de muitas maneiras. Como? Continue lendo e você saberá.
GUARDA-ROUPA ESPERTO
Hoje é chique ter um guarda-roupa enxuto. Primeiro porque você está consumindo menos matéria-prima do planeta. Segundo porque você conseguirá usufuir melhor o que já tem, sem deixar roupas encalhadas no armário por anos a fio. E vai naturalmente aprender a fazer mais combinações com as peças que tem disponíveis à mão. "A visão antiga de que para cada festa você tem que ter uma roupa nova faz parte de uma cultura insustentável", diz Maluh Barciotte, consultora do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.
É difícil admitir, mas as pesquisas de comportamento do consumidor comprovam: a maioria das compras é feita por impulso. Faça a experiência: saia de casa sem cheques nem cartão de crédito e vá ao shopping olhar as vitrines. Depois de se interessar por algumas roupas, volte para casa e avalie se elas eram mesmo necessárias - 90% das pessoas não retornam para comprar.
Se o bom gosto sugere que você tenha menos roupas, acessórios e frufrus, é de bom-tom aprender a escolher peças de qualidade. "O consumidor tem que investigar, não engolir o que está exposto nas araras. Tem que olhar a etiqueta, ver qual é a matéria-prima utilizada e até conversar com o vendedor sobre a origem do produto", diz Marco Sabino, fashionista e autor do Dicionário da Moda.
Sabe qual é o útimo grito da moda? Reutilizar esses pedacinhos de pano. Vale fazer bazar de trocas de roupas com as amigas. Ou então fuçar o armário da parentada, ver se há indumentárias que podem ser aproveitadas, dar um pulinho nos brechós. A atriz Angelina Jolie fez e aconteceu na pré-estréia de um filme. O motivo? Usava um vestido de brechó, que comprou por poucos dólares. Por aqui a cantora Marisa Monte não surpreende mais os repórteres quando perguntam qual a marca de suas roupas: "de brechó" é sua resposta freqüente. Não tem marca mais exclusiva que essa: dificilmente alguém vai aparecer com uma peça igual.
Uma boa tática para não deixar que seu armário vire o Memorial das Roupas Esquecidas é a seguinte: sempre que comprar uma peça, retire outra que você não usa mais para doar. A legendária Coco Chanel não se conformava com as mulheres que dispensavam um guarda-roupa inteiro a cada estação. "A atitude denota muito dinheiro, mas pouco estilo", concluiu a estilista. E se mesmo assim você não resiste e vai fazer umas comprinhas, dê uma espiada nas dicas ao lado. Se joga!
NA HORA DE IR ÀS COMPRAS
Fique atento a algumas idéias ou frases que podem influenciar sua decisão de compra:
"Está um pouco apertado, mas vou levar, preciso emagrecer mesmo" - Regra número 1: compre sempre roupas do tamanho certo. Nada de depender de uma mudança física, que pode demorar ou nem vir a acontecer.
"Oba, liquidação!"- Cuidado com a tentação das peças em oferta - nem sempre são o que você realmente precisa.
"A roupa caiu como uma luva, está ma-ra-vi-lho-sa" - Vendedoras de lojas adoram bajular. A menos que você conheça bem a vendedora, lembre-se de que só você sabe o que lhe fica melhor.
"Vou levar sem experimentar" - Roupa na vitrine ou no cabide é traiçoeira. Sempre prove as peças. Evite também saldões sem provador, para depois não ficar chorando as pitangas de que nada serviu.
"Pode levar, está justo mas vai lassear" - Cuidado com a ladainha dos vendedores: o conforto ao vestir deve ser imediato.
"Não sei se combina com meu guarda-roupa..." - Se você não sabe, é porque não combina. Leva jeito de que vai ficar abandonada no armário esperando uma ocasião que nunca vem.
"É só fazer a barra ou dar uma entradinha na cintura" - Se a loja pode fazer o pequeno ajuste, ótimo. Se não, responda rápido: você tem uma boa costureira ou alfaiate? E quer se dar ao trabalho de ir atrás desse ajuste?
"Estou triste, vou ao shopping fazer umas comprinhas" - Tsc, tsc, essa não é uma boa maneira de compensar a tristeza. Estudos mostram que a felicidade gerada por uma compra não é duradoura, termina assim que você chega em casa.
"É a última peça, se não levar agora vai acabar..." - Nunca compre quando você se sente pressionado a decidir no ato.
Consultoria: Glória Kalil
Por Márcia Bindo
Revista Vida Simples - 08/2007
Estilistas, fashionistas e especialistas de todo o globo apontam a última tendência da moda: a ausência de tendências. É que não houve nenhuma época como esta, onde você tem tudo-ao-mesmo-tempo-agora no quesito estilo de roupas - basta sair nas ruas para comprovar. Modelitos de outras épocas misturam-se a novos tecidos, cortes, modismos. Estabelecer um padrão virou demodê.
Mesmo que a cada temporada algumas peças fiquem em evidência, o mercado do vestuário, em constante renovação, faz com que seja impossível seguir modelos como antigamente.
Mais do que nunca, a moda é uma forma de expressão individual. E a indústria fashion, que dita os costumes, começa a buscar refências naquilo que as pessoas comuns estão usando. Não é para menos que o blog de moda mais cool do momento é o do publicitário americano Scott Schuman. Ele trabalhou por 15 anos com moda e percebeu um descompasso entre o que vendia e o que as pessoas usavam na vida real. Passou a fotografar o que americanos, italianos e franceses vestem no dia-a-dia, deixando as fotos comentadas em seu blog. "Vejo pessoas nas ruas com estilo próprio e acho mais inspiradores e interessantes que os modelos dos desfiles", diz ele, que mantém o blog "The Sartorialist" na rede.
Se dentro da gama do que é oferecido nas lojas você faz um recorte e escolhe aquilo que o representa, a moda ganha um sentido maior. "O estilo é uma escolha pessoal. A moda passa. O estilo permanece", afirma Glória Kalil em seu livro "Chic - Um Guia Básico de Moda e Estilo". A consultora de moda diz que estilo é aquilo que respeita sua personalidade. É o seu modo de dizer ao mundo "eu sou singular", mesmo quando a roupa é necessária para mostrar que você faz parte de um grupo.
E diz mais: quem tem estilo adota uma atitude sustentável, porque faz escolhas de forma consciente e não se deixa virar escravo da moda. Parece brincadeira de criança: as opções são muitas, mas é você quem faz a sua moda. Divirta-se!
A revista Vida Simples criou quatro figurinos bacanas para você se inspirar e mudar o seu comportamento diante do armário e nas compras:
[img01]LOOK 1 - A NATUREZA COMO INSPIRAÇÃO
Clique aqui para veras peças
Regata natural: de algodão orgânico que já nasce colorido, da marca Artesã
Saia artesanal: feita a mão por bordadeiras, de Isabela Capeto
Bolsa vegetal:parece couro, mas seu material é o látex extraído de seringueiras, da Amazon Life
Sandália reciclada: de borracha de pneu reutilizado, da Goóc.
[img02]LOOK 2 - DO SEU JEITO
Clique aqui para ver as peças
Camiseta customizada:você é o artista e faz a estampa do jeito que quiser
Calça do bem: parte do valor da compra vai para projetos sustentáveis
Tênis renovado:o bom e velho companheiro produzido com malha reciclada.
[img03]LOOK 3 -VISUALVINTAGE
Clique aqui para ver as peças
Camisa exclusiva:de outros tempos, uma peça única garimpada em brechó
Calça sociável:já ocupou o guarda-roupa do tio e do avô e sobreviveu por gerações
Sapato ergonômico:deixa os pés confortáveis, ainda mais com a palmilha de fibra de coco reciclável.
[img04]LOOK 4 - CONSUMO CONSCIENTE
Clique aqui para ver o look
Vestido renovável:a matéria-prima é a fibra de bambu, da UMA
Sapatilha engajada:de couro sintético, a marca não usa pêlos nem couro de animais, da Adidas by Stella McCartney
Bolsa luxuosa:produzida a partir de sacolas plásticas de lixo reutilizadas, da Maria Lixo
Tricô chique: feito com muito esmero pela avó (acervo pessoal).
MODA SUSTENTÁVEL
Exatamente porque existe um público mais exigente quanto à procedência dos produtos, muitos fabricantes de roupas buscam se diferenciar usando materiais ecológicos e maneiras mais sustentáveis de produzir. "Essa busca vem tímida desde a década de 70 e se intensificou nos últimos três anos", diz a jornalista inglesa Sally Lohan, do WGSN, prestigiado site de moda internacional. E arremata: "Essa tomada de consciência deixou de ser coisa de hippie, e as roupas não têm mais um caráter artesanal, incorporaram design e tecnologia".
Sally esteve em junho no São Paulo Fashion Week, que pela segunda vez adotou a sustentabilidade como tema. O evento foi decorado com papelão reciclado e reduziu em 70% o consumo de energia, entre outras ações. Nas passarelas, contudo, pouco se viu sobre o tema. "A indústria têxtil brasileira está começando a adaptar suas fábricas a esse novo conceito", diz Sylvio Napoli, gerente de capacitação tecnológica da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil).
Se por aqui esse mercado engatinha, lá fora anda a passos firmes. A semana de moda de Londres, que acontece em setembro, terá o Esthetica, um espaço só para marcas ecológicas. E, em outubro, Paris é o palco da quarta edição de uma semana de moda exclusiva para marcas adeptas do comércio ético (todas as etapas de confecção priorizam a redução do impacto ambiental, promovem a atividade de artesãos e pequenas comunidades e valorizam os funcionários).
Na Europa e nos Estados Unidos tem de tudo: marcas de sapatos, bolsas e lojas inteiras especializadas em peças ecologicamente corretas - como a recém-inaugurada Organic Avenue, em Nova York. A estilista inglesa (e vegetariana) Stella McCartney, famosa defensora dos animais, não usa couro nem pele de bichos - e suas coleções são um sucesso. O cantor Bono, do U2, criou a Edun, marca de roupas com tecidos orgânicos produzidos por comunidades na África. Grifes como Armani e Levi's lançaram linhas especiais de roupas com algodão orgânico. Até a megarrede varejista Wal-Mart entrou nesse filão. "Hoje é fashion usar roupas e acessórios que contribuem para a preservação do planeta", diz asocióloga americana Diane Crane, autora do livro "A Moda e seu Papel Social". Por essas e outras é que o lançamento de uma singela bolsa de algodão em junho causou o maior frisson em Londres. Estampada com os dizeres "I'm not a plastic bag" (eu não sou uma sacola de plástico), a idéia era que a bolsa da designer Anya Hindmarch substituísse os bilhões de sacolas plásticas descartadas todo ano no país - virou objeto de desejo e foi vendida em poucas horas nos supermercados de lá.
Quer saber o que existe no mercado brasileiro? Pule para o próximo texto.
MATÉRIA-PRIMA VERDE
"As roupas ecológicas são aquelas feitas de materiais reciclados, tecidos orgânicos, couros alternativos e novas fibras naturais", diz Selma Fernandes, coordenadora do Instituto E, organização brasileira que faz a ponte entre os produtores de materiais ecológicos e os estilistas e suas marcas.
No Brasil, pequenas marcas são as pioneiras no uso desses materiais. Como a carioca Amazon Life, que vende bolsas e sapatos feitos de couro vegetal, criado com o látex extraído de seringueiras por cooperativas no Acre. Outro exemplo é a marca Goóc, que usa a borracha reciclada de pneus no solado dos seus calçados. A indústria têxtil brasileira desenvolveu fibras a partir de garrafas PET recicladas e fibras de plantas como o bambu e o cânhamo, que algumas marcas, como a Osklen, usam em suas coleções.
Você deve estar se perguntando: como descobrir se tal roupa segue os preceitos da moda sustentável? "As empresas e marcas que buscam esse diferencial fazem questão de anunciar, criando selos e etiquetas que falam sobre a origem do produto", diz Cyntia Malagutti, professora de ecodesign do Senac-SP. Para as roupas orgânicas, já existe o selo de certificação NOW (Natural Organic World).
Você também pode checar na etiqueta a composição do tecido. As fibras naturais, de origem vegetal ou animal, são matérias-primas renováveis, costumam ser mais agradáveis ao toque e absorvem melhor a umidade do corpo. As fibras sintéticas são derivadas do petróleo (repare na etiqueta: elas têm as iniciais "po" - poliamida, poliéster, polietileno, polipropileno). Mas o hit dessa leva "verde" são as roupas feitas de algodão orgânico, cultivado sem o uso de agrotóxicos e pesticidas. Apenas 1% do algodão produzido no país é orgânico. A fábrica Coexis, de São Paulo, criou o primeiro tecido de algodão orgânico nacional, tingido com corantes naturais. Entre os clientes estão as marcas cariocas Redley e Cantão, que desfilaram na última semana de moda do Rio roupas com o selo orgânico.
Outro babado é o algodão que já nasce colorido, nos tons marrom, vermelho e verde - uma saída aos estragos causados pelo tingimento químico. Desenvolvido pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) há seis anos através do melhoramento genético da planta, a nova espécie (que só cresce na Paraíba) é produzida por cooperativas que valorizam a agricultura familiar e o artesanato local.
Agora, se você está pensando em aderir à moda sustentável, prepare o bolso: por serem produzidas em baixa escala, a maioria das roupas são cerca de 30% mais caras. A boa notícia é que você pode entrar nessa onda de muitas maneiras. Como? Continue lendo e você saberá.
GUARDA-ROUPA ESPERTO
Hoje é chique ter um guarda-roupa enxuto. Primeiro porque você está consumindo menos matéria-prima do planeta. Segundo porque você conseguirá usufuir melhor o que já tem, sem deixar roupas encalhadas no armário por anos a fio. E vai naturalmente aprender a fazer mais combinações com as peças que tem disponíveis à mão. "A visão antiga de que para cada festa você tem que ter uma roupa nova faz parte de uma cultura insustentável", diz Maluh Barciotte, consultora do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.
É difícil admitir, mas as pesquisas de comportamento do consumidor comprovam: a maioria das compras é feita por impulso. Faça a experiência: saia de casa sem cheques nem cartão de crédito e vá ao shopping olhar as vitrines. Depois de se interessar por algumas roupas, volte para casa e avalie se elas eram mesmo necessárias - 90% das pessoas não retornam para comprar.
Se o bom gosto sugere que você tenha menos roupas, acessórios e frufrus, é de bom-tom aprender a escolher peças de qualidade. "O consumidor tem que investigar, não engolir o que está exposto nas araras. Tem que olhar a etiqueta, ver qual é a matéria-prima utilizada e até conversar com o vendedor sobre a origem do produto", diz Marco Sabino, fashionista e autor do Dicionário da Moda.
Sabe qual é o útimo grito da moda? Reutilizar esses pedacinhos de pano. Vale fazer bazar de trocas de roupas com as amigas. Ou então fuçar o armário da parentada, ver se há indumentárias que podem ser aproveitadas, dar um pulinho nos brechós. A atriz Angelina Jolie fez e aconteceu na pré-estréia de um filme. O motivo? Usava um vestido de brechó, que comprou por poucos dólares. Por aqui a cantora Marisa Monte não surpreende mais os repórteres quando perguntam qual a marca de suas roupas: "de brechó" é sua resposta freqüente. Não tem marca mais exclusiva que essa: dificilmente alguém vai aparecer com uma peça igual.
Uma boa tática para não deixar que seu armário vire o Memorial das Roupas Esquecidas é a seguinte: sempre que comprar uma peça, retire outra que você não usa mais para doar. A legendária Coco Chanel não se conformava com as mulheres que dispensavam um guarda-roupa inteiro a cada estação. "A atitude denota muito dinheiro, mas pouco estilo", concluiu a estilista. E se mesmo assim você não resiste e vai fazer umas comprinhas, dê uma espiada nas dicas ao lado. Se joga!
NA HORA DE IR ÀS COMPRAS
Fique atento a algumas idéias ou frases que podem influenciar sua decisão de compra:
"Está um pouco apertado, mas vou levar, preciso emagrecer mesmo" - Regra número 1: compre sempre roupas do tamanho certo. Nada de depender de uma mudança física, que pode demorar ou nem vir a acontecer.
"Oba, liquidação!"- Cuidado com a tentação das peças em oferta - nem sempre são o que você realmente precisa.
"A roupa caiu como uma luva, está ma-ra-vi-lho-sa" - Vendedoras de lojas adoram bajular. A menos que você conheça bem a vendedora, lembre-se de que só você sabe o que lhe fica melhor.
"Vou levar sem experimentar" - Roupa na vitrine ou no cabide é traiçoeira. Sempre prove as peças. Evite também saldões sem provador, para depois não ficar chorando as pitangas de que nada serviu.
"Pode levar, está justo mas vai lassear" - Cuidado com a ladainha dos vendedores: o conforto ao vestir deve ser imediato.
"Não sei se combina com meu guarda-roupa..." - Se você não sabe, é porque não combina. Leva jeito de que vai ficar abandonada no armário esperando uma ocasião que nunca vem.
"É só fazer a barra ou dar uma entradinha na cintura" - Se a loja pode fazer o pequeno ajuste, ótimo. Se não, responda rápido: você tem uma boa costureira ou alfaiate? E quer se dar ao trabalho de ir atrás desse ajuste?
"Estou triste, vou ao shopping fazer umas comprinhas" - Tsc, tsc, essa não é uma boa maneira de compensar a tristeza. Estudos mostram que a felicidade gerada por uma compra não é duradoura, termina assim que você chega em casa.
"É a última peça, se não levar agora vai acabar..." - Nunca compre quando você se sente pressionado a decidir no ato.
Consultoria: Glória Kalil
























