cena carioca
O treino mais lindo do mundo
É logo ali: começa em Ipanema, segue pela Lagoa Rodrigo de Freitas, entra no Jardim Botânico e desemboca na praia, com a água gelada do mar carioca massageando os pés
Sérgio Xavier Filho
Revista Runners World - 04/2009
"Venha passar um fim de semana aqui no Rio e levarei você ao treino mais bonito do mundo..." Nem foi bem um convite. Era mais um desafio, uma provocação do músico e produtor Pierre Aderne, amigo de outros tempos. Nada mais carioca que essa mania de achar que tudo que vem do Rio é mais charmoso, mais espetacular. E Pierre, apesar de ter nascido por acidente na França, é desses cariocas típicos que acham que o mundo se formou a partir de Ipanema.
Não dei bola ao e-mail do fim do ano passado, até que apareceu uma viagem de trabalho em uma quarta-feira de fevereiro. Tá bom, Pierre, vamos ver o tal "treino maravilhoso" que você quer mostrar. Acertei com ele uma corridinha na primeira hora da manhã e nem quis saber qual era a distância e o percurso. No fundo, uma temeridade, já que meu amigo é triatleta e tem quatro Iroman (3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida) nas costas. E se o treininho fosse um longão de 30 km? Pelo sim, pelo não, jornalista deve ser sempre precavido. Acionei o fotógrafo Eduardo Monteiro para acompanhar a corridinha com sua Nikon digital a bordo de uma bicicleta. Vai que a gente depara com uma imagem linda para a seção Por Aí da Runner’s?
O encontro aconteceu por volta de 7 horas da manhã no apartamento do Pierre no coração de Ipanema, entre a praia e a Lagoa. Natureba até a medula, Pierre resolveu fazer uma poção no liquidificador. Enfiou coisas que eu nem sabia que existiam no reino vegetal e apertou o "liga". Um enigmático suco saiu dali. Saboroso mesmo. Depois, nosso anfitrião preparou um isotônico natural à base de água de coco e sal-marinho e um gel caseiro com tâmaras e outros bichos (as receitas estão na página 47 e no site da Runner’s). Mais tarde, viria a saber que os aditivos também funcionariam.
Já na largada, percebi que o fanfarrão estava certo: aquele tinha tudo para ser o treino mais lindo do mundo. As ruas sombreadas de Ipanema nas primeiras horas da manhã são inspiradoras. De repente, abrimos dois pontos no nosso diafragma ocular quando a Lagoa apareceu diante de nós. Céu azul com algumas nuvens e uma temperatura de início de dia que não chegava a assustar. Bom prenúncio da corrida perfeita.
Da lagoa ao Jardim
Nem percorremos todos os 7,5 km do perímetro total da Lagoa. Desprezar o inacreditável visual da Lagoa é um luxo só permitido para quem sabe que a natureza será ainda mais generosa no resto do percurso. Entramos na altura do km 2, saída da rua Vinicius de Moraes, para abandonar a Lagoa lá pelo km 5, em direção ao Jardim Botânico.
[img01]
Ali, aliás, terei a maior surpresa do dia. Não sabia que era possível correr naquele que é um dos mais injustiçados cartões-postais da cidade. Muito se fala das praias todas, do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar, do Maracanã e pouquíssimo do Botânico. E o lugar é demais. De certo modo, é dos pontos mais preservados daquele Rio colonial. O Jardim, criado em 1808 por dom João VI, há dois séculos encanta quem o visita.
Se para passear já é um escândalo, para correr é um programão. Alamedas largas, piso com aquela terrinha batida perfeita para não castigar joelhos e muita sombra. Não consigo imaginar melhor cenário para treinos de velocidade, até porque pouca gente acorda cedo para ver plantas e o clima de tranquilidade é total. Longões também ficam ali mais saborosos. Sai o iPod, entra aquele silêncio pontuado apenas pelos passarinhos. Nossa volta no Botânico nem foi das mais longas, e aí está a grande vantagem desse treino. No total, corremos 10 km, mas poderíamos ter turbinado o percurso para 20 ou 30 km se tivéssemos dado a volta inteira na Lagoa ou passado por todas as alamedas do Jardim.
VEJA QUADRO: O mapa do paraíso
Dois detalhes precisam ser observados nessa parte do treino. Gente que corre é admitida até as 9 da manhã, mas ninguém expulsa ninguém que corra por lá até mais tarde. E é necessário pagar os 5 reais da entrada. Cá para nós, os 5 reais mais bem investidos da minha vida. Até porque não tinha nada no bolso, e foi o grande Pierre que arcou com o prejuízo...
O passeio, quer dizer, o treino seguiu de volta para a Lagoa até o Jardim de Alah. Chegava a hora de o mar entrar no roteiro. E o Rio de Janeiro é tão camarada que, numa mesma praia, são oferecidas três modalidades de corrida. Na dúvida, ficamos com as três, seu garçom. Começamos com o asfalto da ciclovia, o jeito mais tradicional de correr na orla carioca. Minutos depois, tiramos os tênis e partimos para a areia dura. Nem sou um fã da corrida na praia, mas enfiar o pé na areia em um dia de semana beira a transgressão. Tomara que meu patrão não resolva ler justo essa reportagem de suas mais de 40 revistas e assim constatar que um de seus funcionários tem uma idéia um tanto elástica do que seja trabalho.
E, para arrematar, aquela corridinha final com os pés na água. Não tenho bem certeza, mas esse estilo aquático deve ter propriedades terapêuticas. Depois de uma hora de treino e um aumento significativo da temperatura, que naquele momento já beirava os 30 ºC, a água gelada na sola do pé só pode fazer bem.
Está bom, Pierre, você venceu. Temos efetivamente o treino urbano mais lindo do mundo, até prova em contrário. Para brindar a corrida, começamos com uma água de coco bem gelada em um quiosque de Ipanema. Voltamos para a "Maison Pierre" e ele seguiu fazendo suas maluquices naturebas. Inventou um suco inacreditável de quinua germinada com banana e blueberry. E assou uma pizza construída com pão dos essênios. Evidentemente, nunca tinha ouvido falar disso. Ele explicou que se tratava de uma receita de mais de 2 000 anos feita a partir de cereais germinados. Só relaxei quando ele me garantiu que pelo menos os ingredientes eram mais novos e tinham sido comprados naquela semana nos mercados cariocas. O treino perfeito tinha terminado. Só me restava voltar ao hotel, tomar um banho e retornar a São Paulo com a pergunta: como convencer a Editora Abril a mudar a sede da Runner’s World para Ipanema?
VEJA QUADRO: Natural, mas bem bom
E você?
Existe um treino urbano mais bonito que esse? Se você tiver uma dica, escreva para runners@abril.com.br e conte para a gente.
"Venha passar um fim de semana aqui no Rio e levarei você ao treino mais bonito do mundo..." Nem foi bem um convite. Era mais um desafio, uma provocação do músico e produtor Pierre Aderne, amigo de outros tempos. Nada mais carioca que essa mania de achar que tudo que vem do Rio é mais charmoso, mais espetacular. E Pierre, apesar de ter nascido por acidente na França, é desses cariocas típicos que acham que o mundo se formou a partir de Ipanema.
Não dei bola ao e-mail do fim do ano passado, até que apareceu uma viagem de trabalho em uma quarta-feira de fevereiro. Tá bom, Pierre, vamos ver o tal "treino maravilhoso" que você quer mostrar. Acertei com ele uma corridinha na primeira hora da manhã e nem quis saber qual era a distância e o percurso. No fundo, uma temeridade, já que meu amigo é triatleta e tem quatro Iroman (3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42 km de corrida) nas costas. E se o treininho fosse um longão de 30 km? Pelo sim, pelo não, jornalista deve ser sempre precavido. Acionei o fotógrafo Eduardo Monteiro para acompanhar a corridinha com sua Nikon digital a bordo de uma bicicleta. Vai que a gente depara com uma imagem linda para a seção Por Aí da Runner’s?
O encontro aconteceu por volta de 7 horas da manhã no apartamento do Pierre no coração de Ipanema, entre a praia e a Lagoa. Natureba até a medula, Pierre resolveu fazer uma poção no liquidificador. Enfiou coisas que eu nem sabia que existiam no reino vegetal e apertou o "liga". Um enigmático suco saiu dali. Saboroso mesmo. Depois, nosso anfitrião preparou um isotônico natural à base de água de coco e sal-marinho e um gel caseiro com tâmaras e outros bichos (as receitas estão na página 47 e no site da Runner’s). Mais tarde, viria a saber que os aditivos também funcionariam.
Já na largada, percebi que o fanfarrão estava certo: aquele tinha tudo para ser o treino mais lindo do mundo. As ruas sombreadas de Ipanema nas primeiras horas da manhã são inspiradoras. De repente, abrimos dois pontos no nosso diafragma ocular quando a Lagoa apareceu diante de nós. Céu azul com algumas nuvens e uma temperatura de início de dia que não chegava a assustar. Bom prenúncio da corrida perfeita.
Da lagoa ao Jardim
Nem percorremos todos os 7,5 km do perímetro total da Lagoa. Desprezar o inacreditável visual da Lagoa é um luxo só permitido para quem sabe que a natureza será ainda mais generosa no resto do percurso. Entramos na altura do km 2, saída da rua Vinicius de Moraes, para abandonar a Lagoa lá pelo km 5, em direção ao Jardim Botânico.
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Ali, aliás, terei a maior surpresa do dia. Não sabia que era possível correr naquele que é um dos mais injustiçados cartões-postais da cidade. Muito se fala das praias todas, do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar, do Maracanã e pouquíssimo do Botânico. E o lugar é demais. De certo modo, é dos pontos mais preservados daquele Rio colonial. O Jardim, criado em 1808 por dom João VI, há dois séculos encanta quem o visita.
Se para passear já é um escândalo, para correr é um programão. Alamedas largas, piso com aquela terrinha batida perfeita para não castigar joelhos e muita sombra. Não consigo imaginar melhor cenário para treinos de velocidade, até porque pouca gente acorda cedo para ver plantas e o clima de tranquilidade é total. Longões também ficam ali mais saborosos. Sai o iPod, entra aquele silêncio pontuado apenas pelos passarinhos. Nossa volta no Botânico nem foi das mais longas, e aí está a grande vantagem desse treino. No total, corremos 10 km, mas poderíamos ter turbinado o percurso para 20 ou 30 km se tivéssemos dado a volta inteira na Lagoa ou passado por todas as alamedas do Jardim.
VEJA QUADRO: O mapa do paraíso
Dois detalhes precisam ser observados nessa parte do treino. Gente que corre é admitida até as 9 da manhã, mas ninguém expulsa ninguém que corra por lá até mais tarde. E é necessário pagar os 5 reais da entrada. Cá para nós, os 5 reais mais bem investidos da minha vida. Até porque não tinha nada no bolso, e foi o grande Pierre que arcou com o prejuízo...
O passeio, quer dizer, o treino seguiu de volta para a Lagoa até o Jardim de Alah. Chegava a hora de o mar entrar no roteiro. E o Rio de Janeiro é tão camarada que, numa mesma praia, são oferecidas três modalidades de corrida. Na dúvida, ficamos com as três, seu garçom. Começamos com o asfalto da ciclovia, o jeito mais tradicional de correr na orla carioca. Minutos depois, tiramos os tênis e partimos para a areia dura. Nem sou um fã da corrida na praia, mas enfiar o pé na areia em um dia de semana beira a transgressão. Tomara que meu patrão não resolva ler justo essa reportagem de suas mais de 40 revistas e assim constatar que um de seus funcionários tem uma idéia um tanto elástica do que seja trabalho.
E, para arrematar, aquela corridinha final com os pés na água. Não tenho bem certeza, mas esse estilo aquático deve ter propriedades terapêuticas. Depois de uma hora de treino e um aumento significativo da temperatura, que naquele momento já beirava os 30 ºC, a água gelada na sola do pé só pode fazer bem.
Está bom, Pierre, você venceu. Temos efetivamente o treino urbano mais lindo do mundo, até prova em contrário. Para brindar a corrida, começamos com uma água de coco bem gelada em um quiosque de Ipanema. Voltamos para a "Maison Pierre" e ele seguiu fazendo suas maluquices naturebas. Inventou um suco inacreditável de quinua germinada com banana e blueberry. E assou uma pizza construída com pão dos essênios. Evidentemente, nunca tinha ouvido falar disso. Ele explicou que se tratava de uma receita de mais de 2 000 anos feita a partir de cereais germinados. Só relaxei quando ele me garantiu que pelo menos os ingredientes eram mais novos e tinham sido comprados naquela semana nos mercados cariocas. O treino perfeito tinha terminado. Só me restava voltar ao hotel, tomar um banho e retornar a São Paulo com a pergunta: como convencer a Editora Abril a mudar a sede da Runner’s World para Ipanema?
VEJA QUADRO: Natural, mas bem bom
E você?
Existe um treino urbano mais bonito que esse? Se você tiver uma dica, escreva para runners@abril.com.br e conte para a gente.