
Por Martha San Juan França
Guia do Estudante - Atualidades e Vestibular 2009
O Brasil abriga 13% das espécies de fauna e flora conhecidas no planeta. Sabe o que isso significa? Em nosso país vivem 230 mil tipos de plantas, animais, fungos, bactérias e outros microrganismos. Muitos são endêmicos, ou seja, só existem aqui. Apenas para dar alguns exemplos: segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil abriga 45 mil espécies de planta, a maior diversidade, algo como 22% do total global. Aqui estão 3 mil tipos peixe de água doce, ou 34% das espécies conhecidas no mundo. Uma em cada seis aves que povoam os céus do planeta vive no Brasil, e uma em cada oito espécies de anfíbios conhecidos habita nossas águas. Parece pouco? Pois deve existir muito mais. A cada ano, novas variedades de vespas, aranhas, peixes, macacos, cobras e plantas – para falar apenas de algumas – são descobertas na Amazônia e em vários locais de acesso nem tão difícil, perto de centros urbanos.
Essa diferença entre o real e o presumido ocorre porque não existem cientistas em número suficiente para estudar tantas formas de vida, nem no Brasil nem no mundo. Embora tenha sido catalogado cerca de 1,75 milhão de espécies em todo o planeta, estima-se que a quantidade seja muito maior – pelo menos 14 milhões. Há especialistas que calculam esse total em 50 milhões de espécies.
Estabelecer os números da biodiversidade não é apenas uma curiosidade científica, há também enorme interesse econômico. A biodiversidade está relacionada à conservação dos ecossistemas e aos serviços que animais e plantas podem prestar, como a purifi cação do ar e da água, a reciclagem dos nutrientes, a manutenção da fertilidade do solo, a regulação da temperatura e a proteção contra os ventos. O planejamento de obras e a definição de áreas para agricultura, pesca, pecuária e mineração dependem das informações sobre a biodiversidade de cada local para dar certo.
Diante da interdependência e da complexidade dos processos que ocorrem na natureza, nunca se sabe quando uma espécie pode representar um papel fundamental para a sobrevivência humana. As informações contidas em plantas, animais, fungos e bactérias de um país pela variedade de espécies do Brasil têm alto potencial de uso como fonte de remédios, alimentos, fibras, pigmentos e como matéria- prima para produtos e processos agrícolas e industriais (fertilizantes, óleos industriais, celulose, têxteis etc.).
A biodiversidade também é estratégica para o desenvolvimento de variedades de cultivos, adaptáveis às mais diversas condições. É essencial, por exemplo, para a manutenção de grãos mais produtivos e resistentes a pragas e a outras doenças. Não é à toa, portanto, que, recentemente, o governo norueguês tenha iniciado a construção de um banco de sementes na região gelada do Ártico, para que estejam conservadas no futuro mesmo que as plantas que lhes deram origem tenham desaparecido.
ACORDOS INTERNACIONAIS
Só nos últimos anos, porém, quando o meio ambiente passou a fazer parte da pauta dos governos, foi reconhecida a importância estratégica da variedade de vida existente nos limites de cada país. A Convenção da Diversidade Biológica, assinada durante a Eco 92 (ou Rio 92), conferência internacional realizada no Rio de Janeiro em 1992, estabeleceu que os países têm direito soberano sobre a vida contida em seu território e o dever de conservá-la e de garantir que sua utilização seja feita de forma sustentável.
Segundo a convenção, os ganhos com os princípios ativos de organismos vivos devem ser divididos entre a empresa e os pesquisadores envolvidos, o país de origem da planta ou animal e a população tradicional que já possuía os conhecimentos sobre seus benefícios. O problema é que a regulamentação disso ficou, como no caso do acordo sobre mudanças climáticas, a cargo das conferências das partes (COPs), reuniões entre os representantes dos países participantes, que demoram anos para chegar a algum acordo. A última foi realizada neste ano, em Bonn, na Alemanha, com a promessa de uma decisão em 2010, data da COP-10.
O Brasil tem todo o interesse na criação de medidas de proteção. Sua enorme diversidade biológica faz do país o líder do Grupo dos Países Megadiversos, aqueles que retêm entre 65% e 75% da biodiversidade do planeta, e, não por coincidência, estabelecidos em sua maioria na região tropical. Também vale mencionar que o Brasil possui uma rica sociobiodiversidade, representada por mais de 200 povos indígenas e por um número grande de comunidades locais (quilombolas, caiçaras, seringueiros etc.), que reúnem um inestimável acervo de conhecimentos tradicionais sobre a conservação das espécies de animais e plantas.
O AÇAÍ É NOSSO
O uso indevido de sua biodiversidade já proporcionou ao Brasil alguns dissabores. Ganhou manchete dos jornais em 2003 o caso do cupuaçu, que teve pedido de patente registrado no exterior por uma empresa japonesa, apesar de ser típica da Amazônia. A contestação de entidades ambientalistas nos escritórios de patentes internacionais impediu a aprovação do registro, porque as aplicações do produto já eram, desde há muito tempo, de domínio dos índios e das comunidades tradicionais da região. A mesma coisa ocorreu com o açaí, outra fruta da Amazônia, além da andiroba e da copaíba, duas plantas com propriedades medicinais, e até a ayahuasca, o chá feito com o cipó de uma planta acreana consumido em rituais religiosos.
Apesar dessas implicações – ou por causa delas – as reuniões internacionais que discutem regras para a proteção da biodiversidade não têm trazido resultados satisfatórios. O conflito ocorre entre os países que ainda possuem a natureza razoavelmente intacta e podem tirar dela benefícios e os que estão mais interessados nos direitos de comercialização proporcionados por quem primeiro registra um produto nos órgãos de patentes. Por causa disso, o debate prossegue em um ritmo muito mais vagaroso do que o da destruição de espécies que se pretendem utilizar.
Às vésperas da última COP-9, em Bonn, um relatório apresentado por várias organizações dedicadas ao tema, entre elas a WWF e a Sociedade Zoológica de Londres, advertiam que quase um terço do número de espécies de fauna do planeta teria desaparecido entre 1970 e 2005. Os pesquisadores calculam que a taxa de extinção das espécies nos últimos anos seja até mil vezes maior que a média histórica do planeta. “Seria preciso voltar à extinção dos dinossauros para ver um declínio tão rápido da biodiversidade”, afirma Jonathan Loh, editor do relatório.
Parece exagero? Não, o que ocorre é que a maior parte do efeito dessa perda é invisível, pois se refere a espécies que não foram – nem serão – descobertas. Isso quer dizer que os benefícios que essas espécies podem trazer também não serão nunca devidamente apreciados. Quando se fala que a cura de doenças como o câncer poderia estar escondida no material genético dessas plantas que
sumiram, não é força de expressão.
ESPÉCIES EM RISCO
Desmatamentos, queimadas, acidentes ecológicos, ocupação desordenada de territórios, poluição do solo e dos rios indiretamente são as principais causas dessa destruição, pois afetam irremediavelmente os ecossistemas. Há ainda, causas mais diretas, como o tráfico de animais silvestres, responsável pela retirada anual de cerca de 12 milhões de animais das matas brasileiras, a exploração comercial em larga escala de espécies nativas para uso paisagístico ou na indústria e a introdução de espécies exóticas, ou riginárias de outros ecossistemas, que não encontram predadores naturais no novo território e acabam por ocupar espaço dos moradores tradicionais.
Os efeitos dessas ameaças podem ser medidos pelo número crescente de animais na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) de espécies em risco no mundo. Nessa relação constam 40 mil nomes de animais e plantas (16.306 em perigo crítico), entre os quais alguns bem conhecidos, como o urso-polar (por causa do aquecimento global), o hipopótamo e o gorilla (perda de habitat e caça), o golfi nho do rio Yang Tzé da China (poluição) e mui tas espécies exclusivas do Brasil, como o mero (pesca em excesso), vários tipos de bromélias e araucária (desmatamento) e aves (perda de habitat).
Um mapa lançado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) neste ano mostra que pelo menos 130 insetos e outros invertebrados estão ameaçados de extinção no Brasil, a maior parte na mata Atlântica. A lista brasileira mais recente de animais em risco é de 2006 e apresenta 721 espécies, um acréscimo de 24 em relação ao levantamento anterior, realizado em 2004. As notícias não são boas: prevê-se que a nova lista brasileira, que deve ficar pronta em 2009, seja de 15% a 20% maior. Dela devem constar, como sempre, espécies de animais e plantas da mata Atlântica – a floresta mais atingida pela destruição (restam apenas 7,3% de seu tamanho original) por ter sido a primeira a ser afetada pela colonização –, mas também da Amazônia, cujo ritmo de derrubada voltou a aumentar.
Clique aqui para ver o mapa
Devido ao tamanho e à importância de suas florestas, o Brasil está sob o holofote do mundo no que se refere à preservação da biodiversidade. Aqui estão dois dos 34 hotspots (“ponto quente” em inglês) do planeta, termo com o qual os cientistas designam os lugares que, além de apresentar alto grau de diversidade biológica e endemismo, estão seriamente ameaçados pela atividade humana, como as ilhas do Caribe, as montanhas do Cáucaso, a ilha de Madagáscar e a Nova Zelândia.
O primeiro hotspot brasileiro é a mata Atlântica e o segundo, o cerrado, cuja vegetação some à medida que avançam a pecuária e as grandes plantações de soja pelo Centro-Oeste do país. A proteção dos hotspots visa não apenas a salvar esta ou aquela espécie mais ameaçada, mas a proteger ecossistemas. Uma das estratégias para sua conservação é a criação de corredores de biodiversidade, formados por uma rede de parques, reservas e áreas privadas de uso menos intensivo, para garantir a sobrevivência do maior número de animais e plantas em equilíbrio na natureza. No caso do Brasil, a proposta é criar esses corredores na mata Atlântica, no Cerrado-Pantanal, em algumas regiões da Amazônia, no Amapá e na região do Araguaia. Resta saber se isso será possível na prática.
RESUMO
Conceito
Biodiversidade significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens existentes nos ecossistemas terrestres e aquáticos. O termo inclui também a diversidade de genes contidos em cada espécie, os padrões naturais que cada variedade forma na paisagem e as interações entre os indivíduos da fauna e da flora.
Valor econômico
Da madeira aos alimentos, medicamentos e cosméticos, a biodiversidade fornece matéria-prima para muitos produtos consumidos pela população. Traz benefícios indiretos ao ajudar a manter o equilíbrio do clima, purificar a água e o ar, promover a reciclagem dos nutrientes, a manutenção da fertilidade da água e a proteção contra os ventos. É essencial para a manutenção de grãos mais produtivos e resistentes a pragas e a outras doenças.
Patentes
A Convenção sobre Diversidade Biológica ressalta a soberania dos países em relação a sua biodiversidade e à compensação financeira das populações tradicionais pelo uso comercial de seus conhecimentos. Mas ainda precisa ser regulamentada pelas conferências das partes (COPs), a última realizada em Bonn, na Alemanha. Enquanto isso, seus princípios contradizem a legislação mundial baseada na concepção de patentes, que garante o direito a um produto àqueles que o registram primeiro.
Ameaças
A taxa de extinção das espécies nos últimos anos é mil vezes maior que a média histórica do planeta devido ao desmatamento, à ocupação desordenada, à poluição do solo e dos rios, ao tráfico de animais silvestres, à exploração commercial em larga escala e à introdução de espécies exóticas que ocupam o espaço das tradicionais. Os especialistas advertem que quase um terço do número de espécies de fauna do planeta teria desaparecido entre 1970 e 2005.
Fotos: Paulo Jares, Divulgação, Antonio Milena, Valdemir Cunha, Divulgação/ Instituto Baleia Jubarte, Luigi Mamprin
Por Martha San Juan França
Guia do Estudante - Atualidades e Vestibular 2009
O Brasil abriga 13% das espécies de fauna e flora conhecidas no planeta. Sabe o que isso significa? Em nosso país vivem 230 mil tipos de plantas, animais, fungos, bactérias e outros microrganismos. Muitos são endêmicos, ou seja, só existem aqui. Apenas para dar alguns exemplos: segundo o Ministério do Meio Ambiente, o Brasil abriga 45 mil espécies de planta, a maior diversidade, algo como 22% do total global. Aqui estão 3 mil tipos peixe de água doce, ou 34% das espécies conhecidas no mundo. Uma em cada seis aves que povoam os céus do planeta vive no Brasil, e uma em cada oito espécies de anfíbios conhecidos habita nossas águas. Parece pouco? Pois deve existir muito mais. A cada ano, novas variedades de vespas, aranhas, peixes, macacos, cobras e plantas – para falar apenas de algumas – são descobertas na Amazônia e em vários locais de acesso nem tão difícil, perto de centros urbanos.
Essa diferença entre o real e o presumido ocorre porque não existem cientistas em número suficiente para estudar tantas formas de vida, nem no Brasil nem no mundo. Embora tenha sido catalogado cerca de 1,75 milhão de espécies em todo o planeta, estima-se que a quantidade seja muito maior – pelo menos 14 milhões. Há especialistas que calculam esse total em 50 milhões de espécies.
Estabelecer os números da biodiversidade não é apenas uma curiosidade científica, há também enorme interesse econômico. A biodiversidade está relacionada à conservação dos ecossistemas e aos serviços que animais e plantas podem prestar, como a purifi cação do ar e da água, a reciclagem dos nutrientes, a manutenção da fertilidade do solo, a regulação da temperatura e a proteção contra os ventos. O planejamento de obras e a definição de áreas para agricultura, pesca, pecuária e mineração dependem das informações sobre a biodiversidade de cada local para dar certo.
Diante da interdependência e da complexidade dos processos que ocorrem na natureza, nunca se sabe quando uma espécie pode representar um papel fundamental para a sobrevivência humana. As informações contidas em plantas, animais, fungos e bactérias de um país pela variedade de espécies do Brasil têm alto potencial de uso como fonte de remédios, alimentos, fibras, pigmentos e como matéria- prima para produtos e processos agrícolas e industriais (fertilizantes, óleos industriais, celulose, têxteis etc.).
A biodiversidade também é estratégica para o desenvolvimento de variedades de cultivos, adaptáveis às mais diversas condições. É essencial, por exemplo, para a manutenção de grãos mais produtivos e resistentes a pragas e a outras doenças. Não é à toa, portanto, que, recentemente, o governo norueguês tenha iniciado a construção de um banco de sementes na região gelada do Ártico, para que estejam conservadas no futuro mesmo que as plantas que lhes deram origem tenham desaparecido.
ACORDOS INTERNACIONAIS
Só nos últimos anos, porém, quando o meio ambiente passou a fazer parte da pauta dos governos, foi reconhecida a importância estratégica da variedade de vida existente nos limites de cada país. A Convenção da Diversidade Biológica, assinada durante a Eco 92 (ou Rio 92), conferência internacional realizada no Rio de Janeiro em 1992, estabeleceu que os países têm direito soberano sobre a vida contida em seu território e o dever de conservá-la e de garantir que sua utilização seja feita de forma sustentável.
Segundo a convenção, os ganhos com os princípios ativos de organismos vivos devem ser divididos entre a empresa e os pesquisadores envolvidos, o país de origem da planta ou animal e a população tradicional que já possuía os conhecimentos sobre seus benefícios. O problema é que a regulamentação disso ficou, como no caso do acordo sobre mudanças climáticas, a cargo das conferências das partes (COPs), reuniões entre os representantes dos países participantes, que demoram anos para chegar a algum acordo. A última foi realizada neste ano, em Bonn, na Alemanha, com a promessa de uma decisão em 2010, data da COP-10.
O Brasil tem todo o interesse na criação de medidas de proteção. Sua enorme diversidade biológica faz do país o líder do Grupo dos Países Megadiversos, aqueles que retêm entre 65% e 75% da biodiversidade do planeta, e, não por coincidência, estabelecidos em sua maioria na região tropical. Também vale mencionar que o Brasil possui uma rica sociobiodiversidade, representada por mais de 200 povos indígenas e por um número grande de comunidades locais (quilombolas, caiçaras, seringueiros etc.), que reúnem um inestimável acervo de conhecimentos tradicionais sobre a conservação das espécies de animais e plantas.
O AÇAÍ É NOSSO
O uso indevido de sua biodiversidade já proporcionou ao Brasil alguns dissabores. Ganhou manchete dos jornais em 2003 o caso do cupuaçu, que teve pedido de patente registrado no exterior por uma empresa japonesa, apesar de ser típica da Amazônia. A contestação de entidades ambientalistas nos escritórios de patentes internacionais impediu a aprovação do registro, porque as aplicações do produto já eram, desde há muito tempo, de domínio dos índios e das comunidades tradicionais da região. A mesma coisa ocorreu com o açaí, outra fruta da Amazônia, além da andiroba e da copaíba, duas plantas com propriedades medicinais, e até a ayahuasca, o chá feito com o cipó de uma planta acreana consumido em rituais religiosos.
Apesar dessas implicações – ou por causa delas – as reuniões internacionais que discutem regras para a proteção da biodiversidade não têm trazido resultados satisfatórios. O conflito ocorre entre os países que ainda possuem a natureza razoavelmente intacta e podem tirar dela benefícios e os que estão mais interessados nos direitos de comercialização proporcionados por quem primeiro registra um produto nos órgãos de patentes. Por causa disso, o debate prossegue em um ritmo muito mais vagaroso do que o da destruição de espécies que se pretendem utilizar.
Às vésperas da última COP-9, em Bonn, um relatório apresentado por várias organizações dedicadas ao tema, entre elas a WWF e a Sociedade Zoológica de Londres, advertiam que quase um terço do número de espécies de fauna do planeta teria desaparecido entre 1970 e 2005. Os pesquisadores calculam que a taxa de extinção das espécies nos últimos anos seja até mil vezes maior que a média histórica do planeta. “Seria preciso voltar à extinção dos dinossauros para ver um declínio tão rápido da biodiversidade”, afirma Jonathan Loh, editor do relatório.
Parece exagero? Não, o que ocorre é que a maior parte do efeito dessa perda é invisível, pois se refere a espécies que não foram – nem serão – descobertas. Isso quer dizer que os benefícios que essas espécies podem trazer também não serão nunca devidamente apreciados. Quando se fala que a cura de doenças como o câncer poderia estar escondida no material genético dessas plantas que
sumiram, não é força de expressão.
ESPÉCIES EM RISCO
Desmatamentos, queimadas, acidentes ecológicos, ocupação desordenada de territórios, poluição do solo e dos rios indiretamente são as principais causas dessa destruição, pois afetam irremediavelmente os ecossistemas. Há ainda, causas mais diretas, como o tráfico de animais silvestres, responsável pela retirada anual de cerca de 12 milhões de animais das matas brasileiras, a exploração comercial em larga escala de espécies nativas para uso paisagístico ou na indústria e a introdução de espécies exóticas, ou riginárias de outros ecossistemas, que não encontram predadores naturais no novo território e acabam por ocupar espaço dos moradores tradicionais.
Os efeitos dessas ameaças podem ser medidos pelo número crescente de animais na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) de espécies em risco no mundo. Nessa relação constam 40 mil nomes de animais e plantas (16.306 em perigo crítico), entre os quais alguns bem conhecidos, como o urso-polar (por causa do aquecimento global), o hipopótamo e o gorilla (perda de habitat e caça), o golfi nho do rio Yang Tzé da China (poluição) e mui tas espécies exclusivas do Brasil, como o mero (pesca em excesso), vários tipos de bromélias e araucária (desmatamento) e aves (perda de habitat).
Um mapa lançado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) neste ano mostra que pelo menos 130 insetos e outros invertebrados estão ameaçados de extinção no Brasil, a maior parte na mata Atlântica. A lista brasileira mais recente de animais em risco é de 2006 e apresenta 721 espécies, um acréscimo de 24 em relação ao levantamento anterior, realizado em 2004. As notícias não são boas: prevê-se que a nova lista brasileira, que deve ficar pronta em 2009, seja de 15% a 20% maior. Dela devem constar, como sempre, espécies de animais e plantas da mata Atlântica – a floresta mais atingida pela destruição (restam apenas 7,3% de seu tamanho original) por ter sido a primeira a ser afetada pela colonização –, mas também da Amazônia, cujo ritmo de derrubada voltou a aumentar.
Clique aqui para ver o mapa
Devido ao tamanho e à importância de suas florestas, o Brasil está sob o holofote do mundo no que se refere à preservação da biodiversidade. Aqui estão dois dos 34 hotspots (“ponto quente” em inglês) do planeta, termo com o qual os cientistas designam os lugares que, além de apresentar alto grau de diversidade biológica e endemismo, estão seriamente ameaçados pela atividade humana, como as ilhas do Caribe, as montanhas do Cáucaso, a ilha de Madagáscar e a Nova Zelândia.
O primeiro hotspot brasileiro é a mata Atlântica e o segundo, o cerrado, cuja vegetação some à medida que avançam a pecuária e as grandes plantações de soja pelo Centro-Oeste do país. A proteção dos hotspots visa não apenas a salvar esta ou aquela espécie mais ameaçada, mas a proteger ecossistemas. Uma das estratégias para sua conservação é a criação de corredores de biodiversidade, formados por uma rede de parques, reservas e áreas privadas de uso menos intensivo, para garantir a sobrevivência do maior número de animais e plantas em equilíbrio na natureza. No caso do Brasil, a proposta é criar esses corredores na mata Atlântica, no Cerrado-Pantanal, em algumas regiões da Amazônia, no Amapá e na região do Araguaia. Resta saber se isso será possível na prática.
RESUMO
Conceito
Biodiversidade significa a variabilidade de organismos vivos de todas as origens existentes nos ecossistemas terrestres e aquáticos. O termo inclui também a diversidade de genes contidos em cada espécie, os padrões naturais que cada variedade forma na paisagem e as interações entre os indivíduos da fauna e da flora.
Valor econômico
Da madeira aos alimentos, medicamentos e cosméticos, a biodiversidade fornece matéria-prima para muitos produtos consumidos pela população. Traz benefícios indiretos ao ajudar a manter o equilíbrio do clima, purificar a água e o ar, promover a reciclagem dos nutrientes, a manutenção da fertilidade da água e a proteção contra os ventos. É essencial para a manutenção de grãos mais produtivos e resistentes a pragas e a outras doenças.
Patentes
A Convenção sobre Diversidade Biológica ressalta a soberania dos países em relação a sua biodiversidade e à compensação financeira das populações tradicionais pelo uso comercial de seus conhecimentos. Mas ainda precisa ser regulamentada pelas conferências das partes (COPs), a última realizada em Bonn, na Alemanha. Enquanto isso, seus princípios contradizem a legislação mundial baseada na concepção de patentes, que garante o direito a um produto àqueles que o registram primeiro.
Ameaças
A taxa de extinção das espécies nos últimos anos é mil vezes maior que a média histórica do planeta devido ao desmatamento, à ocupação desordenada, à poluição do solo e dos rios, ao tráfico de animais silvestres, à exploração commercial em larga escala e à introdução de espécies exóticas que ocupam o espaço das tradicionais. Os especialistas advertem que quase um terço do número de espécies de fauna do planeta teria desaparecido entre 1970 e 2005.
Fotos: Paulo Jares, Divulgação, Antonio Milena, Valdemir Cunha, Divulgação/ Instituto Baleia Jubarte, Luigi Mamprin
























