ARTIGO
Nem tão vilão assim
Quando se fala em poluição, os olhares se voltam para os carros, que não são tão "culpados" como pode parecer
Bob Sharp
Revista Quatro Rodas - 07/2007
[img01] Desde a publicação do relatório da ONU sobre mudança climática, em fevereiro, o automóvel nosso de cada dia passou a receber olhares enviesados. Mas a verdade é que, da produção dos gases que provocam o efeito estufa e o conseqüente aquecimento do planeta, somente 25% cabem à mobilidade.
Isso inclui veículos terrestres, marítimos e aéreos e é resultado da queima de combustível de origem fóssil, mais conhecido por petróleo e seus derivados. O restante da produção desses gases, especialmente o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), fica para indústria, agricultura e moradia. A proporção é suficiente para mostrar que o automóvel não é "o" vilão que se supõe ser.
Recentemente, o noticiário falou à exaustão dos problemas de poluição em São Paulo, a prefeitura local prometendo "medidas drásticas" para combatê-la, e que 30% da frota da região metropolitana de São Paulo estaria poluindo acima dos limites. Mas não seria necessário nada "drástico", bastaria a fiscalização normal de todo dia efetuada por agentes da autoridade de trânsito.
É a velha questão: o governo não está fazendo a parte dele na parte dos veículos, ao contrário da recente e elogiável guerra contra os postos que adulteram combustível, que esperamos ser permanente a partir de agora.
É inaceitável que se arraste no Congresso Nacional há mais de dez anos a questão da inspeção técnica veicular obrigatória. Fora os aspectos conhecidos de segurança, há a imprescindível constatação de que o veículo esteja emitindo dentro dos limites legais da fase de controle em que foi produzido. Não adianta a indústria produzir veículos ambientalmente limpos, se estes perdem suas características originais com o tempo, por culpa ou dolo, caso de retirar o catalisador.
Outra questão ligada à poluição é o consumo de combustível além do que poderia ser. O Brasil está acometido das execráveis lombadas. É como se esse recurso fosse parte integrante do projeto das ruas e estradas brasileiras.
Qualquer técnico em meio ambiente pode confirmar a relação entre as lombadas e as emissões pelo escapamento. É uma questão de pura física: o que foi gasto de energia para levar o veículo a uma determinada velocidade é desperdiçado ao frear o veículo diante de uma lombada. Para voltar à velocidade anterior, mais energia é necessária do que se a velocidade se mantivesse constante.
A importância da poupança de energia é bem exemplificada nos carros elétricos ou híbridos gasolina-elétrico, que normalmente têm frenagem regenerativa: ao levantar o pé do acelerador, o motor elétrico passa a gerar corrente elétrica para carregar o conjunto de baterias.
O fato é que, antes de tachar o carro de vilão, a ponto de restringir sua circulação, como em São Paulo (rodízio) - e planejado para Belo Horizonte -, compete aos governos dos três níveis de administração, em conjunto com as respectivas autoridades de trânsito, fazer de tudo para otimizar a circulação, lançando mão de providências conhecidas, como o perfeito controle dos semáforos. A informática opera milagres e sua não-aplicação no controle semafórico bem pode ser considerado crime de prevaricação.
A demarcação de faixas de rolamento nas cidades, por exemplo, costuma ser desastrosa, sem padrão e muitas vezes errada. Isso só prejudica a fluidez. Há também excesso de semáforos contribuindo para esse efeito, pois se consolida cada vez mais a idéia de que servem para evitar acidentes, quando na verdade seu papel é regularizar o fluxo quando necessário.
Também, a velocidade em determinadas avenidas e vias de trânsito rápido precisa ser calcada em bases técnicas, não em "achismos", supondo que determinada velocidade é boa. É inadmissível, por exemplo, que uma rodovia projetada e construída para 110 km/h tenha 80 km/h como limite, caso do trecho de descida da rodovia dos Imigrantes, em São Paulo.
Enfim, cumpre cuidar para que a circulação viária flua da melhor maneira possível e com isso os carros poluam menos.
[img01] Desde a publicação do relatório da ONU sobre mudança climática, em fevereiro, o automóvel nosso de cada dia passou a receber olhares enviesados. Mas a verdade é que, da produção dos gases que provocam o efeito estufa e o conseqüente aquecimento do planeta, somente 25% cabem à mobilidade.
Isso inclui veículos terrestres, marítimos e aéreos e é resultado da queima de combustível de origem fóssil, mais conhecido por petróleo e seus derivados. O restante da produção desses gases, especialmente o dióxido de carbono (CO2) e o metano (CH4), fica para indústria, agricultura e moradia. A proporção é suficiente para mostrar que o automóvel não é "o" vilão que se supõe ser.
Recentemente, o noticiário falou à exaustão dos problemas de poluição em São Paulo, a prefeitura local prometendo "medidas drásticas" para combatê-la, e que 30% da frota da região metropolitana de São Paulo estaria poluindo acima dos limites. Mas não seria necessário nada "drástico", bastaria a fiscalização normal de todo dia efetuada por agentes da autoridade de trânsito.
É a velha questão: o governo não está fazendo a parte dele na parte dos veículos, ao contrário da recente e elogiável guerra contra os postos que adulteram combustível, que esperamos ser permanente a partir de agora.
É inaceitável que se arraste no Congresso Nacional há mais de dez anos a questão da inspeção técnica veicular obrigatória. Fora os aspectos conhecidos de segurança, há a imprescindível constatação de que o veículo esteja emitindo dentro dos limites legais da fase de controle em que foi produzido. Não adianta a indústria produzir veículos ambientalmente limpos, se estes perdem suas características originais com o tempo, por culpa ou dolo, caso de retirar o catalisador.
Outra questão ligada à poluição é o consumo de combustível além do que poderia ser. O Brasil está acometido das execráveis lombadas. É como se esse recurso fosse parte integrante do projeto das ruas e estradas brasileiras.
Qualquer técnico em meio ambiente pode confirmar a relação entre as lombadas e as emissões pelo escapamento. É uma questão de pura física: o que foi gasto de energia para levar o veículo a uma determinada velocidade é desperdiçado ao frear o veículo diante de uma lombada. Para voltar à velocidade anterior, mais energia é necessária do que se a velocidade se mantivesse constante.
A importância da poupança de energia é bem exemplificada nos carros elétricos ou híbridos gasolina-elétrico, que normalmente têm frenagem regenerativa: ao levantar o pé do acelerador, o motor elétrico passa a gerar corrente elétrica para carregar o conjunto de baterias.
O fato é que, antes de tachar o carro de vilão, a ponto de restringir sua circulação, como em São Paulo (rodízio) - e planejado para Belo Horizonte -, compete aos governos dos três níveis de administração, em conjunto com as respectivas autoridades de trânsito, fazer de tudo para otimizar a circulação, lançando mão de providências conhecidas, como o perfeito controle dos semáforos. A informática opera milagres e sua não-aplicação no controle semafórico bem pode ser considerado crime de prevaricação.
A demarcação de faixas de rolamento nas cidades, por exemplo, costuma ser desastrosa, sem padrão e muitas vezes errada. Isso só prejudica a fluidez. Há também excesso de semáforos contribuindo para esse efeito, pois se consolida cada vez mais a idéia de que servem para evitar acidentes, quando na verdade seu papel é regularizar o fluxo quando necessário.
Também, a velocidade em determinadas avenidas e vias de trânsito rápido precisa ser calcada em bases técnicas, não em "achismos", supondo que determinada velocidade é boa. É inadmissível, por exemplo, que uma rodovia projetada e construída para 110 km/h tenha 80 km/h como limite, caso do trecho de descida da rodovia dos Imigrantes, em São Paulo.
Enfim, cumpre cuidar para que a circulação viária flua da melhor maneira possível e com isso os carros poluam menos.