abelhas desaparecem
Enxame de vilões
Congresso sobre apicultura no sul da França conclui que as abelhas são vítimas de ataque em série: vírus, fungos, pesticidas e fatores ambientais ameaçam a sobrevivência da espécie
Gisela Heymann, de Paris – Edição: Mônica Nunes
Planeta Sustentável – 30/09/2009
Quem diria? As abelhas, que habitam o planeta há mais de 60 milhões anos, vivem hoje mais e melhor em zonas urbanas, entre carros e ônibus. Sobre o teto do prédio de estilo "Segundo Império" da Ópera de Paris, no Jardim de Luxemburgo ou ainda no Parque La Villette, também na capital francesa, cerca de 300 colônias produzem algumas centenas de toneladas de mel por ano, de primeiríssima qualidade. A explicação é simples: nas cidades, as abelhas estão menos expostas ao uso de pesticidas e dispõem de uma maior variedade de flores, plantadas em parques e jardins públicos e até nos canteiros de apartamento. Enquanto isso, colméias inteiras desaparecem sem deixar vestígio em zonas rurais da Europa, Estados Unidos, Canadá, China ou América do Sul.
O fenômeno foi batizado de desordem de colapso das colônias, CCD na sigla em inglês. A taxa de mortalidade das abelhas, que normalmente é de 5% chega a 40% ou até 80% em certas regiões do mundo. O mistério da verdadeira hecatombe que se abate principalmente sobre a espécie Apis mellifera, ainda não está totalmente desvendado, mas, pela primeira vez, pesquisadores chegaram a um consenso, no último Apimondia – Congresso Mundial de Apicultura, que reuniu, neste mês, cerca de 10 mil profissionais do setor, sendo 500 cientistas, em Montpellier, no sul da França.
CONJUNTO DE FATORES
Após mais de uma década em busca de um "serial killer" de abelhas, culpado pela mortalidade desenfreada dos insetos, a teoria dos múltiplos fatores, que agem individualmente, mas, também, combinam suas forças, é privilegiada. "Hoje, a comunidade científica está certa de que não há uma causa única responsavel pelo fenômeno", disse o biólogo Peter Neumann, do programa internacional de prevenção do colapso de colônias, batizado "Coloss". Para Jeff Pettis, diretor de pesquisa do Ministério Norte-americano de Agricultura, pode-se fazer um paralelo entre os males da Apis mellifera e uma patologia humana: "A gripe pode ter consequências graves num indivíduo cujo organismo já esta fragilizado", comentou. "As abelhas estão submetidas a uma série de fatores de estresse, vírus e outros agentes patogênicos funcionam como oportunistas que as matam".
Os números apresentados na Apimondia 2009 só acentuam a dimensão da catástrofe: nos Estados Unidos, o índice de desaparecimento das colméias atingiu 30% no final do último inverno. O Canadá perdeu um terço da população de abelhas no mesmo período e na Europa a porcentagem varia de 10% a 30% de taxa de mortalidade. No Oriente Médio, os números são mais alarmantes: quase 80% na Síria e no Iraque. No Sichuan, na China, as abelhas desapareceram completamente, obrigando os agricultores a polinizar as árvores frutiferas à mão. O país é o primeiro apicultor mundial com 200 mil profissionais do setor e 6 milhões de colônias. Pesticidas são frequentemente apontados pelos criadores como os principais responsáveis por intoxicações crônicas nas abelhas. Mas grande parte dos cientistas acredita, por sua vez, que o culpado chama-se "Varroa destructor", um parasita da Indonésia, hoje presente em todos os continentes, e que não seria combatido de forma adequada pelos apicultores. Um microfungo parasitário conhecido como "Nosema ceranae" ou ainda o vírus "Israeli acute paralysis", também cumpriram o papel de suspeito número um.
ESTRESSE CRÔNICO ENFRAQUECE AS ABELHAS
A nova teoria aposta no efeito cascata: o estresse primário seria causado pela presença do Varroa, também conhecido como "vampiro de abelhas", mas, também, por mudanças climáticas, que diminuem a disponibilidade de água e, principalmente, pela exposição crônica à pesticidas. Os agentes secundarios seriam os vírus e fungos, que tiram proveito da fraqueza das abelhas. Além disso, o empobrecimento da alimentação dos insetos, devido à monocultura intensiva, contribui para a fragilizar a espécie. Com um pólen de pouco valor nutritivo, as abelhas são mais vulneráveis à ação de produtos químicos utilizados maciçamente no combate às pragas. O mapeamento do genoma da variedade doméstica mostrou uma carência em enzimas que eliminam produtos tóxicos. Enfim, os cientistas indicam que o mercado mundial de abelhas-rainhas contribui para a redução da diversidade genética porque privilegia variedades mais produtivas em detrimento das mais resistentes. Mas o problema não se limita à "Apis mellifera": espécies selvagens também desaparecem sem explicação. E, por enquanto, nenhum estudo foi feito sobre a extensão do fenômeno.
ESSENCIAIS PARA A PRODUÇÃO ALIMENTAR
As colônias são sistemas complexos, onde vivem de 10 a 80 mil indivíduos. Para o pesquisador francês Jean-Marc Bonmatin, as abelhas têm uma excelente capacidade de adaptação. Há milhares de anos enfrentaram parasitas e doenças, sem que seu equilíbrio tenha sido afetado. A novidade, segundo Jean-Marc, é a presença de neurotóxicos, que desorientam os insetos no caminho de volta para a colméia.
Não se sabe se a famosa citação de Einstein – que afirmou que o homem não resistiria mais de quatro anos ao desaparecimento das abelhas – é autêntica. Mas os especialistas são unânimes em prever que o fim dos enxames teria efeitos catastróficos para a Humanidade. A equação é simples: a polinização realizada pelas abelhas é responsável por 35% da produção mundial de alimentos, o que representa 220 bilhões de dólares por ano na economia do planeta. E segundo a FAO, a agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, será necessário produzir 70% a mais de alimentos até 2050, quando a população será de 9,1 bilhões de habitantes.
Leia também:
Um mistério à solta no ar
*FAO
Quem diria? As abelhas, que habitam o planeta há mais de 60 milhões anos, vivem hoje mais e melhor em zonas urbanas, entre carros e ônibus. Sobre o teto do prédio de estilo "Segundo Império" da Ópera de Paris, no Jardim de Luxemburgo ou ainda no Parque La Villette, também na capital francesa, cerca de 300 colônias produzem algumas centenas de toneladas de mel por ano, de primeiríssima qualidade. A explicação é simples: nas cidades, as abelhas estão menos expostas ao uso de pesticidas e dispõem de uma maior variedade de flores, plantadas em parques e jardins públicos e até nos canteiros de apartamento. Enquanto isso, colméias inteiras desaparecem sem deixar vestígio em zonas rurais da Europa, Estados Unidos, Canadá, China ou América do Sul.
O fenômeno foi batizado de desordem de colapso das colônias, CCD na sigla em inglês. A taxa de mortalidade das abelhas, que normalmente é de 5% chega a 40% ou até 80% em certas regiões do mundo. O mistério da verdadeira hecatombe que se abate principalmente sobre a espécie Apis mellifera, ainda não está totalmente desvendado, mas, pela primeira vez, pesquisadores chegaram a um consenso, no último Apimondia – Congresso Mundial de Apicultura, que reuniu, neste mês, cerca de 10 mil profissionais do setor, sendo 500 cientistas, em Montpellier, no sul da França.
CONJUNTO DE FATORES
Após mais de uma década em busca de um "serial killer" de abelhas, culpado pela mortalidade desenfreada dos insetos, a teoria dos múltiplos fatores, que agem individualmente, mas, também, combinam suas forças, é privilegiada. "Hoje, a comunidade científica está certa de que não há uma causa única responsavel pelo fenômeno", disse o biólogo Peter Neumann, do programa internacional de prevenção do colapso de colônias, batizado "Coloss". Para Jeff Pettis, diretor de pesquisa do Ministério Norte-americano de Agricultura, pode-se fazer um paralelo entre os males da Apis mellifera e uma patologia humana: "A gripe pode ter consequências graves num indivíduo cujo organismo já esta fragilizado", comentou. "As abelhas estão submetidas a uma série de fatores de estresse, vírus e outros agentes patogênicos funcionam como oportunistas que as matam".
Os números apresentados na Apimondia 2009 só acentuam a dimensão da catástrofe: nos Estados Unidos, o índice de desaparecimento das colméias atingiu 30% no final do último inverno. O Canadá perdeu um terço da população de abelhas no mesmo período e na Europa a porcentagem varia de 10% a 30% de taxa de mortalidade. No Oriente Médio, os números são mais alarmantes: quase 80% na Síria e no Iraque. No Sichuan, na China, as abelhas desapareceram completamente, obrigando os agricultores a polinizar as árvores frutiferas à mão. O país é o primeiro apicultor mundial com 200 mil profissionais do setor e 6 milhões de colônias. Pesticidas são frequentemente apontados pelos criadores como os principais responsáveis por intoxicações crônicas nas abelhas. Mas grande parte dos cientistas acredita, por sua vez, que o culpado chama-se "Varroa destructor", um parasita da Indonésia, hoje presente em todos os continentes, e que não seria combatido de forma adequada pelos apicultores. Um microfungo parasitário conhecido como "Nosema ceranae" ou ainda o vírus "Israeli acute paralysis", também cumpriram o papel de suspeito número um.
ESTRESSE CRÔNICO ENFRAQUECE AS ABELHAS
A nova teoria aposta no efeito cascata: o estresse primário seria causado pela presença do Varroa, também conhecido como "vampiro de abelhas", mas, também, por mudanças climáticas, que diminuem a disponibilidade de água e, principalmente, pela exposição crônica à pesticidas. Os agentes secundarios seriam os vírus e fungos, que tiram proveito da fraqueza das abelhas. Além disso, o empobrecimento da alimentação dos insetos, devido à monocultura intensiva, contribui para a fragilizar a espécie. Com um pólen de pouco valor nutritivo, as abelhas são mais vulneráveis à ação de produtos químicos utilizados maciçamente no combate às pragas. O mapeamento do genoma da variedade doméstica mostrou uma carência em enzimas que eliminam produtos tóxicos. Enfim, os cientistas indicam que o mercado mundial de abelhas-rainhas contribui para a redução da diversidade genética porque privilegia variedades mais produtivas em detrimento das mais resistentes. Mas o problema não se limita à "Apis mellifera": espécies selvagens também desaparecem sem explicação. E, por enquanto, nenhum estudo foi feito sobre a extensão do fenômeno.
ESSENCIAIS PARA A PRODUÇÃO ALIMENTAR
As colônias são sistemas complexos, onde vivem de 10 a 80 mil indivíduos. Para o pesquisador francês Jean-Marc Bonmatin, as abelhas têm uma excelente capacidade de adaptação. Há milhares de anos enfrentaram parasitas e doenças, sem que seu equilíbrio tenha sido afetado. A novidade, segundo Jean-Marc, é a presença de neurotóxicos, que desorientam os insetos no caminho de volta para a colméia.
Não se sabe se a famosa citação de Einstein – que afirmou que o homem não resistiria mais de quatro anos ao desaparecimento das abelhas – é autêntica. Mas os especialistas são unânimes em prever que o fim dos enxames teria efeitos catastróficos para a Humanidade. A equação é simples: a polinização realizada pelas abelhas é responsável por 35% da produção mundial de alimentos, o que representa 220 bilhões de dólares por ano na economia do planeta. E segundo a FAO, a agência das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, será necessário produzir 70% a mais de alimentos até 2050, quando a população será de 9,1 bilhões de habitantes.
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