
Quando Beto Veríssimo realizou a palestra "Amazônia: é possível conciliar desenvolvimento e preservação?" na Editora Abril, a convite do Planeta Sustentável, uma de suas observações foi a de que o setor da carne estava atrasado em relação aos de soja e madeira em termos de rastreabilidade da cadeia. Ele dizia: “O Ministério Público pede que em dez anos os frigoríficos tenham cadeia produtiva cadastrada, mas eles argumentam que o prazo é curto, querem trinta anos”.
Só que a denúncia do Greenpeace sobre a compra de carne bovina ilegal por parte de grandes frigoríficos como Bertin, JBS e Marfrig e de redes de supermercado como Pão de Açúcar, Carrefour e Wall Mart – que têm atuação global e sofreram impactos internacionais negativos em sua imagem – promete mudar essa história.
Quando o Ministério Público Federal do Pará recomendou que 75 empresas do estado deixassem de comprar a carne dos frigoríficos citados e os hipermercados tomaram a mesma decisão, ficou claro que um Programa de Certificação que assegurasse a origem da carne era necessário. “Agimos a partir de uma demanda de nossos clientes, temos responsabilidade em garantir o abastecimento das mercadorias e precisamos encontrar alternativas”, conta Sussumu Honda, presidente da ABRAS – Associação Brasileira de Supermercados. Ele lembra que tanto os supermercados quanto os frigoríficos têm um nome a zelar.
As três grandes redes nacionais de supermercados procuraram a ABRAS e optaram pelo estabelecimento de um único mecanismo de autoria para o varejo, em vez de contratar auditorias separadamente: o Programa de Certificação de Produção Responsável na Cadeia Bovina, que deve ter seus critérios e indicadores definidos em, no máximo, 90 dias.
“Nossa missão é garantir uma produção responsável na cadeia bovina, mas não trabalhar com todas as expectativas de sustentabilidade porque trata-se de um processo evolutivo. Queremos deixar público e transparente o compromisso do varejo em não ser conivente com práticas ambientais e sociais ilegais”, diz Rosemary França Vianna, diretora da SGS Systems & Services Certification, a empresa contratada para realizar a certificação dos empreendimentos.
Por enquanto, um comitê técnico discute os critérios para a criação do selo e deve seguir os mesmos princípios básicos de outras certificações socioambientais. A adesão da rede de frigoríficos ao programa também deve facilitar a rastreabilidade dos elos anteriores da cadeia, alcançando todos os fornecedores.
Para fazer a rastreabilidade das fazendas de gado, coisa que nem o próprio governo dá conta de garantir, a auditoria vai acreditar na documentação legal apresentada pelos proprietários. Esse é um ponto falho do programa, para o qual ainda não foram apontadas saídas, já que não há como verificar a idoneidade dos documentos e garantir que não houve corrupção ou fraude na aquisição dos mesmos.
Rosemary diz que a alta diretoria das empresas de varejo tem se mostrado engajada em evitar que façam parte de sua cadeia produtiva fazendas embargadas pelo IBAMA, que constem na lista de irregularidades do Ministério do Trabalho e Emprego, que tenham invadido terras indígenas ou de preservação permanente e que pratiquem desmatamento ilegal.
Agora, é aguardar os próximos três meses e verificar o resultado final desse esforço.