Blog da Redação
16/12/2008 às 19:57
O clima morno de Poznan

Apesar do frio das temperaturas próximas de 0º C na cidade, a “sensação térmica” da Conferência em Poznan, nas duas últimas semanas foi morna. A portas fechadas, as discussões entre as delegações e os representantes dos 189 países não receberam muitas contribuições de movimentos sociais, ambientalistas e da sociedade civil em geral e pouco progrediram.

Os 11 prédios que formavam o complexo onde a conferência foi realizada, interligados por túneis, dificultaram a interação entre os delegados e os participantes dos “side events”, eventos paralelos às negociações oficiais, organizados por ONGs e pela mídia. “O ambiente físico não propiciou muitos encontros. Os negociadores ficaram escondidos e, se não cruzássemos com eles nos intervalos para café, não víamos ninguém”, disse Rachel Biderman, do GVces – Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, que esteve em Poznan durante a segunda semana da 14ª COP.


Depois de registrar suas impressões sobre a conferência no blog do Observatório do Clima, Rachel conversou com o Planeta Sustentável. Confira abaixo o que ela nos contou e sinta um pouco do clima do evento que marcou o meio do caminho entre a Conferência em Bali, em 2007, e a que vai acontecer em dezembro do ano que vem, em Copenhague, quando a expectativa é de que seja estabelecido, finalmente, um termo de cooperação global de longo prazo para as questões climáticas no mundo.

Planeta Sustentável: Você concorda com a afirmação de que a Conferência em Poznan foi “café com leite”?
Rachel Biderman:
Concordo e ainda digo mais: vi inúmeros negociadores brasileiros muito desanimados, esperando durante horas pela chegada dos ministros na noite em que viraram em claro – em toda COP, essa última sexta-feira é fatídica e eles sempre passam em claro...

Minha sensação é que a conferência em Poznan foi como um jogo de xadrez, em que os países decidiram colocar todos os soldados atacando. Eles jogam tudo o que têm de demanda e não oferecem nada e, com isso, começam as negociações no ano que vem.

Esse é um tipo de acordo em que tudo só se resolve no final. Os pacotes vão sendo apresentados e negociados concomitantemente, de uma maneira progressiva, de modo que, no final, todos ouviram o que os outros querem, pelo menos em parte. Tudo só vai se resolver mesmo em Copenhague.

Podemos esperar que, em Copenhague, seja firmado, de fato, algum compromisso?
De Copenhague, dá para esperar um acordo de redução de emissões para os países do atual Anexo I. O que não precisamos esperar é que sejam estabelecidas metas de redução para os países em desenvolvimento, que devem assumir compromissos e terão indicações de medidas a serem tomadas, mas em um nível mais genérico.

Será que não teremos problemas com os EUA por conta disso, já que eles endureceram as discussões ao final da Conferência e, desde Kyoto, carregam o discurso de que o país vai cumprir sua parcela de responsabilidade desde que os países em desenvolvimento também façam a sua parte?
É provável que eles dificultem sim. Mas, em Poznan, os EUA estavam com uma delegação de transição, ainda sob o comando de Bush, não foi a turma de Barack Obama quem deu o tom das discussões. No entanto, Al Gore, que foi ouvido em um auditório gigantesco por mais de 5 mil pessoas e ovacionado, se disse porta-voz de Obama e se comprometeu a assumir, pelos EUA, uma postura mais agressiva de combate às mudanças climáticas.

Quer dizer que ainda podemos ter esperanças de que, com a posse de Obama, os EUA se engajem mais com as questões climáticas?
Com certeza vai ser retomada essa postura de compromisso com o tema. Até porque, existe um fenômeno maior acontecendo em várias cidades americanas, que têm assumido seus próprios compromissos. É certo que existem milhares de cidades nos EUA, mas essa é uma tendência que vai continuar. Aliás, estou convencida de que as ações não podem acontecer apenas em nível nacional e só funcionam se houver várias esferas concomitantes de atuação.

A esfera da ONU serve como “pisca-alerta”, que acena para nos lembrar de que existe um problema grave, mas esse sistema internacional é muito complexo. Se alguém desrespeitar uma regra global, não existe uma sanção internacional, a não ser a econômica. O sistema jurídico internacional é falho. A definição de regras e a resolução de conflitos precisam acontecer em esferas menores.

Participei de um evento organizado pelo ICLEI, que reuniu governos locais. É absurda a quantidade de ações que vêm sendo feitas na Alemanha, na Suécia, nos Estados Unidos... Certamente, muita coisa vai acontecer no nível das empresas.

O que foi dito sobre a crise financeira em Poznan?
Falou-se bastante sobre a crise. É impressionante o desânimo unânime dos ambientalistas e dos movimentos sociais pelo fato de que foram feitos investimentos com tanta rapidez para resgatar essa crise financeira e, ao mesmo tempo, não há empenho para resolver o problema climático, que é muito mais barato.

É claro que, na cabeça de um tomador de decisão, a economia é prioritária em relação à questão climática. Mas, para os movimentos sociais e os ambientalistas isso não faz sentido, já que uma crise é tão grave quanto a outra. O próprio Al Gore disse que elas são de igual magnitude e não podem ser tratadas de forma diferente.

Não houve manifestações paralelas à Conferência para agitar as discussões?
Todos os dias na entrada havia alguma intervenção, mas foi tudo muito morno. A Oxfam foi a que mais se manifestou e chamou atenção para as questões de fome e miséria, já que milhões de refugiados podem ter sua situação agravada pelas alterações climáticas. Os movimentos indígenas, ainda em que em menor volume, também estiveram presentes nas negociações de REDD – Redução de Emissões decorrentes de Desmatamento e Devastação Florestal e gritaram muito quando algumas delegações ameaçaram tirar a cláusula de acesso das populações indígenas aos recursos.

A Conferência contou com a presença de chefes de Estado?
Não tenho conhecimento da presença de nenhum chefe de Estado, o que, aliás, foi uma das grandes críticas. As delegações eram chefiadas por ministros de Meio Ambiente e de Energia, que não são ministros fortes. Isso demonstra descaso com o assunto. Al Gore também fez essa pergunta: cadê os chefes de Estado? Será feita muita pressão para que eles compareçam a Copenhague, já que quem tem o poder de assinar o documento final para um acordo de cooperação entre os países é o presidente da república ou o primeiro ministro.

Al Gore também elogiou a política brasileira de combate às mudanças climáticas durante o discurso. O que você acha disso?
Ele apenas citou algumas boas ações de países de maneira rápida, como forma de reconhecimento pelo esforço em relação à questão. Entre elas, o fato de a China ter investido mais de U$600 bilhões em energias renováveis e a iniciativa brasileira de fazer um Plano Nacional de Mudanças Climáticas, mas ele não se referiu ao conteúdo do plano.

Na volta para casa, qual era a sensação geral entre os participantes desta COP?
A de que há muito trabalho a ser feito no próximo ano para desatar os nós sobre metas e compromissos para os países desenvolvidos e em desenvolvimento. Muito desse trabalho será feito nos encontros intermediários ao longo de 2009, que são, mais do que necessários, fundamentais para a Conferência de Copenhague.

(Foto: Divulgação)




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