Pra lá e pra cá
20/08/2009 às 17:17
Fritando os fretados


A verdade é que o prefeito de São Paulo já estava de olho nos fretados há bastante tempo. Colocar regras para essa modalidade do transporte coletivo foi uma das promessas que Gilberto Kassab fez e não conseguiu cumprir até o final de 2008. Agora, no primeiro ano do mandato e politicamente forte, decidiu implantar a zona máxima de restrição à circulação de fretados.

O serviço de ônibus fretado é uma opção de locomoção confortável e econômica com relação ao automóvel particular. Especialmente atrativa para a classe média, essa alternativa só se consolidou devido ao enorme vácuo do transporte público de qualidade. Atualmente, na Região Metropolitana de São Paulo, mais gente se desloca com o serviço oferecido por empresas privadas do que sobre bicicletas, por exemplo.

A ideia da Prefeitura era banir os fretados em 70 km2 da área central da cidade. Ou seja, um monte de gente não poderia mais desembarcar de manhã diretamente na porta do trabalho ou quase lá. Esses passageiros teriam de descer em um ponto de transbordo e, de lá, seguir viagem de outro jeito. O confortável transporte com o fretado poderia ser complementado com uma viagem de metrô ou ônibus, provavelmente em horário de pico, o que não costuma ser lá muito agradável.

Por que restringir os fretados? A justificativa da medida não poderia ser mais absurda. A Prefeitura diz que a restrição ajudará a aliviar os congestionamentos. No entanto, dificultar a chegada de pessoas a seu trabalho por transporte coletivo é o melhor incentivo que se pode dar à geração de mais viagens com o transporte individual motorizado.

O óbvio fica claro no raciocínio de um usuário dos fretados que deu entrevista na imprensa: “Eu já gasto quase R$ 400 de ônibus. Entre gastar R$ 500 tendo de pegar metrô e gastar R$ 600 com o conforto do carro, sou mais a segunda opção.”

A regulamentação do tráfego de fretados é importante? Sem dúvida que sim. Até agora, puderam esses veículos transitar e – acima de tudo –  parar em qualquer lugar para o embarque e o desembarque de passageiros, complicando o já tumultuado trânsito na cidade. O problema é que São Paulo confundiu regulamentação com uma restrição baseada em “estudos” que até agora não são de conhecimento público. “Nas coxas”, alguns poderiam dizer.

Nessa história, o grande imprevisto foi a reação de prefeitos de cidades vizinhas e os protestos de usuários do serviço, que fizeram bastante barulho na Avenida Paulista, na Marginal do Pinheiros. Esses eventos puseram a nu o prefeito. Agora, algumas concessões são feitas aqui e acolá, na Luiz Carlos Berrini e na Faria Lima, o que deixa ainda mais às claras que não havia plano para os fretados, que nem a Prefeitura sabia direito o que estava fazendo.

Se o prefeito quisesse encarar de frente o problema dos congestionamentos, endureceria o rodízio, dificultaria ou encareceria ainda mais o estacionamento principalmente no centro expandido ou, mais radicalmente, moderia sua língua, propondo o pedágio urbano. O que não faz muito sentido é priorizar a restrição aos fretados em relação à restrição aos principais causadores do trânsito na cidade: os automóveis particulares.





Comentários

22/08/2009 às 22:14
Talitha Rossini Vespoli - diz:
Desculpe-me a ignorância, concordo plenamente com o texto, mas quero deixar uma questão no ar: o que o prefeito ganha com isso?!

23/08/2009 às 15:11
Mauricio Oliveira - diz:
Mauricio Oliveira - diz:
Acredito fortemente que não há qualquer tipo de estudo quanto ao que está sendo feito, afinal como diz algumas faixas fixadas nos onibus fretados: Um ônibus tira 40 carros da rua. Aíquestiono... É preferivel 40 carros ou um ônibus? Quem polui mais? Quem faz ais trânsito? Enfim... Acredito que não precisamos de nenhum estudo especifico, ou ser nenhum PHD em engenharia de trafego, para saber que está errado esse projeto de ZMRF. Vamos combinar... Regulamenta o transporte fretado, se for o caso defini trajeto, bolsões de desembarque, mas de forma que auxilie a vida do cidadão e não dificulte

05/09/2009 às 23:36
Irma - diz:
O pior é descobrir que o transito não melhorou e as pesquisas informam que sim, não é verdade eu vou de fretado até este maravilhoso Bolsao da cidade Jardim e faço o resto do trajeto a pe e todos os dias apos este absurdo, o transito continua intenso agora eu chego atrasada.Gostaria de saber onde o transito melhorou.Sou a favor da regulamentaçao não da proibição como de fato aconteceu.Ele tornou a vida de muitas pessoas mais dificeis e não foi capaz de voltar atras e melhorar sua decisão mesmo com protestos e pedidos.

14/10/2009 às 13:58
lucia de olim Marote - diz:
lucia de olim Marote - diz:
Esse Prefeito não é capaz de assumir que errou e continua massacrando os trabalhadores, tanto faz ele só anda de helicoptero. Sou a favor de protestar o povo tá muito calmo, gastando mais e demorando horrores.



Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




 
Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
Posts anteriores
15/10/2009
• Quem dá mais?
17/09/2009
• Cotidiano
13/08/2009
• Bola e trilho
09/07/2009
• Rede para mudar
25/06/2009
• No cars go!
28/05/2009
• Eletrocicleta!
14/05/2009
• Saindo do zero
29/01/2009
• Deixe sucatear
11/09/2008
• É pique!
31/07/2008
• Ele voltou
24/07/2008
• Shared space
10/07/2008
• Tem de sobra!
08/05/2008
• Amsterdã
08/05/2008
• A ponte
10/04/2008
• Os bambambãs
18/10/2007
• E POD?
16/09/2007
• É sábado!



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados