Pra lá e pra cá
27/08/2009 às 08:23
Consumo crítico


Acabo de voltar de uma verdadeira imersão sustentável. Em uma pequena cidade em uma das regiões menos populosas da Alemanha, juntei-me a outros 120 estudantes e pesquisadores para discutir e trocar idéias sobre alguns dos temas verdes mais relevantes da Europa. Lá, desliguei-me do mundo e participei de atividades com idealistas, com gente que procura viver em comunidades alternativas e sobretudo com gente como eu e você. O seminário sobre consumo crítico durou dois dias, mas, de tão interessante, bem que poderia ter durado mais. E, se dependesse de mim, poderia ter acontecido no Brasil.

Para minha surpresa, consumo crítico de mobilidade foi um dos primeiros temas propostos. Mas transporte, como atividade derivada de outras atividades econômicas, aparece também em outras áreas. Alimentos, por exemplo. Não é possível falar em consumo crítico de alimentos, sem pensar em como ele chegou até o mercado, em como ele vai chegar até sua casa e como seus resíduos serão levados embora.

A produção de cada alimento deixa uma pegada ecológica. Ela pode ser medida, por exemplo, em massa de equivalente de gás carbônico lançados na atmosfera. Carne e produtos lácteos – com todas as vacas em sua cadeia produtiva – lideram disparado a lista dos alimentos que contribuem para o aquecimento global. Dessa perspectiva, uma alimentação baseada em legumes e frutas é bastante vantajosa. Também é vantajosa a compra de todo alimento com pouca embalagem. (Será que tudo precisa vir empacotado em plástico?)

Mas aí vem a pergunta: Quantas toneladas de CO2 deixaram no caminho as bananas que voaram do Equador ou os kiwis da Nova Zelândia até chegarem à seção de frutas do supermercado? Parte desses alimentos é transportada (e de bem longe) para que o mercado consumidor possa deles desfrutar o ano inteiro. Graças à evolução do comércio intercontinental, não existem mais as “frutas da estação”. De fato, minha avó sabia de cor quando era a época de manga, de ameixa ou de morango. Eu confesso que não sei: as frutas estão quase sempre à venda. Esperar o mês certo para fazer a torta de maçã, o bolo de morango ou comer umas carambolas ficou como “problema” do passado. Em vez disso, temos o aquecimento global. E o que faz a maioria de nós? Continuamos indo ao supermercado ou à feira buscando apenas o menor preço e a fruta para a qual temos apetite aqui e agora.

Ninguém é a favor das emissões desenfreadas no rastro dos trajetos dos aviões, mas ser consumidor crítico exige sobretudo saber ponderar essas questões com moderação. Nos meandros do debate sobre consumo crítico, os verdes na Alemanha se preocupam com o surgimento de um novo tipo de racismo: o eco-racismo. Em diversos países europeus, grupos conservadores pregam o total abandono do consumo de alimentos importados e a preferência absoluta a produtos regionais. Atrás da fachada do discurso ecológico, esconde-se o extremo orgulho de proteção aos produtos e às tradições locais, o que não deixa de ser perigoso. Dessas tendências, também devemos tomar distância crítica.

Além disso, o “consumidor crítico” tem de levar em conta as condições a que os trabalhadores são submetidos tanto na produção como na venda de alimentos. Na Alemanha, descobriu-se há alguns meses que grandes redes de supermercados espionavam os funcionários e os submetiam a situações constrangedoras. Protocolos informavam à chefia quem ia ao banheiro e a que horas, possíveis relacionamentos amorosos e até mesmo quem aparentava ser introvertido e estranho. Métodos que, em pleno capitalismo democrático, não ficam devendo nada aos usados pela polícia secreta de governos ditatoriais. Isso para não falar em salários que, até na Alemanha, soam indecentes. Você compraria em um supermercado desses com consciência tranquila? E no varejo brasileiro? Precarização e más condições de trabalho existem??

Os consumidores podem romper com essa maléfica lógica sócio-ambiental? Sim, mas, para isso, não basta apenas buscar produtos orgânicos, recusar sacolas plásticas ou se tornar do dia para a noite vegetariano ou vegano. Consumidores críticos precisam principalmente do acesso à informação de qualidade. Há muito que as etiquetas de preço não são informação suficiente. Com relação a aparelhos eletrônicos, muito do nosso consumo é programado pela indústria. Ouvi dizer que fabricantes empregam engenheiros com a missão de garantir que um aparelho deixe de funcionar depois de alguns anos. Não é mera impressão nossa que os produtos de hoje não são como os de antigamente... Isso para não falar no problema do lixo. O que fazer com ele? Colocar tudo em um navio e exportá-lo, como faz a Inglaterra? Eu prefiro me informar e apoiar iniciativas promovidas pelo pessoal do MakeITFair, por exemplo.

Também conversamos sobre o consumo de roupas. Marcas famosas e grandes lojas que dominam as principais ruas comerciais na Alemanha são frequentemente a grife da exploração do trabalho e do descaso com o meio ambiente em países subdesenvolvidos. Enfim, há muitas semelhanças entre roupas e alimentos, entre a situação no Brasil e na Alemanha. Mas, no caso das roupas, até mesmo os verdes acham que o design das peças sustentáveis ainda tem muito a melhorar.

Precisamos apoiar quem ajuda a trazer à luz como mercadorias são produzidas, transportadas e vendidas. Por outro lado, não se pode exigir que cada consumidor (e principalmente o consumidor com menor poder aquisitivo) faça as vezes de detetive e investigue cadeias produtivas, práticas de comércio, redes de logística. Ainda que o poder do mercado consumidor não deva ser subestimado (ainda mais em um país como o Brasil, com grandes parcelas da população sendo apenas nos últimos anos incorporadas ao mercado consumidor de inúmeros produtos), organizações da sociedade civil e governo têm um papel importantíssimo como promotores de sociedades de consumo crítico.

(Foto: piqs.de)





Comentários


Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




 
Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
Posts anteriores
15/10/2009
• Quem dá mais?
17/09/2009
• Cotidiano
13/08/2009
• Bola e trilho
09/07/2009
• Rede para mudar
25/06/2009
• No cars go!
28/05/2009
• Eletrocicleta!
14/05/2009
• Saindo do zero
29/01/2009
• Deixe sucatear
11/09/2008
• É pique!
31/07/2008
• Ele voltou
24/07/2008
• Shared space
10/07/2008
• Tem de sobra!
08/05/2008
• Amsterdã
08/05/2008
• A ponte
10/04/2008
• Os bambambãs
18/10/2007
• E POD?
16/09/2007
• É sábado!



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados