Pra lá e pra cá
29/10/2009 às 10:00
Caixa de ferramentas urbanísticas


Um misto de acaso, posicionamento estratégico e o jogo de afinidades e contrastes entre dois países vai me levar das salas de aula de Hamburgo para as ruas de Diadema e para a Marquise do Ibirapuera. 

Alemanha e Brasil vivem faces opostas do planejamento urbano: de um lado, sobram profissionais que lutam por um espacinho em um mercado de trabalho saturado. Sobre espaços concretamente planejados, atua um emaranhado de instituições com foco em múltiplos temas e escalas. De outro, a demanda real (por moradia, por transporte, por saneamento básico...) é enorme, mas pode-se dizer que a profissão – esmagada entre ocupantes de uma burocracia, a classe de arquitetos e atores do processo político – não existe. Planejamento urbano no Brasil foi, por muito tempo, ficção. Hoje é uma colagem de leis, projetos e ideais que se metamorfoseiam e tentam preparar o país para os desafios que ganham volume.

Mas não é fácil traduzir para o alemão aquilo que em alemão não existe. Meus últimos seminários e trabalhos focam os problemas urbanos brasileiros com o pano de fundo da inexistência de um sistema de planejamento. Na universidade, verso sobre cicloativistas e as chances de um planejamento comunicativo em São Paulo ou a impossibilidade de um planejamento urbano democrático sob a dominação ilegal de territórios e conflito armado, como no Rio de Janeiro atualmente. Desde que comecei meus estudos, também procuro traduzir as informações que recebo aqui para a realidade brasileira. O Pra lá e pra cá documenta e testemunha boa parte desse processo.

Talvez tenha sido a dificuldade dessa tradução que chamou a atenção de um professor e de seu assistente. Eles me convidaram para acompanhar a comitiva alemã que fará uma contribuição na Bienal Internacional de Arquitetura, que acontece de 31 de outubro a 6 de dezembro. A proposta dos alemães é discutir a “cidade para todos”, tema que acho bem apropriado. No Brasil, esses arquitetos e planejadores discutirão propostas concretas para a Serraria, bairro de uma das mais densamente povoadas cidades brasileiras: Diadema. (Será Diadema de fato lugar de uma cidade para todos?)

Da Alemanha, eles trazem uma caixa de ferramentas urbanísticas, isto é, um conjunto de processos e projetos com exemplares resultados sócio-espaciais e culturais, e que podem ter bom uso no Brasil, dependendo da realidade que for encontrada. Eu já dei uma espiada nessa caixa de ferramentas. Sei que dentro dela estão muitos processos auto-gestados, iniciativas populares, muita participação da população, projetos de requalificação do espaço público, conquista de áreas verdes, estruturação de cooperativas e circuitos econômicos alternativos e muito mais. Ferramentas efetivamente importantes para a modelação do espaço das cidades brasileiras.

O objetivo da IBA Hamburg - organização que venceu o concurso organizado pelo governo alemão para coordenar a participação alemã na Bienal - é apoiar a tranferência de tecnologia urbanística e fomentar um tipo de intercâmbio que não se esgota com o fim da exposição. Em 2010, estudantes de arquitetura e urbanismo de universidades brasileiras serão convidados para visitar Hamburgo e conhecer projetos em andamento.

Para o Pra lá e pra cá, esse projeto soa bastante interessante: Diadema é uma cidade rasgada ao meio pela Rodovia dos Imigrantes. A própria conclusão do trecho sul do Rodoanel deve mudar estruturalmente as condições de deslocamento em Diadema. Registros de experiências e propostas para a mobilidade urbana que surgirão nessa missão serão publicados nesse blog ao longo da Bienal.

Foto: Construção de ponte no trecho sul do rodoanel de São Paulo (Divulgação)





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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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