Pra lá e pra cá
08/08/2008 às 05:42
Por que tanto entusiasmo?

Uma leva de boas notícias para a indústria automobilística foi publicada na imprensa nesses últimos dias. O Estado de S. Paulo revelou ontem que o Brasil desbancou a França e já é o sexto maior produtor de carros do planeta. Vendas sobem 30%, produção em alta de 22%, empregos em nível recorde: um mar de rosas para as multinacionais do setor. Já a revista Veja publicou há pouco tempo reportagem enchendo a bola das montadoras e de seu desempenho após as políticas de liberalização comercial no Brasil. Um trechinho: “A concorrência melhorou a qualidade dos produtos. No início da década, 70% dos carros brasileiros tinham motor 1.0. Hoje, são 54%.“ Mas o que, disso tudo, é realmente motivo de comemoração? Será que motores mais potentes são mesmo um indicador de melhor qualidade?

De jeito nenhum, responde Der Spiegel em recente reportagem de capa. A própria Alemanha segue no caminho errado: "O sucesso das montadoras alemãs tem se baseado até agora em modelos caros, grandes e potentes -- enfim, exatamente os produtos mais problemáticos no atual cenário de mudança climática e esgotamento dos combustíveis fósseis." Até nos Estados Unidos, alguns desses "tratores urbanos" estão sofrendo bruscas quedas de venda, depois de anos de sucesso. Por que deveríamos, no Brasil, orgulhar-nos de uma maior proporção de automóveis mais requintados?

Mas, ainda de acordo com a reportagem, o futuro continuará pertencendo ao carro. Hoje existe quase 1 bilhão de automóveis neste planeta. Até 2030, essa população deverá ultrapassar a marca dos 2 bilhões. Mas possivelmente não teremos tanto esses carros que vemos hoje e que entusiasmam o noticiário. O que vem aí é o carro elétrico. A General Motors, que planeja colocar no mercado o GM Volt dentro de dois anos, até compartilha essa visão e soltou um anúncio publicitário assim: "Querido petróleo, nós tivemos até hoje um excelente relacionamento. Mas de agora em diante é melhor não nos vermos tanto..." Uma renomada consultoria de empresas prognostica que até 2020, 25% dos novos carros serão movidos a eletricidade. Analistas são da opinião de que a atual explosão no preço do petróleo é o impulso que faltava para o desenvolvimento de sistemas de alimentação elétrica para a nova geração de automóveis.

Claro que o fato de haver mais gente empregada no ramo automobilístico não é ruim. Mas ficaria ainda mais contente com empregos menos sujeitos às oscilações da demanda. Estes empregos poderiam vir na esteira de tecnologias nacionais que contribuiriam para inovar a forma de propulsão dos veículos. Sabemos que o calcanhar-de-aquiles do carro elétrico continua sendo o armazenamento. As baterias para o carro elétrico são ainda muito grandes, caras demais e rendem para algo entre 60 e 100 quilômetros apenas. Se o Brasil desse um empurrãozinho no desenvolvimento de algo na direção de uma mobilidade mais sustentável, aí sim estaria mais entusiasmado.


Links
Assinado pelo repórter Duda Teixeira, O país das montadoras é uma coleção de elogios para a indústria automobilística.
Leia também o que escreveu a setorista Cleide Silva sobre o desempenho da indústria automobilística.
Enquanto isso, em São Paulo, acontece isso aqui. Ai, ai, ai, ai, ai...




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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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