Dia de mudar São Paulo

São Paulo é produto de uma química explosiva. Os reagentes que leva a maior cidade sul-americana a uma situação ameaçadora são bem conhecidos: desregulamentação do uso do solo acompanhada de especulação imobiliária, política de circulação centrada no meio de transporte motorizado individual, falta de integração metropolitana e o desenvolvimento de um padrão de urbanização baseado na desigualdade econômica e na segregação. Hoje,
Dia Mundial Sem Carro, é o momento certo para pensar alternativas especialmente para os grandes centros urbanos.
O que fazer para reverter essa química? Alguns podem ficar tentados a colocar a culpa de todos os problemas da cidade no automóvel. Ou então lembrar que os problemas só serão resolvidos com leis mais sérias e efetivas para um planejamento urbano consequente. Outros botarão a culpa no prefeito e empunharão cartazes de “Fora Fulano”. Eu considero um outro ponto mais relevante: a falta de controle cidadão sobre a política urbana.
Nós, brasileiros, somos convidados a nos posicionar em relação a grandes temas nacionais (como o desarmamento, o sistema político brasileiro ou até mesmo o próximo a ser eliminado no Big Brother), mas muito dificilmente conseguimos expressar nossas opiniões com relação à instalação de um semáforo, ao erguimento de um prédio de vinte andares ao outro lado de nossa casa ou à mudança do itinerário de uma linha de ônibus na rua de trás.
A mais essencial medida para tornar cidades brasileiras sustentáveis consiste em fomentar o diálogo e a participação cidadã para discutir alternativas, buscar soluções e apontar prioridades para defender e ampliar nosso direito à cidade. A cidade só sairá do beco sem saída se as pessoas discutirem e se sentirem envolvidas com esses assuntos. Afinal, a solução para grande parte dos problemas (inclusive o de mobilidade urbana) depende não só de ações do governo como também da mudança de comportamento das pessoas.
Por que precisamos de uma Nova Marginal? Como vai o plano de expansão de ciclovias? Em que ritmo as emissões de CO
2 da cidade de São Paulo estão aumentando? Ao tentar responder essas questões, logo perceberemos que muita informação ainda precisa ser publicada e que nos faltam, num primeiro momento, informações básicas. Sem elas, nenhum debate proveitoso pode existir. Com quais meios uma cidade é planejada? Quais objetivos estamos querendo alcançar? Quais alternativas foram pensadas?
Agora, a quem deve caber a iniciativa de inaugurar essa esfera política democrática sobre problemas da cidade e favorecer esse processo comunicativo e educativo? Ao poder público municipal, em tese. Entretanto, a prática mostra que o poder público não só raramente faz isso, como chega a desmoralizar iniciativas nessa direção. Não só a proposta de revisão do Plano Diretor de São Paulo em si mas também o modo como as audiências públicas são comunicadas, estruturadas e conduzidas mostram que o processo político de construção da cidade pode melhorar muito. Para as cidades, nada melhor do que inaugurar espaços para um diálogo autêntico, responsável e transformador.
Tudo isso parece muito irreal ou difícil? De fato, é difícil. Democracia e sustentabilidade não são temas fáceis, exigem respostas complexas. Eu adoraria ver respostas para a mobilidade surgirem nesse processo de diálogo. Por outro lado, os problemas não podem aguardar muito para encontrar soluções. Contribuo aqui com
dez ideias que poderiam tirar a São Paulo do beco sem saída do ideal da cidade (per)feita para automóvels. (Se eu fosse candidato, colocaria essas ideias no meu programa de governo.) No entanto, enquanto os demais reagentes continuarem presentes, tudo fica mais difícil.
Proteger bairros do trânsito de passagem – Até agora ocorreu justamente o contrário. Ruas antes calmas absorveram mais e mais tráfego de automóveis, jogando no lixo a calma de tradicionais bairros residenciais. A construção de lombadas e a mudança de sentido das ruas costumam ser sintomas desse problema. Mas a lógica da organização dos fluxos de trânsito na cidade precisa ser revista. Enquanto a prioridade for dar mais vazão ao tráfego de veículos, mais e mais vias projetadas para o tráfego local se tornarão rotas alternativas ao sistema viário principal. Motoristas, que só passam por ali, ganham alguns minutos. Já pessoas que moram e vivem ali perdem qualidade de vida.
Amansando o trânsito – Intervenções no traçado da rua, instalação de rotatórias, imposição de limites de velocidade adequados... Há um conjunto de medidas conhecidas como traffic calming que podem ajudar a diminuir a agressividade com que veículos motorizados atravessam espaços urbanos. Muitas dessas medidas não são caras e trazem o maior benefício que uma política de transportes pode ter: a proteção de vidas. Por que investir tubos de dinheiro na construção de mais túneis em São Paulo? Por que não elaborar um grande plano de traffic calming que cubra a cidade inteira?
Uma política tarifária inclusiva – Sabemos que o preço do transporte é um importantte componente do custo de vida e que os índices de mobilidade costumam crescer junto com a renda. Mas quantas pessoas em São Paulo estão, hoje, privadas de se locomover por conta do custo do transporte? Para garantir o direito à mobilidade – e o direito à cidade – o Estado poderia estabelecer tarifa zero no transporte público e subsidiar completamente o serviço, assim como faz em outras áreas consideradas essenciais. Assim, garantiria o direito de ir-e-vir de todos, sem distinção de renda. Se isso parece radical demais ou muito perigoso para o equilíbrio das contas públicas, que se persiga esse objetivo no médio prazo ou que se comece em determinados dias do ano. A gratuidade na rede de transportes públicos seria uma excelente iniciativa da prefeitura e do governo do estado em datas como o Dia Mundial sem Carro, por exemplo. Mas vejamos: em janeiro, deve vir reajuste da tarifa de ônibus. Olhos abertos!
Valorizar e garantir a qualidade das calçadas – Vergonhosos em São Paulo não são os quilométricos congestionamentos de veículos, que viram notícia no mundo inteiro. Vergonhosa é a quilometragem de calçadas em mau estado de conservação ou com irregularidades que obrigam pedestres a se comungar o leito viário com motoristas. É um desrespeito sobretudo com idosos e pessoas com deficiência motora. Proponho uma revisão geral das calçadas paulistanas, a começar medindo a largura do passeio. Se o passeio não for suficiente para acomodar as pessoas ali, que se expanda a calçada. Que se feche a rua para o trânsito comum de automóveis, se for o caso. Afinal, nem todos são motoristas, mas todo mundo é pedestre.
Disque-Pedestre – Se um veículo quebra na Marginal, a CET não tardará a removê-lo, evitando que o transtorno se esparrame por outras ruas da cidade. Até o motorista pode colaborar e discar gratuitamente para a CET, comunicando o evento. Mas se uma calçada é bloqueada por um veículo, o que fazer? Ligar para quem? E se o veículo sobre a calçada for da própria CET? Quem vai guinchá-lo de lá? Pedestres paulistanos bem que poderiam ter a seu serviço uma equipe rápida e eficiente para punir quem desrespeita a lei e liberar rapidamente calçadas irregularmente bloqueadas. Quem dá atenção a isso hoje? Um 0800 não seria mau.
Inverter a prioridade das multas – Por falar em punir, defendo uma inversão de prioridades na fiscalização do trânsito. Os marronzinhos deveriam prestar toda atenção a infrações que colocam em risco os participantes mais fracos do trânsito. Pedestres e ciclistas em primeiro lugar. Parar ou estacionar o veículo sobre faixa de pedestres, não dar sinal para fazer uma conversão, ameaçar os outros com o veículo, não obedecer a distância mínima de um metro e meio dos ciclistas na via. É esse tipo de infração que nós todos testemunhamos diariamente. Por que as autoridades não têm olhos abertos para isso?
Shared space – Esta é uma das idéias mais humanizadoras do trânsito que já conheci. O
shared space consiste basicamente em suspender a segregação do espaço para a circulação de acordo com o modo de transporte utilizado. Nada de calçada, leito viário, ciclovia... Tudo é uma só coisa: espaço público. E quem usa a rua deve procurar se entender, com base no respeito, no olho-no-olho e no bom senso. Olhando o mapa de São Paulo, já tenho uma lista de lugares onde essa ideia de “espaço compartilhado” poderia dar certo.
Psiu para o trânsito – Poluição não é só gás que sai dos escapamentos. Barulho também polui o ambiente, deteriora a qualidade urbana e causa danos à saúde das pessoas. Em São Paulo, ainda não descobri um lugar onde posso ficar absolutamente livre do ruído do trânsito. Seria hora de dar mais atenção ao ruído oriundo dos motores e proteger principalmente quem fica exposto continuamente a altos níveis de decibéis. Um exemplo extremo: quem anda a pé na calçada da Avenida dos Bandeirantes está sujeito a mais de 80 dB, além de receber fumaça preta.
Pedágio urbano – A prefeitura não pode impedir os cidadãos de comprar mais carros. Mas pode dificultar bastante seu uso (e especialmente seu uso abusivo) na cidade. Se bem estruturado e combinado com uma política inteligente de investimentos no transporte público, o pedágio urbano poderia trazer benefícios para a cidade. Faltam em São Paulo políticos com coragem para inovar e assumir uma posição firme em prol do meio ambiente e do direito de mobilidade a todos.
Mais que fluidez – É preciso por um fim na ditadura dos quilômetros de lentidão como única informação sobre a qualidade do trânsito na cidade. Ouvimos de meia em meia hora nas rádios e na televisão o índice divulgado pela CET. Diversos outros indicadores são importantes para registrar a qualidade da mobilidade na cidade. Vamos sair dessa mesmice?
O Dia Sem Carro em São Paulo desse ano tem tudo para ser
o melhor deles até agora. Vontade de participar? Apareça na junção da Avenida Paulista com a Rua da Consolação às 20 horas e aproveite!
Foto: Mário Rodrigues
Comentários
22/09/2009 às 11:29João Quesado - diz:www.joaoquesado.com.br, quero apresentar um trabalho fotográfico em prol do movimento e parabenizar, todos que estão envolvido de alguma forma.
22/09/2009 às 16:58Valdinei Calvento - diz:Excelente o texto e melhor ainda as propostas! Moro no Belenzinho e costumo andar de bicicleta direto pela região, assim como o meu bairro, a Mooca também em poucos meses estará totalmente saturada graças a especulação imobiliária que está verticalizando tudo por aqui. Sempre penso no desgosto dos mais velhos ao ver suas lembranças de um bairro harmonioso serem varridas pelo "pogresso".Vamo que vamo!
23/09/2009 às 20:11Daniel Guimarães - diz:Muito interessante seu artigo, Thiago. Aproveito para dar uma dica, sobre um site que eu venho tocando, com apoio de outros amigos do Movimento Passe Livre: http://tarifazero.orgUm dos colaboradores é Lúcio Gregori, que foi secretário de Transportes do governo Luiza Erundina e um dos idealizadores da idéia da tarifa zero.Diga o que você achou. Abração!