Pra lá e pra cá
18/06/2009 às 17:29
Quanta ponte o mar aguenta?


A decisão está por um fio e é quase certa: construirão uma Rio-Niterói na Europa. A construção não terá 13 quilômetros, mas sim 19 quilômetros, unindo a Alemanha com a Dinamarca, sobre o Mar Báltico. Com pilares de sustentação de 280 metros de altura, a ponte estaiada será o maior projeto de infra-estrutura de transporte do continente europeu, orçado em 5,6 bilhões de euros (mais de R$ 15 bilhões ou quase tudo que o estado de São Paulo dispõe para investir em 2009). Resumindo: a ponte só não se chamará Costa e Silva. Fora isso tem todas as características de uma obra tão faraônica e questionável, como a inaugurada há 35 anos no Brasil.

A polêmica se desenrola principalmente nos planos técnico e econômico. Os defensores do projeto afirmam que a ponte, ao encurtar em uma hora o tempo de viagem de carro de Hamburgo a Copenhague, estimula o desenvolvimento econômico e a geração de empregos nos dois países, promove a aproximação cultural entre a Europa central e a Escandinávia. Cita-se um estudo de viabilidade financeira que, há dez anos, revelava que cada euro investido na ponte traria 2 euros para a economia. A ponte faria tal diferença, que empresas e investimentos seriam atraídos para as regiões relativamente atrasadas que ela unirá.

Contra o projeto, argumentos sensatos, mas em geral limitados. Primeiro, há aqueles que acham que a ponte liga o nada ao lugar nenhum. Ou, como publicado na revista Der Spiegel, “uma ligação entre dois campos de colza”. Seriam quatro pistas para algo como 7.000 automóveis, talvez 5.000 automóveis por dia. (Para comparação: pela Rio-Niterói trafegam em média 140 mil veículos por dia.) Além disso, o projeto está foi orçado com preços de 2002 e hoje sairia certamente mais caro que o anunciado. Também são do contra aqueles que acreditam que a Dinamarca se beneficiará mais da nova conexão do que a Alemanha.

Copenhague já deu sinal verde para o projeto. O governo dinamarquês já aceitou financiar integralmente a ponte e, em troca, arrecadar o pedágio estimado em 60 euros por veículo. À Alemanha caberia os custos da conexão ferroviária e metroviária sobre terra firme, entre a ponte e Hamburgo. Cerca de 800 milhões de euros, conforme anunciado, ou o dobro disso? Pergunta crucial para um país que, sem a ponte, já deve contrair 300 bilhões de euros em dívidas até 2013. A decisão sobre a ponte compete aos parlamentares alemães nesta semana.

Grupos ambientalistas procuram alertar para o essencial: não dá mais para ignorar as evidentes mas complexas interações entre as ações humanas e a natureza. São enunciados argumentos pouco presentes nessas discussões sobre projetos de transporte. Será que os fundamentos da ponte influenciariam o ecossistema aquático, perturbando o movimento de baleias? Os enormes pilares não seriam uma barreira para os milhões de pássaros que todos os anos migram justamente por essa rota? E a influência sobre as correntes marítimas e sobre a oxigenação das águas? Perguntas que deverão ser melhor respondidas na próxima geração de pontes, daqui a algumas décadas talvez.





Comentários

19/06/2009 às 13:28
Marina - diz:
Nossa, TH, que bizarra essa obra. Não somos só nós que sofremos com obras faraônicas... Bjos

20/06/2009 às 16:01
Franco Morale - diz:
sao coisas que se aprende depois de se quebrar a cabeça, a ponte rio niteroi, como todas sem excessao, balançam muito, e no Brasil foi feito uns amortecedores com um sistema de molas que compensam assim todo movimento estrutural de concreto evitando danos a estrutura, quem sabe se pode levar a eles tal tecnologia...



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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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