Estação Complicação

Desta vez, a notícia do monstruoso congestionamento em São Paulo foi
divulgada pelas agências internacionais e transmitida até pelo rádio,
na Alemanha. Uma fila ligando Colônia a Hanôver foi a metáfora usada para aterrorizar o pessoal por aqui, incluindo um colega meu, que hoje de manhã me perguntou: "É verdade?" Fora isso, ônibus queimado, conflito durante a greve
na universidade, greve dos metroviários em Londres... Você também não
acha que as coisas não poderiam ser um pouquinho menos enroscadas? É
missão
impossível tornar o trânsito em São Paulo mais palatável? São possível
greves sem pancadaria nem gás de pimenta em uma democracia?
Queimar ônibus resolve alguma coisa? Mas, como hoje é feriado, deixemos
essas perguntas difíceis para depois e tratamos das mais simples, das
mais triviais, das mais rotineiras, daquilo que todo mundo deveria
saber. O mais fundamental, nos transportes, é saber como e para
onde ir. E até isso ficou difícil...
Já há alguns anos, deixei de compreender a lógica da nomenclatura
das linhas de metrô. Inicialmente, as duas linhas paulistanas eram
conhecidas pela direção de seus traçados, o que parecia bastante
razoável: Norte-Sul e Leste-Oeste. Para uma referência ainda mais
concreta, também se podia mencionar os nomes das estações das pontas.
Dizia-se "Santana-Jabaquara" e tudo estava claro.
No comecinho dos anos 1990 (e lá se vão quase vinte anos!) foi
inaugurado o primeiro trecho do ramal da Paulista (Paraíso-Consolação).
E, com a nova linha, ganharam importância as cores. A linha 1 não era
mais simplesmente a linha 1, mas sim a Linha 1-Azul. A Linha 2, que
na verdade foi a terceira a ser inaugurada, ganhou a cor verde e a
linha 3, a segunda a ser aberta ao público e a primeira em movimento,
ficou com o vermelho.
Junto com as cores e os números, o nome das estações também evoluiu
na escala da complexidade. Algumas estações foram, de um dia para o
outro, rebatizadas. Ainda me lembro de meu estado de choque ao saber
que a Ponte Pequena havia desaparecido, por força de projeto de lei
redigida por algum vereador que nada mais importante tinha a fazer.
Sumaré ganhou um
sobrenome longuíssimo, que nem eu sei de cor. A cereja do bolo veio com
os nomes de times de futebol, invejosos de Corínthians-Itaquera. Claro,
invejosos antes do rebaixamento do time alvinegro para a segunda
divisão, mas isso é outra história...
Eu confesso que resisto a todas essas
mudanças de nome. Com todo respeito à comunidade armênia de São Paulo,
para mim, Ponte Pequena ainda se chama Ponte Pequena. E Liberdade deve
continuar assim, embora pudesse, pelo mesmo motivo, ganhar um sobrenome
e passar a ser "Liberdade-Extremo Oriente".
Mas o grande salto para o absurdo veio com a aproximação da CPTM ao
Metrô. As atuais doze linhas enumeradas no mapa do transporte ferroviário metropolitano ganharam
matizes belíssimos e riquíssimos, que vão muito além do estojo de lápis
de cor que usávamos na escola. Esmeralda, rubi, diamante, turquesa,
coral, safira... Assim, São Paulo passou a
ter o metrô mais chique do mundo, pelo menos no nome das linhas. Rubi é
uma parte da antiga Santos-Jundiaí. Bem que poderia ganhar tons
avermelhados ou amarronzados e se chamar café. E não me pergunte por
que diamante, que poderia fazer bastante sentido em Moscou, Joanesburgo ou mesmo em Mumbai, é o nome da linha que segue o rumo oeste, na
direção de Itapevi.
Pior ainda ocorreu com as linhas de ônibus. Ainda estou para
encontrar uma cidade, por onde andam ônibus mais carregados de números
do que em São Paulo. São seis dígitos! Ou seja: mesmo deixando de usar
os zeros, teríamos teoricamente combinações suficientes para mais de meio
milhão de linhas. Antes de descobrir que a explicação foi publicada até
na
Wikipedia, perguntar a lógica por trás das linhas de ônibus a um
técnico da SPTrans. Enfim: não bastassem RG, CPF, CEP, incontáveis
números de telefones, ainda precisamos armazenar seis
dígitos por linha de ônibus que queremos tomar. É preciso ser forte
nessa selva de números, cores e nomes, que tornam a cidade ainda mais enigmática e incompreensível do que ela já é.
Com relação à mudanca do nome de vias, sugiro
o texto de Elio
Gaspari publicado na "Folha" de ontem. Gaspari comenta o projeto de lei
de um deputado que quer banir referências a ditadores das placas no
Estado de Sao Paulo. O que pode acabar, no fundo, simplificando nossa
vida também...
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