Pra lá e pra cá
11/06/2009 às 17:16
Estação Complicação


Desta vez, a notícia do monstruoso congestionamento em São Paulo foi divulgada pelas agências internacionais e transmitida até pelo rádio, na Alemanha. Uma fila ligando Colônia a Hanôver foi a metáfora usada para aterrorizar o pessoal por aqui, incluindo um colega meu, que hoje de manhã me perguntou: "É verdade?" Fora isso, ônibus queimado, conflito durante a greve na universidade, greve dos metroviários em Londres... Você também não acha que as coisas não poderiam ser um pouquinho menos enroscadas? É missão impossível tornar o trânsito em São Paulo mais palatável? São possível greves sem pancadaria nem gás de pimenta em uma democracia? Queimar ônibus resolve alguma coisa? Mas, como hoje é feriado, deixemos essas perguntas difíceis para depois e tratamos das mais simples, das mais triviais, das mais rotineiras, daquilo que todo mundo deveria saber. O mais fundamental, nos transportes, é saber como e para onde ir. E até isso ficou difícil...

Já há alguns anos, deixei de compreender a lógica da nomenclatura das linhas de metrô. Inicialmente, as duas linhas paulistanas eram conhecidas pela direção de seus traçados, o que parecia bastante razoável: Norte-Sul e Leste-Oeste. Para uma referência ainda mais concreta, também se podia mencionar os nomes das estações das pontas. Dizia-se "Santana-Jabaquara" e tudo estava claro.

No comecinho dos anos 1990 (e lá se vão quase vinte anos!) foi inaugurado o primeiro trecho do ramal da Paulista (Paraíso-Consolação). E, com a nova linha, ganharam importância as cores. A linha 1 não era mais simplesmente a linha 1, mas sim a Linha 1-Azul. A Linha 2, que na verdade foi a terceira a ser inaugurada, ganhou a cor verde e a linha 3, a segunda a ser aberta ao público e a primeira em movimento, ficou com o vermelho.

Junto com as cores e os números, o nome das estações também evoluiu na escala da complexidade. Algumas estações foram, de um dia para o outro, rebatizadas. Ainda me lembro de meu estado de choque ao saber que a Ponte Pequena havia desaparecido, por força de projeto de lei redigida por algum vereador que nada mais importante tinha a fazer. Sumaré ganhou um sobrenome longuíssimo, que nem eu sei de cor. A cereja do bolo veio com os nomes de times de futebol, invejosos de Corínthians-Itaquera. Claro, invejosos antes do rebaixamento do time alvinegro para a segunda divisão, mas isso é outra história...

Eu confesso que resisto a todas essas mudanças de nome. Com todo respeito à comunidade armênia de São Paulo, para mim, Ponte Pequena ainda se chama Ponte Pequena. E Liberdade deve continuar assim, embora pudesse, pelo mesmo motivo, ganhar um sobrenome e passar a ser "Liberdade-Extremo Oriente".

Mas o grande salto para o absurdo veio com a aproximação da CPTM ao Metrô. As atuais doze linhas enumeradas no mapa do transporte ferroviário metropolitano ganharam matizes belíssimos e riquíssimos, que vão muito além do estojo de lápis de cor que usávamos na escola. Esmeralda, rubi, diamante, turquesa, coral, safira... Assim, São Paulo passou a ter o metrô mais chique do mundo, pelo menos no nome das linhas. Rubi é uma parte da antiga Santos-Jundiaí. Bem que poderia ganhar tons avermelhados ou amarronzados e se chamar café. E não me pergunte por que diamante, que poderia fazer bastante sentido em Moscou, Joanesburgo ou mesmo em Mumbai, é o nome da linha que segue o rumo oeste, na direção de Itapevi.

Pior ainda ocorreu com as linhas de ônibus. Ainda estou para encontrar uma cidade, por onde andam ônibus mais carregados de números do que em São Paulo. São seis dígitos! Ou seja: mesmo deixando de usar os zeros, teríamos teoricamente combinações suficientes para mais de meio milhão de linhas. Antes de descobrir que a explicação foi publicada até na Wikipedia, perguntar a lógica por trás das linhas de ônibus a um técnico da SPTrans. Enfim: não bastassem RG, CPF, CEP, incontáveis números de telefones, ainda precisamos armazenar seis dígitos por linha de ônibus que queremos tomar. É preciso ser forte nessa selva de números, cores e nomes, que tornam a cidade ainda mais enigmática e incompreensível do que ela já é.

Com relação à mudanca do nome de vias, sugiro o texto de Elio Gaspari publicado na "Folha" de ontem. Gaspari comenta o projeto de lei de um deputado que quer banir referências a ditadores das placas no Estado de Sao Paulo. O que pode acabar, no fundo, simplificando nossa vida também... 




Comentários


Deixe aqui seu comentário:
Preencha os campos abaixo para deixar seu comentário no blog.

Seu nome:

Seu e-mail:




 
Pra lá
e pra cá


Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
Posts anteriores
15/10/2009
• Quem dá mais?
17/09/2009
• Cotidiano
13/08/2009
• Bola e trilho
09/07/2009
• Rede para mudar
25/06/2009
• No cars go!
28/05/2009
• Eletrocicleta!
14/05/2009
• Saindo do zero
29/01/2009
• Deixe sucatear
11/09/2008
• É pique!
31/07/2008
• Ele voltou
24/07/2008
• Shared space
10/07/2008
• Tem de sobra!
08/05/2008
• Amsterdã
08/05/2008
• A ponte
10/04/2008
• Os bambambãs
18/10/2007
• E POD?
16/09/2007
• É sábado!



Mapa do Site | Quem Somos | Política de Privacidade | Fale Conosco | RSS | Faça do Planeta Sustentável sua home page | Adicionar aos Favoritos
Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados