Pra lá e pra cá
04/06/2009 às 16:38
Vinte e cinco anos depois


Quarta-feira passada, um dos melhores jogos do ano do futebol europeu: Barcelona x Manchester United, pela final da Liga dos Campeões. Quem, afinal, deixaria de ver, por livre e espontânea vontade, essa partida? Resposta: muita gente. Motivo: transporte, claro. Enquanto os craques suavam no gramado, trezentas pessoas se espremiam até nos corredores do auditório para acompanhar um debate sobre o futuro da mobilidade.

O debate me deu duas certezas: primeiro, a de que transporte é um assunto que fascina massas na Alemanha. Não é por acaso que se encontra na banca uma enorme variedade de revistas para um público bastante nerd. Os títulos das revistas vão de "O bonde" até "Trenzinhos em miniatura". Segunda conclusão: em tempos de crise, nada melhor do que afogar as amarguras do presente na bola de cristal de gente com idéias interessantes. Esqueçamos 2009, a crise, o desemprego. Que tal pensarmos na vida daqui a, digamos, 25 anos? Imaginemos o transporte urbano em 2034.

Seremos tão móveis no futuro como hoje em dia? A população continuará envelhecendo com certeza, mas os mais velhos serão mais móveis do que hoje. E os mais jovens, menos. Viajar de avião será bem mais caro e férias no exterior - algo que, para o europeu, é uma rotina bastante comum - se transformarão em projeto de luxo. Essa é a opinião de Klaus Broichhausen, especialista em transporte aéreo. Por outro lado, as relações pessoais continuarão a exercer pressão para que continuemos sendo móveis. Amigos espalhados em diversas cidades, crianças com pais separados, novas relações trabalhistas...

Podemos imaginar que, em 2034, carros serão substituídos por outro meio de transporte? Não, respondeu Walter Hell, depois de uma prolongada pausa para pensar. Tudo bem que ele é um cara suspeito para falar sobre isso: Hell coordena o Instituto de Pesquisa de Mobilidade do Grupo BMW. Mas, em princípio, sua opinião é compartilhada pelos outros colegas presentes no debate. As maiores inovações nos próximos anos se darão mais no terreno da gestão do que da técnica. "No futuro, compraremos carros como celulares hoje em dia. Mas em vez de pagar por minutos de conversação, pagaremos por quilômetros de mobilidade", conforme a visão de Walter Reh, da ONG alemã BUND / Amigos da Terra. Além disso, todo mundo - incluindo um senhor da platéia que foi a pé de Hamburgo a Basel, na Suíça - concordou que o automóvel individual não será tão dominante.

O que podemos fazer já? Favorecer o transporte cicloviário. Dresden, cidade de meio milhão de habitantes no leste da Alemanha, economiza 4 milhões de euros por ano com sua infra-estrutura para a circulação de bicicletas. A economia vem por conta da redução dos congestionamentos e da redução dos subsídios ao transporte público. A indústria seguirá na batalha por veículos menos poluentes. Dá-se como certo que combustíveis fósseis deverão continuar abastecendo os veículos nas próximas décadas, apesar de todos os idealismos e vontades de que o contrário ocorra. Mas os automóveis - ou pelo menos os protótipos deles - irão emitir 50% a menos do que atualmente.

Mas o principal desse debate foi falado meio às pressas. Espera-se que ocorra, nos próximos anos, uma importante inversão de valores. Chegar ao destino o mais rápido possível deixará de ser a máxima que rege nossa sociedade. As pessoas aceitarão passar mais tempo em um veículo em nome do meio ambiente. Uma viagem de avião que hoje leva uma hora e meia (por exemplo, de São Paulo a Brasília) passaria a levar 1h45, emitindo menos CO2. Em nome do meio ambiente. E todo mundo compreenderia. Utopia?

PS: Quase esqueci: o resultado do jogo foi 2 a 0. Os espanhóis ganharam. E mais: até 2034, a Seleção vai ser hepta...



Como vai sua viagem de ônibus? Li no Jornal da Tarde uma dica de blog para deixar sua crítica ou reclamação: www.onibus.blog.br. Genial!







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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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