Pra lá e pra cá
07/05/2009 às 11:50
A cultura do debate

Leio, novamente boquiaberto, as notícias sobre os grandes projetos de transportes em São Paulo. Na Marginal do Tietê, duas pontes conectando a Via Anhanguera foram abertas ao tráfego ontem e uma terceira ponte a partir de outubro. Uma nova pista ao longo dos 24,5 quilômetros de toda a via começará a ser construída já no mês que vem. Objetivo das obras nas palavas do governador José Serra: “eliminar os congestionamentos”. (Será mesmo?)

Uma das melhores coisas que vivencio na Alemanha é a boa cultura do debate. As pessoas demonstram prontidão e disposição para uma conversa civilizada, para uma mesa redonda ou para uma discussão sobre um tema de interesse público. Parecem não se importar muito com adversários políticos ou de ter que reagir a questionamentos. Essencial é colocar os planos na mesa, discutir idéias.

De vez em quando aparecem na televisão cenas de parlamentares de algum canto do mundo trocando tapas, pontapés, golpes de caratê, palavras de baixo calão. Perceba que isso não costuma acontecer (ou, pelo menos, não tem acontecido) na política alemã. Troca de farpas, afirmações ríspidas, críticas diretas fazem parte da discussão. Mas nada abaixo da linha da cintura.

Outro ponto que joga a favor da Alemanha: ao contrário do Reino Unido e da França, a Alemanha também carece de uma família real ou de um casal presidencial que esbanje charme, desviando o foco sobre o interesse público. Perguntas do tipo “É casado?” e “Tem filho?” – um dos ápices da baixaria político-partidária nas últimas campanhas eleitorais paulistanas – não fazem parte do cerne do debate.

Mas também não me iludo com a ideia de que a Alemanha é o paraíso da democracia e da conversa de bom nível. Neste último Primeiro de Maio, um representante da democracia cristã foi desaconselhado até pela polícia a armar uma tenda informativa em um bairro de Berlim. Ele fora advertido de que poderia apanhar de alguns radicais durante as manifestações do Dia do Trabalho.

De qualquer forma, na arena dos transportes urbanos, regularmente há eventos abertos para debater grandes projetos de mobilidade urbana. Se um político qualquer quisesse construir três pontes e uma pista a mais às margens do rio Elba, tal como se quer fazer agora à beira do Tietê, com certeza teria, antes, de travar um debate de bom nível com ambientalistas, planejadores urbanos, associações de moradores, etc. Não adianta simplesmente convocar a imprensa e levar o projeto adiante de uma hora para outra, com pouco envolvimento da sociedade.

Na semana passada, participei de um desses debates, organizado pela Sociedade Alemã das Ciências dos Transportes. Nele, um diretor da companhia de transporte público de Hamburgo, Gerhard Schenk, apresentou os planos do novo modo de transporte da cidade: o bonde. Note-se, em primeiro lugar, que o bonde não está para ser construído a toque de caixa, a partir do mês que vem ou coisa semelhante. Trata-se de um projeto a ser construído, na melhor das hipóteses, a partir de 2012 e que entraria em funcionamento em 2014.

Em um evento aberto e gratuito, o paciente Herr Schenk explicou detalhadamente para seleto público masculino (dos pouco mais de vinte presentes, a única mulher ali era a mestre de cerimônia) por que Hamburgo se decidiu pelo bonde, por que o traçado da primeira linha vai ser de um jeito e não de outro e até mesmo como serão os trens.  

Seria pedir muito para que algo parecido possa acontecer no Brasil? Quais os impedimentos concretos para que a cultura do debate se fortaleça no nosso país? Falta de interesse dos cidadãos? Falta de postura crítica da mídia? Baixo nível de educação da população? Ou seria algum tipo de temor por parte dos órgãos públicos? Falta de prioridade? Falta de recursos para algo que, afinal, não seria visto como a atividade-fim? Quem ganha e quem perde com os anúncios de “obras para ontem” e com a falta de diálogo democrático?

Creio que uma questão crucial é a transparência na gestação de projetos no interior da administração pública. Transparência não significa apenas publicar balanços no final da gestão ou abrir as contas ao final de cada ano. Se o planejamento e o gerenciamento de projetos ocorressem de modo mais aberto e democrático, a qualidade final dos projetos tenderia a aumentar, por conta do próprio debate da sociedade em torno do projeto. A inserção da pauta da mobilidade sustentável na agenda política brasileira depende fortemente da transparência durante a formulação de estratégias e projetos e do envolvimento da sociedade civil para a qualificação do debate público.

Só assim saberíamos se a nova pista na Marginal do Tietê é de fato o melhor investimento que o Estado está fazendo com os recursos públicos, se a obra beneficia apenas motoristas ou também (mesmo que indiretamente) usuários de transporte coletivo, ciclistas, pedestres, quais os impactos ambientais dessa obra e quais as consequências para as pessoas que moram em suas imediações.



O bonde em Hamburgo foi anunciado pela prefeitura em setembro do ano passado, quando política climática virou um tema prioritário na cidade. O anúncio também combina bem com a cidade, que venceu a disputa com concorrentes de peso e terá o título de Capital Verde Européia em 2011.

Apesar da relativamente boa oferta de transporte público, Hamburgo é uma cidade que se move principalmente de carro. 43% dos deslocamentos são feitos em automóvel particular, 27% a pé e 11% em bicicleta.

As características do bonde hamburguês:
  • Os veículos terão 2,65 metros de largura e 36 metros de comprimento, com piso rebaixado para promover a acessibilidade. Outros modelos de veículo foram avaliados, mas apresentaram desvantagens econômicas ou técnicas.
  • As estações de parada do bonde serão equipadas com o sistema de informação dinâmica (semelhante ao que já existe em corredores de ônibus de São Paulo), botões de emergência e informação, câmera de vídeo (por questões de segurança) e paraciclos em suas redondezas.
  • Todos os semáforos dos cruzamentos por onde passará o bonde serão modernizados, para que o transporte público tenha de fato preferência sobre o individual.
  • A primeira linha, com 7,65 km de extensão, terá treze paradas e conectará bairros sem passar pelo centro da cidade. O percurso durará 20 minutos. Doze veículos estarão em operação nesse trecho.
  • A introdução do novo sistema não vai gerar novos postos de trabalho, pois algumas das atuais linhas de ônibus serão desativadas.
  • Principais vantagens do bonde sobre o ônibus: mais rapidez e maior nível de conforto, maior capacidade de transporte de passageiros, menor emissão de poluentes.





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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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