Ciclistas e CET em pé de guerra
Faz tempo que não vejo uma ação orquestrada na mídia como a atual avalanche de críticas à Companhia de Engenharia de Tráfego de São Paulo. Insatisfeitos estão os ciclistas – e não é por menos. Há dois meses, André Pasqualini recebeu pelo correio uma multa de R$ 1.289,25. Este seria o valor dos serviços operacionais assumidos pela CET e decorrentes da
Pedalada Pelada no ano passado, acrescido de 100%.
Pasqualini é o cicloativista detido no ano passado por ter ficado nu. Depois de reler três vezes a carta (escaneada e
publicada no site
CicloBr, que de lá para cá se transformou em um bastião dos ataques à CET), não entendi por que, afinal, Pasqualini – e não outra pessoa – recebeu a carta. Também não entendi o cálculo do acréscimo de 100%. De qualquer forma, a essas alturas, a carta já entrou para a história do movimento cicloativista brasileiro. De quebra, o documento também é um belíssimo exemplar de redação burocrática em língua portuguesa, na qual sobram referências a leis e decretos, mas faltam dados concretos e explicações convincentes.
No começo do mês, outra ofensiva da empresa contra os ciclistas. A CET decidiu transformar quatro quilômetros de acostamento da Marginal do Pinheiros – onde se podia pedalar com alguma segurança – em mais uma faixa para automóveis. A fim de poder continuar circulando pela Marginal, ciclistas reagiram e repintaram por conta própria o acostamento. Por algumas horas, até conseguiram se reapropriar do espaço físico e simbólico das bicicletas na Marginal. Queriam defender seu direito de circular com segurança que não gostariam de perder.
O Código de Trânsito Brasileiro define o acostamento como “parte da via diferenciada da pista de rolamento destinada à parada ou estacionamento de veículos, em caso de emergência, e à circulação de pedestres e bicicletas, quando não houver local apropriado para esse fim”. Ao suprimir o acostamento, o poder público interveio unilateralmente a favor de motoristas, sem atentar às necessidades e à segurança de outros participantes do trânsito.
O caso teve uma grande repercussão entre sites de ciclistas* e só respingou na imprensa depois que o secretário do Verde e Meio Ambiente enviou um e-mail aberto endereçado, em primeiro lugar, a seu colega dos Transportes e presidente da CET, Alexandre de Moraes. O finzinho do
curto texto publicado pela "Folha de S. Paulo" revela bem a visão anacrônica e as prioridades invertidas do poder público municipal, muito mais determinado em multar os ciclistas do que em apresentar um plano de ciclovias para a cidade.
Se bem que a cidade não precisa da elaboração de um plano de ciclovias. Ele
já existe. O que a CET precisa fazer é trabalhar – de preferência junto com a Secretaria do Verde e Meio Ambiente e ao lado da sociedade civil – para tirá-lo do papel. O que se precisa entender é que São Paulo precisa de ações em prol de uma mobilidade sustentável já.
* Leia, por exemplo:
CET, terrível contra os ciclistasCiclistas repintam acostamento retirado pela CETCia de Engenharia de Tráfego de Automóveis
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