Ah, São Paulo querida! Poluída, congestionada, caótica, infernizante... e atraente como nenhuma outra. Falo isso não com a certeza de quem já comparou esta com todas as outras cidades desse mundo. Mas com o pressentimento de que aqui é o lugar. Como gosto dessa cidade!
Já quando estava embarcando, a 10 mil quilômetros de distância, não conseguia parar de pensar no que iria encontrar ou reencontrar. Bom, ainda no aeroporto, encontrei o de sempre: um grupo de engenheiros engomadinhos com seus laptops; crianças que reservam toda sua energia para chorar e berrar no avião; e algum sabe-tudo, que se põe a explicar qualquer coisa e que faz questão de que haja um bom público prestando atenção... Também encontrei ao meu lado um cara que roncava muito.
Mas e São Paulo? Como reencontraria a cidade? Como nunca fiquei tanto tempo longe do Brasil, pensei que dessa vez o reencontro me traria uma sensação estranha, uma saudade diferente. Pensei que o retorno seria tudo menos uma volta para casa. Seria uma mistura da doçura do "que bom te rever" com o amargo desapontamento a la "mas você continua tão igual".
Para o tira-teima, resolvi andar por aí. Aliás, esse foi meu primeiro estranhamento. Nem me lembrava da última vez que pude simplesmente andar por aí. Nesses últimos dias, fui um pedestre exemplar nas ruas da Vila Mariana, da Saúde e de Moema. Respeitei todos os sinais vermelhos e os tempos para eles abrirem, engoli fumaça de caminhão e aguentei chuva e sol (mais sol do que chuva, para dizer a verdade).
E aí constatei que o diferente não era o número de carros nas ruas. Para mim, aliás, as ruas estavam mais calmas do que da última vez. Também não foi o ar poluído que me espantou. A grande diferença são as calçadas. Comparem-se a largura e o padrão das calçadas e nota-se a diferença. Como Gilberto Dimenstein costuma repetir ad eternum, a democracia de um país pode ser medida pela largura de suas calçadas. E é só quando eu, como pedestre, sou lançado ao meio da rua junto a veículos motorizados que penso: não estou mais no mesmo lugar. No quesito respeito aos pedestres, temos de admitir: São Paulo continua tão igual...