Pra lá e pra cá
09/10/2008 às 18:52
O transporte coletivo vira o jogo

Um assunto que não poderia passar batido neste blog é a pesquisa Origem Destino, cujos resultados foram divulgados em setembro. O respeitado levantamento - realizado a cada 10 anos e citado em todos os estudos e projetos sérios sobre transporte na Região Metropolitana de São Paulo - aponta que o número de viagens motorizadas feitas de trem, ônibus e metrô voltou a superar as viagens de automóvel individual. Desde que a pesquisa começou a ser feita, em 1967, esta é a primeira vez que a parcela do transporte coletivo cresce.

O que foi que houve? Nesses últimos dez anos, é verdade que a frota de automóveis na metrópole não parou de crescer. Em 2000, só na cidade de São Paulo, eram cinco milhões. Neste ano, ultrapassamos a marca dos seis milhões. Foi nesse período também que a frota de motocicletas viveu um verdadeiro "boom" e que os motoboys passaram a ganhar atenção. Do entregador de pizza ao solucionador de questões mais urgentes que a pizza, o fato é que não dá mais para imaginar uma São Paulo sem eles.

Ora, se o número de carros e de motos aumentou, o que explica a ascensão do transporte coletivo, nesses últimos dez anos? No fundo, uma combinação de três fatores explica o salto para 13,8 milhões de viagens de transporte coletivo por dia.

O bilhete único contribuiu bastante para aumentar a atratividade dos ônibus e do transporte sobre trilhos na cidade. Ainda que sua introdução tenha perturbado o equilíbrio das contas entre prefeitura e operadoras, com o bilhete único, o sistema de ônibus passou a ser visto pela população de fato como um sistema. Quem faz viagens longas, tendo de trocar de veículo pelo menos uma vez para chegar ao destino, sabe a diferença que faz pagar uma tarifa por viagem em vez de uma tarifa por veículo.

Outro ponto é a relativamente boa fase econômica por que atravessou o Brasil neste milênio. Ao que parece, a atual crise financeira é a primeira ameaça séria a este céu de brigadeiro. Neste período, melhorou sensivelmente a situação de famílias menos abastadas. Quem só andava a pé (e sobre nossas calçadas, muita gente anda a pé!), pôde começar a embarcar no coletivo.

Por fim, ajustes na operação dos transportes. O Metrô anuncia que desde 1997 a "oferta de lugares" aumentou 45%. As linhas sobre trilhos do Metrô e da CPTM foram estendidas. Isso também deu um "empurrãozinho" na balança a favor dos transportes coletivos. E assim terá de continuar.

Futuros avanços da proporção do transporte coletivo no total de viagens motorizadas em São Paulo não poderão depender da expectativa de crescimento econômico ou da adoção de novos bilhetes únicos. Uma estratégia sustentável de redução da participação de viagens automóveis e motocicletas na cidade passa necessariamente por investimentos responsáveis na extensão e na melhoria da qualidade do transporte público.




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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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