Pra lá e pra cá
14/08/2008 às 04:46
A vez de Manchester

Cidadãos da região metropolitana de Manchester, a terceira maior aglomeração do Reino Unido, estão prestes a ser convocados para uma votação histórica. Em um referendo, o povo dirá se quer ou não um pacote de investimentos para os transportes urbanos no montante de 3 bilhões de libras (algo em torno de R$ 9,25 bilhões). Detalhe: 2 bilhões de libras viriam de um fundo para transportes do governo britânico e o outro bilhão seria financiado via pedágio urbano de até 5 libras por dia, pagos pelos motoristas que trafegam no horário de pico.

Melhorar o transporte, todo mundo quer. Mas sob essa condição? Nesse momento, sociedade civil e governos estão divididos sobre a proposta. Os parlamentos de três localidades que compõem a metrópole se manifestaram contra o projeto. Outras seis cidades – incluindo Manchester, que concentra a maior parte dos problemas de tráfego – apóiam o plano anunciado pela entidade metropolitana AGMA.

Há quem pense que pedágio urbano em Manchester é bobagem. A opinião de um especialista em transportes: motoristas pagariam entre 800 e 900 libras a mais por ano para se deslocar ao centro da cidade e, mesmo assim, nem a qualidade do ar, nem o trânsito melhorariam. A associação Manchester Contra Pedágios taxou o dia do anúncio desse plano como “um péssimo dia para todos os motoristas do Reino Unido”.

O mentor desse bilionário plano de transportes defende a idéia dessa forma: “Manchester precisa de um moderno sistema de bondes, de trens urbanos mais velozes e, sobretudo, de menos carros nas ruas”. O plano prevê estender as linhas do transporte leve sobre trilhos por novos 22 quilômetros. Ainda de acordo com Lewis Atter, o crescente problema dos congestionamentos dentro e em volta de Manchester seria tanto um sinal do sucesso econômico da cidade como uma ameaça a seu futuro crescimento.

No fundo, Atter é um entusiasta de sua própria idéia, que chama de pedágio urbano de terceira geração -- ainda melhor que o de Estocolmo e muito mais avançado que o de Londres. O sistema de cobrança seria sensível ao horário do dia, ao sentido de circulação dos automóveis e à área da cidade por onde eles circulam. Os veículos seriam identificados por um eficiente etiquetas eletrônicas. De fato, Manchester seria a primeira cidade a contar com um sistema tão aperfeiçoado de cobrança pelo uso das vias.

E o mais importante: nada feito às pressas. Se aprovado, o pedágio urbano de Manchester entraria em operação apenas em 2013, bem depois dos investimentos em transporte público e de seus efeitos positivos para a cidade. Lições para São Paulo: fomentar o debate público, dar voz aos cidadãos através de um mecanismo de participação direta, planejar mudanças estruturais no transporte em prazo independente do calendário eleitoral.




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Por Thiago
Guimarães

Thiago Guimarães é jornalista, economista, mas antes de tudo paulistano. Com o apoio da Fundação Heinrich Böll (ligada aos verdes alemães), cursa o mestrado em Planejamento e Desenvolvimento Urbano, em Hamburgo. O blog Pra lá e pra cá se define como uma praça onde pontos de vista e reflexões sobre mobilidade urbana sustentável costumam se encontrar.
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