19/11/2009 às 18:36

O leitor que me desculpe: esse assunto não consegui comentar antes por absoluta falta de tempo. Mas achei bem interessante e por isso falo dele agora: a proposta, vinda da Prefeitura de São Paulo, de criar da taxa da calçada. De fato, um dos fatos que mais chama a atenção do visitante estrangeiro (fato confirmado entre os alemães que participaram da Bienal) é a irregularidade das calçadas paulistanas. Irregularidade em todos os sentidos: nas formas, nas cores, nos tipos, nas simetrias, na qualidade e, claro, na conformidade com a lei e com o bom senso.
Passou a ser meu hobby fotografar as calçadas irregulares da região metropolitana de São Paulo. Com base nelas, comecei a desenvolver uma tipologia das calçadas. São
calçadas molecas, que espremem o cidadão entre árvores e muros, entre espinhos e concreto.
Calçadas maldosas, que provocam tropeço e fazem cair.
Calçadas violentas, que jogam as pessoas para o meio da rua.
Calçadas mutantes, que viram corredeiras em dias de chuva.
Calçadas-estacionamentos, que servem de extensão à garagem.
Calçadas privadas, que se tornaram elas próprias garagens ou espaço de comércio. Enfim, onde estão as
calçadas-calçadas, que servem para o passeio de pedestres? Estas estão em falta.
E há quanto tempo é assim? Será que isso já virou normalidade? Uma de minhas teses centrais neste blog é: não se pode falar em mobilidade sustentável sem condições adequadas para a circulação de pedestres em uma cidade. Porque pedestres, por definição, estão na base e, assim, sustentam qualquer proposta de mobilidade imaginável.
Concordo com a frase: "Se deixar para cada um fazer individualmente a sua parte, esquece, a gente não vai conseguir". Só não concordo com quem a disse (no caso, o secretário de Pessoa com Deficiência do município de São Paulo (ao jornal "O Estado de S. Paulo"). Nada contra ele. Mas a preocupação com os pedestres deveria partir do secretário de Transportes, em primeiro lugar.
Com a taxa, a Prefeitura poderia detectar as irregularidades e mandar a conta ao proprietário do imóvel junto ao IPTU. Alguns dirão que a taxa não adiantará, pois esbarrará na incapacidade de fiscalização da Prefeitura. Mas vejamos os dados: hoje em dia somente 1,4% das calçadas paulistanas está em bom estado. 700 funcionários das Subprefeituras fazem a fiscalização. Cada um deles aplica em média 2 multas por ano! Eu não sei como eles conseguem deixar de ver o que é óbvio. É necessário querer desviar o olhar para não perceber uma situação irregular que está espalhada em toda a cidade. Cada um deles deveria aplicar duas multas por dia - e não por ano (a começar pelas companhias que oferecem serviços de interesse coletivo). É necessário dar às calçadas a prioridade que os cidadãos merecem.
12/11/2009 às 21:33

Seguindo com nosso semanário direto da Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo. Finalmente, o grupo de estudantes brasileiros e alemães visitou o campo de trabalho que deverá ser apresentado amanhã e sábado na Bienal. Visitamos o bairro de Serraria, em Diadema. E, na verdade, duas vezes.
Eu, que já conhecia algo da periferia de São Paulo e que tenho Mike Davis na cabeceira, fiquei impressionado com as condições de moradia de algumas famílias que vivem ali, às margens da Rodovia dos Imigrantes. Para muitos alemães que nunca haviam saído do que eles chamam de “Ocidente”, foi um verdadeiro choque.
Os monótonos e inflexíveis conjuntos habitacionais são, para muitas famílias, a única chance de se ter uma moradia razoável. Em linhas gerais, Município, Estado e União produzem há décadas sempre os mesmos prédios destinados à habitação social. A essência do modelo não se alterou nos últimos anos. Alguns desses edifícios nem são tão velhos, mas já estão em estado preocupante. Falta vontade política e criatividade para se fazer diferente, critica o arquiteto Pedro Moreira, coordenador do workshop na Bienal e sócio de um escritório em Berlim.
No núcleo Piratininga (núcleo é como favelas são chamadas em Diadema), a arquiteta Sônia Nagai, que trabalha em torno de vinte anos na prefeitura, ainda se surpreende com as condições de luminosidade e ventilação. Ela fala da insalubridade desses lugares em bom e alto português, quase com comoção. Os participantes alemães do workshop precisam de tradução, mas não é possível interromper a fala emocionada da arquiteta.
Quinta-feira passada, fui entrevistar o Edvaldo, um morador do núcleo Piratininga que me recebeu em seu local de residência. Eu havia atravessado uma larga rua, onde fotografei o vento levantando poeira. Um estreito corredor dá acesso ao fogão, um dos poucos objetos trazidos do barraco onde vivia há cinco anos. No alojamento, onde se espera por uma vaga em um conjunto, a história passa devagar demais. Os aparelhos de DVD e de som são novos. Mais novo ainda é o emprego que o filho mais velho conseguiu, no dia da entrevista, motivo de grande alegria para sua mãe.
Antes do fim da entrevista, choveu. Em menos de dez minutos, a água ocupava uma grande área às portas da casa do Edvaldo. Antes mesmo de saber se eu conseguiria pular ou não a imensa corrente d’água, que descia ladeira abaixo, o Edvaldo apenas esticou a mão para pegar e me mostrar um bem conservado folheto informativo sobre os riscos da leptospirose. Para ele, o bairro tem melhorado, mas o que falta mesmo é um local onde crianças possam brincar.
Mas, sem dúvida, a pior situação é encontrada em uma estreita faixa de terreno acidentado, espremida entre as margens da Rodovia dos Imigrantes e um fétido córrego, em meio a altas árvores. Encontramos várias crianças nessa favela, conhecida como Eucaliptos. Em seus sorrisos, trazem um tipo raro de esperança que ameniza a seriedade dos riscos daquela região. Quando chove forte, os moradores saem de suas casas com medo da queda de galhos, que podem destruir os barracos. O nível da água do córrego também sobe, podendo chegar a alguns centímetros acima do piso de certas casas.
O grande inimigo dessas famílias, no entanto, chama-se Ecovias. A concessionária quer livrar as margens da Imigrantes das moradias ilegais. O modo pouco amigável de a concessionária lidar com as famílias que vivem às margens da rodovia pode ser percebido de diversas formas (ver foto), mas está sempre presente na fala da gente que vive naquela região.
Como lidar com essa situação? É possível mudar propondo pequenas melhorias ou fazem mais sentido mudanças estruturais? Quais os caminhos e processos mais promissores de intervenção urbana? E qual o papel da mobilidade nesse contexto de abrangentes carências? Esse é o tema do trabalho que tem consumido dias inteiros de mais de vinte estudantes e pesquisadores de seis universidades, no Brasil e na Alemanha, além de engajados profissionais da prefeitura de Diadema. Resta saber o que fica para a cidade após a exposição.
Em tempo: a Ecovias foi convidada a participar do workshop, mas até agora nenhum representante deles apareceu.
05/11/2009 às 23:54
Os alemães, sempre muito atentos aonde vão e sempre procurando preparar tudo, costumam pesquisar bastante e preparar muito bem aonde vão. Para a viagem a São Paulo, à atual Bienal Internacional de Arquitetura, não é diferente. Em guias de viagem e por meio de relatos, foram informados de que a Vila Madalena é um dinâmico e interessante bairro com uma enorme oferta de bares, clubes e restaurantes. Quiseram, naturalmente, ir para um deles, em um dos escassos momentos reservados para se conhecer a cidade. Pude acompanhá-los nessa visita: fomos para a Vila e lá encontramos o Mauro.
O Mauro é um vendedor de rua de bebidas que, aos domingos, estaciona seu carro gratuitamente em uma vaga na rua Girassol – exatamente lá onde particulares pagam, via de regra, 14 reais para deixarem seus veículos em estacionamentos improvisados e valets. Daquele ponto da rua, maneja sua mesa de trabalho montada sobre sua calçada e apoiada no próprio carro. Cabelos curtos encaracolados, olhos verdes, boa pinta, boa conversa.
Aos clientes, Mauro apresenta as batidas sempre na mesma ordem, do garrafão da esquerda para a da direita: morango com goiaba, maracujá, espanhola e abacaxi com hortelã. A apresentação da batida de maracujá merece sempre a observação de que é fruta de verdade. O resto da mesa é dominado por uma irregularidade na disposição de vidros, balde de gelo e área de trabalho. O porta-malas é tomado por um isopor gigante com latas de energéticos, cerveja e refrigerante.
Quem cuida do isopor é o primo. O filho (segundo ele, um dos quatro) toma conta de tudo, na companhia de um amigo. Do outro lado da rua, também atrás de uma barraca, está o irmão, um tipo que se dispõe a abandonar o que está fazendo para buscar a informação de onde acontecerá um show de rap na zona oeste da cidade. Mauro fica rodeado de gente de confiança, da família, que aparece quando o trabalho é muito. Mauro age em rede.
E age sem pressa, sabendo negociar. Ficamos meia hora por ali, só esperando a preparação das sete caipirinhas com o prometido desconto de 20%. Todos estavam com os olhos grandes em cima de seu processo de trabalho. Primeiro, descascou uma laranja e disse que seria para compensar a acidez do limão. Depois, abriu a garrafa de vodca para misturar à fazer caipirinhas. Aqueles alemães que tinham alguma noção de o que estavam pedindo ficaram confusos. Laranja e vodca em limonada? Terminada a terceira caipirinha, ele começa a enfeitar um abacaxi. “Vou ser sincero com você: esqueci a garrafa de pinga em casa...”
Samba e pagode ao vivo e a cores, gente que toma a rua e o estande, o carro, o comércio, a conversa do Mauro como ponto central. Algo bem diferente para quem associava Vila Madalena a descolados lugares fechados, como boteco ou restaurante.
Um estudante logo percebeu que a experiência com o Mauro trazia vários insights para compreender a formação do espaço urbano no Brasil. Informalidade, improviso, criatividade, despojamento, comunicação, flexibilidade...
Hoje fomos visitar favelas, áreas de ocupação e conjuntos habitacionais em Diadema. O modelo Mauro valeu a pena.