Pelo direito às Casas de Parto
Regulamentadas em 1999 pelo Ministério da Saúde, as Casas de Parto, ou Centros de Parto Normal, são "unidades de saúde que prestam atendimento humanizado e de qualidade exclusivamente ao parto normal sem
distócias". Ou seja, são lugares onde, pelo
SUS, a mulher com gravidez de baixo risco tem suas vontades respeitadas ao parir.
Quem já se sentiu violentada por um parto normal cheio de intervenções ou por um corte de cesariana desnecessárea entende o que quero dizer com vontades respeitadas. É ser compreendida e amparada como indivíduo - que não funciona como ditam os livros -, é poder encontrar a posição ideal para suportar uma contração, comer ou beber se desejar, ter a companhia que escolher, ouvir música, não ouvir conversas paralelas, não usar roupas, ou se agasalhar como quiser. É ser protagonista do grande evento fisiológico para qual seu corpo se preparou por meses. É fazer seu parto, em vez de esperar que alguém o faça, e mesmo assim ter assistência.
Na maioria das Casas de Parto a assistência é dada por
enfermeiras obstetrizes, também chamadas de parteiras profissionais. Elas estão preparadas para lidar com emergências, o que inclui encaminhar para um médico em tempo hábil quando necessário. E - mais importante que na exceção - na regra, estão prontas para ouvir, acalmar, sustentar. "Pra parir a gente precisa de segurança, tranquilidade e carinho e isso tive de uma obstetriz", me disse Mariana Lettis, amiga querida que pariu o Esteban na Casa de Parto de Sapopemba depois de 17 horas de trabalho de parto. Dificilmente um médico tradicional esperaria tanto tempo para um nascimento. O mais provável é que, com desculpa de falta de dilatação, bebê alto, bacia pequena ou cordão enrolado no pescoço saberíamos de outra desnecesárea.
Mas apesar de fantásticas, as Casas de Parto são bastante perseguidas por aqueles que consideram o parto um ato médico. Essa semana,
a única Casa do Rio de Janeiro foi arbitrariamente fechada e só reaberta depois de protestos. Telefonei para a Casa de Parto de Sapopemba, a única com atividade constante em São Paulo, e a obstetriz me informou tristemente que foi proibida de dar entrevistas. Proibida? Sim! Proibida de dar entrevistas, de relizar encontros com grupos de gestantes ou promover qualquer atividade que divulgue o trabalho realizado na Casa.
Reproduzo aqui a provocação da parteira profissional Ana Cristina Duarte, por quem tive a sorte de ser assistida no parto: "A verdade seja dita, se as mulheres saudáveis começarem a ter seus bebês com enfermeiras obstetrizes, em clínicas simples e casas de parto, a exemplo do que acontece na maioria dos países de primeiro mundo, o que será dessa gigantesca indústria das cesarianas, dos hospitais cinco estrelas, dos cirurgiões e seus consultórios? Como sustentar esse setor lucrativo da economia?"
Se você também repudia o que está acontecendo nas Casas de Parto, assine o
abaixo assinado promovido pela ONG Parto do Princípio e esteja atento.
Comentários
19/06/2009 às 02:35Rogério Che - diz:Minha filha nasceu numa casa de parto. Não sai do lado de minha mulher um só instante e a ajudei durante todo o trabalho de parto. Pude passar a confiança necessária para minha mulher. Em qualquer lugar convencional não seria assim tão natural.Que tenhamos cada vez mais casas de parto para que as vidas comecem bem, como todo ser merece.
19/06/2009 às 13:59Mariana - diz:Vou usar de fonte para que coloquem também no site do mandato!!!!beeijos
19/06/2009 às 19:41Aline - diz:Que coisa horrivel, eles tao proibindo a entrevista, isso é absurdo!Hámuitos médicos ainda querendo brincar de Deus, ter domÃnio sobre a vida dos sujeitos, que bom que há iniciativas no sentido oposto!Ja assinei o abaixo-assinado, e mantenho-me atenta!Bjs
20/06/2009 às 16:48Mariel - diz:Estou divulgando nas minhas redes, e é importante que todos que puderem façam o mesmo. É triste ver um serviço público de rara qualidade e comprometimento com o ser humano sendo esmagado sem poder nem gritar por socorro.Obrigada, Bianca, pelo excelente post!
23/06/2009 às 11:59Samira - diz:Bia, sempre fico em dúvida quando penso nessa questão, principalmente pelo fato que antigamente quando todos os partos eram feitos sem apoio médico existiam Ãndices altÃssimos de morte. Acho que isso gera muito medo quando se pensa num problema durante o parto e sem um médico por perto. beijos
24/06/2009 às 12:35Mara - diz:Como sempre adorei o post por ser muito esclarecedor e como a Samira disse penso que muitas mulheres ficam em dúvida ou com medo, mas como nos mostra o post as casas de parto são um direito e não uma obrigação e esse post é um lindo trabalho de conscientização...Eu mesma nem sabia da existência dessas casas de parto...Parabéns pelo post!Bjs!
24/06/2009 às 12:42Mara - diz:Adorei o comentário da Aline e concordo plenamente, também assinei o abaixo assinado antes mesmo de fazer o comentário.Acho que assinei a semana passada e só agora deixei meu recado...assinei justamente pq achei horrivel a proibição da entrevista, e penso que cada um tem o direito de escolher o que quer pra si, não estamos numa DITADURA.Bjs!
29/06/2009 às 17:55João Paulo Souza - diz:Fico feliz por ver pessoas resistindo à atitudes brutamente impostas à todos nós.Todos temos o direito (logo, não simplesmente um privilégio) da livre escolha e da liberdade de expressão! Um abraço à todos!