Pé de Manga
18/03/2009 às 01:17
Exemplo

Todo recreio era igual. Abria o papel alumínio com cuidado pra tirar o lanchinho e, debaixo da mesa, dobrava de novo pra levar de volta pra casa. Morria de vergonha e de medo de ser flagrada. O que pensariam? Todo mundo, afinal, fazia bolinhas de alumínio que iam pro lixo sem pestanejar. Eu não. Guardava o papel pra embrulhar o lanche da semana toda.

Consciência ecológica na infância? Nada! Ordem da avó que eu achava tirana por viver repetindo "de onde tira e não põe, um dia acaba". Pra não carregar muito peso e volume na mochila, a vó Polu me liberava do pote plástico, mas me obrigava a reutilizar o papel por pelo menos uma semana. "Com esse tanto de gente no mundo, só gastando, gastando, você acha que não acaba?" Parecia absurda a idéia da vó. Claro que tinha aprendido sobre "recursos renováveis" e "recursos não-renováveis" no livro didático. Já se iniciava a conversa sobre reciclagem, mas, pra mim, não se tratava disso.

Certa vez passamos pela lixeira do prédio e encontramos uma vizinha que abandonava os restos de uma vassoura. A vó recolheu tudo, levou pra casa e passou o dia limpando cada parte do objeto, pintando as peças de madeira e montando no maior cuidado. Depois, subimos na vizinha:
- Olha dona Maria, a vassoura da senhora. Pode usar que tá boinha de novo!
Que vergonha! Na minha cabeça não era fácil ter avó analfabeta que ficava mostrando a cada gesto como lidar com a pobreza. Menina tonta, eu via charme no desperdício. Achava que era prova de fartura. "Cê se faz-se besta!", ralhava ela quando percebia.

E assim fui crescendo, rezando no final das refeições pra não faltar comida "pra nós e pra quem em nossa porta chegar". Não sei precisar quando o que vi ganhou sentido. Mas agradeço todas as noites pelo que aprendi por olhar. E desejo que, mais do que falar da construção de um mundo sustentável pras nossas crianças, possamos mostrar.









Comentários

18/03/2009 às 00:00
Igor - diz:
Penso que existem barreiras intersubjetivas que impedem a luta ambiental. uma delas é esta tão bem exposta neste post. Parabéns.

18/03/2009 às 00:00
Mara - diz:
Oi Bianca...Bem o que dizer desse post??Não consigo dizer mais nada do que...é maravilhoso e chorei...me emocionou tudo isso, pis no lugar do papel aluminio como sou bem mais velha...antigamente o fermento para pãp de casa vinha em latinha com tampa tipo extrato de tomate só que com a tampa e minha mãe fazia doce de abobora em casa e fazia eu levar como lanche, morria de vergonha por estar reutilizando aquela latinha e dó da minha mãe pela preocupação para que euñão ficasse sem comer muito tempo...LIndo post...!!!Bjs!

18/03/2009 às 00:00
maria de jesus pereira santana - diz:
Evito comentar sobre os textos do blog, como mãe não acho ético, mas levada pela emoção e gratidão e por sentir orgulho de minha querida amiga, a qual tive a honra de ter como mãe, mulher sábia e inteligente, agora em outro plano. Fico feliz pelo reconhecimento e aprendizado, a semente do exemplo, plantada com amor, carinho e respeito, rende maravilhosos frutos. Obrigada!

18/03/2009 às 00:00
Igor - diz:
Penso que existem barreiras intersubjetivas que impedem a luta ambiental. uma delas é esta tão bem exposta neste post. Parabéns.

18/03/2009 às 00:00
Giu - diz:
Bianca, faço coro com a Mariel: que lindo! Um beijo grande.

18/03/2009 às 00:00
Liana - diz:
Lindo lindo chorei tambem minha mãe reutiliza tudo que pode vidros para guardar doces,latas de sardinha para assar pão personalizado para os netos,etc e sempre nos ensinou como sua avó que "de onde tira e não põe acaba" bjs

18/03/2009 às 00:00
Mariel - diz:
Que post lindo!

19/03/2009 às 00:00
Luciana Tomac - diz:
Os maiores ensinamentos da vida não são ouvidos, são vistos e sentidos. Adorei seu blog e vou passar por aqui para preparar o ninho de mãe.Beijo grande

19/03/2009 às 00:00
Raquel - diz:
Os valores mais profundos vêm da família. Maravilhoso exemplo. Maravilhosa dádiva que recebemos de nossos antepassados: a sabedoria da vida.Espero que, quando o dia chegar, eu possa passar isso aos meus filhos.Obrigada por compartilhar isso conosco!Abraços

20/03/2009 às 00:00
Patricia e Clara - diz:
Ei, querida, que lindos seus posts. Estou viciada nesse blog :)Voce, Lucas e sua mae tem a docura como cartao de visitas. E essa vo entao, da vontade de te-la em casa. A minha era uma coisa muito fofa tambem e venho percebendo, no meu dia a dia, quantas sementinhas plantadas vem florescendo..." Aos 17 anos, achava meu pai a pessoa mais estupida do mundo. Aos 21, achei maravilhoso o quanto ele havia aprendido em apenas quatro anos..."-Mark TwainBeijinhos,

02/04/2009 às 03:24
Bianca - diz:
Bianca - diz:
Que gostoso dividir e saber que vocês também gostaram! Pra mim não é fácil abrir o coração assim... Obrigada!

02/04/2009 às 08:16
Maluh Barciotte - diz:
Maluh Barciotte - diz:
Linda vó Polu!!! São estes sábios e sábias que nos ensinam a cuidar da gente e da nossa turma, dos outros que fazem parte da família humana e do mundão que a gente vive. Na realidade a vó Polu é que tinha consciênca dos impactos dos seus atos cotidianos e sabia que agir era sua responsabilidade. Lembrei da minha vó Mariana, também uma linda sábia que até os 97 anos iluminou a nossa vida!!!E já que estamos falando de sábias: A estrada da vida pode ser longa e áspera. Faça-a mais suave caminhando e cantando com as mãos cheias de sementes.Cora CoralinaMaluh Barciotte - Viva Bem no MUndo que Você Tem - porque cuidar da vida é uma arte!

02/04/2009 às 11:06
Mara - diz:
Bianca...em referencia ao que a MALUH BARCIOTTE escreveu achei muito legal, e realmente cuidar da vida é uma arte sei bem disso...aliás sabemos todos, né???Parabéns MALUH adorei ler seu recadinho muito legal...Porque "O QUE SE LEVA DESSA VIDA, É A VIDA QUE A GENTE LEVA" Ah! e desculpa a ousadia de comentar seu recado, gostei muito e ñ resisti.

23/04/2009 às 21:29
Dani - diz:
Hoje mesmo estava pensando em hábitos "antigos", da minha vó e da minha mãe que já eram super ecológicos! Exemplos: 1) Na escola, levar garrafinha térmica com suco natural; embrulhar lanche com o papel de pão (que vinha da padaria); usar copinhos dobráveis e portáteis (nunca mais vi para vender!); 2) no mercado: levar carrinho de feira para trazer os pacotes embrulhados em sacos de papel; levar garrafa de vidro retornável para comprar refri; 3) Minha vó tinha daquelas sacolas de pano dobráveis na bolsa, sempre; agora é que está na moda. Ah! E fazer quase tudo a pé ou de ônibus. Bem, e até hoje dobro meu papel alumínio pra usar de novo, sabia???? Abraços



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Pé de
Manga


Por Bianca
Santana

Até março de 2008, Bianca Santana era jornalista e professora. Dois traços azuis num papelzinho anunciaram a mudança: o abstrato "futuro do planeta" se concretizou em preparar a chegada do Lucas. Sua cabeça se voltou para o parto ativo, as fraldas de pano e a amamentação, temas que pretende discutir aqui, relatando experiências, entrevistas e pesquisas. Difícil vai ser achar tempo para o Mestrado em Educação. No Del.icio.us no Orkut e no Flickr você encontra mais informações sobre ela. Para entender o nome deste blog, clique aqui.
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