Exemplo
Todo recreio era igual. Abria o papel alumínio com cuidado pra tirar o lanchinho e, debaixo da mesa, dobrava de novo pra levar de volta pra casa. Morria de vergonha e de medo de ser flagrada. O que pensariam? Todo mundo, afinal, fazia bolinhas de alumínio que iam pro lixo sem pestanejar. Eu não. Guardava o papel pra embrulhar o lanche da semana toda.
Consciência ecológica na infância? Nada! Ordem da avó que eu achava tirana por viver repetindo "de onde tira e não põe, um dia acaba". Pra não carregar muito peso e volume na mochila, a vó Polu me liberava do pote plástico, mas me obrigava a reutilizar o papel por pelo menos uma semana. "Com esse tanto de gente no mundo, só gastando, gastando, você acha que não acaba?" Parecia absurda a idéia da vó. Claro que tinha aprendido sobre "recursos renováveis" e "recursos não-renováveis" no livro didático. Já se iniciava a conversa sobre reciclagem, mas, pra mim, não se tratava disso.
Certa vez passamos pela lixeira do prédio e encontramos uma vizinha que abandonava os restos de uma vassoura. A vó recolheu tudo, levou pra casa e passou o dia limpando cada parte do objeto, pintando as peças de madeira e montando no maior cuidado. Depois, subimos na vizinha:
- Olha dona Maria, a vassoura da senhora. Pode usar que tá boinha de novo!
Que vergonha! Na minha cabeça não era fácil ter avó analfabeta que ficava mostrando a cada gesto como lidar com a pobreza. Menina tonta, eu via charme no desperdício. Achava que era prova de fartura. "Cê se faz-se besta!", ralhava ela quando percebia.
E assim fui crescendo, rezando no final das refeições pra não faltar comida "pra nós e pra quem em nossa porta chegar". Não sei precisar quando o que vi ganhou sentido. Mas agradeço todas as noites pelo que aprendi por olhar. E desejo que, mais do que falar da construção de um mundo sustentável pras nossas crianças, possamos mostrar.
Comentários
18/03/2009 às 00:00Igor - diz:Penso que existem barreiras intersubjetivas que impedem a luta ambiental. uma delas é esta tão bem exposta neste post. Parabéns.
18/03/2009 às 00:00Mara - diz:Oi Bianca...Bem o que dizer desse post??Não consigo dizer mais nada do que...é maravilhoso e chorei...me emocionou tudo isso, pis no lugar do papel aluminio como sou bem mais velha...antigamente o fermento para pãp de casa vinha em latinha com tampa tipo extrato de tomate só que com a tampa e minha mãe fazia doce de abobora em casa e fazia eu levar como lanche, morria de vergonha por estar reutilizando aquela latinha e dó da minha mãe pela preocupação para que euñão ficasse sem comer muito tempo...LIndo post...!!!Bjs!
18/03/2009 às 00:00maria de jesus pereira santana - diz:Evito comentar sobre os textos do blog, como mãe não acho ético, mas levada pela emoção e gratidão e por sentir orgulho de minha querida amiga, a qual tive a honra de ter como mãe, mulher sábia e inteligente, agora em outro plano. Fico feliz pelo reconhecimento e aprendizado, a semente do exemplo, plantada com amor, carinho e respeito, rende maravilhosos frutos. Obrigada!
18/03/2009 às 00:00Igor - diz:Penso que existem barreiras intersubjetivas que impedem a luta ambiental. uma delas é esta tão bem exposta neste post. Parabéns.
18/03/2009 às 00:00Giu - diz:Bianca, faço coro com a Mariel: que lindo! Um beijo grande.
18/03/2009 às 00:00Liana - diz:Lindo lindo chorei tambem minha mãe reutiliza tudo que pode vidros para guardar doces,latas de sardinha para assar pão personalizado para os netos,etc e sempre nos ensinou como sua avó que "de onde tira e não põe acaba" bjs
18/03/2009 às 00:00Mariel - diz:Que post lindo!
19/03/2009 às 00:00Luciana Tomac - diz:Os maiores ensinamentos da vida não são ouvidos, são vistos e sentidos. Adorei seu blog e vou passar por aqui para preparar o ninho de mãe.Beijo grande
19/03/2009 às 00:00Raquel - diz:Os valores mais profundos vêm da família. Maravilhoso exemplo. Maravilhosa dádiva que recebemos de nossos antepassados: a sabedoria da vida.Espero que, quando o dia chegar, eu possa passar isso aos meus filhos.Obrigada por compartilhar isso conosco!Abraços
20/03/2009 às 00:00Patricia e Clara - diz:Ei, querida, que lindos seus posts. Estou viciada nesse blog :)Voce, Lucas e sua mae tem a docura como cartao de visitas. E essa vo entao, da vontade de te-la em casa. A minha era uma coisa muito fofa tambem e venho percebendo, no meu dia a dia, quantas sementinhas plantadas vem florescendo..." Aos 17 anos, achava meu pai a pessoa mais estupida do mundo. Aos 21, achei maravilhoso o quanto ele havia aprendido em apenas quatro anos..."-Mark TwainBeijinhos,
02/04/2009 às 03:24Bianca - diz:Bianca - diz:Que gostoso dividir e saber que vocês também gostaram! Pra mim não é fácil abrir o coração assim... Obrigada!
02/04/2009 às 08:16Maluh Barciotte - diz:Maluh Barciotte - diz:Linda vó Polu!!! São estes sábios e sábias que nos ensinam a cuidar da gente e da nossa turma, dos outros que fazem parte da família humana e do mundão que a gente vive. Na realidade a vó Polu é que tinha consciênca dos impactos dos seus atos cotidianos e sabia que agir era sua responsabilidade. Lembrei da minha vó Mariana, também uma linda sábia que até os 97 anos iluminou a nossa vida!!!E já que estamos falando de sábias: A estrada da vida pode ser longa e áspera. Faça-a mais suave caminhando e cantando com as mãos cheias de sementes.Cora CoralinaMaluh Barciotte - Viva Bem no MUndo que Você Tem - porque cuidar da vida é uma arte!
02/04/2009 às 11:06Mara - diz:Bianca...em referencia ao que a MALUH BARCIOTTE escreveu achei muito legal, e realmente cuidar da vida é uma arte sei bem disso...aliás sabemos todos, né???Parabéns MALUH adorei ler seu recadinho muito legal...Porque "O QUE SE LEVA DESSA VIDA, É A VIDA QUE A GENTE LEVA" Ah! e desculpa a ousadia de comentar seu recado, gostei muito e ñ resisti.
23/04/2009 às 21:29Dani - diz:Hoje mesmo estava pensando em hábitos "antigos", da minha vó e da minha mãe que já eram super ecológicos! Exemplos: 1) Na escola, levar garrafinha térmica com suco natural; embrulhar lanche com o papel de pão (que vinha da padaria); usar copinhos dobráveis e portáteis (nunca mais vi para vender!); 2) no mercado: levar carrinho de feira para trazer os pacotes embrulhados em sacos de papel; levar garrafa de vidro retornável para comprar refri; 3) Minha vó tinha daquelas sacolas de pano dobráveis na bolsa, sempre; agora é que está na moda. Ah! E fazer quase tudo a pé ou de ônibus. Bem, e até hoje dobro meu papel alumínio pra usar de novo, sabia???? Abraços