Pé de Manga
05/03/2009 às 21:28
Maternidade e feminismo


Sem querer, meu último post* abordou um tema atual do feminismo. Quatro comentários bem bacanas (obrigada Mara, Giuliana, Mariah e Raquel) e a proximidade do 8 de março** me chamaram a continuar a conversa. Menos como desabafo, mais como mulher que quer mudar o mundo.

Não é de hoje que " precisamos ser profissional, mãe, esposa e dona de casa", como lembrou a Mariah. E há muitos anos as feministas têm discutido a maternidade. Lucila Scavone, livre-docente do departamento de Sociologia da Unesp de Araraquara, traçou esse histórico no artigo A maternidade e o feminismo: diálogo com as Ciências Sociais, publicado em 2001.

Os debates feministas sobre a maternidade, como lembra Lucila, começaram no final dos anos 1960. Naquele pós-guerra os conservadores defendiam a família, a moral e os bons costumes e tornou-se necessário politizar as questões privadas, com base na idéia de Simone de Beauvoir de que não se nasce mulher, mas torna-se mulher. Longe de ser uma determinação biológica, a maternidade seria uma construção social e "um elemento-chave para explicar a dominação de um sexo sobre o outro: o lugar das mulheres na reprodução biológica - gestação, parto, amamentação e consequentes cuidados com as crianças - determinava a ausência das mulheres no espaço público, confinando-as ao espaço privado e à dominação masculina". Naquele momento, recusar a maternidade era o primeiro passo para subverter a dominação machista.

O debate evoluiu para a livre escolha pela maternidade. Não precisávamos ser mães para ser mulheres. Ter um útero não nos obrigava a engravidar ou a continuar uma gestação indesejada. Mas também não queríamos, necessariamente, abrir mão de algo tão forte na nossa identidade feminina. Nesse segundo momento, a maternidade passa a ser considerada um poder insubstituível. Segundo Lucila " essa abordagem situa-se na corrente do feminismo diferencialista, refletindo sua luta pela afirmação das diferenças e da identidade feminina".

E aí, num terceiro momento, vem a argumentação de que não é a biologia que determina a posição das mulheres, mas as relações sociais que dão significado à maternidade. Ser mãe pode tanto ser símbolo de realização quanto de opressão. Portanto, a maternidade pode se compreendida como "símbolo construído histórico, cultural e politicamente, resultado das relações de poder e dominação de um sexo sobre o outro".

Mas independentemente do significado que se atribua à maternidade, a maioria dos estudos indica que as mulheres ainda têm mais responsabilidade sobre os cuidados dos filhos que os pais.

E como se não bastasse, agora temos de lidar com as tecnologias conceptivas e contraceptivas. Pode-se recorrer a elas para evitar engravidar, para engravidar e parar ter o bebê sem parir de fato, em partos cirúrgicos. Surge uma nova questão: o poder da reprodução não estaria escapando das mulheres para a medicina da procriação? Sobre parir e parto cirúrgico falei um pouco em meu Relato de Parto, mas ainda temos muito o que refletir e agir!

Repasso o convite da Marcha Mundial das Mulheres, ação do movimento feminista internacional de luta contra a pobreza e a violência sexista, para sair às ruas neste 8 de março. Como diz o slogan da Marcha, "Mulheres em Movimento Mudam o Mundo!"

* Bebê e trabalho
** 8 de março - Dia da mulher






Comentários

06/03/2009 às 00:00
Melissa - diz:
é a primeira vez que leio seu blog, e já sei que vou virar leitora assídua. Amei, simplesmente amei, e já tô lendo outros posts, que você menciona no blog de hoje, e outros!Tô grávida, trabalhando, meu marido passando por uma fase de transição de carreira (isso significa: desempregado e querendo mudar tudo) e estas dúvidas, questões, posições, são só o que passa pela minha cabeça hoje em dia!Obrigada!Meu dia ficou melhor depois de descobri seu blog!beijos

06/03/2009 às 00:00
Mara - diz:
Caracaaa...!!!Bem Bi esse seu ultimo post foi de arrepiar de verdade porque na realidade é tudo o que você colocou e mais a responsabilidade e consciência nos cuidados quanto a formação de seres HUMANOS...De verdade fiquei sem palavras e me emocionou muito e você sabe bem porque, sempre comentei sobre minha preocupação na formação da Beatriz como ser HUMANO que sabe respeitar o outro, as diferenças...nooossa tantas coisas e até algumas vezes por sermos tão responsáveis por tudo isso ficamos meio perdidas...Mas graças a Deus, sempre nos equilibramos e voltamos nosso olhar pra eles que também nos ensinam um monte...Lindo post e obrigada por compartilhar tantas coisas boas(coisas suas) com todos...Enfim o Planeta depende de cada individuo e a bagagem que cada um carrega é isso...Parabéns!!!Se cuida garota.Beijos!

06/03/2009 às 00:00
Maria Lucia da Silveira - diz:
BiancaParabéns pela aventura. Deu-se muito bem! Digo que quando colocamos as lentes de gênero abre-se um mundo novo para nós. Inclusive a visibilidade dos nossos problemas cotidianos que antes pareciam individuais são coletivos e históricos. Agora, sem essa de culpa! Essa sensação de que todas sentimos é historicamente construída. Eu quando deixei a Julia na creche aos 3 meses, me cortou o coração. Pensei até em deixar o emprego. Mas somos seres integrais: mães, companheiras, trabalhadora e cidadãs. Isso faz parte de nossa identidade. Por isso, os homens não sentem culpa: as mulheres parecem que tem a identidade unilateral só é socialmente aceita como mãe. Já que a vida é dura, por isso muitas adolescentes engravidam cedo demais. Não precisam ficar envergonhadas do que vão fazer na vida: São mães. O que acontece com o projeto de vida delas e com a criança ninguém quer saber. Bem paro por aqui porque a conversa rende.abs,Maria Lucia

06/03/2009 às 00:00
Mara - diz:
Ah!Bi não preicsa agradecer pq ler seus posts da muito prazer, é muito bom mesmo de verdade...acho que assim como eu, todos ficam a espera de um próximo post...Bem pelo menos eu sempre entro pra ver se tem algo novo...de verdade ADORO.Beijos!

14/03/2009 às 00:00
Mara - diz:
Oi Bianca como está se saindo com o Lucas, imagino que naquela correria e sempre aquele banho de mãe, almoço de mãe, tudo sempre rápido pq sempre estamos a diposiçao deles...faz parte e isso passa e vc sabera conquistar seu tempo sem tirar o dele...mesmo assim sabendo que deve estar tudo muito corrido pra vc estou escrevendo pra cobrar seus posts...espero que encontre aquele tempinho...Saudades!

18/03/2009 às 00:00
Bianca - diz:
Melissa, seja bem vinda! Bom saber que você gostou :) Se puder comentar mais vezes, vai se muito bacana!Maria Lucia, acho que sempre passei pelas questões de gênero de maneira burocrática. Sabia formalmente de uma série de dados. Mas não me sentia parte, entende? Gostei muito dessa prosa e espero poder continuá-la!Mara: sigo aqui agradecendo ;)



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Por Bianca
Santana

Até março de 2008, Bianca Santana era jornalista e professora. Dois traços azuis num papelzinho anunciaram a mudança: o abstrato "futuro do planeta" se concretizou em preparar a chegada do Lucas. Sua cabeça se voltou para o parto ativo, as fraldas de pano e a amamentação, temas que pretende discutir aqui, relatando experiências, entrevistas e pesquisas. Difícil vai ser achar tempo para o Mestrado em Educação. No Del.icio.us no Orkut e no Flickr você encontra mais informações sobre ela. Para entender o nome deste blog, clique aqui.
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