Absolutamente toda e qualquer atividade humana gera impactos sobre o meio ambiente. Isso quer dizer que até o mais ecológico dos produtos ecológicos deixa uma pegada sobre o planeta. É por isso que se costuma dizer que nada é ecológico por si só. É preciso sempre comparar um material com outro para, daí sim, escolher a opção mais sustentável (sempre em relação a outra) para aquele fim específico.
Quando se entra nesse mundo de consumidores mais conscientes, a cada passo tem-se a impressão de que as coisas ficam mais e mais complexas, com muitas variáveis a serem consideradas. É preciso paciência, tempo e vontade para decidir – ao menos até se chegar a uma lista de produtos e atitudes escolhidos para fazerem parte do nosso cotidiano.
No supermercado, sou do tipo que lê a etiqueta de todos os produtos. É orgânico? É de comércio justo? Tem transgênicos? É importado ou produzido localmente? Tem componentes reciclados e recicláveis? Vem muito embalado? Tem descarte complicado? No começo, parece um pouco neurótico, mas com o tempo vira hábito. E passa a ser até divertido, acredite. Um exercício e tanto.
Na construção da minha casa na ecovila Clareando, as decisões difíceis foram e continuam sendo muitas. O tempo todo. Que tijolo é melhor: o de solo-cimento, o de adobe ou o de demolição? Que madeira devemos comprar: de reflorestamento local, de demolição, certificada (e bastante “viajada”) ou nenhuma delas? Que modelo de aquecedor solar tem o melhor custo-benefício? Que técnica é mais ecológica, afinal: COB, pau-a-pique ou adobe?
A resposta? Depende. Tudo depende de uma série de fatores. E digo isso sem a intenção de desanimar você. Se é que existe uma regra ou princípio geral, aí está: vale sempre pensar no ciclo de vida do produto ou material, desde o berço (extração da matéria-prima) até o túmulo (descarte ou reciclagem), passando pelo processo de produção, comercialização e uso. Um produto pode ser interessante ecologicamente durante o uso, mas ter um descarte complicado, o que o faz cair alguns degraus no podium dos produtos verdes. Outros são fabricados com materiais naturais e, por isso, são mais saudáveis, mas a extração da matéria-prima causa enormes impactos ambientais. Deu para entender que é preciso botar tudo na balança antes de decidir? Quer ver alguns exemplos?
Tijolo de adobe: Como comentei no post anterior, ele é feito de terra crua, preferencialmente do local. Para ser produto local, é preciso ter terra disponível, o que pode implicar cortes no terreno. Mas cortar o terreno, às vezes, significa derrubar parte da vegetação existente e até mudar o curso das águas (o que pode, ao longo de tempo, provocar erosões no solo e até alterar o volume de um rio próximo ou a longevidade de uma nascente). Ou seja, em alguns casos, pode não ser uma opção ecológica. Agora, se você tiver de onde extrair a terra e gente treinada para fazer os tijolos, aí sim, a escolha tem pontos positivos.
Lâmpadas fluorescentes: Fiz uma reportagem para a revista CASA CLAUDIA de setembro (que ainda não está nas bancas) sobre lâmpadas incandescentes, fluorescentes e leds. Qual a melhor opção? Bom, não posso adiantar muita coisa antes da publicação, mas fica a dica: você sabia que o Brasil não fabrica fluorescentes compactas e que tudo o que se vende por aqui vem, basicamente, da China? Você sabia que menos de 4% das lâmpadas fluorescentes (que contêm mercúrio) são recicladas no país? Será que a economia de energia gerada por esse tipo de lâmpada compensa o gasto com petróleo para ser trazida ao Brasil, além do problema ambiental que ela gera quando é descartada incorretamente?
Alimentos orgânicos: Você já reparou que muitos produtos orgânicos chegam às prateleiras dos supermercados em bandejas de isopor cobertas com uma película de plástico e uma etiqueta de papel? Será que não daria para vir sem esse monte de embalagem? Os orgânicos continuam sendo a melhor opção (em relação aos que contêm agrotóxicos), mas os consumidores ainda têm um caminho a percorrer: o de cobrar dos produtores que os alimentos sejam comercializados com a menor quantidade possível de embalagens. Isso me lembra uma pergunta que uma amiga me fez, tempos atrás: o que é mais ecológico, comprar bananas da estação produzidas de maneira convencional no país ou levar pra casa kiwis orgânicos produzidos na China? (Você sabia que o kiwi é originário da China??!?) Viu só como tudo é relativo?
Madeira certificada: No Brasil existem dois modelos de selos para certificar a origem das madeiras de florestas com manejo sustentável: o FSC, do Conselho Brasileiro de Manejo Florestal, e o Cerflor, lançado mais recentemente pelo Inmetro. Os produtos com estes selos são mais caros - embora eu considere que os demais é que são falsamente baratos, já que nem sempre têm preocupações e cuidados socioambientais, nem sempre pagam os impostos ou mantêm contratos de trabalho decentes e legais. Pois bem. E o que acontece muitas vezes? Quem tem dinheiro e disposição para pagar mais compra o produto certificado. Só que, não raras vezes, peca na hora de escolher o verniz de proteção ou mesmo a cola que é utilizada na fabricação de móveis. Adesivos para madeira contêm formaldeído, substância altamente tóxica e que ainda não tem regras bem definidas no Brasil. Sem entrar em polêmica, a questão é evitar acertar de um lado e pecar do outro. Mesmo a madeira certificada pode deixar de ser tão ecológica assim se for coberta com uma camada de verniz com nível alto de formaldeído.
Piso e tecido de bambu: Sou super fã do bambu. O material é realmente ótimo e tem mil e um usos. Mas daí a comprar assoalho de bambu fabricado na China (olha ela aí mais uma vez) não me parece ser uma escolha legitimamente sustentável. Com a abundância de bambu que temos no Brasil, importar piso do outro lado do planeta, sem saber sobre condições dos operários e leis ambientais é, no mínimo, absurdo. Esse é um exemplo de quando o ecológico deixa de ser ecológico de verdade. E também de que nenhum material é ecológico em toda e qualquer situação. O mesmo ocorre com o tecido de fibra de bambu. Como o bambu tem fama de ecológico, algumas empresas entraram na onda e criaram linhas de produtos têxteis com fibra de bambu. Detalhe: o Brasil não produz o fio de bambu. De novo, vem tudo da China e da Índia, sabe-se lá em que condições de produção. E mais: como a fibra do bambu é muito pequena para se transformar em tecido, é preciso quebrá-la usando o dissulfeto de carbono (outro produto contaminante). Resultado: o bambu vira fibra de viscose, nada além disso e nada muito ecológico também.
Resumo da ópera: fique atento. Agora que virou moda ser ecológico e sustentável, nossos olhos, ouvidos, olfato, paladar, tato, intuição e outros sentidos precisam estar atentos e despertos para sentir o cheiro dos oportunistas. Eles são em número cada vez maior e, infelizmente, não vêm com tantas boas intenções assim. Contra a maquiagem verde, olho vivo! Não se deixe enganar. Pesquise, informe-se, questione. Pressionar as empresas e autoridades por informações idôneas e soluções cada vez mais ecológicas é parte da tarefa de quem deseja ser mais consciente de suas escolhas. (Pode dar um pouco de trabalho, mas vale a pena.)