Uma moldura para o horizonte

Engraçado como, às vezes, uma tarefa simples pode ser tão especial. No último feriado, passei quase dois dias inteiros trabalhando com a mão numa massa de terra, areia e esterco. Feliz da vida. Com exceção da areia, que teve que vir de fora, a terra era do meu terreno na ecovila e o esterco, do gado do sítio vizinho. Estrume, vale dizer, é um material fantástico para paredes de terra, porque reduz o coeficiente de retração da mistura e torna a superfície mais resistente à ação da água.
Minha missão era dar o primeiro acabamento na parede de adobe que meu companheiro e o amigo e vizinho Mauro tinham acabado de levantar. Os dois trabalharam como uma dupla muito bem afinada, e fizeram a parte, digamos, mais pesada – embora mulheres também possam executar a mesma tarefa, sem problemas. Cada tijolo de adobe (terra crua), feito no local, pesava cerca de 7 kg e eles levantaram um por um em apenas uma manhã de trabalho. Minha parte veio em seguida: ajudar a cobrir pequenas falhas na argamassa de barro e fazer uma moldura para a janela (que, aliás, é de demolição e eu mesma pintei, ou melhor, quase, porque a tinta acabou antes do trabalho terminar e ainda não comprei outra latinha...).
Como se estivesse brincando com massinha de modelar, fui esculpindo na parede uma moldura para a janela do meu futuro quarto. Uma tarefa simples, mas que requer paciência e disposição. É preciso pré-modelar a massa na mão, para que o acabamento fique mais homogêneo e bonito.
O dia estava lindo, com um céu incrivelmente azul. De repente, me flagrei abrindo a janela como se eu já morasse naquele lugar. E a beleza daquele horizonte foi tanta que senti um arrepio por dentro. “Preciso caprichar na moldura desse quadro”, pensei comigo, com os olhos cheios d’água.
Durante todo o trabalho, senti uma gratidão profunda por estar naquele lugar. Era como se aquela vista fosse um presente desses que a gente agradece a vida toda e ainda não se dá por satisfeito. Sabe, em geral, sinto que damos muita importância e atenção às coisas chatas da vida: o dinheiro que acaba antes do mês, a dor de cabeça que não passa, o trânsito que nunca melhora. Por isso, naqueles instantes, fiquei feliz por me permitir tamanho contentamento com a contemplação de uma paisagem que já vi tantas e tantas vezes. E, afinal de contas, não é todo dia que se esculpe uma moldura para um horizonte, ainda mais do próprio quarto, numa ecovila...
A sensação de construir a própria casa é algo indescritível. Por mais que eu já tenha falado muito sobre o tema aqui no blog, as palavras não são o bastante para traduzir essa história. Recomendo e desejo que você tenha a mesma oportunidade um dia. Às vezes, parece até que o trabalho com o barro está embutido na gente, como parte de uma história de gerações e gerações, mas que se perdeu no tempo e no cimento duro que muitos insistem em nos dizer ser melhor do que a terra. É quase intuitivo. Você começa meio sem jeito e, quando se dá conta, já está totalmente à vontade. Vale a pena experimentar!
Comentários
09/09/2009 às 10:17Andrea von Seckendorff - diz:Giu.Quando tive a honra de conhecer a sua casa me emocionei ao contemplar a vista. Não falei nada, mas pensei: só falta colocar uma moldura que combine. É incrível acompanhar a sua casa tomando forma, a cada semana se mistirando melhor ao ambiente. Parabéns! Conte comigo.Bjo.Andrea.
09/09/2009 às 10:54osmar bispo - diz:É meu e da minha esposa um sonho de consumo de viver num lugar gostoso deste, ter tempo para criar, escrever minhas poesias, meus contos, cuidar no meu site. Ter tempo para refleti, deixar o pensamento guiar-se junto à natureza, cultivar o próprio alimento, voltar as minhas origens sentir a terra nas minhas mãos é meu sonho maior.
09/09/2009 às 16:03Flávia Gomes - diz:Nossa, Giuliana, fiquei sonhando como seria a minha casa em um lugar como esse... O que o Osmar escreveu aí em cima é exatamente o que eu quero ter e lendo seu post, confesso, que inveja! rs Seja muito feliz nesse lugar, viu?Posso postar esse texto no blog que administro? http://verdecapital.wordpress.com
10/09/2009 às 11:53Giuliana - diz:Oi, Flávia, Osmar e Andrea! Obrigada pelas palavras gentis. Flávia, pode replicar o texto no seu blog, claro. Só peço que vc cite a fonte (Planeta Sustentável), ok? Osmar, se é seu desejo, comece a caminhar em direção a ele. Um passinho por dia e você verá que estará cada vez mais perto de viver seu sonho... Acredite! Andrea, que gostoso "ver" vc por aqui. E será mais ainda reencontrá-la na Clareando! Isso foi um convite, viu! Um abraço grande a todos vocês!
11/09/2009 às 11:16Cris - diz:Que texto lindo!Que inspiração dá um lugar assim... ai ai... Fico aqui suspirando e aguardando a minha hora de trabalhar no meu cantinho...
11/09/2009 às 12:04Léia - diz:Amei a foto!. bjs.
11/09/2009 às 20:53Cá - diz:Amo você...minha amiga-irmã e comadre!! Foram meus olhos agora que se encheram de água...quero te dizer que já tive essa sensação...e sei que é maravilhosa mesmo...melhor que essa só a de um filho nascendo...Giu, a professora de natação da Manu perguntou prá ela como tinha sido em São Paulo, e a primeira coisa que ela disse foi: fui visitar a minha madrinha, a Giu!!!Amamos vocês!!!Nós. Estou com muita saudades e pensando muito em vocês, de uma forma muito positiva.
16/09/2009 às 10:01Giuliana - diz:Oi, Léia e Cris, obrigada por passarem por aqui! Um abraço prá vocês! Camila, que saudade! Que bom ler esse recadinho seu. Adorei saber da Manu. Você não tem ideia da emoção que é ser madrinha dela... Logo logo ela poderá passar uns dias comigo na ecovila, já pensou? Ela e toda a família, é claro, sempre que quiserem! Um beijo grande para todos vocês, manezinhas e manezinhos da ilha que moram no meu coração.
16/09/2009 às 15:50Camila - diz:Tenho certeza de que ela adoraria, Giu!!!! Adora a terra e tudo que dá nela!Beijocas, você tá linda toda "florida" na foto!Cá.
26/09/2009 às 09:02Carlos Alberto de Carvalho - diz: Giuliana, bom dia, é bom ver pessoas como você que curte a natureza e a respeita. Foi com esta forma de ser que idealizei um tijolo inteligente a base de recicláveis, ou seja, borrachas, plásticos, pneus e garrafas Pet. O bom disto é que não utilizo cimento, areia, terra e outros materiais na sua composição. Acima de tudo ele é anti infla- mável, acústico, resistentente e pode ser pigmentado na cor que desejar. Giuliana, este projeto é todo pró meio ambiente e gostaria se pudesse nos ajudar ou encaminhar para que tivéssemos um parceiro e apoio para desenvolver este projeto. Agradeço sua atençao e estou a disposição para quaisquer outras informações necessárias e também ua demonstração pessoalmente. Tels. 21 27819150 e 21 88223654 Carvalho
16/10/2009 às 15:22Maria Odete A. Pinho - diz:Olá Giuliana Capello,Entrei no seu site por acaso, estava procurando "banheiro seco",gostei muito das suas idéias, inclusive da vista da janela. Sou empenhada quando o assunto é buscar alternativa sustentáveis para minimizar os impactos ambientais. Não conhecia a mistura com esterco de gado para esse fim. Achei muito interessante. Tenho um projeto que venho lutando para aconter em maior proporção na Cidade do Rio de Janeiro "www.ajoambiental.com"Se você permitir vou lhe adicionar em meus favoritos.Cordialmente.Maria Odete A. Pinho