Gaiatos e Gaianos
29/09/2009 às 10:57
Para iluminar a casa e curtir a noite


A saga da construção da minha casa na Ecovila Clareando, em Piracaia, SP, está prestes a começar um novo capítulo. Com as paredes quase prontas, é hora de pensar – entre outras mil coisas – no projeto de iluminação. Banal, não? É só instalar algumas lâmpadas no teto e pronto. Não há o que discutir. Certo? Não é bem assim. Pelo menos, não se quisermos realmente refletir a respeito, e sob diferentes aspectos.

Na verdade, já pensamos nisso há muito tempo. Desde o projeto da casa, para ser mais exata. A construção foi concebida para garantir luz natural nos ambientes durante todo o dia. Do amanhecer ao entardecer, com exceção dos dias muito nublados ou chuvosos, não será necessário acender lâmpadas na casa. Temos painéis de vidro, aberturas entre as águas do telhado e janelas o bastante para permitir a entrada da luz e dispensar o consumo de energia elétrica. Além de ser mais econômico e ecológico, usar a luz natural é também mais saudável. Estudos mostram que, em hospitais, pacientes internados em quartos com luz natural se recuperam em apenas 1/3 do tempo que levariam se estivessem sob luz artificial. Nas escolas, crianças que assistem às aulas em salas iluminadas pelo sol têm melhor desempenho nos estudos. Interessante, não?

Outro ponto que me toca bastante é, aparentemente, uma obviedade: a noite é diferente do dia. Pelo menos, nossos ancestrais sabiam disso... Quando chega a noite, é hora de desacelerar, preparar o corpo para o descanso, diminuir o ritmo das atividades, sossegar a alma. Mas como fazer isso num ambiente tão iluminado que não se sabe se é dia ou noite?! Quem nunca esticou o trabalho no escritório e ficou sem saber se já era noite lá fora? Essas desconexões entre os ciclos da natureza e dos nossos corpos (que, por sinal, também fazem parte da natureza, não custa lembrar) atrapalham nossos ritmos internos. Dormimos mal, comemos além do necessário, sofremos com o estresse, perdemos a ligação com as fases da lua.

Parte desse problema pode ser contornado se permitirmos que a noite se faça presente em nossa casa. Para que iluminar toda a sala quando só precisamos, em determinado momento, de uma luminária para leitura? Por que acender lâmpadas no teto do quarto se um abajur sobre o criado-mudo pode ser mais aconchegante? E quem não gosta de um jantar à luz de velas? É claro que alguns ambientes pedem luz mais intensa, como a cozinha, por exemplo. Mas essa iluminação também pode ser direcionada para a bancada de trabalho, e não necessariamente para todo o ambiente. Em resumo, não é preciso combater a noite e querer que o dia reine em nossas casas 24 horas por dia.

Dar boas-vindas à noite reduz o consumo de energia e a conta no fim do mês, além de ser uma atitude ecológica que vem acompanhada de outros tantos benefícios. Melhora o sono, é mais romântico, tranquiliza a mente. Sem falar que, em escala maior, colabora para nos trazer de volta as estrelas. Sim, porque nas cidades é difícil contemplar o céu. É tanta luz que já não avistamos mais as constelações. Por conta disso, astrônomos no mundo inteiro têm se manifestado contra o excesso de iluminação noturna. Quem nunca entrou numa farmácia no meio da noite e franziu a testa por causa da luz branca exageradamente brilhante? Quem nunca notou, nos hipermercados, estacionamentos inteiramente iluminados e vazios na madrugada? Questão de segurança? Pode ser, mas será que precisa de tanta luz assim?

A nova polêmica sobre as lâmpadas incandescentes, que começaram a ser banidas na Europa em setembro (e o Brasil, na cola dos “países desenvolvidos”, também tem projeto federal em tramitação sobre o tema), ilustra bem a mania humana de criar fórmulas únicas e prontas para toda e qualquer situação. De novo a monocultura. Desta vez, das lâmpadas fluorescentes, que ganharam status de salvadoras do planeta. Porque, no fundo, ninguém pensa em reduzir a iluminação ou racionalizar o uso da luz artificial. A tecnologia vem sempre para garantir que ninguém precisará mudar hábitos... Até quando?

Com a proibição das incandescentes, que consomem mais energia (embora sejam muito mais aconchegantes do que a luz branca e azulada dos bulbos compactos e dos leds), as fluorescentes devem consolidar um mercado que, ao menos no Brasil, restringe-se à importação. Experimente entrar numa loja e pedir uma lâmpada compacta de fabricação brasileira. Não existe. Vem tudo da China e da Coréia, basicamente. Será que o CO2 emitido no transporte desses produtos é contabilizado quando se compara incandescentes com fluorescentes? E o descarte? Alguém está olhando para isso?

Não estou defendendo as incandescentes em todas as circunstâncias. Apenas gostaria de ressaltar que, para alguns usos, ela pode ser comparativamente melhor do que as compactas estrangeiras que, descartadas irregularmente, contaminam o solo e a água com mercúrio. Você sabia que menos de 4% das lâmpadas fluorescentes são recicladas no Brasil? Sabia também que as incandescentes, ao contrário da concorrente, não têm potencial contaminante? Segundo Guinter Parchalk, designer especialista em iluminação, um dimmer instalado numa lâmpada incandescente é capaz de dobrar a vida útil da lâmpada, tornando-a mais econômica. Ele é um dos que defendem o uso das incandescentes, em algumas situações, que fique bem claro. Em ambientes de uso intermitente, por exemplo, em que se acende e apaga as lâmpadas com muita frequência (como banheiros, despensas e corredores), as fluorescentes perdem tempo de vida e boa parte do potencial de economia de energia, pois gastam muito cada vez que o interruptor é acionado.

Mais uma vez, vale a máxima de que nem tudo é ecológico em 100% dos casos. É preciso avaliar cada situação antes de dizer por aí que tal lâmpada fará milagres pelo país. Se as incandescentes forem sepultadas nos próximos anos, a minúscula indústria de reciclagem dos modelos compactos terá de nascer, crescer e amadurecer na velocidade surreal das galinhas criadas com hormônios para o abate mais rápido. Ou teremos, em pouco tempo, montanhas de lâmpadas compactas jogadas em lixões inadequados, degradando o meio ambiente. Isso sem esquecer que será preciso desenvolver a fabricação dessas lâmpadas em terras tupiniquins e combater os produtos piratas que entram no país sem qualquer controle de qualidade.

Antes de simplesmente abolirmos uma tecnologia, seria interessante que houvesse uma campanha nacional pelo uso mais racional da iluminação artificial e que as pessoas pudessem escolher o tipo de lâmpada que desejam comprar. Sempre que posso, evito comprar produtos made in China (apesar de ter, sim, alguns bulbos compactos na casa onde moro hoje, em São Paulo). Mas, por enquanto, parece que essa trilha caminha para um beco sem saída. Então, enquanto é tempo, que tal pararmos para pensar na iluminação de nossas casas?

Foto: Luminária que ganhei do amigo Adriano, artesão, feita com uma lata de tinta e pedaços de vergalhões que sobraram da minha obra. A peça garantiu a iluminação durante uma festa improvisada que fizemos lá na ecovila...





Comentários

01/10/2009 às 16:56
Mariana - diz:
Adorei a postagem, conheci o que é uma ecovila por aqui. Concordo com vc, não precisamos de tanta luz à noite... realmente vou repensar isso! Estou construindo uma casa (infelizmente, não é numa ecovila! Rs!)e busco materiais de demolição, procuro sempre uma alternativa mais barata, mais "eco" sempre mais charmosa!Parabéns pela iniciativa de ir para uma ecovila, muito legal!Um abraço, Mariana

06/10/2009 às 14:16
Fábio - diz:
Procure sobre SolaTube, Clarabóia Tubular ou Tudo Solar.Acho que é definitamente a melhor opção para iluminação natural.

06/10/2009 às 15:06
Fábio - diz:
Procure sobre SolaTube, Clarabóia Tubular ou Tudo Solar.Acho que é definitamente a melhor opção para iluminação natural.



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Por Giuliana
Capello

Giuliana Capello tem 31 anos, é jornalista e permacultora pelo Instituto de Permacultura e Ecovilas da Mata Atlântica. Escreve sobre construção sustentável para as revistas Arquitetura & Construção e CASA CLAUDIA. Formada em design de comunidades sustentáveis (Global Ecovillage Educators for a Sustainable Earth), faz parte da Ecovila Clareando, onde está construindo sua futura morada. Neste blog, conta histórias e experiências que mostram que é possível ter uma vida mais simples - e nem por isso menos gostosa e divertida.
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